Lançado em: novembro/2008
artigos exclusivos
Allen é um Alien

Por Domingos de Oliveira*
Será que algum gênio foi gênio suficiente para perceber-se um gênio? Talvez não. A inteligência pressupõe a humildade. No delicioso livro de Eric Lax, 36 entrevistas de um homem nascido como eu em 1936, Woody afirma: “Eu não sou artista suficiente e nem comercial o suficiente e, no entanto, alguns dos meus filmes são bons por acidente e até rentáveis”; e depois “Minha sensação objetiva é que não atingi nada significativo artisticamente. Não digo isso com tristeza. Sinto que não dei nenhuma contribuição real ao cinema como Scorsese, Copolla ou Spielberg.” E ainda “Não exerço nenhum tipo de influência, meus filmes são feitos com orçamentos modestos que não abala em nenhum sentido o mundo do show. Sou um piadista do Brooklin que teve muita sorte. Quando eu era menino, eu via 14 filmes por semana. Assim consegui viver entre homens interessantes, mulheres bonitas e citações dramáticas. Ah, e às vezes, conseguia sair com algumas atrizes!”
Woody está errado. É impressionante como um homem tem pouco ou nenhuma noção de como é visto pelo mundo. Ele é muito mais importante do que Copolla, Scorsese ou Spielberg. É o autor de uma coisa formidável, que, mais ou menos uma vez por ano, engrandece e revigora a humanidade. Os filmes de Woody Allen. Não importa qual deles. Todos revelam a alma deslumbrante. Plena de aceitação do mundo como ele é, plena de amor, leveza e profundidade. Plena de uma compaixão que o leva a ser engraçadíssimo. Que serviço é mais útil do que fazer rir da própria condição humana? Allen é um Alien. É o melhor comediante, mais que isso, melhor dramaturgo. Mais que isso, melhor pensador sobre a sociedade moderna. Com um olhar comovido e uma lágrima brincalhona diz-nos, sem querer, que a vida vale à pena. E conhecer Woody Allen está entre as melhores coisas que a vida oferece. Tiros na Broadway, Interiores, Poderosa Afrodite, Crimes e Pecados e seu irmão gêmeo Match Point, isso para não falar de Zelig, Hanna e suas imãs e outros, fazem parte dos meus filmes prediletos. Quem não viu, não sabe o que perde. Filmes de W.A não são apenas inspiradas comédias de um filho de Molière. São instantes de beleza. E um instante de beleza é uma alegria para sempre.
*Domingos de Oliveira é cineasta, diretor de Todas as Mulheres do Mundo (1966), Separações (2003) e Juventude (2008)