Lançado em: dezembro/2009
artigos exclusivos
Imagine um mundo sem as canções dos Beatles

Por Cadão Volpato*
São 208 músicas gravadas pelos artistas mais influentes do século XX. São 208 histórias explicando a mágica de cada uma delas. O que o jornalista musical, biógrafo e poeta inglês Steve Turner faz em The Beatles – A história por trás de todas as canções não é explicar os significados ou os bastidores técnicos das composições da banda. Sua proposta, muito mais interessante, é mostrar como elas nasceram. Afinal, as canções dos Beatles são como pessoas da família que admiramos e conhecemos desde o nascimento, com a diferença de que não morrem nunca.
Muitos livros já trataram de assuntos relacionados ao quarteto de Liverpool. Mas nenhum deles foi tão fundo no processo de criação de Paul, John, George e Ringo. Nenhum deles conseguiu surpreender Lennon/McCartney, a dupla mais fascinante do pop, com as mãos na massa, as mangas da camisa arregaçadas diante do impasse criativo, lutando para fazer nascer um pequeno monstro de felicidade, mais uma canção imortal, “With A Little Help From My Friends”.
Steve Turner ouviu gente que esteve lá e viu tudo. Viu John e Paul unidos – ou desunidos, em amigável concorrência para mostrar quem era melhor. Viu George correndo por fora, brigando tragicamente para emplacar a sua estrela no meio daquela constelação avassaladora. E viu até Ringo cometendo uma ou duas canções, como “Octopus’s Garden”, que ele fez depois de um encontro com o capitão do iate de Peter Sellers.
Todas as canções dos Beatles têm histórias para contar, mas o que chama a atenção é como eles se apropriavam das coisas ao redor, de pequenas frases soltas no dia-a-dia a eventos de canto de página nos jornais. Muitos artistas desprezam essa palavra, dizem que não a conhecem, mas eu acho que inspiração é isso aí. E ela às vezes pode chegar em estado bruto, na forma de uma iluminação.
“Ele estava trabalhando na letra enquanto ia de carro do aeroporto de Lisboa para Albufeira. Pegou meu violão emprestado e começou a tocar a música que hoje conhecemos como ‘Yesterday’”, conta um amigo de McCartney. “Paul acordou uma manhã em seu quarto no último andar na casa dos Asher, em Wimpole Street, com a música de ‘Yesterday’ na cabeça”, explica o autor. É uma das minhas histórias favoritas. Paul tinha medo de que a canção fosse um plágio inconsciente, e passou um tempo mostrando a melodia para os amigos. O título provisório era “Scrambled Eggs” (“Ovos mexidos”). Em 2003, um escritor de Liverpool apontou semelhanças entre “Yesterday” e “Answer me”, de Nat King Cole, gravada em 1953. Pois bem, eu fui conferir no Youtube e posso dizer com todas as letras: as duas canções têm tanto a ver quanto Ringo Starr e Charlie Watts (o baterista dos Stones). A história de “Yesterday”, para mim, permanece única.
Arrisque uma música dos Beatles que você acha ruim e haverá sempre uma legião de fãs que a adora, por incontáveis razões. Por isso as composições de Lennon/McCartney e George Harrison não saem de nossas cabeças há várias gerações.
Quando parecem adormecidas no ritmo modorrento dos anos, alguma coisa acontece e elas despertam novas em folha. Aconteceu comigo. Passei muitos anos sem ouvir “All You Need Is Love”. Até que, de repente, ela foi a trilha do meu casamento em 2005.
Aliás, fiquei feliz ao saber que “All You Need Is Love” é uma composição de Lennon sem McCartney, como muitas das canções dos Beatles. Confesso que sempre tive uma queda pelas músicas de Paul. O bom tom manda dizer que Lennon é que era o cérebro. Este livro foi um dos primeiros a desmistificar isso.
Pensando bem, The Beatles – A história por trás de todas as canções não é só um compêndio de histórias das canções mais importantes do século passado. É um livro de histórias dos anos 60. Aquele tempo idílico para o qual muitas vezes as novas gerações insistem em se transportar – com toda a razão. Pois foi o tempo vivido e tocado por uma banda única chamada The Beatles.
*Cadão Volpato é jornalista, escritor e compositor