Renato Eduardo - luca_moes@hotmail.com
14/11/2011
"Primeiro Amor"
"Primeiro Amor" já traz engastado em seu título o índice da ironia sardônica que habita toda obra beckettiana. A primeira impressão que o livro sugere é a de que se trata de mais um daqueles romances de linguagem edulcorada, de maniqueísmos sentimentais e perpassado por peripécias novelescas, sobretudo para aqueles que não conhecem o nobel de 69. Logo que se principia a leitura, porém, a insinuação inicial é obliterada pela descrição memorialística de um pária arquetipicamente beckettiano que, após a morte do pai, é ´excomungado' de casa e passa a morar na rua, ou em um banco, para ser exato, quando então conhece seu primeiro 'amor', uma prostituta que atende pelo nome Lulu. A contiguidade que Beckett estabelece entre essas duas figuras que emblematizam a aridez de vidas cujo sentido se mostra esvaído de significação constitui o elemento propulsor por meio do qual o irlandês medita sobre a pasteurização das relações afetivas, a rarefação do amor e o alheamento que carateriza a banalidade estéril da vida moderna, minada por uma rotinização sisificamente alienante.