Lançado em: setembro/2010
artigos exclusivos
Dias de apreensão

Por Mario Gioia*
Bob Wolfenson, um “urbanóide”, como se autointitulou à época da sua mostra A Caminho do Mar (2007), novamente surpreende com sua nova série, Apreensões, em cartaz no Centro Universitário Maria Antonia até outubro de 2010 e agora transformada em livro pela Cosac Naify.
Com projeto gráfico que transcende a mera transposição da mostra, as imagens ganham novos recortes na publicação. A edição é bilíngue português-inglês, impressa em papel jornal, montada em folhas duplas, e inclui texto de apresentação de Carlos Nader, depoimento do próprio artista, além de uma imagem inédita, que não entrou na exposição.
Se A caminho do mar representava um gap entre a conturbada rotina na metrópole e os idílicos dias praianos, intervalo este muito forte, cheirando a enxofre, por meio dos seus registros da desoladora paisagem do parque industrial de Cubatão, captados na rodovia Piaçaguera-Guarujá, Apreensões traz à tona o que é abrigado nos porões policiais-forenses, para onde são encaminhados os produtos de blitze diversas, ruidosamente noticiadas pelos meios de comunicação (em especial, os programas televisivos de tom sensacionalista têm especial atração por tais operações).
O olhar atento de Wolfenson consegue extrair do banal – antes, a perdida paisagem que se enxerga esgueiradamente pelo carro; hoje, algo que é invisível para quem não é policial ou servidor do Judiciário – algo que transcende uma simples mirada. Se as texturas vaporizadas e dissolvidas do que é expelido pelas chaminés fabris podem remeter a elementos pictóricos, em Apreensões o artista procura realizar uma assemblage contemporânea. Muito da qualidade da imagem vem da técnica de varredura digital (exceto quando enfoca animais), possibilitando uma alta definição que dispensa um aparato analógico pesado e incômodo, não recomendado em vista das raras chances que o artista teria para realizar seus registros.
Do mesmo modo, Antifachada, série produzida por Wolfenson em 2004 e publicada pela Cosac Naify no mesmo ano, parte do que nos cerca, mas que é pouco percebido, por vezes apenas lateralmente. O “urbanóide” artista se alimenta do entorno, mas cria novos significados em registros do que não vemos, a priori, na selva de pedra das numerosas edificações de São Paulo. O emaranhado de concreto, vidro e alguma vida também se torna uma assemblage contemporânea.
O cineasta e documentarista Carlos Nader, em texto para o livro, lembra da natureza-morta como outro dos elos que Wolfenson faz com a história da arte. O artista é hábil em criá-las, por vezes utilizando a verticalidade dos elementos – motoserras, armas de grosso calibre e gaiolas –, a abundância de círculos – os canos de revólveres, as toras de grande dimensões – e a disposição horizontal dos produtos – pacotes de drogas e carros empoeirados organizadamente colocados em grandes pátios.
O humor está presente, como no aviso em meio a gaiolas “Silêncio. Desobediência implicará no fim da brincadeira”, na marca “Halloween” gravada na maioria dos caça-níqueis e na publicidade do jogo do bicho, que frisa a “brasilidade” e que “Honestidade e pontualidade é nosso lema”.
No entanto, apesar de momentos leves, o tom predominante deixa longe o otimismo. Ver em carrinhos de supermercado inúmeras armas de fogo, apenas em teoria usadas apenas pelas Forças Armadas, uma quantidade imensa de celulares – talvez coletados no universo prisional –, animais vivos em condições das mais degradantes, entre outras imagens, traz muito incômodo e nos faz mais, enfim, apreensivos.
*Mario Gioia é jornalista, crítico e curador de arte. Trabalhou no jornal
Folha de S.Paulo e colabora para as revistas Bravo e Trópico e o portal UOL,
entre outros veículos. É coautor de Roberto Mícoli (Bei Editora)