Lançado em: novembro/2009
artigos exclusivos
As perdas e os ganhos de Ingo Schulze

Berlim, novembro de 2009.*
Sempre perdi coisas bonitas e preciosas para mim, por exemplo canetas-tinteiro. Por muito tempo, não quis mais pedir nem comprar nada especial. Quando ganhava algo no Natal ou no meu aniversário ficava até contente, mas minha mulher e meus filhos percebiam que no fundo eu me sentia um tanto quanto chateado, pois pensava: “Ai, ai, se eu perder isso, não serei o único a ficar triste”. Pois, afinal, não podia dizer: “É melhor vocês me darem coisas que eu não tenho como perder”.
Há alguns anos, meus amigos me presentearam com um guarda-chuva deslumbrante. Era grande, preto – como um guarda-chuva masculino deve ser – e, além disso, tinha um cabo de madeira muito lindo. Como já era esperado, esqueci o presente várias vezes em restaurantes, lojas e até em um casamento, mas sempre o recebia de volta.
Certa noite, porém, pareceu-me que esses milagres tinham chegado ao fim. Pouco antes de adormecer, entrei em estado de choque: notei que tinha esquecido meu adorado guarda-chuva no metrô. Para mim, era evidente que jamais o recuperaria, afinal, qualquer um gostaria de um guarda-chuva tão bonito quanto aquele. Fiquei acordado me revirando na cama, pensando em como cuidava mal das coisas que amava. Tive sonhos ruins e acordei cedo demais, arrasado.
Finalmente, quando me levantei, o que estava lá, no canto, ao lado da porta de entrada? Sim! Arregalei os olhos: lá estava o meu querido guarda-chuva, exatamente do mesmo tamanho, preto, com seu cabo de madeira maravilhoso. Ele veio atrás de mim, achou sozinho o caminho de volta para casa! Então pensei que esta experiência poderia interessar a outras pessoas também, e por isso, escrevi uma história sobre um homem que sempre perde suas coisas, mas que, às vezes, as encontra em lugares que jamais imaginaria.
Se eu, criança, gostaria de ter lido esta história? Não sei ao certo, mas acho que sim. De qualquer forma, as belas ilustrações de Julia Penndorf teriam me agradado bastante.
*Carta escrita por Ingo Schulze com exclusividade
para a edição brasileira de Senhor Augustin