Vidas novas

Lançado em: dezembro/2009


Título do Livro

artigos exclusivos


Ingo Schulze cria a grande obra fáustica da contemporaneidade




Por Marcus Mazzari*

A recente história alemã tem a sua assinatura na palavra Wende. Significa “virada” e ganhou novo relevo com os acontecimentos em torno da queda do Muro de Berlim em 9 de novembro de 1989. Eis o assunto deste romance que veio para conquistar seu lugar na literatura mundial.

Vidas Novas
remete à história contemporânea, mas sua forma se prismatiza pelo velho romance epistolar: entre janeiro e julho de 1990, Enrico Türmer narra à irmã Vera e ao amigo de infância Johann, em cartas pontilhadas de sugestões eróticas, suas atividades na pequena cidade de Altenburg, foco concentrado da derrocada do socialismo real; já nas cartas à fotógrafa Nicoletta Hansen, distante donna mia que ecoa a Vita nuova de Dante, Enrico descortina sua infância e vida pregressa até as convulsões de 1989. Recolhidas e comentadas por um editor que ostenta o nome Ingo Schulze, as cartas articulam-se num vasto panorama épico desse período de importância crucial para o mundo de hoje.

O romance faz desfilar toda uma série de mutações: de regime, mentalidade, comportamento, linguagem etc. Soou a hora para os “vira-casacas” de todos os tipos, e também Enrico sabe alinhar-se com o espírito do tempo. Abandona os sonhos literários e funda um jornal, lançando-se ao mundo da ação: “Era no início a ação”, conforme já abrira Fausto sua tradução do evangelho joanino. Eis que numa noite úmida um forte cheiro de cachorro molhado invade a redação do jornal. Lá está o consultor de empresas Clemens von Barrista, acompanhado de um “lobo” caolho. Discreto avatar de Mefistófeles, “em toda parte e em lugar nenhum”, esse mago do capitalismo irá conduzir Enrico à construção de um império jornalístico numa província da nova Alemanha, e Enrico transmuta-se então em Heinrich, o que não representa mera coincidência com o primeiro nome do Fausto goethiano.

Romance epistolar, social, de formação ou ainda romance do artista: todas essas tradições são mobilizadas nesse extraordinário painel em que o verdadeiro protagonista é o dinheiro, equivalente universal de todas as relações humanas. A descoberta desta nova realidade vem permeada de um estranhamento que gera passagens de fino humor, como a impagável narrativa de uma excursão a Paris. Mas se este e inúmeros outros episódios estão completos em si mesmos, a fáustica “nova vida” que se abrira com a queda do Muro conflui para um final aberto, que Schulze antecipa logo no prefácio ao fazer o editor homônimo acenar com falcatruas, sonegações e a consequente fuga de seu Heinrich.

*Marcus Mazzari é professor de teoria literária na USP
e autor de
Romance de formação em perspectiva
histórica (Editora Ateliê). O texto acima foi publicado
originalmente na orelha do livro
Vidas novas






Os náufragos de Altenburg




Por Lançon Philippe, enviado especial a Berlim

[Texto publicado no jornal Libération, em 14/02/2008, por ocasião do lançamento de Vidas novas na França. Tradução de Flávia do Lago]

O leste, para nós, é uma falsa promessa. Em seu quarto livro – Vidas novas –, Ingo Schulze descreve alguns meses passados em 1990, quando, ao se levantar, vê que tal ano não existe mais. Estamos na Turíngia, em Altenburg, cidade com 95 mil habitantes. Lá está a Alemanha oriental e é lá onde se fabricam jogos de cartas. O amor que alguns sentem pela cidade está no fato de ela “não ter praticamente nenhuma chance, só um milagre poderá salvá-la.” Logo em suas primeiras cartas, o personagem principal de Vidas novas escreve: “Eu me admiro com o fato de as crianças não se tornarem cínicas. Só por isso elas já merecem que as amemos..” Podemos dizer apenas que o próprio personagem se torna um cínico, mesmo que não o seja. “As pessoas tinham mais sonhos que ilusões naquela época”, afirma Schulze. 

Vidas novas conta como um grupo de jovens da Alemanha Oriental funda um jornal no momento em que o país se vê dividido entre duas moedas, entre dois mundos. Naquela época, Ingo Schulze fez a mesma coisa. Dez anos se passaram, assim como muitas dúvidas e algumas leituras, para que as memórias se transformassem em um romance. Porém, “não se tratava mais de escrever um livro que poderia ser escrito em 1990, num estilo pós-dissidente. Tal atitude teria sido inadequada.”

Superego
Em 16 de fevereiro de 1990, com o apoio de alguns amigos, Schulze lança um jornal semanal de doze páginas em Altenburg: Altenburger Wochen Blatt, que custava 90 centavos e era distribuído na rua. Quatro vezes por semana ele ia até Leipzig, de trem, para corrigir, editar, monitorar a impressão. No segundo número, Schulze aparece em uma foto, aos 28 anos, já com o cabelo longo. Nesta ocasião ainda não escrevia literatura. Depois da adolescência, ele lembra: “pensei que não tinha nascido para escrever e, por isso, por oito anos, não escrevi mais nada além de artigos. Foi muito dolorido.”

Para tocar o jornal, que vendia em média 7 mil cópias, Schulze se reunia com banqueiros e publicitários, e passou a viver a vida de um pequeno empresário: “uma vida tão emocionante que os livros não eram mais de meu interesse. Eu estava perdido, tinha amadurecido, gastei meu tempo lutando por dinheiro. Naquela época, lembro-me apenas de ter lido Sleepwalkers, de Hermann Broch, que me trouxe a sensação física de movimento da História”.

Um estranho “Mephisto” assombrava este pequeno grupo de jovens sonhadores da imprensa. É um homem de confiança de um nobre da região. Empresário, democrata, excêntrico, serve como modelo para aquele que, em Vidas novas, tenha o nome de Clemens von Barrista. O personagem Barrista tem lábios leporinos, acne, e veste camisas brancas. Ao mesmo tempo, tem um caráter ambíguo, é cheio de excentricidades entusiastas; é o homem que apresenta seu cartão de visitas dizendo: “melhor muito do que nada”.

Mephisto andava ao lado de um lobo na cidade. Mas Barrista, não. Por que andar ao lado desse bicho? “No Fausto de Goethe, Mephisto aparece pela primeira vez sob a forma de um cão preto”, recorda Schulze. Fausto acreditava ver fogo em seus passos; Barrista suspeita o mesmo, é uma tentação do Ocidente. O que aconteceu com o homem que inspirou Schulze a escrever a história? “Eu perdi seu rastro em 1993. Disseram que ele ingressou na Academia de Ciências de São Petersburgo, e que se casou com uma princesa, na Geórgia”, ele diz. “No lado oriental, as pessoas desaparecem mesmo antes de se escrever um romance sobre suas vidas.”

Vidas novas traz à tona os soluços da transição de dois mundos por meio do personagem Enrico Türmer. O livro é composto pelas cartas enviadas à sua irmã, que vive em Beirute, a um amigo de infância que ele amava muito, a Nicoletta Hansen, uma fotógrafa da Alemanha ocidental que ele mal conhece, mas que se torna uma grande ouvinte. Uma nota de rodapé, escrita pelo autor, explica porque escolheu confiar em uma mulher praticamente desconhecida: “Dessa forma, T. contou e se justificou tendo em vista não apenas N. H. e sim todo o lado ocidental, uma postura bastante típica na Alemanha Oriental, naquela época.” O lado ocidental é o avesso do lado oriental e parece ser seu superego. Mas talvez seja o contrário.

O processo de transformação permite a Schulze suspender todas as decisões, todas as certezas: Türmer contradiz-se de uma carta para outra, manipulando a verdade, iludindo a si mesmo. Acabamos lendo as notícias que ele escreve no verso de suas cartas, assim como Schulze fazia em sua juventude: às vezes eles são a mesma pessoa. As cartas iluminam de uma outra maneira a consciência de um homem que queria ser escritor, mas que finge ter renunciado a isso. Flutuamos no vapor de palavras, “e é exatamente isso que eu queria, descrever um mundo de relações entre Leste-Oeste, onde há apenas palavras.” Aqueles que amam a verdade lerão isso em outra chave. Além disso, Türmer escreveu: “A verdade é inútil quando queremos convencer alguém!”

Nestas bonecas russas em forma de cartas, vemos detalhes específicos comumente encontrados nas obras literárias de Schulze: a restauração de um momento histórico por meio de pormenores do cotidiano, de gestos, diálogos, manifestações, movimentos de um vestido ou o brilho da embalagem de chocolate fabricado no lado ocidental. Por isso, a vida se torna tão pesada, quase efêmera: se a promessa nos falta, não foi por falta de tentativas para que ela se realizasse. Os personagens do oriente alemão olham as vitrines repentinamente cheias de produtos, conhecem as novas marcas que são oferecidas e dizem: “Devemos primeiro aprender sobre a civilização. Não conseguimos fazer isso antes, não por fraqueza de caráter, mas porque nosso sistema sensorial não estava adaptado.” A filosofia oriental é marcada por uma espécie de depressão bem sucedida.

Inspirações
Ingo Schulze levou anos para entender quais os livros ele queria fazer. Foi preciso, entre outras coisas, ir para os Estados Unidos. Em 1996, estabeleceu-se por alguns meses em Nova York em um pequeno apartamento no Upper East Side, e tentou pela primeira vez escrever histórias curtas sobre a Alemanha de 1990, que se transformaram em Histoires sans gravité, em que os personagens retornam de conto em conto, com perspectivas diferentes. “Até então, sempre que imaginava algum personagem da Alemanha oriental, suas características desapareciam na História.” A descoberta das novelas de Raymond Carver e Ernest Hemingway fez com que eles permanecessem vivos: “Olhava Nova York e, de repente, descobria Altenburg. Foi quando li Os assassinos, de Hemingway, que consegui imaginar um diálogo entre dois publicitários que vêm trabalhar no lado oriental da Alemanha.” A ideia das cartas encontradas e postas no abismo têm uma outra fonte: Le chat Murr, última obra-prima de Ernst Theodor Amadeus Hoffmann, morto em 1822: “É um dos meus autores favoritos.” A autobiografia do gato Murr é constantemente interrompida pelos manuscritos do jovem compositor Kreisler, que o editor (fictício) inseriu no livro por engano. Dois séculos mais tarde, este procedimento permite a Schulze alterar sua compreensão sobre 1990: uma incerteza tão triste quanto alegre. O romantismo alemão, cheio de ironia e de delicadeza deprimida, foi outra chave complementar. Assim como o gato Murr, o autor escreve que suas “páginas trazem as marcas do sofrimento, das esperanças e dos desejos que agitaram minha vida”.

[...]

Fábrica de aviões
Sua primeira experiência na Rússia tem a ver com sua história familiar. Seu avô materno era um engenheiro da aeronáutica que, em 1946, foi enviado ao norte de Moscou com sua esposa e filhos para trabalhar em uma fábrica de aviões. Lá eles ficaram por nove anos. “Tinham um quarto para quatro pessoas, mas era bem melhor do que os quartos russos.” Mais tarde, Ingo ouviu histórias sobre a Rússia: “Eu nunca as tinha usado em meus escritos, mas elas me marcaram muito.” A maioria delas foi contada por sua avó, natural da Romênia e uma grande leitora. Schulze tinha seis anos quando ela morreu. Em sua biblioteca, estão guardados os livros que ela leu, e também as obras completas de Herman Hesse que seu avô lhe deu em 1977, além dos livros que sua mãe trouxe do lado ocidental, para onde ela viajou pela primeira vez, em 1985, para visitar uma tia. “Eu tinha feito uma lista com os livros de Theodor Adorno, Max Horkheimer, Michel Foucault, Jürgen Habermas, mas também de gramática do grego antigo, que eu estudava naquele momento.” Vidas novas evoca essas experiências, assim como a primeira viagem “absurda” que ele e sua mãe fizeram para Paris – “a cidade de André Breton” – , de ônibus, no início de 1990. Em Leipzig, o aluno Schulze distribuiu cópias de Nadja àqueles que ele amava. “Foi, para mim, a sensação de distribuir um grande privilégio”.

Alguns textos de Vidas novas também relembram a experiência de Schulze durante o serviço militar. Ele cumpriu o serviço por dezoito meses durante a crise polonesa de 1981: “Foi muito assustador, ficamos com medo de invadir a Polônia e dar início a uma guerra.” Mas o que ficou marcado foi a atitude de um adolescente que se recusou a cumprir o serviço militar: “Não acreditava ser possível dizer não ao serviço militar. A coragem desse rapaz me chocou.” No romance, ele o chamou de Gerônimo. Na vida real, o rapaz tornou-se pianista de uma paróquia. O escritor foi ao seu encontro para ler as passagens do livro que tinham sido inspiradas nele.

Dedicatória
Certa vez Ingo Schulze foi a São Petersburgo, sem dinheiro, para ver o que era a glasnost. Isso aconteceu em janeiro de 1993, quando decidiu se tornar escritor. Ele enviou por fax uma espécie de diário de viagem a um amigo ilustrador, Helmar Penndorf, que lhe mandou um desenho inspirado em O nariz, de Gógol. E assim eles fizeram um livro.

O livro 33 Augenblicke des Glücks (33 momentos de ventura, 1995) levou dois anos para se concretizar. Traz o relato da vida de pessoas em São Petersburgo: toda a eficiência do Carver e Hemingway serviram à recriação do melancólico e burlesco mundo soviético.

O último livro de Ingo Schulze foi lançado no ano passado, um conjunto de histórias intitulado Celular. Um dos contos, “Calcutá”, dedicado a Günter Grass, conta como um homem, cujo filho foi atropelado por um carro, não consegue parar de falar em Calcutá. É apenas uma das formas de falar do acontecimento que o atormenta.

Em 1989, Grass publicou um livro sobre Calcutá, Tirer la langue. “Ele foi muito generoso comigo, me ajudou quando comecei a publicar”, revela Schulze, que perguntou a Grass se a dedicatória não o incomodava: “Faça o que quiser, resmungou o patriarca, aposto que é uma dedicatória irônica.” Ingo Schulze diz, com aquele sorriso tímido e seu bom humor característicos: “Para mim, não há nada de irônico. Algum tempo depois, Günter Grass afirmou que esteve na Waffen SS. De repente, minha dedicatória tornou-se, contra a minha vontade, sarcástica: Grass passou sua vida falando de Calcutá para não tocar nesse assunto. Sua sorte é que, por quase meio século, ninguém teve a ideia ou o desejo de investigar sua juventude.” Escrever é um sonho do qual os outros participam, muitas vezes. Ele começa e termina em Calcutá.