Lançado em: julho/2010
artigos exclusivos
A casa azul
Por Marcelo Cunha Bueno*
O viajante está logo ali, bem pertinho, quase em nós. Modesto, como todo viajante, se transforma em lugar, em olhares, em paisagem. Como um modesto viajante, aproxima seu sonho à natureza, se explica e se refaz nela. Ao sussurro do mar, sua viagem tenta ser morada – local que só se habita se o abraçarmos de corpo e alma. Abraçou, pintou e criou um mundo-lar. Então, a viagem dele, agora, é habitar.
O livro de Anne Herbauts conta, em traços sensíveis, os percursos entre o mundo exterior e interior de Modesto. Linhas que nos fazem pensar sobre o nosso caminho, as nossas escolhas. Afinal, encontrar um lugar depende de como vemos – e somos vistos – pelo mundo. A seleção de palavras cuidadosas nos insere na trama poética entre imagem e paisagem literária. Viver, nesse lugar, é estar de passagem, se entregar à viagem.
*texto originalmente publicado na quarta capa de A casa azul
O que se disse naquela noite...

Tradução: Dorothée de Bruchard
[Entrevista realizada pela jornalista Véronique Soulé em 6/10/2005]
La Joie par les livres [Alegria através dos livros] e Véronique Soulé nos propõem descobrir esta noite o universo de Anne Herbauts e sua forma de trabalhar.
Da publicação de seu primeiro livro, Boa [Jiboia] em 1997, já pela Casterman, passando pelos livros da coleção Les Albums Duculot – que hoje parece lhe ser reservada –, por três histórias em quadrinhos na Éditions de L’an 2 e pelas colaborações com Esperluète, fica a pergunta: será que Anne Herbauts, ilustradora belga, só trabalha com editores belgas?
O certo é que tudo em seus livros faz sentido: a relação texto-imagem-suporte livro, a oralização da obra etc. Ao longo de seu profundo e demorado trabalho de concepção, todos esses elementos se entrelaçam o tempo inteiro. Como ela trabalha?
Quando realiza um livro, Anne pensa em muitas coisas ao mesmo tempo. Ela sente que é, antes de mais nada, uma autora-ilustradora e, no momento, acredita que não conseguiria fazer uma coisa sem a outra, precisa de imagens para escrever e precisa de um texto para ilustrar: “Quando escrevo, escrevo imagens e ponho palavras em imagens”. Prova disto é sua bibliografia: ela ilustrou poucos textos de autor. Seja como for, ela acredita que ainda está aprendendo e não pode ser categórica acerca deste princípio de criação, talvez tudo seja apenas uma questão de ajuste.
A temática de seu trabalho é a fronteira: “Minha linguagem nasce do choque entre o texto e a imagem”. Aliás, sua obra talvez se situe justamente aí, nesta interseção. Em seus livros, ela procura falar do indefinível, do tempo, da tristeza... Essas coisas tão difíceis de colocar em palavras. Todos os seus livros giram em torno desta temática: “Estou sempre refazendo o mesmo livro”.
Anne Herbauts tem trabalhado sobre a questão da linguagem. Sua última obra, a história em quadrinhos L’idiot [O idiota] (Éditions de l’an 2, 2005) põe em cena uma personagem gaga. “Por isso é que hoje estou me sentindo tão à vontade para gaguejar!”, ironiza a autora.
A questão do suporte é, desde o começo, importante e presente em seu trabalho, e se torna mais evidente pelo fato de experimentar suportes variados – vídeo, animação etc. – explorando outros modos de criação. Sendo assim, segundo ela, é sempre fundamental se perguntar por que dizemos alguma coisa através do livro e não de outro suporte. A imagem criada para um livro é feita para ser reproduzida – não é pintura ou desenho – e colocada em relação com outras imagens. “O livro é 3D, e há ainda uma quarta dimensão, o tempo”, explica. A verdade é que em suas obras é impossível ver e compreender tudo na primeira leitura; é preciso reler e reler outra vez para descobrir novos detalhes e novos significados.
O livro como objeto em si tem sido, cada vez mais, a temática da pesquisa de Anne Herbauts. As páginas em branco são frequentes em sua obra, e remetem ao próprio livro, assim como as páginas pretas – por exemplo, de sua versão de Alice no País das Maravilhas. Elas só fazem sentido dentro de um livro, na relação instituída com o objeto livro; não significariam nada, por exemplo, numa exposição de originais de livros-ilustrados. “Para mim, o espaço oferecido por este objeto é um espaço de brincadeira e experimentação, e também de liberdade”.
Alice no País das Maravilhas
Falando da experiência de ilustrar Alice, Anne contou que a Éditions Casterman lhe pediu para ilustrar um grande clássico. Ela escolheu este, obra que lera na adolescência e cujo material lhe parecia ser maleável, repleto de jogos de palavras, de questionamentos. Já de saída, colocou-se o problema da língua, inglesa, que ela não domina. Ora, para ilustrar, ela precisa “destrinchar” o texto, e a tradução lhe soa como uma perda, “um caminho já trilhado”. Foi com a irmã, residente em Londres, que ela se embrenhou numa nova tradução do texto, a qual lhe permitiu apropriar-se de todo aquele material. Uma aventura nem um pouco simples, sendo Alice um monumento da literatura, intocável. “Era como se a estátua de Lewis Carroll se erguesse diante de nós e a gente fosse dando pequenos golpes de enxada até só sobrar um amontoado de material, com o qual poderíamos, aí sim, começar a trabalhar”.
Anne Herbauts parte da seguinte constatação: Alice é uma personagem que existiu, é uma heroína com forte presença que se move num mundo imaginário – e, portanto, sem existência. A ilustradora propôs, então, suas próprias regras de leitura para Alice no país das maravilhas, regras que irão inverter tais pressupostos. Abrir o livro de Anne Herbauts significa aceitar que o mundo imaginário é a realidade e, portanto, Alice não existe. Aliás, você por acaso vê Alice na capa do livro? Anne Herbauts deixa claro, porém, que não foi fácil propor esta leitura à equipe da Casterman, o que não nos surpreende.
Lewis Carroll viajava pouco, e para alimentar o mundo imaginário de Alice frequentou assiduamente o museu de Oxford. Anne repetiu essa experiência e efetuou pesquisas museológicas nos museus de Oxford e de Bruxelas a fim de enriquecer seu “vocabulário visual”. Em Alice, é preciso saber, no mínimo, distinguir uma lebre de um coelho...
A autora nos apresenta sua leitura da imagem de capa da obra: a imagem representa os membros do julgamento – que se dá no final da história – convocados pelo coelho branco e, de certa forma, convidados a entrar na história. O livro, percebe-se, constitui um círculo. Prova é a personagem da contracapa que, atrasada, sai de dentro dele. As páginas seguintes foram concebidas por Anne Herbauts como um convite a entrar “dentro” do livro, “dentro” da história. A primeira ilustração tem uma moldura, como um quadro. Assim, explica a ilustradora, não entramos “dentro” da imagem, e sim “sobre” a imagem – sobre o que é uma imagem. As ilustrações seguintes são a fundo perdido, já penetramos na história. Lembremos aqui que, para ela, Alice não é, não existe. Alice nasce da surpresa de avistar o coelho branco. “Ah” se apresenta em letras maiúsculas. Alice não passa de um “A” nesse início de história, ela tem forma de “A”. Lembremos também que a página é o mundo imaginário. Assim, quando Alice se encontra presa na casa do coelho branco, depois de ingerir uma substância que a fez crescer, ela esbarra na borda do espaço página – não se faz necessário representar a casa do coelho.
Este é então o procedimento concebido por Anne Herbauts para nos fazer penetrar dentro da história – mas como iremos sair? A ilustradora pensou em tudo. Durante o julgamento final, a rainha, histérica, joga um tinteiro. A tinta preenche a página e nos lembra que, no fim das contas... Ela não passa de uma folha de papel. Já não estamos mais no mundo imaginário. Uma última ilustração, formalmente similar à primeira, ou seja, lembrando um quadro com moldura, nos permite sair do livro. Essa ilustração faz uma referência ao quadro A morte de Orfeu e conclui com o que poderia ser um dos temas centrais do livro, a morte de Alice, esclarece Anne Herbauts.
L’arbre merveilleux [A árvore maravilhosa]
Anne nos revela de que maneira esta história permite uma mise en abîme do próprio livro. A personagem principal é uma bruxa fazedora de histórias. Ela possui um fio mágico, um fio de histórias. No início da narrativa, esse fio é roubado, e jogado fora. Ao jogar fora “o fio da história”, os protagonistas se projetam para a frente. À bruxa, por sua vez, só resta rebobinar a história para descobrir os culpados. No final da narrativa, as personagens culpadas gostariam de sair do livro, fugir, mas não podem, porque então já não haveria história.
La Maison bleue [A casa azul]
O personagem deste livro procura tornar sua casa cada vez mais bonita, mas o que quer que ele faça os passarinhos que ficam sobre a casa sempre encontram algum defeito. Como calar o bico deles? Isso será possível graças ao livro. O herói pinta sua morada no céu, e só num livro é que se pode fazer isso.
Lundi [Segunda-feira]
A editora Casterman deu a Anne Herbauts liberdade total de concepção para esta obra. A ilustradora refletiu muito antes de se lançar no projeto. Temia a armadilha de uma demasiada liberdade formal, que poderia resultar na produção de um livro meramente gráfico, cuja história se tornasse secundária. Pediu a seu editor para usar sempre o mesmo papel, branco, diminuindo paulatinamente a gramatura ao longo das páginas, o que tornaria o livro “tátil”, também com a impressão em relevo. Tais limitações técnicas são refletidas na narrativa. Um papel fino é um papel transparente. Anne Herbauts levou em conta esse elemento e transformou-o num autêntico princípio narrativo. As páginas em transparência permitem uma projeção, permitem ver o que é passado e o que está por vir... A capa, recortada no centro em forma de casa, princípio formal, também faz sentido quando viramos a página e a casa desaparece.
O tema da obra é a perda e a morte, que realmente tomam corpo. “Neste livro, a perda sofrida pela personagem é representada pela perda da própria matéria do livro, o papel”, explica Anne Herbauts. Ao longo da narrativa, a neve encobre Segunda-feira até que esta desapareça, mas Segunda-feira continua presente “nas” páginas seguintes, bastando tocar a neve no papel – técnica da impressão em relevo – para senti-la. Na última página, surge uma nova Segunda-feira, um tanto diferente – a ser comparada com a Segunda-feira do início da história – e em seguida a primeira página do livro é reescrita, e o papel também readquire sua gramatura inicial. Tempo que passa, livro em círculo. Justificação total, significância extrema dos procedimentos técnicos utilizados.
La petite sœur de Kafka [A irmãzinha de Kafka]
Anne explica que o texto lhe foi proposto por André François. Pouco habituada a esse tipo de colaboração, confessa que foi muito difícil para ela conceber as ilustrações do texto, que acha muito bonito. Trocou muitas ideias com o autor. Releu Kafka. Achou que não iria conseguir. Perguntava-se o que acrescentar ao texto. Surgiu a ideia da supertintagem, deste excesso que iria sendo apagado. Mas não dava certo. Algo resistia. E, um belo dia, veio desbloqueio técnico, o trabalho deslanchou. Concebeu suas ilustrações como pausas em meio àquele texto que não queria desestruturar. Ela nos contou que, ao receber o livro pelo correio, percebeu um cheiro fortíssimo de tinta, devido à supertintagem, e ficou muito satisfeita. Mais uma significância do objeto livro e suas matérias-primas.
Animação e a questão do suporte de criação
A autora obteve uma bolsa para um trabalho experimental sobre narrativa. Há muito queria experimentar o trabalho com animação. Assim, escreveu uma história “para” este suporte específico. Em dois anos, produziu um filme de 8 minutos e 12 segundos, Et Jean s’est perdu dans ses pensées [E Jean se perdeu em seus pensamentos]. Ela se refere com humor a esse projeto tão singular, que cria uma estranha relação com o tempo e nos obriga a questionar a noção do tempo que passa. O filme narra o encontro entre Jean, um urso, um certo Senhor Colher de Chá infundindo seus pensamentos e um corvo tagarela e barulhento, cobrador de pensamentos.
La lettre [A letra, ou A carta]
Seu editor propôs que criasse um livro relacionado à animação La lettre. Anne Herbauts não havia previsto, durante a criação do filme, a complementaridade de um suporte livro. Não queria fazer o que ela chama de “livro embalagem”. O livro, portanto, não tem nada a ver com o DVD. É uma obra extremamente gráfica na qual se encontram fotografias de objetos presentes no filme – objetos estes que foram o ponto de partida para a criação do livro.
O papel do editor na criação
Véronique Soulé nos lembra a relação especial que Anne Herbauts mantém com seu editor e lhe pergunta sobre o papel deste último em seu trabalho de criação.
A ilustradora explica que Arnaud Delacroix, seu editor, era um dos membros do júri da Academia de Belas-Artes de Bruxelas, onde ela estudou. Foi assim que ele conheceu seu trabalho e a convidou para colaborar nos livros-ilustrados Duculot. No início de sua colaboração, o livro Que fait la lune la nuit [O que faz a Lua à noite] (1998) foi muito bem-sucedido, o que a fez temer que tornassem a lhe pedir o mesmo tipo de trabalho. O livro seguinte foi Pataf a des ennuis [Pataf está com problemas] (1999), que nada tem a ver com o anterior, em formato pequeno, produzido em computador, e que não deu certo. Ainda assim, continuaram lhe dando muita liberdade. Cada um de seus livros que dá certo significa a conquista de um pouco mais de liberdade para os seguintes.
Anne gosta do envolvimento de seu editor. Ele é muito atento à redação e a ajuda a dar mais leveza a um texto que ela, às vezes, acha tagarela demais. Ele não interfere na imagem. O fato é que ela continua trabalhando com ele, embora ele não esteja mais na direção dos livros-ilustrados, e sim das HQs.
A relação com uma editora é algo complexo. São muitos interlocutores para convencer. O acompanhamento da produção de um livro pode ser exaustivo e o resultado pode às vezes ser frustrante, como foi o caso de Silencio, cujo papel absorveu a vivacidade das cores.
A história em quadrinhos
Anne confessa que hoje procura evitar falar sobre HQ. De fato, embora o seu discurso acerca do livros ilustrados seja muito estruturado, quando se trata de HQ é tudo diferente: “Há na HQ algo mais pessoal e as coisas são feitas mais por instinto”. As possibilidades de narrativa oferecidas por esse suporte lhe parecem ser infinitas: “Dá para se perder”. Anne Herbauts explica que na HQ a ação se situa no entrequadros, de modo que o que acontece não é desenhado. “Tem a ver com pontuação. Os espaços em branco são como silêncios, eles mostram respirações”, acrescenta. A HQ possui, portanto, um tempo bem diferente daquele do livro ilustrado.
Vague [Onda]
Esta HQ propõe uma experiência. Através da repetição da cor azul, ela cria uma memória, que se apresenta como de restos de frases.
Par-delà les nuages [Para além das nuvens]
Este livro foi inspirado pela arquitetura dos postes de eletricidade nas montanhas, assim como pelas estrias visíveis na superfície das rochas. Nessa história em que o mundo se encontra em declive, o sonho dos homens é se mover numa superfície plana. A única solução parece ser a de ir além das nuvens para ver como é o mundo...
Autoportrait [Autorretrato]
Compõe-se de doze estampas mostrando que ela não consegue fazer seu autorretrato.
L’idiot [O idiota]
Outra forma de experimentação que Anne acalentava desde muito tempo vem concretizar-se no projeto L’idiot. Trata-se de uma história em quadrinhos e de um filme experimental, dois suportes distintos formando uma obra, e concebidos como uma tela.
O livro-ilustrado e o público jovem
Anne Herbauts concebe o livro como um todo, e jamais se pergunta qual é a idade de seu leitor. Esta é, a posteriori, uma tarefa do editor. O livro ilustrado é para ela uma forma específica de narrativa, porém não particularmente destinada a um público jovem, talvez até mais para adultos que queiram permanecer jovens, ironiza. Na verdade, cada qual irá abordar a obra com a linguagem que lhe é própria. Para além da questão do leitorado, o livro ilustrado é um espaço de liberdade e experimentação. Quanto à questão da narrativa, Anne Herbauts acrescenta: “Acho que sou péssima para contar histórias. A palavra contar não combina comigo”.
A técnica
Anne Herbauts utiliza técnicas diversas. Cada uma constitui um meio expressivo, um vocabulário específico: “Pego todos esses meios expressivos e procuro conversar com eles”. Quando a gente desenha, há sempre uma parte da personagem que está correta, ela explica: “Quando a gente refaz esta personagem, a mão já conhece o caminho e isso se faz sentir no traço”. De modo que ela tenta encontrar um equilíbrio entre um desenho “mal feito” que traz alguma fragilidade, uma emoção correta, e um desenho “bem feito”, menos sincero e correto.
A autora cita alguns livros produzidos com diferentes técnicas: Pataf, de que ela gosta muito, feito em computador, cuja técnica infográfica é bem visível; Silencio, em que ela procurou chegar a um “ruído visual” mediante uma técnica de colagem, de enchimento: “O branco está na imagem, o branco está na escrita, o silêncio está nas frases”.
Para Anne, a produção técnica dos livros é rápida, de quinze dias a um mês, porque se sente impaciente para ver o resultado. Ela não faz esboços, produzindo diretamente as ilustrações. Mas a concepção prévia de um livro pode ser demorada, levar até dois anos: “Antes de passar para a escrita é preciso deixar decantar tudo isso”.
A ilustração de livros de bolso
Anne Herbauts ilustrou Amanda Chocolat, de Bernard Friot (Milan, 2004). Aceitou este trabalho porque gosta do universo de B. Friot e do conceito da coleção, que propõe três finais diferentes para cada história. Ela procurou seguir e expressar este conceito em suas ilustrações, mas era bem complicado num formato tão pequeno. Ela então resolveu brincar, e descobrir novos procedimentos gráficos provocantes. Até tentou, em vão, incluir chocolate na página ilustrada...