Lançado em: novembro/2008
artigos exclusivos
Fragmentos de "Melanchta"

[Tradução de Caetano Veloso*]
Cada uma como pode
Rose Johnson fez com que fosse muito difícil o nascimento do seu bebê.
Melanctha Herbert, que era amiga de Rose Johnson, fez tudo o que uma mulher podia fazer. Ela cuidou de Rose, e foi paciente, submissa, tranqüilizadora e incansável, enquanto a amuada, infantil, covarde e preta Rose grunhia e gritava e uivava e fazia de si mesma uma abominação e como um simples bicho. Rose Johnson era descuidada e negligente e egoísta, e quando Melanctha teve que sair por alguns dias, o bebê morreu. Rose Johnson gostava bem do bebê bastante e talvez ela apenas se esquecesse dele um pouquinho, de qualquer modo a criança estava morta e Rose e Sam, seu marido, sentiram muito, mas aí essas coisas eram tão freqüentes no mundo negro de Bridgepoint que eles, nenhum dos dois, pensaram nisso por muito tempo.
Rose Johnson era uma negra realmente preta mas ela tinha sido criada por gente branca como se fosse a própria filha deles.
Rose ria quando estava feliz, mas ela não tinha a risada larga, abandonada que dá esse morno brilho dourado ao sol dos negros. Rose nunca ficava alegre com aquela ilimitada e terrena alegria dos negros. A sua era apenas uma risada comum, qualquer risada de mulher.
Rose Johnson e Melanctha Herbert, como muitas duplas de mulheres, formavam um par curioso para serem tão amigas.
Por que a sutil, inteligente, atraente, meio-branca Melanctha Herbert amava e se dedicava e se rebaixava para servir a essa ordinária, decente, amuada, comum, infantil e preta Rose, e por que essa amoral, promíscua e desajeitada Rose se casou – e isso também não é muito comum – com um homem bom dentre os negros, enquanto Melanctha, com seu sangue branco e atração e seu desejo de ter uma posição direita, ainda não tinha se casado de verdade. Às vezes pensar em como seu mundo era feito enchia a ardente e complexa Melanctha de desespero. Ela se perguntava, freqüentemente, como é que ela podia continuar vivendo quando era tão triste.
* Publicado originalmente na Código 8, Salvador, Bahia, 1983