Lançado em: julho/2009
artigos exclusivos
Sempé e Silverstein, mestres da leveza e do inesperado

Por Daniel Bueno*
Com Steinberg como referência, o francês e o norte-americano, conscientes do significado de cada traço, empregam sutileza e humor em seus desenhos, que unem, à perfeição, forma e conteúdo
Dois dos mais recentes lançamentos de literatura infantil da Cosac Naify trazem autores representativos do desenho moderno nas artes gráficas: o francês Sempé e o norte-americano Shel Silvertein. Ambos participaram, desde meados do século passado, de um processo de ruptura na cultura do desenho editorial, caracterizado por trabalhos de grande amplitude gráfica, com o emprego de síntese e maior integração entre forma e conteúdo.
Conscientes das novas possibilidades do desenho, desgarrados do realismo e da comunicação explícita e explicativa, os dois artistas têm em comum o uso criterioso de seus recursos gráficos: nada é empregado desnecessariamente. Nesse sentido, destaca-se o traço de linha fina e a sabedoria no uso do espaço branco. Mesmo quando Sempé envolve com sua peculiar elegância os pequenos personagens em amplos ambientes panorâmicos cheios de detalhes, ou Silverstein aplica cores sobre seu traço solto, há uma evidente justificativa, coerência e cálculo intencional no gesto. Em Sempé, surge ainda o uso recorrente de humor mudo, produto dessa busca por síntese e sutileza. E em Silverstein, a relação entre texto e ilustração é de complementaridade e enriquecimento mútuo, em desenhos fantasiosos que fogem da redundância ao que está escrito – pelo contrário, aderem à surpresa, ao inesperado.
Silverstein e Sempé, assim como muitos outros artistas gráficos, tiveram como referência importante o desenhista de origem romena, naturalizado norte-americano, Saul Steinberg (1914-99). Tendo como pano de fundo as experimentações das vanguardas artísticas do começo do século passado e seus desdobramentos nas artes gráficas, Steinberg se notabilizou pela maestria no uso de recursos de ilusão que destacam a expressão da representação, em desenhos metalinguísticos que evidenciam a capacidade de um elemento gráfico poder significar outra coisa, dependendo de sua relação com o restante do desenho. Ao conciliar tais recursos de ambiguidade com a rejeição ao acabamento virtuoso e gratuito, o artista criou um universo próprio caracterizado pelo desenho de linha fina depurado. Nele, qualquer elemento gráfico novo e inusitado, como uma impressão digital ou um papel quadriculado, aparece em contraste com o traço limpo, e se configura em “objeto de manipulação” ou “personagem” - sujeito a comentários sobre o modo como se apresenta ao mundo, seu estilo, sua condição enquanto criação do homem, como clichê etc.
Nesse panorama, tivemos desde as primeiras décadas do século passado alguns pioneiros – anteriores a Steinberg - do traço sintético e despojado como os norte-americanos da revista The New Yorker – para a qual Sempé colabora até hoje – Otto Soglow (criador de Reizinho), James Thurber e Al Frueh; e cartunistas italianos das revistas Bertoldo e Settebelo, como Giovanni Mosca. Surgem novas gerações de artistas gráficos imbuídos de uma postura moderna, em que o desenho mudo desempenha importante papel. Na França temos o romeno naturalizado francês André François, também influente; e Bosc, Chaval, Trez, Mose, cartunistas de revistas como a Paris-Match. Há também o belga Folon, os argentinos Oski e Quino, o inglês Ronald Searle, o francês naturalizado americano Tomi Ungerer, o americano Arnold Roth, o austríaco Paul Flora, e muitos outros. Alguns desses artistas, especialmente Steinberg e André François, viriam a ser influência decisiva para a geração de cartunistas brasileiros do Pasquim, que começa a adquirir maior evidência a partir da década de 1950, representada por Millôr, Ziraldo, Jaguar, Fortuna, Borjalo, Claudius, Caulos etc. Juntos a Sempé, Silverstein e tantos outros, interferiram no meio editorial de modo a dizer que apenas um desenho bonitinho não é o suficiente.
*Daniel Bueno é ilustrador e artista gráfico. Formado na FAU-USP, é mestre com a dissertação “O desenho moderno de Saul Steinberg: obra e contexto” (FAU-USP, 2007).
Participou do anuário da Society of Illustrators de NY (2004 e 2005), das publicações da revista 3x3 (2008 e 2009), e do Illustration Now 3, da Taschen (2009).
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