Os anões

Lançado em: junho/2010


Título do Livro

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Veronica Stigger ou a arte de dessentir




Por João Camillo Penna*

Se a estética é a ciência do sentir, então Os anões de Veronica Stigger sugere algo com uma ciência da dessensibilização, uma anestética.

Os personagens das Pré-Histórias, Histórias e Histórias da Arte que compõem o livro são agentes que observam passivamente seus atos, ao mesmo tempo próximos de si mesmos, com absoluta nitidez e detalhamento de foco, e a “milhões de quilômetros” de distância, como que vistos de um telescópio, como escreve Mario Bellatin, na quarta capa — transformando em pura visão anestesiada a sequência de atos que protagonizam e observam. Incapazes de sentir quaisquer dos sentimentos que compõem o vocabulário do humano: o terror, a piedade, a dor, o amor, estes personagens vivem em um mundo de puros atos, friamente registrados pela câmera noticiosa de um jornal televisado ou impresso, que captura maquinicamente o campo do visível. 

O suicídio do marido é recebido pela esposa sentada diante do tubo de TV com o gesto protocolar de desligar o controle-remoto, no roteiro “Curta-metragem”. A esposa acaba se suicidando por um gesto automático e sem sentido, por imitação do gesto do marido ou por desfastio. No roteiro que complementa o duplo suicídio, “Curta-metragem II”, o casal agora capturado pela objetiva no chão do edifício, abaixo da sacada do apartamento de onde se jogaram, um em cima do outro, preocupa-se antes de mais nada com os óculos da esposa esmigalhados entre os dois corpos.

O mundo de Os anões é um mundo invertido: o inessencial tornou-se essencial, o coadjuvante é protagonista. Assim, o enredo do filme não interessa, interessa, sim, o que precede ao filme, a disposição dos espectadores na sala de cinema, trocando de lugares uns com os outros, agindo a partir de suas menores inclinações e antipatias com relação a seus vizinhos, em “Caverna”, em uma humanidade que deixou de poder conviver consigo mesma. Os coadjuvantes do filme protagonizam um suicídio espetacular, desafetado esteticamente pelas cores azul e vermelho de suas roupas, sendo jogados catastroficamente do alto de um teleférico, para entretenimento da platéia que observa extasiada de baixo, e mais tarde pela TV, em “Teleférico”. Como aquele outro personagem do conto “O trágico” no primeiro livro de Veronica Stigger, O trágico e outras comédias, que se diz filho de Sófocles, e herdeiro contemporâneo dos grandes personagens trágicos, cuja maior tragédia consiste em constatar após ligar a TV: “Merda de vida! Uma caralhada de canais e nenhuma bosta para ver”.

O mundo de Os anões não é simplesmente um mundo de objetos, de pessoas-objetos, o que pressuporia o seu contrário, a existência de pessoas não-objetos, o que é uma redundância; o mundo de Os anões é um mundo em que o sujeito foi completamente erradicado, um mundo literalmente sem eu. Um mundo em que os artistas se transformaram em anúncios imobiliários, um mundo sem tempo, constituído de atos e de espaço puros, um mundo de imagens. Mas então o que sobra? O que resta?

Veronica Stigger se coloca o problema da sobra, do resíduo. Como as heroínas de Sade que nunca morrem, que são pisoteadas, trituradas física e psicologicamente, amassadas, mas permanecem vivas, resistindo sempre pela simples necessidade de continuarem sempre objeto da vontade que as destrói, os personagens de Veronica Stigger frequentemente resistem, impulsionados por uma rigorosa necessidade lógica da sequência narrativa, que os obriga a seguirem, desdobrando o impecável programa estabelecido no início da narrativa. O que resta? O que resiste à morte? A vida impulsionada pela vontade de narrar-destruir não é matável, ela é fustigada sempre mais, uma outra vez, por uma nova forma de crueldade. Assim, Domitila, no conto homônimo de Gran cabaret demenzial, perde alegremente dois dedos, depois o braço, é atropelada por um ônibus, um automóvel passa por cima de suas pernas, e quando volta à sua casa, seus pais lhe dizem: “Vai tomar seu banho que o jantar já está pronto”.  Nada pode alterar a rotina burguesa da vida normal. Como os personagens de celuloide dos desenhos animados, dobráveis, esticáveis, infláveis, os corpos resistem. Após o suicídio, diante dos convidados, no novo apartamento de 200 m², resta um conto incompreensível a ser lido para os mesmos convidados, na história “200 m²”. Depois de espancados, chutados, reduzidos a uma massa informe, pelas pessoas “normais” que faziam a fila, o casal de anões massacrado porque furou a fila no balcão da confeitaria é empurrado como “sujeira” com um grande rodo, no conto-título, “Os anões”.

O tema do preconceito contra a diferença, que aparecera em “Festa de casamento”, de Gran cabaret demenzial, sob a forma do preconceito racial, reaparece aqui na história dos anões. Porém, se em “Festa de casamento” a narrativa ainda parece vingar o preconceito, o que remete ainda a uma moral, em “Os anões”, prevalece o frio registro amoral da violência crua, do preconceito gratuito, sem antídoto e sem remédio. Mata-se aqui por irritação, por incômodo.

Nos três livros de Veronica Stigger assistimos a uma progressiva desgenitalização das narrativas. Em O trágico e outras comédias, a genitalidade aparece ainda como objetos-parciais, sob a forma de caralhos desencarnados que chovem na cidade, no conto “A chuva”. Já em Gran cabaret demenzial, a desgenitalização deslocava o foco da narrativa para uma analidade sistemática, ao mesmo tempo escatológica e infantil. Os corpos dúcteis, flexíveis, são infinitamente penetráveis pelo ânus. Mas em Os anões, desaparece qualquer traço de sexualidade, e com ela o que havia ainda de abjeção lúdica: o que resta é apenas a superfície visual clean, manchada vez por outra por resíduos corporais. Sobra o museu etnográfico das fotos de homicídios canibais, fotos de canibais e de canibalizados, fotos de postes totêmicos, em “Des cannibales”. Sobram os turistas, os únicos sobreviventes. Sobra, em suma, a imagem. Sobramos nós, admiradores voyeurs das imagens, imagens de imagens, leitores dos textos que temos diante dos olhos.

Aristóteles definia a tragédia como mimesis práxeos, uma “imitação dos atos”, que suscita o terror e a piedade. Em Veronica Stigger temos algo como um “sistema de atos”, sem terror e sem piedade, no que seria a tragédia contemporânea, a tragédia da falta de terror e de piedade. Georges Bataille, ao estudar o sacrifício como modelo da representação artística, e em especial da tragédia, apontou nele o aspecto essencialmente espetacular, que faz com que a morte seja sempre e unicamente revelada por identificação com a vítima, por pessoa interposta, e nunca no próprio sujeito, impedido de ser consciente da própria morte. O que o fez declarar que o sacrifício é simplesmente “uma comédia”. Pergunto-me se aqui também, nas narrativas e micro-narrativas de Veronica Stigger, não encontramos elementos para pensar o que sobra da tragédia na contemporaneidade, na falta de tragédia e de sacrifício que caracteriza o nosso tempo, todo ele convertido simplesmente em comédia. Comédia da imagem.


*João Camillo Penna é professor de
Literatura Comparada e Teoria Literária na UFRJ