Lançado em: fevereiro/2010
artigos exclusivos
Livros de filmes de livros de filmes

Por Fernando Bonassi*
Nos acostumamos tanto com livros que viram filmes, que terminamos por acreditar que essa é uma via de mão única. Isso tem a ver com a idade e a quantidade de oferta da literatura, mais antiga e de produção mais barata do que a mobilização de recursos tecnológicos e/ou industriais do cinema contemporâneo (mesmo naquele dito de “baixo orçamento”). Ao mesmo tempo há a crença de que aquilo que funciona no papel, deve funcionar na tela... Muitos de nós conhecemos exemplos contrários, mas os produtores de cinema também têm sucessos para provar sua tese. Assim, até parece que só a literatura poderia “sugerir imagens” e o cinema... Bem, não é comum que ele se transforme em prosa ou poesia. Há exceções: François Truffaut escreveu a versão em livro do seu filme O homem que Amava as Mulheres (1977); Marçal Aquino concluiu seu romance O Invasor depois do filme pronto, e é certo que há mais para citar, mas não configura uma regra... A lista, no entanto, acaba de crescer com a publicação, pela da Cosac Naify, do infanto-juvenil Meu tio, de Jean-Claude Carrière, e do livro-imagem Na garupa do meu tio, de David Merveille, ambos inspirados pelo filme que Jacques Tati dirigiu em 1958.
Não é por acaso que este seja um filme descrito e homenageado pela prosa de um dos mais importantes roteiristas da história do cinema do pós-guerra e por um desenhista de “engenho narrativo”. Meu Tio, o filme, é talvez um dos melhores momentos de uma ideia de cinema que se queria universal, onde a criação e o encadeamento das imagens substituiriam palavras e barreiras culturais, comunicando de forma direta, leia-se “imagética”, o melhor dos sentimentos humanos. Bem, o cinema deu muitas voltas e em todas elas, marcou artística, moral e intimamente o destino dos espectadores que o presenciaram. Meu Tio, obra de encenação refinada, quase não precisa dos diálogos que dispõe, e parecem ter sido deixados ali apenas para mostrarem o quanto são inúteis e falsos nossos esforços de comunicação. Pelo poder de síntese do que mostra e narra através daquele Hulot “gauche na vida” o filme e seus livros convidam ao preenchimento verdadeiro de nosso espaço-tempo, a imaginar e buscar uma perfeição além deste mundo. Vejam o livro, leiam o filme...