Alice no País das Maravilhas

Lançado em: outubro/2009


Título do Livro

saiu na imprensa

Autor: Lewis Carroll

Ilustração: Luiz Zerbini

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  • 23/12/2009
    Carta Capital | Plural
    Alice no país das maravilhas regressa com cenários de carta de baralho e uma tradução bem-humorada
    Rosane Pavam

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  • Alice não para de crescer. Basta que uma nova geração surja para que ela a observe, do alto de seu tamanho e de sua incredulidade. Seus leitores a verão ora loira, ora morena ou, como quer o diretor Tim Burton, no filme que estreia em abril de 2010, mulher. Alice resiste a qualquer tradução. O importante sobre ela é que não tem paz.

    Chega uma nova versão brasileira para esta narrativa onírica, feita em 1865 por Lewis Carroll como historieta para entreter a filha do decano de Oxford, Henry Lidell. Carroll, na verdade o pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, era próximo da menina Alice, assim como de suas amigas. Ele as fotografou insinuantes e, em alguns casos, seminuas.

    As fotos foram veiculadas em uma primeira importante tradução de Alice no País das Maravilhas no País, por Sebastião Uchoa Leite, em 1977. Mas não era seu principal atrativo. Ali estava o trabalho do homem de letras que limpou os olhos do leitor, enevoados depois de tantas adaptações anteriores para esta história, entre elas a farsesca, quiçá entediante, de Walt Disney. O que Uchoa Leite devolveu a Alice foi a expressão poética de seus versos.

    O poeta brasileiro a teria tornado adulta? Certamente, depois daquela edição, Alice ganhou o status de obra crítica, feita para velhos, por assim dizer. Mas um livro como este se transforma naquilo que um bom adaptador pretender torná-lo. Maria Luiza de X. de A. Borges, por exemplo, apresentou em 2002 uma edição histórica da ficção, com notas e ilustrações originais, acessível para os dois públicos. “Cuide do sentido e os sons das palavras cuidarão de si mesmos”, fala asperamente a Duquesa a Alice em um trecho do livro.

    São todas assim, mal-educadas, ríspidas, desafiadoras, mimadas, prepotentes, as vozes que jogam em Alice. Porque os jogos se enumeram aqui, já que Carroll, fora do mundo dos livros, era autor de muitos deles. A lógica não existe na trama, ou existe para desafiá-la. A loucura pode estar presente. Em Alice, as proposições são aparentemente absurdas. O que haverá de comum entre um corvo e uma escrivaninha?

    No ensaio intitulado À Mesa com o Chapeleiro Maluco – Ensaios sobre corvos e escrivaninhas, Alberto Manguel sustenta que o livro evidencia um aspecto importante do mundo humano: a insanidade. Baseamos nossas vidas em superstições, magoamos as pessoas deliberadamente, levamos o planeta à destruição, com plena consciência de nossos atos. “Não podemos, então, definir a insanidade como a incapacidade de distinguir o sono da vigília?”, escreveu Carroll no seu diário, em fevereiro de 1856.

    Esta nova e bela edição de Alice no País das Maravilhas (Cosacnaify, 168 págs., R$ 45) coloca a ideia à prova. O historiador Nicolau Sevcenko a traduz. Não se trata de uma versão urgente, antes uma curiosa interpretação, algo travessa, cheia de prosa, bem-humorada e sem inocência do pensamento de Alice e de seus célebres coadjuvantes, gato, lebre, marmota, chapeleiro, rainha, duquesa, rei, coelho.

    O que faz Alice crescer aos olhos do leitor desta edição do livro é também a excelente ideia que teve o artista plástico Luiz Zerbini, a de transformar em cartas os personagens assim descritos no texto. O baralho opera dentro de um cenário que banha os olhos, com a interferência eventual de seres humanos. As cartas formam a realidade dos fatos, colocados no nariz do leitor, que nem por isso, ao percebê-los, deixará de sonhar.

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