Lançado em: maio/2009
artigos exclusivos
A deliciosa e absurda toxicidade estética criada por Vila-Matas

Foto: Ricardo B. Labastier
O argentino Alan Pauls, que assina texto de orelha do livro de Vila-Matas
Alan Pauls, autor de O passado e História do pranto, aponta o sonho de morte vilamatasiano como princípio de potência em Suicídios exemplares
Jogar-se ao vazio, estourar os miolos, tomar veneno, eviscerar-se, abrir o gás e meter a cabeça no forno, atirar-se na frente de um carro, deixar-se consumir pela saudade, tornar-se alvo de um relâmpago fulminante... Não há modus operandi suicida que estes contos de Vila-Matas menosprezem ou deixem escapar. Mas seus heróis – os heróis obstinados, lunáticos e incansáveis de Suicídios exemplares – não se suicidam. Flertam com o suicídio, sonham com ele, dão voltas ao seu redor, o calculam e até o planejam meticulosamente, mas jamais o levam a cabo.
Um deles, Fernando – o apaixonado não correspondido de “Os amores que duram por toda uma vida” –, parece ter mais sorte e chega a se matar, dispara um balaço em si mesmo, mas a história que dá conta de seu suicídio – a única no mundo que o “comprova” – é suspeita, inverossímil, e termina por se desfazer no caldo incrédulo da ficção. Outro, o Mestre de “O colecionador de tempestades”, tem o (prudente) mau gosto de morrer de um ataque do coração dois minutos antes de consumar um suicídio apoteótico, a la Raymond Roussel, no qual, além do próprio suicida, participavam uma cripta, um recipiente cheio de partículas fosforescentes, uma série de fenômenos elétricos deslumbrantes, dez tormentas artificiais, uma doce melodia napolitana e um raio letal. Esses são os dois personagens que chegam mais perto. Como se escorresse, o halo de ironia e fracasso que envolve o desenlace das tentativas ilumina também todas as demais, e nos mostra a lógica de inépcia, renúncia ou incapacidade que a experiência de morrer pelas próprias mãos tem quando quem a coloca em cena é Vila-Matas.
De fato, só são exemplares – ou seja: dignos de serem narrados – os suicídios impossíveis, os indefinidamente adiados, os mal-sucedidos, os esquecidos. Na verdade, o que se revela a Vila-Matas é a ideia do suicídio, ou melhor: sua possibilidade, essa faísca de mistério regozijante com a qual o projeto de um morrer original, ou tortuoso, ou sofisticado, ou cruel, acende uma vida apagada e a faz reviver, tornando-a tensa de energia, excepcional, apaixonante, como a corda de aço de onde os equilibristas nos fazem perder o fôlego. Interessa a Vila-Matas, hábil fabulador de “pulsões negativas” (deixar de escrever, desaparecer, não ser ninguém), o modo paradoxal como o suicídio se instala no coração de uma vida e lhe dá sentido, alegria e, inclusive, beleza.
A ideia de não conseguir se matar nos faz pensar em incapacidade, fraqueza, impotência radical. E, no entanto, é justamente essa impossibilidade que coloca os personagens de Suicídios exemplares em ação, que os enche de inspiração, humor, ansiedade, adrenalina.
Sofisticada ou impulsiva, ponderada ou captada no ar em um instante de tédio, a ideia do suicídio aqui nunca é um signo de derrota. É um princípio de potência: algo na vida range, se abre e começa a ser possível – algo desconhecido, que até então não tinha rosto nem forma, e que agora, de repente, parece exercer uma sedução irresistível – quando alguma das criaturas que povoam estas páginas se deixam possuir pela ideia de se matar. Isto é o bel morir segundo Vila-Matas: a deliciosa, a absurda toxicidade estética que um sonho de morte bem sonhado inocula na vida que foi chamado a ceifar. Daí que os contos de Suicídios exemplares sejam raivosos, volta e meia sangrentos, quase sempre extremos, mas nunca amargos nem sem esperança. Neles, o suicídio jamais é fruto de uma desistência; é a ideia na qual se encarna a Grande Vontade que anima toda a ficção de Vila-Matas: a vontade de viver uma vida diferente.
[Tradução: Livia Deorsola]
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