Flores

Lançado em: junho/2009


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Fragmentos de vida na prosa de Mario Bellatin




Foto: Sérgio Fonseca
Mario Bellatin caminha por Paraty durante a Flip 2009

Considerado pela Magazine Litteraire um dos “vinte e quatro clássicos mexicanos de ontem e de hoje”, ao lado de obras de Juan Rulfo e Carlos Fuentes, Flores (2001) é a estreia de Mario Bellatin (1960) na Cosac Naify. Formado por narrativas curtas (todas com nomes de flores), que se relacionam, o livro narra fragmentos de vida de personagens solitários e ambíguos, como um cientista que descobre um fármaco que causa deformações físicas; um escritor que pesquisa formas incomuns de sexualidade; gêmeos que são encontrados sem braços nem pernas e adotados por uma poeta; um homem que tem especial atração por velhos, entre outros. Contadas de maneira seca e reticente, as tramas possuem uma violência implícita e potencial, em um mundo instável em que a anormalidade é a regra, e toda inumanidade, ao longo da leitura, torna-se humana. Em 2001, Flores ganhou o prestigiado prêmio Xavier Villaurrutia.

UM BUQUÊ VAZIO
Por Eliane Robert Moraes*

Toda literatura nasce de uma falta. Nem todo texto literário, porém, consegue sustentar essa falta. Os casos mais desastrosos são aqueles em que o autor se empenha em preencher o vazio, por vezes cedendo até mesmo às engessadas fórmulas da auto-ajuda. Ao contrário, em mestres como Tchecov, Virginia Woolf ou Kafka, é a própria falta que parece ganhar forma diante do leitor, ainda que seus traços estejam sempre em permanente estado de fuga.

A esses últimos se alinha a prosa seca e contundente de Mario Bellatin, de que Flores é perfeito exemplo. Já desde a estrutura, o livro se organiza a partir de um princípio de supressão: trata-se de um conjunto de fragmentos soltos, pequenos cacos narrativos que se introduzem, cada qual, a partir do nome de uma flor: “Rosas”, “Camélias”, “Gerânios”, “Trevos”, “Lírios”, “Copos de Leite”, e assim por diante. Engana-se, contudo, quem se deixa levar pela promessa de completude que a sintonia entre os títulos supõe. Ao longo da leitura, esse arranjo floral revela-se tão artificial quanto arbitrário: pistas falsas, as flores que dão nome a cada breve capítulo nada mais são que puro décor, figuras de um segundo plano, detalhes insignificantes. Se elas por vezes irrompem no meio da narração, isso acontece invariavelmente para reiterar um firme propósito de nada significar.
Dizendo de outro modo: essas flores não são nada.

Leia aqui o texto na íntegra

*Eliane Robert Moraes é crítica literária e professora
de Estética e Literatura na PUC-SP. Traduziu a
História do olho, de Georges Bataille (Cosac Naify, 2003) e publicou, dentre outros, O corpo impossível (Iluminuras/Fapesp) e Lições de Sade – Ensaios sobre a imaginação libertina (Iluminuras)

SAIBA MAIS SOBRE MARIO BELLATIN

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