Lançado em: agosto/2008
artigos exclusivos
Leia trecho de "História do pranto", de Alan Pauls

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Nessa mesma noite, para não ir muito longe, enquanto se dirigem ao “pub”, ele, em parte para pô-lo à prova, em parte porque fica indignado quando depara com um aspecto de seu pai que sempre se empenha em tentar esquecer, pergunta-lhe como é que o cantor em pessoa o convidou para o show, por quê, na qualidade de quê. E só lhe pergunta isso porque é mais forte que ele, porque na verdade não consegue evitar. Se pudesse, como o evitaria! Porque assim que faz a pergunta reconhece no rosto de seu pai o ar de satisfação e, ao mesmo tempo, de mistério, que ele daria tudo, tudo o que tem, para não ter de encarar. Mais uma vez, ele mordeu a isca. E enquanto se debate com o anzol incrustado no céu da boca, amaldiçoando-se diversas vezes por ter caído na armadilha, e não por imprevidência, porque sempre a detecta a léguas, mas por fraqueza, por curiosidade, até mesmo por inveja, seu pai solta um longo suspiro e ele entende exatamente o que é preciso entender: que se trata de uma “longa história”, “complicada”, “impossível de resumir”, porém uma história que nos minutos seguintes seu pai, com uma arte que ele nunca deixará de admirar, a tal ponto ela lhe parece específica, dá um jeito de fazer aflorar, em meio a um relato que multiplica os rodeios, as marchas e contramarchas, as reticências, uma série de termos inquietantes, “aparelho”, “linha clandestina de telefone”, “passaporte falso”, “Ezeiza”, que ficam flutuando nele como bóias fosforescentes, vestígios de um incalculável mundo submerso que já não consegue tirar da cabeça. Se ao menos ele falasse com clareza. [. . .] É justamente o caráter vago de seu relato, a imprecisão em que deixa se diluírem as datas e os fatos, as zonas confusas que não só não parece evitar como até fomenta, é tudo isso, que ele nunca sabe se deve atribuir a uma memória despreocupada, que desdenha os pormenores, ou simplesmente ao cálculo, o que lhe dá o que pensar. Será que ele fala assim, migalha a migalha, com a dupla intenção de satisfazer sua curiosidade e ao mesmo tempo de não comprometê-lo? Talvez a frivolidade disso que vê como uma relação de reverência servil, e que merece dele uma condenação inapelável, sem nuances, não importa se o personagem notório em questão é admirável ou indigno, uma eminência ou o último zero à esquerda, um gênio ou um idiota, porque entende que situa seu pai num posto particularmente baixo da escala humana, não passe de uma cortina de fumaça, de uma tela destinada a disfarçar um laço mais estreito, e também mais perigoso, que instantaneamente poria em risco quem a ele tivesse acesso.
Mas nessa noite vê o cantor de protesto aparecer no palco do “pub”, vê seu vulto vindo dos fundos avançar, alto e desalinhado, salpicado de aplausos e gritos mordidos, tanto que de repente fica difícil definir se o estão animando ou ameaçando, e acomodar-se com seu violãozinho na banqueta alta que instalaram no proscênio, vê como um facho luminoso disparado do teto o envolve de brilho e recorta sua cabeça cacheada e o contorno de seus óculos de míope, os dois achados mais persistentes de sua iconografia pessoal – além, é claro, de seu eterno sorriso, tão inseparável de seu rosto que mais de uma vez o atribuíram a uma forma benigna de atrofia muscular –, intactos, todos, apesar dos sete anos de exílio, e de algum modo ressaltados pelo macacão branco que veste, um desses “carpinteiros” abotoados na altura do peito e que não são usados pelos carpinteiros, pois um assim nunca se viu mais gordo, e sim por mulheres grávidas, professoras de jardimde- infância e atores que, fartos de tentar a sorte em audições multitudinárias e de serem recusados, acabam por se asilar no mundo do teatro infantil ou no das comédias musicais, a única inovação, aliás, que parece ter trazido do moinho sem luz ou água potável em que dizem ter morado nos arredores de Madri, isso, o macacão branco, e uma canção que nessa noite não demora a cantar, novidade para todos e revelação total para ele, que ao ouvi-la sente estar compreendendo algo decisivo para sua vida – pois essa noite ele o vê, vê aquele que só conhece por capas de discos, fotos de revistas, apresentações de programas de televisão, e se pergunta, perplexo, quem poderia ter tido a ideia de que ele fosse tão perigoso que valesse a pena persegui-lo, tornar sua vida impossível, forçá-lo a deixar o país, apagar do mapa suas canções.
Entretanto, se tivesse de escolher nesse momento algo no mundo que fale dele, algo que o nomeie e que ele não possa evitar por mais que queira, porque o que nomeia é uma espécie de núcleo idiota que nem ele mesmo se atreveu ainda a nomear, escolheria três versos da canção que o cantor de protesto estreia nessa noite, três versos que, mais do que afetá-lo, o que implicaria que saem da boca do cantor e viajam pelo ar e agem sobre ele, parecem, na verdade, sair dele mesmo, sair sem viajar, porque ele, ao que se saiba, não abriu a boca, e tornar-se audíveis na boca do cantor, segundo esse milagre do credo populista que reza que o autor de tudo, incluídos, naturalmente, os três versosestréia nos quais nessa noite ele, como os moribundos, vê desfilar toda sua vida, é o povo, ou seja, o público, sendo os artistas, no máximo, meros médiuns, porta-vozes orgulhosos da mensagem que o povo os elege para transmitir – mas para quem? Transmitir para quem, se eles são ao mesmo tempo os emissores e o público, e se além deles não há mais ninguém, ninguém digno, ao menos, de ouvir essa mensagem?
Não que não se faça essa pergunta. Ele a faz, mas é mais forte e mais o arrasta o outro, o modo com que os três versos da canção, que canta pela primeira vez em sua cidade, em seu país, nos quais, como confessa antes de executá-la, não deixou de pensar enquanto a compunha, acendem a verdade que ele guardava secretamente gravada. Hay que sacarlo todo afuera / Como la primavera / Nadie quiere que adentro algo se muera. Ouve esses versos e descobre qual é a sua causa, a causa pela qual milita desde que faz uso da razão, desde essa idade em que as crianças ficam desesperadas para falar e ele, por sua vez, para escutar, e a descoberta o inunda de uma espécie de terror maravilhado, tão desconcertante e novo, por outro lado, que perde o resto da estrofe, e só presta atenção nela quando o cantor, totalmente fiel à forma canção, repete-a logo depois com uma ou duas medidas a mais de brio, encorajado pelo eco favorável que viu ter colhido da primeira vez, e pelas palmas que antes, embora entusiasmadas, só irrompiam no final de cada canção, no máximo mordendo seus últimos acordes, e que agora se atrevem a acompanhá-la. Vamos, contame, decime / Todo lo que a vos te está pasando ahora / Porque si no, cuando está tu alma sola, llora / Hay que sacarlo todo afuera / Como la primavera / Nadie quiere que adentro algo se muera / Hablar mirándose a los ojos / Sacar lo que se puede afuera / Para que adentro nazcan cosas / Nuevas, nuevas, nuevas, nuevas, nuevas.
Entende tudo. Talvez seja o grande acontecimento político de sua vida: isso que lhe revela a verdade da causa pela qual sempre militou é ao mesmo tempo e para sempre o que mais lhe revira o estômago. Daí em diante passa a chamá-lo de náusea. Daí em diante não pode ver nem ouvir nem se inteirar de nada relativo ao cantor de protesto, que, diga-se de passagem, aproveita a mudança de ar geral, vende seu famoso moinho e volta a se fixar no país e com o tempo larga o violãozinho e o macacão branco para se dedicar à caridade política, sem jamais abandonar o sorriso, nem os óculos de míope, nem o tom de cumplicidade simplista, sem rodeios, tão de “vamos tomar um café”, tão de “vamos bater um papo”, com que costumava entoar suas canções, sem sentir o impulso de queimar o jornal que publica a foto de seu rosto, de reduzir a pó o televisor que o mostra cantando num teatro de Cali ou numa praça de touros em Quito, únicos cenários, ao que parece, onde continua sendo cômodo para o “povo” pronunciar-se por seu intermédio, ou de moer de pancada a pessoa que acaba de proferir seu nome, não necessariamente para elogiá-lo, no meio da conversa. Daí em diante, tudo o que cerca o cantor de protesto, não só seu letrista e seus amigos próximos como seus contemporâneos, seus coetâneos, seus, como se dizia na época, “companheiros de estrada”, e também a época que o coroa, os valores que defende, a roupa que veste, tudo lhe parece rançoso, viciado na pestilência singular, tão tóxica, dessas iguarias que depois de certo limiar de tempo, quando se decompõem, irradiam uma fetidez bestial, difícil de imaginar mesmo nas coisas em que a putrefação é o único estado de existência possível. Naturalmente, seu pai logo embarcou na viagem – seu pai, a quem de repente escaneia de trás para frente, submetendo-o à varredura implacável de sua descoberta e de sua ira, a pior, ira de usado, de correspondente de guerra involuntário, de enviado especial à morte, como muito rapidamente começa a pensar.
Em todos e em cada um dos dias de sua vida foi enviado ao mundo da sensibilidade, ao campo de batalha da sensibilidade, onde tudo é “proximidade”, “pele”, “emoção”, “compartilhar”, “pranto”, e em todos e em cada um de seus dias, soldadinho obediente, ele regressou, e a algaravia com que seu pai o recebeu a cada vez, algaravia dupla se o viu voltar sem uma perna, tripla se voltou sem um olho e uma mão a menos, foi menos um prêmio do que um incentivo, o suborno necessário para garantir que no dia seguinte acordará cedo, vestirá o uniforme, partirá outra vez. Embarcam na viagem seu pai e, sobretudo, o véu úmido que lhe embaça os olhos toda vez que o vê voltar, com butim ou sem ele, do campo de batalha da sensibilidade, que parece adensar-se nos cantos dos olhos e quando está para se coagular, quando está prestes a tornar-se lágrima, zás, evapora – o mesmo véu de umidade, aliás, que seu pai, com o passar do tempo, faz brilhar como num passe de mágica em seus olhos, toda vez que ele está prestes a fazer alguma objeção, ir a fundo num problema que prefere esquecer, pôr em evidência o que sua estupidez o impede de ver, e que de repente embaça seus olhos – “embaça”, palavra que passa a detestar, ligada que está ao “café”, ao “calor” de um café no inverno, aos “apaixonados” que “desenham” um “coração” no “vidro embaçado” do “café”, ou seja, à repulsiva galáxia onde continua reinando o cantor de protesto – e, além de protegê-los, amansando-a, desativa no ato a ofensiva que o ameaça. Vamos, contame, decime. Mas vamos para onde? Conte-me o quê? Me diga, quem?
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[Tradução de Josely Vianna Baptista]