Jogadores, políticos, gânsgsters e jornalistas, quase todos de origem irlandesa, se misturam e às vezes se confundem na obra do escritor americano William Kennedy, 82.
Todos estão em O Grande Jogo de Billy Phelan, que a Cosac Naify acaba de relançar no Brasil. E, de alguma forma, todos estão em Kennedy, jornalista de ascendência irlandesa admirador de jogos que já cobriu os métodos de gângster dos políticos.
"O Grande Jogo", o segundo livro do chamado ciclo de Albany --série de sete romances ambientados na cidade americana onde o autor nasceu e vive--, mas o primeiro a sair pela Cosac, será seguido de Ironweed, pelo qual Kennedy ganhou o Prêmio Pulitzer em 1983 e que quatro anos depois se tornaria filme em Hollywood, e Velhos Esqueletos.
Kennedy falou à Folha por telefone de sua casa nos arredores de Albany. Contou sobre seu próximo romance, o oitavo do ciclo, comentou a gênese faulkneriana da série e mostrou familiaridade com a literatura brasileira.
Ao ouvir que sua voz soava como a de um garoto, riu e comentou: "Eu me sinto como um garoto. Meu joelho é que não se sente".
Folha - Por que o jogo é tão importante no livro? Como o jogo molda as relações humanas?
William Kennedy - Acho que todos estamos jogando todo o tempo. A evolução na carreira depende de competição, todos querem ganhar, ser promovidos. Na epígrafe do livro eu cito [o historiador holandês Johan] Huizinga: "As grandes atividades arquetípicas da sociedade humana são, desde o início, inteiramente marcadas pelo jogo". Billy Phelan joga boliche, sinuca, cartas, é um apostador, o pai dele jogou beisebol.
Eu escrevi esse livro para falar da máquina política em Albany, e a política, claro, é um dos grandes jogos que existem, é outra forma de apostar, de se colocar em disputa com o resto do mundo, para ganhar dinheiro e poder. A ascensão de qualquer político é pautada pela forma como ele joga.
No livro, os McCall [família de origem irlandesa que domina a cidade] usam o jogo para seu poder, controlam a cidade --a noite, as instituições-- por meio do jogo, cobrando comissões para tudo. A ponto de interferirem na vida privada, como a de Billy, tirando-lhe fora do jogo, o impedindo até de tomar um drinque.
Folha - Essa situação perdura em Albany? Como o sr. analisa a evolução da cultura do jogo nos EUA, paralela à evolução da política do país?
Kennedy - A cultura do jogo mudou radicalmente. Os jogos de azar continuam, mas normalmente não às escuras --nos tempos de Billy Phelan, embora fosse corriqueiro, tudo era em tese ilegal. A máquina política não tem mais o mesmo poder em Albany, e o jogo é quase todo legal. Também há cassinos administrados por tribos de índios americanos, há a loteria oficial, corridas de cavalos legalizadas...
Folha - Em substituição, o que a máquina política faz para sobreviver?
Kennedy - Os políticos têm muitas maneiras de sobreviver. Em Albany, não há mais o monopólio de uma família, há muito mais vozes políticas, mas as famílias irlandesas continuam poderosas, e a máquina continua com os democratas --acredite ou não eles estão no poder desde 1921. Hoje pelo menos há primárias; naquele tempo nem isso havia, os chefes diziam quem seria o prefeito, o juiz... Hoje há as vozes dos negros, das mulheres, maior diversidade.
Folha - Há alguma figura pública nos EUA de hoje que o lembre de Billy ou de Martin?
Kennedy - No cinema houve um personagem, vivido por Paul Newman, em "The Hustler" [traduzido no Brasil como "Desafio à Corrupção"]. Ele tem algo de Billy, que também jogava sinuca. Mas Billy jogava melhor que ele. Nos EUA há vários equivalentes de Billy, ele é bon-vivant, bonito, jogador, há muitos por aí. Mas não há figuras heroicas por aí.
Folha - Não mais há espaço para heroísmo?
Kennedy - Bem, há. Há pessoas fazendo como Billy, se insurgindo contra políticos e sendo punidas por isso, você viu aqui nos EUA aquele cara, Wilson, cuja esposa era da CIA, eles foram punidos por revelar os falsos motivos da Guerra do Iraque [se refere ao chamado Plamegate, quando o governo Bush revelou a identidade secreta da agente da CIA Valerie Plame após o marido dela, o ex-embaixador do país no Iraque Joseph Wilson, desmentir Bush sobre uma compra de urânio por Saddam Hussein]. Vários jornalistas foram presos por razões semelhantes. Há gente fazendo coisas assim, mas Billy é único, porque ele não está nem aí para política, mal entende disso, é de certo modo um inocente. Mas ele sabe o que não quer fazer, se recusa a compactuar com criminosos [no livro, Billy se nega a ser intermediário entre a família McCall, que domina Albany, e criminosos que sequestraram um integrante do clã].
Já Martin Daugherty é um jornalista das antigas, eu cresci com gente como ele, os conheço. Aprendi sobre política com eles, bebia depois do trabalho com eles.
Folha - Martin parece ter sido inspirado em William Kennedy, não?
Kennedy - De certa maneira sim. Eu trabalhei naquele mesmo jornal ["Times Union"], trabalhei com um cara parecido com o editor-chefe [descrito no livro]. Martin não sou eu, mas parte dele é, assim como parte de Billy também sou eu. Na verdade Billy Phelan é meu tio. Tive um tio que jogava boliche muito bem, jogava dardos, era muito bom nas cartas, nas apostas. Ele ia fundo nisso, como Billy.
Folha - Quão diferente é o jornalismo de hoje daquele de seu tempo?
Kennedy - É como dia e noite, mudou incrivelmente. O jornal que leio toda manhã é o mesmo, o "Times Union", está num momento difícil, fininho, mas continua vivo, tem um site. Os jornalistas hoje são mais preparados, têm uma educação melhor do que em meu tempo, quando você entrava como contínuo e virava repórter ou fotógrafo. Martin era uma exceção, um cara sofisticado e esperto. Para trabalhar no "Times Union" hoje tem que ser formado, melhor ainda se tiver um mestrado. A internet chegou de um jeito muito forte. Leio também o "New York Times", mas leio on-line.
Deixe eu lhe contar uma história: não falo português, mas, quando fui a São Paulo [nos anos 80], comprei uma Folha e tentei ler, mas foi difícil, mesmo com dicionário. Tive educação em línguas latinas, entendo espanhol. Mas é pra dizer que gosto tanto de jornais que os compro mesmo se não consigo ler.
Folha - De certa forma, o jornalismo ajuda a salvar Billy no livro. Como observa a função social ou mesmo judicial do jornalismo?
Kennedy - Uma das funções do jornalismo é investigar, fiz isso de maneira muito forte nos anos 60, escrevi sobre os movimento dos direitos civis, de forma pioneira em Albany. Fizemos muitas mudanças na sociedade. Não sei o quanto vão durar, mas algumas são efetivas, uma delas é o que o que chamamos nos EUA de "advocacy journalism" [algo como jornalismo engajado, voltado para uma causa]. Continua forte em revistas opinativas, como [a esquerdista] "The Nation", na TV, em grupos que têm posições diante da politica, do governo. Os EUA estão muito divididos hoje, a direita está forte, a esquerda está forte como há muito não se via, e há muita gente escolhendo seu lado. Isso sempre existiu, mas o chamado jornalismo objetivo pode arruinar a atividade. É sem sentido, vazio. Às vezes é importante ter essa objetividade, é a base de tudo, mas o jornalismo objetivo dos anos 50 neste país era dominado pela [agência] Associated Press, eles nunca tiveram posição, perpetuaram as mentiras dos políticos. Isso mudou nos 60, com os movimentos dos direitos civis, dos hippies, liberação sexual e das drogas, uma nova música... Foi uma época grandiosa da América, que provocou mudanças em toda a sociedade, isso até George Bush, quando as coisas regrediram, foi o pior presidente em anos, em gerações. Mas Obama trouxe um novo sopro de vida na política, há um ressurgimento das mudanças e dos avanços.
Folha - Os ecos dos 60 podem ser sentidos até hoje?
Kennedy - Sim. As mudanças que começaram nos 60 tiveram tanta força, tanta agudeza, tanta clareza que permitiram que uma geração posterior elegesse um negro presidente dos EUA, algo que muita gente ainda não acredita. Há que se creditar isso ao movimento dos direitos civis, que mudou mentalidades, leis, atitudes sobre divisão racial.
Folha - O sr. poderia falar sobre o livro que está escrevendo? Será a oitava parte do ciclo de Albany, não?
Kennedy - Sim, será. O livro se passa em dois lugares, primeiro em 1957 em Cuba, o personagem principal é Daniel Quinn, que tem 10 anos em "Billy Phelan" e "Ironweed". Ele é um repórter que vai a Cuba e se envolve com pessoas que tramam a morte de [Fulgêncio] Batista e apoiam Fidel Castro em Sierra Maestra. O outro cenário é Albany em 1968, em meio outro tipo de revolução, a dos direitos civis, e Quinn está novamente envolvido. [O romance] Está próximo do final, mas não está terminado.
Folha - Qual o senhor considera a melhor ordem para ler o ciclo? É preciso que seja na ordem cronológica?
Kennedy - Não, pode ser lido em qualquer ordem. Acho que ajuda um pouco ler "Billy Phelan" antes de "Ironweed", porque os eventos daquele ajudam a entender este, mas não é tão necessário. "Very Old Bones" ["Velhos Esqueletos"] poderia se seguir a "Ironweed". "Quinn's Book" ["O Livro de Quinn"] pode ser lido a qualquer tempo, assim como "Flaming Corsage" ["Ramalhete em Chamas"]. Os livros se sustentam sozinhos, não precisam uns dos outros.
Folha - Apesar de ter publicado outros livros anos, me parece que o sr. ganhou maior projeção internacional com ajuda do filme "Ironweed"...
Kennedy - [interrompendo] Não, não é verdade. O livro foi publicado em janeiro de 1983, junto com "Legs" e "Billy Phelan", todos ao mesmo tempo, foi aí que tudo mudou para mim. "Ironweed" foi bem resenhado, unanimemente, em todo o país e isso particularmente me colocou no mapa. O filme só veio quatro anos depois.
Folha - Mas nem mesmo fora dos EUA?
Kennedy - Não, o livro foi traduzido para 26 idiomas e dezenas de países antes de virar filme. O filme certamente realça sua reputação, mas eu credito mais ao sucesso do livro, e não dá para dizer que foi o filme a causa da popularidade de meus livros. Naquela primeira semana de janeiro todos os grandes jornais dos EUA tinham "Ironweed" nas suas páginas de livros como o principal lançamento.
Folha - Certa vez o sr. escreveu que recriou Albany baseado na Yoknapatawpha de Faulkner. Como poderíamos comparar a sua obra com a dele?
Kennedy - Eu não acho que se poderia, não dá para comparar. É um grande escritor e não quero ser comparado com ele. O que eu disse que aprendi com Faulkner foi a forma como os livros são conectados. "O Som e a Fúria", "Absalão, Absalão" e seus contos são todos sobre a família Compsom, tem a trilogia sobre a família Snopes, etc. E tudo isso tem lugar numa região cujo nome ele inventou a partir de uma língua indígena. Eu me envolvi muito com a leitura de "O Som e a Fúria", lia o tempo todo, eu ainda não tinha escrito nenhum livro. A ideia de criar uma família e pensar numa cidade, em Albany, como um local onde tudo acontece era muito mais evoluído do que eu achava que eu poderia fazer. E não vingou até o segundo livro. Eu escrevi "Legs" e não tinha nenhuma intenção de continuar a escrever sobre gângster ou nada disso. Enquanto escrevia me encantei com a história do sequestro de Charlie Boy McCall [na verdade Charlie é o nome do personagem dos livros de Kennedy, baseado na história real do sequestro do sobrinho de um líder político de Albany, da família O'Connell], que teve repercussão nacional, e decidi seguir adiante e escrever "Billy Phelan".
Folha - E James Joyce, é possível fazer algum paralelo entre sua obra e a dele?
Kennedy - Sim, há três escritores sobre os quais me debruço o tempo todo, Faulkner, Joyce e J.D. Salinger, [este último] com sua família Glass, cujas histórias são mágicas. Franny e Zooey, Buddy Glass, Seymore... os personagens da família tinham seus próprios livros. A ideia de repetir as famílias, as pessoas passando de uma história a outra... Balzac fez isso, eu li Balzac como [li] esse outros. Joyce fez isso, em "Dublinenses", em "Ulisses"... Eu volto às histórias de tempos em tempos.
Folha - Como foi que o sr. virou amigo de Saul Bellow e Hunter Thompson, na época que vivia em Porto Rico?
Kennedy - Hunter era um jovem escritor que buscou emprego no jornal no qual eu era editor ["San Juan Star"]. Nos buscávamos um editor de esportes, e ele tinha escrito sobre esportes, estava na Força Aérea. Escreveu uma carta muito arrogante, e eu lhe respondi com uma negativa muito arrogante. Ele então escreveu uma carta com ameaças. Eu escrevi de volta uma carta cômica e lhe ofereci não um contrato, mas que escrevesse uma coluna, uma crítica sobre a imprensa americana. Ele escreveu e eu rejeitei, era impublicável. Ele conseguiu emprego numa revista de boliche e ficava indo ao jornal para me ver, saíamos para beber, e viramos amigos até ele morrer [em 2005]. Tinha uma cabeça incrível, era uma figura louca e tivemos grandes momentos juntos, falando de livros, literatura, da vida.
Saul Bellow era professor visitante da Universidade de Porto Rico e dava oficinas literárias. Eu trabalhava no jornal e estava escrevendo um romance, "The Angels and the Sparrows" [Os Anjos e os Pardais, que jamais foi publicado], do qual lhe mostrei quatro capítulos, e ele me aceitou como estudante. Tivemos reuniões nas quais ele criticou bastante, mudou trechos, então mais tarde eu transformei radicalmente e escrevi "Very Old Bones". Quando voltei aos EUA, em 1963, ele ensinava no Bard College, eu fui lá e lhe levei algumas histórias. Foi o começo de uma grande amizade, que também durou até sua morte, eu discursei nos funerais dele em Nova York [em 2005].
Folha - O sr. conhece algo de literatura brasileira?
Kennedy - Sim, conheço alguma coisa, claro. Tenho amizade pessoal com Nélida Piñon, Rubem Fonseca. Escrevi uma resenha sobre Osman Lins, de um livro chamado "Avalovara".
Folha - É um livro complexo, não?
Kennedy - Sim, eu li e resenhei. Não entendi nada [risos], mas li e resenhei. Acho que entendi. Li livros de Machado de Assis. Ah, tem um homem, um escritor recluso...
Folha - Dalton Trevisan?
Kennedy - Sim, isso, Dalton Trevisan. Eu gostei muito dos contos deles.
Folha - Rubem Fonseca também é meio recluso...
Kennedy - Ah é? Eu não achei, é um cara maravilhoso, passamos bons dias juntos no Rio. Nélida também. Ela veio a Albany, pra um seminário no New York State Writers Institute [instituto de escritores que dirige].
Folha - O sr. já leu ou ouviu falar de um autor brasileiro chamado João Antônio? Ele tem um conto ["Malagueta, Perus e Bacanaço"] sobre jogadores de sinuca que lembram tipos de "Billy Phelan".
Kennedy - Não conheço. Esqueci de Jorge Amado, li muitas coisas dele. Clarice Lispector, uma escritora muito complexa.
Folha - Em agosto haverá mais uma edição da Flip, uma festa literária na cidade de Paraty. O sr. foi convidado? Gostaria de voltar ao Brasil?
Kennedy - Meu agente comentou sobre essa feira, mas não fui convidado. Sim, gostaria muito de voltar ao Brasil.
Folha - Muito obrigado pela entrevista. O sr. está com quantos anos?
Kennedy - Tenho 82.
Folha - Mas o sr. fala como um garoto...
Kennedy - [risos] Ok. Eu me sinto como um garoto. Meu joelho é que não se sente.
O GRANDE JOGO DE BILLY PHELAN
Autor: William Kennedy
Tradução: Sergio Flaksman
Editora: Cosac Naify
Quanto: R$ 55 (344 págs.)