Lampião & Lancelote

Lançado em: julho/2006


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Na faísca da peleja: Lampião & Lancelote, de Fernando Vilela




Por Álvaro Faleiros*
Brasília, fevereiro 2007

São múltiplas as formas de se apropriar tradições. No caso dos romances e narrativas populares brasileiros, impressas normalmente em folhetos de cordel, estas têm inspirado inúmeros autores modernos e contemporâneos, como A pedra do reino de Ariano Suassuna, “O caso do vestido” de Carlos Drummond de Andrade ou, mais recentemente, A pedra do meio-dia, de Bráulio Tavares. Fernando Vilela, de certa maneira, insere-se nessa tradição. Digo de certa maneira, pois, diferentemente desses poetas, Vilela é, sobretudo, um gravurista; artista plástico que mergulha no mundo da escrita para dele extrair uma história ilustrada, retomando e potencializando a antiga tradição do cordelista que escreve e ilustra sua própria narrativa.

Apesar de não podermos – além de considerarmos estéril esse tipo de tentativa – enquadrar Lampião & Lancelote como um folheto de cordel, é possível identificar em seu trabalho uma série de traços que remetem a essa tradição. Muitos deles já foram enumerados no posfácio que se encontra no livro, como as sextilhas heptassilábicas e as setilhas com rimas em ABABCCB, típicas dos duelos escritos por José Costa Leite. No posfácio, assinala-se também a presença de elementos característicos das novelas de cavalaria; seus termos e estrutura de sentenças. Vilela bota fogo no palheiro e ilumina as páginas de seu livro apropriando-se dessa dupla tradição; tradições que, como se sabe, estão sob o mesmo sol.

São constantes as referências, na crítica literária brasileira, à relação entre a narrativa popular brasileira e a literatura medieval, desde Celso de Magalhães, Sílvio Romero e Câmara Cascudo até os mais recentes – Poesia Medieval ontem e hoje, de Chico Viana e de Maurice Van Woensel (Editora UFPB, 1998) e Contando histórias em versos: poesia e romanceiro popular no Brasil (Editora 34 Letras, 2005), do já citado Bráulio Tavares. Esses autores assinalam que a literatura medieval deixa marcas, impressões formais, estéticas e temáticas que semeiam o imaginário, a arte ocidental.

Nas linhas que seguem, lançamos luz sobre algumas dessas reapropriações de Fernando Vilela em seu Lampião & Lancelote. Não é por acaso que optou por duas figuras míticas: uma das entranhas brasílicas, a outra do além-mar europeu. Esses dois heróis guardam em comum o fato de serem marginais: Lancelote é o amigo infiel do Rei Artur e Lampião, o Rei do cangaço.

A escolha de Lancelote é parte da originalidade da narrativa de Vilela, por ser um personagem incomum no universo da literatura popular, ainda que se trate de personagem central desse grande ciclo arturiano, fundamental na história da Europa medieva que permeia a tradição oral ibérica e nordestina, como no caso de Carlos Magno e Roldão. Note-se que, segundo Jerusa Pires Ferreira, em Cavalaria em cordel (HUCITEC, 1993), é possível identificar referências difusas aos ciclos “arturianos” na literatura de cordel, na medida em que este ciclo “suscita a aproximação com encantamentos e mistérios”, mas que não é possível precisar como arturianos os folhetos que se apropriem dessas marcas. Nesse sentido, Vilela encarna o espírito difuso desse mito ambíguo que é Lancelote.

A outra personagem é Lampião, presença tão marcante no universo do folheto de cordel que Liêdo M. de Souza, em seu estudo intitulado Classificação popular da literatura de Cordel (Vozes, 1976), introduz uma categoria dedicada exclusivamente ao que chama “Folhetos de Lampião”. Sua lista inclui onze títulos, que percorrem diversas categorias como folhetos de “gracejo”, de “bravura ou valentia”, ou ainda os chamados “mágicos ou maravilhosos”.

Com efeito, é comum um mesmo cordel ser incluído em diversas categorias, também chamadas de ciclos. Conforme Franklin Maxado, em O que é Literatura de Cordel: “convém salientar que um único livreto pode estar enquadrado em vários ciclos ao mesmo tempo porque aborda vários temas ou tem elementos de diversos gêneros”. O exemplo que Maxado cita é “A chegada de Lampião no Inferno”, de José Pacheco Rocha. Em sua análise, Maxado identifica, neste folheto, os gêneros fantástico, cômico, malicioso, maravilhoso, de discussão, de presepada e religioso.

A narrativa de Vilela também transita entre alguns dos diferentes gêneros típicos da literatura de cordel. Voltando à classificação popular proposta por Liêdo de Souza, os romances – nome dado aos cordéis com 24 páginas ou mais – são divididos em quatro grandes categorias: de amor, de sofrimento, de luta e de reinos encantados. A narrativa de Vilela é, seguramente, um romance de luta que se passa em um reino encantado.

A magia interfere em momentos-chave do livro. É por meio de um feitiço de Morgana, irmã de Artur apaixonada por esse sedutor cavaleiro, que Lancelote é introduzido no sertão dos cangaceiros. É também por meio de num passe de mágica, desta vez de Merlim, que o exército de Lancelote o socorre. Ainda, a batalha culmina com uma rajada de risos, transformando o chão batido do sertão em palco de uma inusitada dança, encantamento mútuo de mundos: Lampião envolto em armadura; Lancelote dando no couro em zabumbas de alegria. O livro se encerra com um último lance maravilhoso. Em uma atitude metatextual, Vilela encanta as páginas do próprio livro:

De um velho mandacaru
Tirou do miolo um cordel
Invocou o Santo Nas
Que movimentou o céu
Abriu um oco no centro
E pôs todo mundo dentro
Destas folhas de papel.

Livro esse guardado por Lampião, para alumiar nossa memória, potencializando o encantamento da própria obra.

Quanto à luta de nossos dois heróis, note-se que os folhetos de cordel em que prevalece o maravilhoso, conforme Jerusa Pires Ferreira, têm a narrativa organizada em torno do combate. A autora explica que: “Para que haja combate, é necessário que haja viagem” (p.76), e cita o seguinte trecho do romance Juvenal e o dragão, de João Martins de Atayde: “porque estou destinado/ seguir pelo mundo afora/ buscando reino encantado/ visão encanto mistério/ fantasma mal assombrado”.

No caso da viagem de Lancelote ao sertão, o glorioso cavaleiro não hesitou em rasgar “o tecido do tempo rumo ao futuro” em um gesto destemido de quem sempre se aventura.

Nesse mundo encantado, os combates, ainda segundo Jerusa, são ritualizados. A autora comenta, por exemplo, a estrutura dialogada desses folhetos, em que os combatentes bradam, como neste trecho do cordel Oliveiros Ferrabrás, de Leandro Gomes de Barros, em que o herói anuncia: “Levante-se cavaleiro (...)/ A morte entre nós se espalha/ A morte de um é chegada/ lance mão de sua espada/ vamos entrar em batalha”.

É o mesmo tom retórico e dialogado que marca a fala de Lampião que, após longo desafio, cansa-se da conversa e anuncia: “Vamos parar com essa prosa/ Cansei da comparação/ Venha logo me enfrentar/ Tenho o mosquetão na mão”.  É ao afirmar estar de arma na mão que Lampião parte para a batalha; momento em que a cor prata da espada e da armadura de Lancelote passa a se confundir com o cobre que evoca as balas, roupas e adereços de Lampião.

Chegamos aí a uma das questões centrais do diálogo da obra de Vilela com a tradição do romance maravilhoso e de combate, o brilho. É ainda Jerusa que nos ensina: “O fascínio do brilho é uma representação, não só do poder da arma como de sua permanente evocação místico-mítica”. No cordel encontra-se, assim, no que se refere ao combate, seus aspectos lúdico e mágico, simbolizados pela espada e as imagens que evoca de “tirar faíscas do ar”, de “brilho insistente” do que Jerusa chama de “espécie de consagração luminosa do poder do aço”. E é, justamente, essa a impressão que emana dessa iluminura de cobre e prata que é Lampião & Lancelote.


*Álvaro Faleiros é poeta, tradutor e professor de literatura da Universidade de Brasília (UnB). Entre seus livros publicados estão Coágulos (Iluminuras, 1995), Amapeando (Nankin, 1997) e Auto do Boi d´Água (Cordel, 2003)