Meu vizinho é um cão

Lançado em: junho/2010


Título do Livro

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Meu vizinho é um cão




Por Adriana Lisboa*


Isabel Minhós Martins é uma escritora bem esperta. De um tipo bom de esperteza – que fique claro. Num texto curto como Meu vizinho é um cão ela consegue, em poucas páginas, surpreender não apenas o leitor pequeno ao qual o livro se dirige, mas também o leitor crescido, que vai gostar de acompanhar o filho (ou o aluno, ou o neto...) a bordo desse conto sobre semelhanças e diferenças, sobre quem é e quem não é normal.

De mãos dadas com o texto de Isabel caminham as ilustrações de Madalena Matoso, que consegue o que poucos ilustradores – só os melhores, os mais atentos – conseguem: não se reduzir a um comentário repetitivo à palavra, não “chover no molhado” e fazer mímica daquilo que o texto já está dizendo. Os bons ilustradores vão além e criam um contraponto, criam um mundo visual que complementa o mundo da escrita. Que caminha com ele, de mãos dadas. E ela leva isso ao risco máximo (e bem-sucedido) de acrescentar um dado a mais ao texto, no momento mais surpreendente – e mais bonito, dirão alguns – da história. Tudo isso com um traço original e forte, que se empresta a um mundo onírico e ao mesmo tempo bem contemporâneo (os prédios poderiam ser projeto arrojado de um arquiteto vanguardista).

Meu vizinho é um cão é narrado por uma menina que, de repente, vê alguns vizinhos esquisitos se mudando para o seu prédio, a começar por um cão que fuma cachimbo e toca saxofone. Mas serão mesmo esquisitos esses vizinhos, ou apenas diferentes dela? Eles aos poucos se mostram solícitos, simpáticos, bem humorados. Não convencem a todos os moradores, mas a nossa narradora sabe ver sob as superfícies e não questionar a liberdade que um cão tem de fumar cachimbo e tocar saxofone (ou ler seu jornal, onde as letras miúdas dizem, emblematicamente: “Vizinhos insatisfeitos. Os resultados de um estudo vêm confirmar o que já se previa: 76% dos brasileiros não gostam dos seus vizinhos e trocava-os de bom grado caso fosse possível”). Nossa narradora sabe que não faz sentido discriminar os recém-chegados à vizinhança somente porque eles latem, têm trombas ou olhos amarelados que brilham no escuro. Até mesmo porque o que será que esses novos moradores pensam dela e de seus pais?

A escritora e a ilustradora portuguesas juntam seus talentos para criar essa breve e divertida história que vai trazer sorrisos tanto aos pequenos quanto aos grandes leitores. E, espera-se, botá-los também para pensar.


*Adriana Lisboa é escritora. Seus livros já foram publicados em
Portugal, França, Estados Unidos, Itália, México, Suíça e Suécia.
Integrou, também, diversas antologias de
contos no Brasil e no exterior






Nos bastidores de Meu vizinho é um cão




Por Isabel Minhós Martins*


A génese deste livro surgiu sob a forma de encomenda: à Madalena Matoso apetecia-lhe ilustrar animais; a mim, que nunca tinha escrito nenhuma história com personagens de quatro patas para um livro, pareceu-me uma encomenda tentadora, para aceitar sem pestanejar.

Ruminei dias a fio. Se ruminarmos bastante, as ideias, mais ou menos enubladas, acabam por vir ao nosso encontro. Foi o que aconteceu com esta: uma tarde, no regresso a casa, avistei debruçado de uma varanda, um enorme cão castanho (não conheço raças, mas aposto que seria um boxer, um bulldog, algo assim). De pescoço levantado, as patas sobre o parapeito, o cão pareceu-me tão humano, tão dono do seu nariz, tão imponente ali olhando os comboios (o prédio ficava mesmo em frente à estação), que pensei: “vive sozinho naquela casa, só pode”.

O cão não tinha cara de ter dono, não tinha ar de quem espera pela ração ao fim do dia ou de quem aceita que decidam, por ele, a hora de ir à rua passear. Pareceu-me, naqueles breves segundos que o observei enquanto a fila não andava, que era um cão dono de si e da casa onde morava.

E, daí, a ideia saltou mais uns degraus: e se no prédio morassem outros animais? E se, no dia seguinte, fosse uma girafa a ler o jornal à janela? E se depois fossem pinguins, ursos, leões? E se, aos poucos, o prédio fosse tomado por animais?

Há tantas casas para alugar e tantos animais sem lar (ou sem habitat) que não me espantaria que as casas humanas fossem assim invadidas (na verdade, vendidas ou alugadas, afinal, ninguém disse que os animais eram “ocupas”).

A ideia avançou mais um patamar: e se, um dia, um humano qualquer quisesse alugar um daqueles apartamentos e os animais já não o permitissem?: “Um prédio de animais habitado por humanos? Que disparate! Cada macaco no seu galho”, diriam os animais, muito superiores e racionais.

Foi nesse momento que tudo se começou a misturar na minha cabeça: animais racionais com irracionais (afinal quais são uns e quais são os outros), relações de vizinhança e tolerância, territórios e fronteiras, pelos curtos e compridos, tamanhos S e XL no varal, música clássica e ritmos africanos…

Continuando a história: passei o texto à Madalena, as ilustrações foram tomando forma. Mas apesar de trabalharmos as duas frente a frente, só vi o trabalho de ilustração já quase pronto. E aqui explico melhor:

No Planeta Tangerina trabalhamos bem próximos uns dos outros, o que nos permite opinar, sugerir e perguntar, em “directo e ao vivo”. Essa proximidade traz grandes vantagens no processo de criação de livros pois não há cerimónias tolas e toda a preocupação é colocada no objecto final (e não no facto de termos de eliminar ou modificar partes do nosso trabalho). Mas também é verdade que respeitamos bastante o trabalho de autor de cada um (e não andamos a espreitar os ecrãs alheios de cinco em cinco minutos…). Esse respeito e essa confiança são fundamentais para que um álbum ilustrado resulte num objecto harmonioso e equilibrado.

Mais tarde, já depois de o livro estar em maqueta é que começámos esse árduo (mas entusiasmante) trabalho de polir aqui, temperar acolá, ajustar e reajustar esta ou aquela página.

Meu vizinho é um cão deu alguma discussão, não julguem que não.

Talvez pelo tema, e porque queríamos que o livro resultasse equilibrado, fomos assaltadas por um monte de dúvidas: não estaremos a dar uma imagem demasiado negativa dos pais? Não deveria ter o livro uma nota de esperança, um tom mais reconciliatório? Fizemos algumas mudanças, passámos a maqueta de mão em mão, passámo-la inclusive pela mão de psicólogos e educadores (outras raças que há por aí), pedindo opiniões.

Continuámos a “comadrar” (duas amigas a trabalhar juntas dá muitas vezes em comadragem), a levantar questões, a procurar soluções.

Algumas páginas acabaram por ser eliminadas e substituídas por outras; o texto foi também ligeiramente modificado em algumas passagens e cortado noutras (quando a voz da ilustração já diz o que é necessário, cortam-se as palavras).

Já mesmo no final, decidimos que os pais quase não apareceriam. Que a menina da história seria o elemento central do livro e que os pais seriam uma surpresa.

Para as guardas, subtilmente, reservámos a tal mensagem de reconciliação que sentimos faltar. Mas só os leitores mais atentos a descobrirão…


*Isabel Minhós nasceu em Lisboa, em 1974. Junto com Madalena Matoso,
fundou a editora Planeta Tangerina. É também autora de
Pê de pai, ilustrado por Bernardo Carvalho