Marcados

Lançado em: setembro/2009


Título do Livro

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A ética e a estética de Claudia Andujar




Novo livro da fotógrafa expõe a dupla face do contato dos índios com o homem branco e as marcas que disso resultam

Por Juan Esteves*

Um longo percurso geográfico – e espiritual – foi tomado pela fotógrafa Claudia Andujar desde sua saída, em 1944 , ainda aos treze anos, da cidade romena de Oradea, então sob o domínio húngaro, até suas fotografias dos índios Yanomami registradas entre 1981 e 1983, e sua publicação no livro Marcados, agora em 2009.

Depois de mais de sessenta anos, Claudia Andujar propõe, através de sua arte fotográfica, uma interpretação de sua herança paterna, revisitando o holocausto e seus desdobramentos, que nesta ínfima centelha temporal se unem aos índios Yanomami. Uma longa caminhada que ainda está longe de vislumbrar seu término, distante de encontrar seu entendimento e, talvez, sua paz.

As marcas começam em 1944 com a estrela de Davi, (o Mogen David) costurada nos trajes de seus pares, mais precisamente no peito deles, amarela e bem visível, a não deixar dúvidas. Deste tempo de crueldades restou um retrato de um colega da escola por quem se apaixonou, guardado por muitos anos. Peças que ainda reverberam na fotógrafa e que foram acolhidas ao longo de sua importante obra.

O retrato não sobreviveu até 1981, quando a fotógrafa acompanhou os médicos Rubens Brando e Francisco Pascalichio, da Comissão pela criação do Parque Yanomami, às entranhas da Amazônia brasileira. Era o tempo que ultrapassava o "milagre brasileiro" dos anos 70 e a ideia era criar uma sistemática de saúde que não permitisse reduzir as aldeias a alguns poucos indivíduos, como vinha acontecendo.

Os "retratos marcados" surgiram de anotações para um registro médico dos Yanomami. Era necessário identificá-los. Uma placa era pendurada no pescoço, como aqueles números de plástico antigos, iguais aos dos passaportes ou das fichas criminais da polícia. Uma nova identidade era criada para crianças, adolescentes, adultos e velhos Yanomami.

Na série de retratos Claudia Andujar não tenta exorcizar o método, muito menos justificá-lo. Para ela, tratava-se de um esforço na busca da sobrevivência destes seres humanos. Aquela mesma busca a que assistira nos judeus contemporâneos de sua infância. Um sentimento que desperta não só ambiguidade, mas uma digressão moral cujo papel na fotografia se torna extremamente importante.

Os Yanomami "marcados" de Claudia Andujar não estão no caminho da morte, como ela mesmo ressalta. Ao contrário, seguem o caminho da vida. O registro de um ato humanitário, que encontra anos depois um conceito estético que transpõe o registro documental.  A professora e escritora Stella Senra, em seu texto "O último círculo", ensaio que acompanha o livro, alerta para a raridade da relação entre postura ética e estética. Para a pensadora, a obra da fotógrafa é paradigmática nesse sentido.

O artista parisiense Christian Boltanski (que nasceu em 1944) em sua obra Le suisse morts (1990) ou em muitas outras em que ele se apropria de retratos fotográficos, relembra em sua sintaxe o holocausto. Neste caso, diz o artista, o retrato fotográfico se reporta sempre a alguém desaparecido. No sentido oposto, sem dúvida, o caráter ontológico suscitado pelos retratos de Claudia Andujar gera a questão proposta a priori pela fotógrafa: a preservação daqueles indivíduos. 

Nestes belíssimos retratos, Claudia Andujar nos proporciona uma síntese de uma grande história que, se às vezes adquire contornos trágicos, às vezes também nos devolve a crença na restauração da ordem natural. Também confirma que na relação intrínseca entre a arte fotográfica e a realidade, a subjetividade ora torna-se presente, ora ausente por trás de cada olhar. A questão da numeração de cada indivíduo – tão cara ao passado da fotógrafa – por suas mãos se transmuta da morte para a vida.

Estas alternativas fazem parte da dinâmica do processo determinado pela fotógrafa. Para Stella Senra, Claudia Andujar está "atenta ao modo como cada Yanomami se põe ou é posto diante da câmera, ao seu comportamento diante do dispositivo fotográfico". Mais adiante, ela também registra que a documentação e a ação fotográfica não se relacionam do mesmo modo, sendo o ato de fotografar uma "exigência da ação".

Neste aspecto, cada retrato se distancia do mero registro antropológico. Cada Yanomami se transforma em protagonista da obra da fotógrafa, assim como assume seu papel de importância ao se posicionar com atitude. Esta confere reverência, ora irreverência. Em alguns momentos expressam sua intranquilidade, para instantes depois revelarem até mesmo certa sensualidade. Podem exibir tudo, menos a indiferença diante da câmera.

O que realmente importa para Claudia Andujar é o "ser" Yanomami. Não há dúvida que a câmera fotográfica tornou-se uma prótese através da qual ela se manifesta, não com militância, mas sim como credo. Neste sentido, as detalhadas informações escritas pela fotógrafa nas oito páginas anexadas na edição constituem-se numa liturgia a ser seguida no acompanhamento de suas imagens.

Antonino, o protagonista de Italo Calvino no conto "A aventura de um fotógrafo" chega a uma conclusão: "Talvez a verdadeira fotografia seja um monte de fragmentos de imagens privadas, sobre o fundo amarrotado dos massacres e das coroações". Não há dúvida que alheio à ficção, o retrato fotográfico de Claudia Andujar é uma expressão maior deste relato. Que a sua colocação no tempo e espaço definido por ela balizam o comportamento do presente e do futuro.

Difícil não pensar em todos estes Yanomami retratados por Claudia Andujar como "fragmentos" de uma grande história que ela vem mantendo viva desde sua infância até os dias de hoje. E, não fosse por ela, a sempre juntar estes importantes pedaços de sua alma, certamente os mesmos não passariam de imagens amarrotadas e caídas no esquecimento.

*Juan Esteves é fotógrafo, editor e crítico de fotografia

Claudia Andujar relembra o primeiro encontro com os "marcados para morrer"

FOTOGRAFIA NA COSAC NAIFY
A vulnerabilidade do ser, de Claudia Andujar
Faces da floresta - Os Yanomami, de Valdir Cruz
Antropologia da face gloriosa, de Arthur Omar






Circunstâncias, por Claudia Andujar




[abertura do livro Marcados; Cosac Naify, 2009]

1944
Aos treze anos tive o primeiro encontro com os “marcados para morrer”. Foi na Transilvânia, Hungria, no fim da Segunda Guerra. Meu pai, meus parentes paternos, meus amigos de escola, todos com a estrela de Davi, visível, amarela, costurada na roupa, na altura do peito, para identificá-los como “marcados”, para agredi-los, incomodá-los e, posteriormente, deportá-los aos campos de extermínio. Sentia-se no ar que algo terrível estava para acontecer.

Em meio a esse clima de perplexidade, Gyuri me convidou para um passeio no parque. Foi uma confissão de amor. Só assim posso nomear seu desejo de andarmos juntos. Era algo que fazíamos guiados pela intuição. Tratava-se de um passeio somente para me dizer: “Frequentamos a mesma escola. Reparei em você. Você é especial. É bonita”.

Eu também o procurava, dia após dia, caminhando na rua, sempre na mesma hora. Sabia que o veria en passant. Sinto a emoção me apertar a garganta. Naquele dia de junho de 1944 decidimos nos encontrar e confessar nossos sentimentos.

O rapaz judeu estava marcado com a estrela amarela, o mogendovid. Ele tinha quinze anos, e eu, treze. Andamos emocionados, sem falar, olhando-nos furtivamente.

Sabia que algo importante estava acontecendo. Era o nascimento do amor. Sentia um formigamento na pele. No fim do passeio recebi um beijo tímido e silencioso, que apenas tocou minha boca. Lembro-me de ter ficado com os lábios ardendo por horas seguidas. Um amor, em circunstâncias tão especiais, a gente nunca esquece.
Ao sair com Gyuri, publicamente, sabia que estava desafiando o meu tempo.
Nunca mais o revi. Durante anos, guardei um retrato dele no medalhão que usava pendurado no pescoço.

1980
Quase quarenta anos depois, já vivendo no Brasil como fotógrafa engajada na questão indígena, acompanhei alguns médicos em expedições de socorro na área da saúde. A partir de 1973, durante os anos do “milagre brasileiro”, o território Yanomami na Amazônia brasileira foi invadido com a abertura de uma estrada. Com a mineração, a procura de ouro, diamantes, cassiterita, garimpos clandestinos, e não tão clandestinos, floresceram. Muitos índios foram vitimados, marcados por esses tempos negros.

Nosso modesto grupo de salvação — apenas dois médicos e eu — embrenhou-se na selva amazônica. O intuito era começar a organizar o trabalho na área da saúde. Uma de minhas atividades era fazer o registro, em fichas, das comunidades Yanomami. Para isso, pendurávamos uma placa com número no pescoço de cada índio: “vacinado”. Foi uma tentativa de salvação. Criamos uma nova identidade para eles, sem dúvida, um sistema alheio a sua cultura.

São as circunstâncias desse trabalho que pretendo mostrar por meio destas imagens feitas na época. Não se trata de justificar a marca colocada em seu peito, mas de explicitar que ela se refere a um terreno sensível, ambíguo, que pode suscitar constrangimento e dor. A mesma dor que senti por amor ao pisar na grama do parque, um amor impossível com Gyuri.

Ele morreu em Auschwitz naquele mesmo ano de 1944.

2008
É esse sentimento ambíguo que me leva, sessenta anos mais tarde, a transformar o simples registro dos Yanomami na condição de “gente” — marcada para viver — em obra que questiona o método de rotular seres para fins diversos.

Vejo hoje esse trabalho, esforço objetivo de ordenar e identificar uma população sob risco de extinção, como algo na fronteira de uma obra conceitual.

FOTOGRAFIA NA COSAC NAIFY
A vulnerabilidade do ser, de Claudia Andujar
Faces da floresta - Os Yanomami, de Valdir Cruz
Antropologia da face gloriosa, de Arthur Omar