Onde vivem os monstros

Lançado em: outubro/2009


Título do Livro

saiu na imprensa

Autor: Maurice Sendak

palavras-chave:


  • 25/10/2009
    O Estado de S. Paulo
    Com 19 milhões de exemplares vendidos, livro que consagrou Maurice Sendak chega ao Brasil e vira filme de sucesso nos EUA.
    Lúcia Guimarães

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  • UM MENINO ENFRENTA SEUS MONSTROS

    Em 1963, um livro ilustrado, com 37 páginas - algumas delas sem uma frase sequer - provocou um impacto tão grande na literatura infantil de língua inglesa que o psicólogo austríaco Bruno Bettelheim, autor de A Psicanálise dos Contos de Fadas e que mais tarde seria acusado de maltratar seus pequenos pacientes, se viu compelido a investir contra ele, acusando o autor de não compreender "as fantasias destrutivas das crianças". Trinta e seis anos e 19 milhões de exemplares vendidos depois, Onde Vivem os Monstros, de Maurice Sendak, chega ao Brasil em uma bem cuidada edição da Cosac Naify, traduzida por Heloisa Jahn (40 págs.) e ostentando uma condição rara para obras do gênero publicadas no século 20: a de clássico.

    Para se ter uma ideia, na primeira Páscoa como residente da Casa Branca, quando um grupo de crianças é sempre convidado a visitar a sede oficial da Presidência dos EUA, Barack Obama leu o livro para sua audiência mirim. Quem viu o presidente americano rugir e imitar os monstros torceu para que ele demonstrasse a mesma ferocidade com as criaturas nada imaginárias do lobby da indústria de saúde.

    Onde Vivem os Monstros, primeiro volume de uma trilogia, conta a história de Max, 8 anos. Fantasiado de lobo e aprontando pela casa, o menino leva um pito da mãe e é mandado para o quarto sem direito a jantar. Sozinho, Max vai sendo cercado por uma floresta que cresce em volta dele. O garoto pula, então, para dentro de um barquinho que surge nas ondas de um oceano também aparecido do nada e viaja por "dias, semanas, meses" até atracar numa ilha. Lá vivem criaturas de aparência feroz que rugem, rangem seus dentes e pretendem comer o menino.

    Max consegue controlar os monstros ao gritar, "Quietos!" e olhar fixamente nos seus olhos amarelos, sem piscar. O truque é um sucesso. O garoto passa de refeição a rei, com direito a coroa e cetro. Depois de festejarem por seis páginas suntuosamente ilustradas e sem uma única palavra impressa, os monstros recebem a ordem de ir dormir sem jantar.

    Nessa hora, o menino se sente solitário e "com vontade de estar em algum lugar onde alguém gostasse dele de verdade". Desiste de ser rei e começa a empreender a viagem de regresso para o seu antigo quarto. Sua chegada em casa é resumida com delicadeza e emoção. A melhor literatura para crianças, não infantiliza o leitor.

    O fim de semana passado me levou para fora de Manhattan e encontrei uma cópia de Onde Vivem os Monstros numa loja da cadeia K-Mart, na beira da estrada. A funcionária do caixa escaneou minhas compras e, quando o livro passou, não se conteve: "Uau, eu tinha este livro quando era pequena!", exclamou. Sob o clarão impiedoso da luz fluorescente, o rosto da mulher que ganha salário mínimo e cujo inglês traía uma educação precária, se iluminou num sorriso de cumplicidade. Completo o que disse antes: a literatura para crianças que vale a pena ser lida não conquista apenas o público infantil.

    "A melhor parte é quando o quarto dele vira o mundo selvagem", acredita a nova-iorquina Isabella Grznar, 6 anos, leitora voraz, que, depois de assistir, também na semana passada, ao trailer do recém-lançado filme Onde Vivem os Monstros, de Spike Jonze, baseado na obra de Sendak, decidiu, ao menos por enquanto, não ver o longa-metragem. Achou "Scary..." (Assustador).

    Jonze compreende a reserva de Isabella. Boa parte dos espectadores que transformaram o filme na maior bilheteria de um fim de semana de estreia nos Estados Unidos em 2009 era composta de adultos - portadores das memórias de Isabella.

    Um currículo de trabalhos visualmente inovadores como Quero Ser John Malkovich e Adaptação deve ter aproximado Sendak de Jonze e seu parceiro no roteiro do filme, o romancista Dave Eggers (autor de Uma Comovente Obra de Espantoso Talento). Partiu de Sendak o pedido para Eggers novelizar seu clássico e o resultado, Os Monstros, deve estar nas livrarias brasileiras no próximo fim de semana, lançado pela Companhia das Letras (tradução de Fernanda Abreu, 262 págs.). O longa, só no ano que vem.

    O filme enfrenta o desafio de estender uma história de cerca de 300 palavras por 90 minutos com uma trama psicológica intensa. Os monstros receberam vozes de grandes atores americanos como Chris Cooper e Forrest Whitaker. Ao forjar narrativas adultas para feras que, na página, eram produto da imaginação de um menino, Jonze criou um minielenco de neurastênicos que facilmente confessariam suas inseguranças no sofá da apresentadora Oprah Winfrey. O longa-metragem dividiu a crítica como poucos nos últimos anos . As reações variam do encanto extremo à decepção com o mundo implícito tornado explícito. O melhor é desfrutar do livro e do filme como criaturas de ilhas separadas por um mar de imaginação.

    Uma exposição na Animazing Gallery, no Soho, comemora a arte de Maurice Sendak - primeiro criador americano a receber o prestigioso Prêmio Internacional Hans Christian Andersen - com ilustrações de sua famosa coleção particular. Um documentário codirigido por Spike Jonze, Tell Them Anything You Want, estreou na rede de cabo HBO. Não é exagero dizer que o alter ego do menino Max, aos 81 anos, passa por uma nova coroação.

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