O grande jogo de Billy Phelan

Lançado em: fevereiro/2010


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O grande jogo de Billy Phelan




Por Daniel Piza


“Os escritores brasileiros não sabem bater escanteio”, teria dito um que sabia, Nelson Rodrigues. A ideia por trás da conhecida frase é que uma literatura precisa de autores que saibam desempenhar certas funções práticas, que saibam dar continuidade aos lances narrativos de uma história, em vez de simplesmente empilhar fantasias ou confissões. William Kennedy, autor do famoso ciclo de Albany, sete romances ambientados na sua cidade natal, capital do estado de Nova York, joga neste time. É tão eficiente no escanteio quanto um Zico. Põe a bola onde quer, na cabeça do leitor, com o gol à frente.

Talvez por causa da adaptação feita por Hector Babenco em seu período hollywoodiano, com Jack Nicholson e Meryl Streep, Ironweed tenha se tornado a obra mais conhecida de Kennedy, especialmente no Brasil. Mas este O grande jogo de Billy Phelan é o melhor romance do norte-americano nascido em 1928.

Publicado em 1978, o livro flui como um jogo tenso, num encadeamento vigoroso de cenas, sem tempos mortos nem firulas. Billy é um exímio jogador. Vidrado em pôquer, boliche, turfe e tudo o que envolva sorte, ele atravessa os anos pós-Depressão com uma mistura de energia e resignação, sobretudo quando, subitamente, todas as portas da cidade se fecham para ele. Cenas de violência se sucedem, nunca como apelo superficial, mas para, de certa forma, se opor aos que querem “impingir a ideia de que a vida era organizada”. Desde a abertura, com a sequência do boliche, o romance é um retrato do caos.

Billy Phelan, tal o motorcycle boy de Francis Ford Coppola, poderia ser tudo, mas não quer ser nada. Kennedy, ex-jornalista esportivo, roteirista de filmes como Cotton Club, do próprio Coppola, conseguiu ser o que quis. Escreve como digno herdeiro de grandes nomes como Ernest Hemingway e Dashiell Hammett. Tudo é direto, seco, construído com descrições breves e ótimo ouvido para diálogos. O leitor segue Billy Phelan como ao craque em ação.






Em Albany, com William Kennedy




O nobre Sergio Flaksman, tradutor de O grande jogo de Billy Phelan, de William Kennedy, encontrou o autor norte-americano em Albany, cidade que foi o cenário para o conjunto de romances que valeu a Kennedy o Pulitzer e elogios de gigantes como Saul Bellow (”Os romances do ciclo de Albany são memoráveis, uma série de livros fora do comum”). Flaksman conheceu locais emblemáticos das vibrantes narrativas criadas por Kennedy e conta, no texto abaixo [publicado no caderno Prosa&Verso do jornal O Globo, em 6/02], detalhes do dia em que passou ao lado de Bill.


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Em Albany, um visitante desavisado pode levar algum tempo até perceber os encantos da cidade. Ainda mais se a visita começa em uma tarde fria de janeiro, com o rio Hudson, ao longo do qual corre o trem que me traz de NY, praticamente congelado.

Mas eu vinha percorrendo em pensamento muitas das ruas da cidade nos últimos meses, durante o processo de edição e tradução dos extraordinários romances do Ciclo de Albany, do grande William Kennedy. Não era um visitante desavisado, estava à procura da possível convergência entre a Albany real e o cenário fascinante dos livros de Kennedy.

Quando o táxi se aproximou do centro da cidade, as placas começaram a indicar nomes familiares: Pearl Street, Columbia Avenue, Chapel Street, e finalmente, a First Church, bela e austera igreja bem diante do hotel onde me hospedei por indicação do escritor.

Kennedy chega ao hotel às quatro horas dirigindo um Jaguar X 16 verde, em bom estado.

“Mr. Kennedy?”, pergunto.

“Call me Bill”

De carro, passamos pela antiga estação de trem; pelo trecho de rua onde Francis Phelan, protagonista de Ironweed, participa de uma batalha de rua entre grevistas e policiais; pelo lugar onde ficava um hotel, destruído por um incêndio, onde um casal de personagens se entrega a noites de amor em O grande jogo de Billy Phelan.

Está lá o Erie Canal, aberto no início do século XIX e crucial para o desenvolvimento da cidade, entroncamento do transporte, quase todo fluvial, entre a saída para o mar do porto de Manhattan e a fronteira agrícola que se desenvolvia então no Meio-Oeste. Parte dele cortava a cidade, e Kennedy fala sempre de suas eclusas e barragens (onde seu avô, conta agora, trabalhou como guarda de uma comporta), mas foi simplesmente aterrada e transformada numa rua. O canal continua a existir, mas contorna a cidade a uma certa distância.

Passamos pela rua da infância de Kennedy, onde ele aceita meu tímido convite para posar diante da casa que serve de inspiração para a residência de Billy Phelan e sua irmã no livro. Uma placa de bronze comemora ter sido aquele o endereço de parte da infância e juventude do escritor, inaugurada por ocasião do Pulitzer que Ironweed conquistou em 1984.

A Colonie Street, tão citada nos livros, não existe mais. Cortada por uma série de viadutos, foi reduzida a dois ou três becos muitos separados uns dos outros.

Depois de mais um ou dois locais onde tento exercitar uma arqueologia imaginária minimamente equivalente à do escritor, Kennedy e a mulher me levam ao ponto alto do passeio: o Bar Paradiso, onde foi filmada a famosa sequência de Ironweed, de Hector Babenco, em que Helen/Meryl Streep canta “He’s Me Pal” para os presentes, em homenegem a Francis/Jack Nicholson. Kennedy fala dos dois como de bons amigos.

O bar é uma pérola art nouveau muito bem conservada, repleto de mementos das filmagens, e só ficou aberto naquela tarde/noite porque o dono, Matt, ex-jogador de beisebol do time da cidade, sabia da nossa vinda e estava à espera. Os lustres e as janelas de vitraux são lindos. O balcão, majestoso, é de carvalho com um trilho de metal amarelo para apoio dos pés. As paredes estão cobertas de fotos, desenhos e cartazes, na grande maioria celebrando Ironweed.

Dali, já noite fechada, fomos à casa que Kennedy mantém na cidade, na Dove Street, e que por sua vez é fonte de histórias infinitas. Foi o endereço onde “Legs” Diamond -- o maior gângster de Albany na década de 1920 e personagem do primeiro romance de Kennedy passado em Albany, intitulado justamente Legs -- acabou assassinado pela polícia em 1931.

Vou à estante e me deparo entre outros com Kurt Vonnegut Jr., J. Hunter Thompson (grande amigo da vida inteira de Kennedy), Tolstói e Borges, de quem Kennedy fala com intensa paixão. Comenta sobre o romances brasileiros que leu e criticou quando escrevia resenhas para sobreviver (Avalovara, Tereza Batista, As Meninas); lembra dos encontros que teve no Brasil, em 1986, especialmente com Rubem Fonseca e Nélida Piñon, de quem fala com grande carinho. Tenta se lembrar do nome de Dalton Trevisan (“aquele autor de contos minimalistas que vive meio recluso numa cidade que não é o Rio nem São Paulo”), que acha “assombroso” e lhe foi apresentado pelo tradutor para o inglês, o grande Gregory Rabassa, de quem era amigo, assim como de García Marquez (com quem aliás esteve em Cuba) e tantos outros gigantes.

A noite vai longe. Kennedy é um contador incansável de histórias que se desdobram e se bifurcam numa memória que só falha nos nomes próprios, sempre na presença simpaticíssima de Dana, mulher que Kennedy conheceu nos seus anos de Porto Rico e com quem está casado há mais de 50. Um homem caloroso, generoso e genuinamente modesto, dono de uma obra espetacular. Uma amizade que me honra mais do que sei dizer.