Lançado em: setembro/2009
artigos exclusivos
Uma jornada conduzida por Eros

Por Juan Esteves*
O fotógrafo Alair Gomes (1921-1992) produziu e deixou uma obra cuja extensão se amplia a cada descoberta, a cada gaveta aberta, aos múltiplos olhares sobre seus negativos. Nesta viagem sentimental – guiada pelo artista Miguel Rio Branco – mais uma lâmina de sua produção é exposta, a partir da mostra de 2009 na cultuada instituição parisiense Maison Européenne de la Photographie, que se junta às conhecidas imagens do artista também expostas na França, em 2001, na Fondation Cartier.
Inéditos no Brasil, os registros publicados no livro Alair Gomes – A new sentimental journey, em coedição Cosac Naify e Maison Européenne de la Photographie, são parte de uma jornada empreendida por Gomes em 1983 durante sua estadia na Europa. Foram encontrados por acaso pela irmã do fotógrafo em seus arquivos. São imagens de estátuas que representam a arte clássica, mais precisamente aquelas de corpo masculino, que também se encontram intimamente ligadas a sua obra mais notória, aqueles outros corpos, encontrados nas praias do Rio de Janeiro, pelos quais se tornou conhecido. Três destas abrem o livro e promovem a passagem para as demais.
Estabelecer um nexus literal, ou melhor, um corpo a corpo entre as séries realizadas por Gomes seria um reducionismo claro, assim como destacar o nítido apelo erótico masculino não faria justiça à sua obra maior. A publicação resolve a questão da mera aproximação ao colocar textos de um diário escrito pelo próprio fotógrafo, extraídos de mais de 500 páginas escritas em inglês, onde ele promove questionamentos íntimos relacionados com a arte.
O colecionador Fábio Setimmi – editor do livro – é claro ao colocar Eros como ponto de partida para a jornada. Para ele, Alair Gomes não faz distinção em seu olhar filosófico entre o que é estético e o que é divino. Trata-se de sua essência representada pelo corpo masculino, que promove uma múltipla adoração muitas vezes de caráter místico, cuja idolatria ora se mostra nas praias cariocas, ora em obras de Michelangelo encontradas em Firenze.
A relação estética com o fotógrafo alemão Herbert List (1903-1975) é inevitável. Mas, enquanto este se deixa influenciar pelo Surrealismo ou pela Bauhaus, Gomes é mais explícito em suas direções. List, como este, também empreendeu sua “jornada” entre 1937 e 1939, uma viagem a Grécia que também forneceria a interiorização necessária a sua arte.
Enquanto List moveu-se fugindo da guerra e do preconceito na Alemanha, Gomes procurou em seu interior sua própria questão sexual, ou, como escreve Settimi, seu Ethos, a legitimação da vida com a arte. Sobre uma das imagens o fotógrafo comenta: “Caminhando na frente de Davi, fico maravilhado com a flexibilidade e a clareza evidente com que seu botão de amor, seu pálio tumultuoso, sublinha vigorosamente o centro de seu corpo em pé”.
Às vezes, as imagens representam um lamento para o fotógrafo: “Era talvez um lugar assim, mais do que uma pintura do paraíso, que eu imaginava quando pensava em meu amado. Tento visualizá-lo em sua universidade, dar-lhe uma chance para voltar atrás de sua brusca decisão de me deixar (…)”. Um canto oposto, mas não menos atraente, às elegias cariocas que montava como um quebra cabeça de suas imagens, muitas vezes, roubadas ao sol.
Em nota ao editor, Alair Gomes explica que a ideia de “viagem” é simbólica. Associa-se aos conceitos de transmutação e metamorfose. Quer ele desenvolver pontos radicais entre arte e erotismo. O papel de Eros na condição humana. Também declara seu interesse principal pela arte renascentista italiana, e pela arte da Grécia e Roma antigas. Sua visão erótica da arte está não só embasada em suas visitas aos museus, mas também nas conversas com rapazes que encontra em sua passagem pela Inglaterra , França, Suíça e Itália.
Marcia Mello, diretora e curadora da Galeria Tempo, no Rio de Janeiro, situa o fotógrafo historicamente numa abordagem que relata a sua importância no contexto brasileiro, bem como esclarece a importância da visão de Miguel Rio Branco, que selecionou as imagens, na construção do discurso imagético. Seria interessante esta leitura antes mesmo do início do portifólio, assim como dos extratos do diário do autor. Estes promovem uma rara oportunidade de percepção de como um artista conduz sua obra e de como esta o influencia em sua vida.
* Juan Esteves é fotógrafo e colaborador da Folha de S. Paulo e da revista
Fotografe Melhor. Foi colunista da revista Iris Foto
e editor e colunista do Fotosite