Lançado em: março/2009
artigos exclusivos
Cesare Pavese: um antídoto ao cansaço de existir

Figura d’uomo giacente (1853-1895), de Filippini Francesco. Oleo sobre tela | 100 x 231 cm | Coleção Musei Civici di Arte e Storia di Brescia [Itália]
Por Ettore Finazzi-Agrò*
É legítimo, para quem desconfia de qualquer interpretação baseada em dados biográficos, resumir uma literatura, uma ideologia, uma estética, uma inteira existência poética, enfim, na sua conclusão? Talvez seja possível (e, por isso, justo) apenas quando percebemos que aquela obra – em que se reflete a vida e vice-versa –, foi desde o início jogada no limite extremo entre o puro sobreviver e a vertigem do Absoluto. E quando percebemos, aliás, que esse cansativo trabalho que é a existência, esse demorar incerto e penoso num limiar precário, levou desde sempre um escritor a cultivar o “vício absurdo” da morte. De fato, a obra poética de Cesare Pavese (1908-1950) pode ser olhada pelo avesso, na contramão da sua formação artística e da sua existência humana, a partir justamente do fim, daquele suicídio gritante no silêncio de um quarto de hotel. Porque aqui a morte é o remate fatal – o ápice, talvez – de uma vida vivida na paralisia do não-lugar, no espaço oco e angustiante da insuficiência.
Se existe, com efeito, um escritor que habitou fundo e de forma integral uma ambigüidade sem saída, este foi com certeza Cesare Pavese: entre a sua pequena aldeia natal (Santo Stefano Belbo) e a grande cidade industrial (Turim), entre tempos díspares e ambos marcados pela incerteza (o antes e o depois em relação à Segunda Guerra, período, este, que ficou, apesar de tudo, um tempo de certezas ferozes e de incontroversas experiências), entre o empenho político e o anarquismo ideológico, entre o amor pela literatura norte-americana e a devoção à cultura nacional, entre, enfim, a opção pelo realismo e a atração inconfessada pelo decadentismo. Instâncias, todas essas, que entram na definição, aberta e reversível, da sua poética: balançando entre verso e prosa, entre romance e poema, o escritor conseguiu, nesse sentido, dar voz ao seu dilacerante sentimento de inadequação, à angústia de uma condição dolorosamente imperfeita, desembocando no tédio de viver de forma sempre parcial e partida. Ler Pavese hoje, no nosso tempo ainda intempestivo e anacrônico, pode então representar um antídoto ao cansaço de existir, à consciência dolorosa de uma vida incompleta, ao sentimento de ser-pela-morte. Morte que é, desde o princípio, o nosso fim e que, quando chegará, terá talvez “os teus olhos”: o olhar de uma velha, silenciosa companheira em que, finalmente, nos espelharemos na nossa definitiva e (des)humana identidade, reconhecendo-nos na nossa patética – e todavia gloriosa – nudez.
*Ettore Finazzi-Agrò é Professor Titular de Literaturas Portuguesa e Brasileira na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade de Roma “La Sapienza”; diretor das revistas Letterature d’America e Studi Portoghesi e Brasiliani
Traição

Cesare Pavese
[Poema suprimido pelo autor da edição definitiva do livro, pela Einaudi (Turim, 1943)]
De manhã não estou mais sozinho. A recente mulher,
estendida na proa, faz peso no fundo
da canoa, que a custo desliza nas águas tranqüilas
e geladas, opacas do sono noturno.
Superei o rio Pó turbulento e brilhante de sol,
de ondas rápidas e de areeiros, e, vencendo uma curva
após muitos vacilos, cheguei ao Sangone
e o segui. "Que delícia", ela disse em voz alta,
sem mover o seu corpo supino, com olhos no céu.
Não há alma ao redor e as margens são altas,
mais estreitas em cima. cerradas de choupos.
Como é tosco este barco nas águas tranqüilas.
Sobre a popa, abaixando e erguendo o meu remo,
vejo o lenho que avança empachado: é a proa que afunda,
é a mulher com seu corpo que pesa. vestida de branco.
A parceira me diz que é indolente e mantém-se parada.
Solitária ela mira, deitada, as cimalhas das árvores;
está como na cama e me atulha a canoa.
Pôs agora uma mão sobre a água e a deixa espumar
e me atulha até o rio. Eu não posso mirá-la
_sobra a proa onde estende seu corpo_ e ela vira a cabeça
e me fixa, indiscreta, de baixo, movendo a coluna.
Quando peço que fique no centro e que saia da proa,
me responde num riso matreiro: "Me quer bem pertinho?".
Noutras vezes, pingando de um salto entre os troncos e as pedras,
prosseguia voltado pro sol e sentia-me tonto
e atracando em um canto pulava de costas.
ofuscado pela água e os raios, o remo de lado,
acalmando o suor e o cansaço no alento
da ramada e no abraço da relva. Ora a sombra se abrasa
ao suor que se arrasta no sangue e nos membros exaustos,
e a arcada das árvores filtra a clareza
de uma alcova. Sentado na relva, não sei o que dizer
e me aperto os joelhos. A parceira sumiu
pelo bosque de choupos, sorrindo, e eu devo segui-la.
Minha pele está exposta e dourada de sol.
A parceira, que é loura, apoiando suas mãos
sobre a minha e saltando na areia, deixou-me sentir,
com a fragilidade dos dedos, o aroma
do seu corpo encoberto. O perfume outras vezes
era de água secada no lenho e suor sob o sol.
A parceira me chama inquieta. Vestida de branco
ela gira entre os troncos e eu devo segui-la.
[25-30 de Junho de 1932]
Más companhias

Cesare Pavese
[Poema suprimido pelo autor da edição definitiva do livro, pela Einaudi (Turim, 1943)]
Este é um homem que fuma cachimbo. Lá embaixo, no espelho,
há um segundo que fuma cachimbo: se miram na cara.
O real está calmo pois vê que aquele outro sorri.
Antes vira outras coisas. Num fundo de fumo
uma cara de dona inclinada a sorrir,
e um idiota a lambê-la com os olhos, falando.
E, falando, o idiota depois agarrá-la
e arrancar-lhe um gemido. Um gemido idiota.
E a mulher se dobrar, contraindo seus lábios,
como se algo de nu golpeasse-lhe a vista.
A mulher entretanto vê corpos de homens pelados
de manhã até a noite, e se despe também
e trabalha com ele, sorrindo. Ela escuta os gemidos
e os emite, ao trabalho: e é meio trabalho
um gemido bem-feito. Mas se ela está ali pra brincar
com palavras, é duro também ver o outro.
que em silêncio escutava o idiota falar.
lampejar uma idêntica idéia brutal.
Dona e idiota voltaram a soprar-se no rosto
_assemelham-se um pouco mulheres e idiotas_
e o cachimbo bafeja uma cara crispada.
Na fumaça é possível fazer um esgar
e cerrar as pestanas. A dona, sorrindo,
se desvia daquele que fala e a oprime.
[Outubro de 1933]