Lançado em: novembro/2008
artigos exclusivos
A antropologia estrutural de Claude Lévi-Strauss

Obra capital do mais importante intelectual vivo reúne artigos que apresentam o método desenvolvido por ele, em nova tradução, por
Beatriz Perrone-Moisés
A oportunidade não podia ser mais propícia: no final de 2008, o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss completa 100 anos de nascimento. Além de seminários e cadernos especiais sobre sua trajetória, a celebração se dá com o relançamento de Antropologia estrutural (volume 1), livro que se tornou referência incontornável não apenas para o vasto campo da antropologia, como para o pensamento geral do século XX. Uma herança da qual o século XXI inevitavelmente não poderá se despojar.
2008 é também o ano do cinqüentenário do livro. Reunião de textos (conferências, comunicações, artigos etc.) que Lévi-Strauss escreveu entre 1944 e 1956, Antropologia estrutural foi publicado apenas em 1958, ano também do centenário de Émile Durkheim, a quem Lévi-Strauss rende homenagem a despeito das divergências e afastamentos que sua obra desenvolve em relação ao fundador da sociologia moderna em solo francês. O volume é a plataforma dos textos programáticos do estruturalismo levistraussiano, cujos três principais eixos se desdobram ao longo deste volume.
A antropologia
O primeiro desses eixos diz respeito ao contraste entre etnologia e história. Se não há, como ele ressalta, "diferença fundamental entre ambas", uma vez que partilham de mesmo objeto ("a vida social"), objetivo ("compreensão melhor do homem") e método ("onde varia apenas a dosagem dos processos de pesquisa"), "elas se distinguem sobretudo pelas escolhas de perspectivas complementares: a história organizando seus dados em relação às expressões conscientes, a etnologia em relação às condições inconscientes da vida social".
O segundo eixo, que testemunha uma inspiração metodológica decisiva para o estruturalismo, concerne à analogia entre lingüística e antropologia. Com efeito, Antropologia estrutural marca o encontro crucial do estruturalismo de Lévi-Strauss, então em desenvolvimento, com a lingüística de Roman Jackobson nos anos 1940, nos EUA, onde os autores travaram contato e puderam então desenvolver um programa conjunto do estruturalismo. A trilha incluía o estudo dos signos, da relação entre significante e significado, tal como definido por Saussure, e da produção de sentido; assim Lévi-Strauss entrava no campo da semiologia, expandindo-o. Importava menos uma noção de signo ou símbolo e mais a idéia de um sistema de símbolos ou sistema de significações, posto que o símbolo, tomado em si mesmo, diz pouco, e apenas em sistema, ou seja, em relação a outros símbolos, assume significação.
Em Lévi-Strauss, o modo de conhecer se distancia da ciência standard: o pensamento mítico não se preocupa em encontrar uma referência absoluta independente do contexto, mas para relacionar - e vem daí a razão de os mitos, eles mesmos, não almejarem uma explicação final. Sua tarefa, por fim, não é explicar o real, mas, muito antes, organizá-lo. Sob método estrutural, a função simbólica surge como propriedade do espírito, mas que só se revela na observação e na análise de sistemas simbólicos particulares. Os mitos atualizam a função simbólica, mas sempre de um modo peculiar. É maneira de dizer que o estruturalismo só pode pensar o universal - o funcionamento do intelecto - no e pelo particular, na e pela diversidade.
O terceiro eixo refere-se aos estudos sobre mitologia, tão centralmente estimados pela análise estrutural, e que têm no texto A estrutura dos mitos deste volume um exemplo paradigmático que se desdobrará na obra posterior de Lévi-Strauss, tanto nos quatro volumes das Mitológicas bem como nos três das chamadas "pequenas mitológicas". De fato, a mitologia forma, para Lévi-Strauss, o objeto ideal do estruturalismo, domínio-alvo para pensar o processo da significação.
A estrutura
Em Antropologia estrutural pode-se já vislumbrar o alcance da noção de estrutura - em etnologia, por certo, como no texto homônimo desse volume, mas muito além. Assim como se podem flagrar estruturas nas coisas, no mundo, de modo a fazer com que objeto e sujeito se diluam na análise, a noção de estrutura igualmente se refere a um conceito heurístico, um instrumento metodológico rigoroso, capaz de elevar a antropologia ao panteão das ciências naturais e exatas, com suas exigências de objetividade e cientificidade. É assim que, uma vez localizada determinada estrutura, pode-se mesmo prever que tipo de reação o sistema deverá apresentar quando a referida estrutura modificar-se. Como tudo está ligado em sistema, qualquer alteração de um elemento implica a alteração do conjunto.
A noção de estrutura expressa, enfim, não uma essência ou uma idéia, nem mesmo um conjunto de relações empíricas, ou tampouco uma "forma vazia de conteúdo". Ela aparece nas relações estabelecidas entre relações, donde não ser possível isolar uma estrutura. Por isso, a análise estrutural não deve procurar, como no fim das contas, formas reduzidas de significação, mas, ao contrário, encontrar aquilo que faz uma estrutura gerar outra, uma vez que toda estrutura está ligada à outra por meio de regras de transformação. Assim é que parentesco, ritual, mitologia ou economia se precipitam como ordens e códigos intimamente imbricadas pelo método estrutural - cada uma podendo ser traduzida em outra. Essa propriedade de conversão e tradução entre códigos faz todo o objeto e a rigorosa metodologia da análise estrutural. Tal exercício, o leitor poderá flagrar em toda a extensão deste Antropologia estrutural.
Dado que essa noção de estrutura supõe transformações entre domínios tão diferentes (organização social, arte, parentesco, mitos etc.), fica clara a necessidade analítica de sempre se tomar como objeto não uma versão isolada do mito, mas seu corpus feito de várias versões. Eis porque a busca por versões míticas originais perde, de imediato, todo o sentido. É dizer que o mito só pode ser entendido em relação a outros mitos, outras versões, não necessariamente da mesma sociedade em que foi colhido. "Os mitos conversam entre si", diz Lévi-Strauss; eles pertencem a uma ordem puramente concebida; são um modelo lógico para lidar com contradições reais impossíveis de serem superadas. Eis o bastante, insiste nosso autor, para nunca se ater a apenas uma versão mitológica: há de se apreender um conjunto de mitos, apreender uma mesma estrutura em um grupo de transformações, flagrar as transformações estruturais entre eles. Mas não se trata de mero formalismo, uma vez que um campo mítico restitui o contexto etnográfico dos mitos sob análise. O estruturalismo que Lévi-Strauss nos apresenta claramente em Antropologia estrutural não permite a oposição entre abstrato e concreto.
Tais regras de transformação, que fazem corresponder diferentes estruturas, repousam sobre um fundamento inconsciente. Mas também aqui a noção de inconsciente é reformulada. Numa palavra, ela expressa a ordem das ordens: aquela que contém a lei que gera todas as estruturas, a própria "atividade estruturante". As estruturas, de sua vez, referem-se a relações lógicas inconscientes que podem ser inferidas de relações sociais empiricamente dadas, sem contudo jamais se confundir com elas. Semelhante noção de inconsciente, Lévi-Strauss a encontrou sobretudo em Princípios de fonologia, de Trubetzkoy (1890- 1938), autor do chamado Circulo de Praga, com quem Lévi-Strauss travara contato através de Roman Jakobson.
Mas havia ainda uma noção de inconsciente, com cujas pistas o estruturalista teria que lidar, vinda propriamente da antropologia, sobretudo dos estudos de Franz Boas e Marcel Mauss. E claro que a psicanálise, sempre ressoando ao fundo, informava uma noção de inconsciente que a um só tempo inspirava Lévi-Strauss e encontrava neste uma reação importante. Para o inventor do método estrutural nas ciências humanas, tratava-se menos de desvendar este ou aquele significado, do que trazer à tona a possibilidade de significação que funda a própria vida social. Consequentemente, o desafio não seria o de iluminar o espírito humano, mas antes apreendê-lo por meio de seus perfis - donde a importância de jamais perder de vista o referencial etnográfico, a realidade tal como concebida e vivida. Pois essa realidade, como toda vida social, o estruturalismo a aprende em seu fundamento comum, que é o imperativo da troca. É dizer que a vida social, em qualquer nível, encontra-se por toda parte fundada na troca. A vida social aparece, então, como uma "vida entre outros". Como ocorre com a noção de cultura, deriva daqui uma noção de sociedade necessariamente aberta.
Os passos aqui brevemente esboçados podem ser seguidos, em seus detalhes etnográficos e intelectuais, nesta grandiosa obra que integra o pensamento dos mais vigorosos produzidos no século XX. Por tal magnitude, a antropologia estrutural de Lévi-Strauss incorporou-se, em definitivo, à estrutura da antropologia. Desde então, será pouco convincente passar por uma sem recorrer à outra. A edição da Cosac Naify conta com a mais autorizada tradutora em língua portuguesa da obra de Lévi-Strauss, a antropóloga Beatriz Perrone-Moisés, professora na Universidade de São Paulo. Sua clareza e o conhecimento especializado eliminam repetidos mal-entendidos sobre o estruturalismo e a obra de Lévi-Strauss. Ao conhecido rigor metodológico do antropólogo soma-se a não menos rigorosa e criativa tradução de Perrone-Moisés.