As vozes do sótão

Lançado em: outubro/2009


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Escavações no sótão da memória




Por Ronaldo Cagiano*

Em As vozes do sótão, terceira obra de Paulo Rodrigues pela Cosac e Naify, o autor tematiza a difícil relação de um personagem com o seu passado, numa prosa sofisticada, pontuada por uma linguagem contida e sem artificialismos, em cuja aparente simplicidade se esconde uma sutileza dramática e aguda sensibilidade poética. O leitor é conduzido a penetrar uma região conflagrada do espírito de um ser transtornado e solitário, que vive uma atmosfera quase surreal, em que muitas vezes a percepção se torna refém do delírio.
Estruturada em dois planos, a novela apresenta um narrador que se desloca constantemente, ao retomar o fio de uma memória escondida nas fendas de seu inconsciente. No primeiro, irrompem as lembranças de Damiano, protagonista atormentado por uma voz soturna e onisciente que se manifesta de forma intermitente como reverberação de sua infância. Em outro, a ação se passa em Montevidéu, onde vai tentar resgatar parte da história de sua mãe, vivendo situações e experiências tão avassaladoras quanto as de outros tempos.

Em suas aparições, a voz acaba por impor sua inevitável potência e direção na vida de Damiano, de modo que foi “ocupando espaço, tornando-se inevitável, a ponto de eu não dar mais um passo sem antes ouvi-la”, como confessa o narrador.

Nessa cumplicidade e simbiose com uma entidade sensorial, Damiano se entrega sorrateiramente aos seus ditames e essa influência – quase um pacto – acaba opor sobrepor-se, tornando-se companhia, ainda que insólita a relação, o que explicita uma dimensão extravagante do real.  E apesar do desconforto, sua dependência torna-se cada vez maior, na medida em que o “ouvinte” percebe que ela exerce um papel preponderante como espelho de seus dilemas, cascavilhando sua memória, vasculhando os escuros de sua alma e pensamentos e, por tabela, clareando os incômodos e ciscos existenciais jogados para debaixo do tapete de suas relações afetivas, familiares ou sociais, fonte de suas emoções e vivências nebulosas.

Damiano convive com essa voz como um promotor interno a acusar-lhe de seus pequenos delitos, como um eco dos acontecimentos que marcaram a sua vida e que provocaram tantas cicatrizes, culminando num acúmulo de medos. A “voz” apela para uma racionalidade e um distanciamento quase impossíveis de alcançar. E quando o peso de situações mal-resolvidas vem à tona por seu intermédio, ela atua como alerta ou anteparo, evitando desencadear outras reações, que seria incapaz de conter.

A “voz”, que de um lado desencadeia um acerto de contas doído com impasses tão sedimentado em sua (con)vivência  e outros entraves de relacionamento em tempos e lugares distintos, por outro se converte em instrumento revelador de recalques. E num penoso confronto com verdades e fantasmas, vai detonando uma profunda revisão interior em Damiano, convidando-o a “refletir sobre outras inquietações”, quando o “obrigava a mudar certas coisas” que lhe eram caras e até intransponíveis, mágoas acumuladas, como as que colecionava em anotações numa caderneta particular.

Das muitas escavações realizadas nos contrafortes e reminiscências da infância desse personagem e narrador angustiados, sobressalta a convivência com uma mãe  rigorosa e dura, que nos momentos de repressão, respondia-lhe com impaciência, impingindo-lhe a pecha de “estrume”. A palavra insolente acicata-lhe com veemência, é um ricochete íntimo que a entidade vocal traz a lume. E ela junta-se a outra terrível lembrança – a do episódio em que foi obrigado a subir de calças curtas ao palco da escola para receber seu diploma, porque o irmão Dagoberto negou-lhe o empréstimo das suas – feriu-lhe de morte os brios, representando um capítulo de humilhação e vergonha, que a “voz” continuamente traz à luz, como uma espécie de catarse necessária para vencer a emoção e o ódio que lhe provocam e desestruturam.

Do sótão da casa, onde Damiano repousava suas quinquilharias, entre elas a caderneta de anotações em que refugava seus pensamentos, demônios e ricochetes oníricos, emergiam outras vozes hibernadas, construindo um grande pomar de feridas. Feito um acicate, acuavam-no a uma auto-expulsão dos domínios desse território impermeável de sentimentos e angústias, e – como revela – “incitando-me a fazer coisas que em verdade não queria”. Coisas que representariam uma interdição da sua melancolia e a perturbação trazida pela “voz” seria essa intervenção no seu destino, capaz de deflagrar um novo momento e desencadear outras percepções, tanto de si como dos outros.

 Conselheira e impondo seus limites, a “voz” se amiudou, até estagnar de vez. Foi quando todo o histórico de ressentimentos de Damiano – por tanto tempo registrados na caderneta para que não explodisse com toda sua alta voltagem de ódio - exauriu-se, extinguindo-se as tormentas, abrindo caminho para um apaziguamento pela diluição dos motivos. Autor, narrador, voz e personagem se misturam para liquidificar tensões tão antigas e essa multiplicidade de papéis confirma a teoria de Walter Benjamin, para quem “o narrador colhe o que narra na experiência própria ou relatada”.

Em outro momento crucial, quando parte em viagem para Montevidéu, uma espécie de fuga geográfica e psicológica para amortecer a frustração de um relacionamento fracassado e frustrante com Nena, Damiano empreende um exílio e uma busca. Agora vai reencontrar parte de suas raízes na terra onde a mãe passou alguns anos da juventude, lugar a que ela referiu-se um dia ao irmão como o único onde teria sido feliz de verdade. Nessa jornada, lastreado nas informações do passado e das pistas de fotografias e da caderneta, dava asas também a uma antiga fantasia de menino: conhecer o nº 236 da Calle Mercedes e assistir a um jogo do Peñarol. É no Uruguai que se fecha esse ciclo, ao deparar-se com uma realidade tão desafiadora quanto a que viveu. Outros personagens e situações se intercalam, como fazer biscate numa alfaiataria e o envolvimento com uma dançarina de cabaré, resultando em experiências e nuances que acabam por suscitar a lembrança da “voz”, que reaparece sorrateiramente, impondo-lhe um peso sobre seus atos.

            Já sem a inquilina voz no subsolo da memória, que o levou a desatar os nós, agora é a manifestação da consciência despojada e lúcida de Damiano que se impõe. Ao assimilar, compreender e saltar por cima do abismo de seus revezes emocionais, ultrapassando a tênue fronteira entre o imponderável e o real, passa a viver uma outra vida, sem as amarras e algemas de seus traumas. Diante dos inevitáveis contornos da existência, está pronto para reescrever sua história sem as escoras do sótão ou as muletas da voz, metáfora de seu novo nascimento.

As vozes do sótão confirma e consolida o sentimento da crítica que, ao receber À margem da linha e Redemoinho, reconheceu em Paulo Rodrigues uma das vozes mais singulares e refinadas da literatura brasileira contemporânea.

 

 

*Ronaldo Cagiano é autor de Canção dentro da noite (poesia, 1997), Dezembro indigesto (Prêmio Bolsa Brasília de Publicações Literárias, contos, 2001) e Dicionário de pequenas solidões (contos, Ed. Língua Geral, 2006). Organizou as coletâneas Poetas mineiros em Brasília (Ed. Varanda, 2001), Antologia do conto brasiliense (Projecto Editorial, 2004) e Todas as gerações – o conto brasiliense contemporâneo (LGE, 2006).