Clarice,

Lançado em: outubro/2009


Título do Livro

saiu na imprensa

Autor: Benjamin Moser

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  • 14/11/2009
    O Globo | Prosa & Verso
    Biógrafo diz querer corrigir 'injustiça enorme' que é o pouco conhecimento da escritora fora do Brasil
    Marília Martins

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  • O lançamento da biografia escrita por Moser, a primeira de Clarice em inglês (e cujo título original é “Why this world”), deve ajudar a reduzir um contraste que sempre chamou a atenção dos pesquisadores de literatura brasileira nos Estados Unidos: por que Clarice é um nome familiar aos leitores na França, por exemplo, e continua até agora praticamente desconhecida no país fora de uns poucos cursos universitários? Em artigo publicado no “The New York Review of Books” a propósito do lançamento da biografia, a escritora Lorrie Moore conta que fez uma pesquisa entre estudiosos de literatura e descobriu que poucos conheciam a escritora e que, mesmo para seus admiradores, Clarice permanecia um mistério.

    Moser não traz grandes revelações sobre a vida da escritora, mas sublinha alguns traços que podem ajudar os leitores americanos a encontrar o caminho para sua obra. Ele descreve de forma didática o ambiente cultural que circundava Clarice e enfatiza sua atuação política contra a ditadura militar nos anos 70. E dá atenção especial a suas origens judaicas, o que talvez permita que a escritora conquiste um público diferente e mais amplo nos Estados Unidos.

    A professora de literatura brasileira Marta Peixoto, da New York University, aponta alguns motivos pelos quais Clarice tornou-se mais conhecida na França do que nos Estados Unidos. Para começar, a primeira tradução de um livro de Clarice para o francês é de 1954, enquanto nos Estados Unidos isto ocorreu apenas em 1967.

    — A ficção de Clarice é difícil e mesmo um pouco agressiva com o leitor. Ela não se volta para especificidades socio-históricas da cultura brasileira, que é o que muitos leitores estrangeiros procuram. Além disto, em geral, as traduções para o inglês feitas por Giovanni Pontiero, que traduziu cinco ou seis livros de Clarice, não são boas, a meu ver. Têm alguns erros, mas sobretudo mostram pouca sensibilidade literária. No entanto a primeira tradução de Clarice para o inglês, em 1967, do romance “A maçã no escuro”, foi feita por Gregory Rabassa, tradutor renomado de grandes autores latinoamericanos, como García Márquez e Machado de Assis — avalia a professora.

    A defasagem entre a recepção de Clarice nos dois países teria sido agravada pelo fato de que, na França, a obra de Clarice foi celebrada pelo movimento feminista. Hélène Cixous, em especial, escreveu ensaios sobre a escritora brasileira, aumentando a divulgação de sua obra nos meios universitários franceses.

    — O interesse de Cixous estava ligado ao fato de que ela encontrou em Clarice um exemplo da “escrita feminina” que na época ela própria estava teorizando. O fato é que ela abriu caminho para uma enorme divulgação de Clarice na França — comenta Marta.

    A professora da New York University torce agora para que uma biografia em inglês consiga chamar atenção de um novo público para a obra da autora de“A paixão segundo G.H.”:

    — Fora Machado de Assis e Jorge Amado, em outros tempos, e Paulo Coelho hoje em dia, não há nenhum escritor brasileiro realmente conhecido nos Estados Unidos. Mesmo Machado é apenas periodicamente redescoberto por aqui… A última vez, nos anos 90, por Susan Sontag, que publicou um artigo na revista “The New Yorker” que serviu de prefácio à tradução de Gregory Rabassa para “Memórias póstumas de Brás Cubas”. Como isso é possível? Susan Sontag realmente leu e apreciou Machado, pelo menos um romance. Por isso, estou satisfeita de ver que a biografia de Moser tem recebido atenção. Quem sabe agora Clarice será descoberta por aqui — espera Marta.


    Entrevista com Benjamin Moser

    Apaixonado pela obra de Clarice Lispector, o americano Benjamin Moser (ao lado, em foto de divulgação de Tessa Posthuma de Boer) diz ter assumido a missão (“um pouco louca”, brinca ele) de apresentá-la aos leitores de seu país. Para sua surpresa, a biografia que compôs em cinco anos de pesquisa (nos quais saiu “batendo em portas no mundo inteiro”, inclusive na aldeia natal de Clarice, na Ucrânia), foi um sucesso e ampliou o interesse pela escritora no exterior. Moser, que vive em Amsterdã, na Holanda, conversou com O GLOBO sobre a biografia — que investiga as raízes judaicas de Clarice, e coloca sua obra no contexto do Brasil da época — e sobre a expectativa quanto à reação dos leitores brasileiros. O escritor lançará seu livro dia 26, às 19h30m, na Travessa de Ipanema.

    Como foi o processo de pesquisa e de escrita da biografia de Clarice Lispector?
    No início, pensava que ia incomodar as pessoas, ligando, batendo em portas no mundo inteiro, mas logo me dei conta de que elas queriam contar suas histórias, falar de suas vidas e de Clarice, que marcou todos que a encontraram. Tive muita sorte nisso: por exemplo, soube por uma professora na Escócia que um tradutor inglês de Clarice trabalhava numa biografia dela quando morreu, nos anos 90. Liguei para a casa de seu viúvo, ele falou que podia ir visitá-lo. Fui no dia seguinte para Manchester e este senhor me entregou, sem perguntas, quase 50 quilos de material sobre Clarice, que vinha colecionando desde os anos 60. Assim como ele, as pessoas ficaram contentes em ver que suas memórias, suas coleções, seus interesses iam servir para divulgar a obra de Clarice no mundo. E isso funcionou no sentido contrário também: na aldeia onde ela nasceu, na Ucrânia, onde não podem ler nem inglês, muito menos português, sabem que uma conterrânea ficou famosa no Brasil, mas não sabem quase nada sobre ela. Então eu também fiquei feliz em poder contar um pouco sobre ela.

    Você conta algumas histórias íntimas, como o estupro da mãe de Clarice por um grupo de soldados e a descoberta que ela fez dos diários maternos depois que a mãe morreu. Você teve problemas com amigos e familiares de Clarice para contar estas histórias?
    Há muitas coisas chocantes no livro, mas sem nenhum sensacionalismo, o que seria indigno do assunto da biografia. Tudo tem que ser visto no devido contexto, e em geral as pessoas ficaram contentes porque sabiam que eu não estava correndo atrás do escândalo. Aliás, há pouquíssimo “escândalo” na vida de Clarice. Talvez seja uma decepção para certos leitores... Para mim, muito mais chocante é G.H. no quarto da empregada, comendo a barata. Clarice não tinha medo de chocar. A obra dela é um choque mais profundo.

    Como você vê seu trabalho em comparação com outras biografias de Clarice?
    Cada biógrafo tem sua visão do biografado, mas eu diria que meu livro tenta fazer duas coisas novas: como o escrevi para o público americano e inglês, coloquei muito contexto sobre a história e cultura do Brasil onde Clarice passou sua vida. Segundo, fiz muita pesquisa na Europa Oriental, de onde ela veio, e dei muita atenção às suas origens judaicas, que acho fundamentais para entender sua vida e obra.

    Por que Clarice é menos conhecida nos Estados Unidos do que na Europa, em especial na França?
    É interessante que os brasileiros achem que Clarice é muito famosa na França, o que infelizmente está longe de ser verdade. Em certos meios acadêmicos ela é conhecida, mas não acho que seja mais ou menos do que nos Estados Unidos. Os países onde ela é mais conhecida são os de língua espanhola. Isto é um problema que os escritores de língua portuguesa, quase sempre, têm que encarar fora do Brasil ou Portugal. Felizmente acho que isso está mudando agora com meu livro, que está despertando interesse. Vamos ver quanto tempo isso vai durar...

    Como você recebeu as resenhas sobre a biografia publicadas na imprensa americana?
    Quase não acredito que a repercussão tenha sido tão boa. Foi meu sonho: escrever um livro que levaria as pessoas fora do Brasil a prestar atenção em Clarice. Mas para um livro de 500 páginas sobre uma escritora estrangeira, difícil, que quase ninguém conhece, não é uma tarefa fácil. As pessoas ficaram muito agradecidas pelo esforço de trazer essa pessoa fascinante para lá. Todos os jornais e revistas do país escreveram sobre Clarice, o que é uma gratificação enorme para mim, depois de cinco anos de trabalho um tanto solitário.

    O que você espera dos leitores brasileiros?
    Tenho a maior curiosidade em ver como vão reagir. Até agora, todo mundo tem sido muito generoso, também porque tentei fazer um retrato do Brasil durante a vida de Clarice para mostrar outras caras do país, inclusive as reações ao golpe militar. Elizabeth Bishop, vizinha e tradutora de Clarice, começou como uma grande amante do Brasil, porque amou uma brasileira, Lota de Macedo Soares. Mas a relação piorou bastante, Bishop bebendo muito, Lota muito depressiva, e em 1964 já detestava o país. Ela achou que o Brasil estava caindo nas mãos dos comunistas, o que estava longe de ser a verdade, e então — como muitos brasileiros, aliás — deu boas-vindas ao golpe. Mas Clarice, por causa da Revolução Russa que arruinou sua família, nunca flertou com o comunismo, como tantos intelectuais, e não só no Brasil. E também não gostava da ditadura. Hoje é difícil imaginar que você tinha que escolher entre o comunismo ou a ditadura, mas o centro democrático a que ela pertencia tinha muita dificuldade num cenário tão polarizado.

    Por que você escolheu Clarice como tema de seu livro? O que motivou seu interesse por sua vida e obra?
    Acho que não fui eu que escolhi Clarice, ela me escolheu. É um amor que tenho por ela, simplesmente, difícil de explicar, assim como é difícil dizer por que você gosta do seu namorado. Eu tinha feito uns cursos de português na faculdade nos Estados Unidos, cheguei a ficar um tempo no Brasil, mas foi sempre ela que me chamou de volta ao país. Achei uma injustiça enorme que ela não fosse mais conhecida fora do Brasil, e resolvi fazer o que podia para mudar isso. Não sou professor, não tenho nada a ver com a literatura brasileira. O que tenho é uma missão, um pouco louca, de divulgar Clarice Lispector.

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