Com trabalhos nos acervos dos principais museus e exposições nos mais importantes eventos de artes plásticas do mundo, o carioca Waltercio Caldas tem agora, pela primeira vez reunidas em livro, todas as instalações - ou salas, como ele prefere descrever, criadas ao longo da sua prestigiada carreira. Salas e abismos, livro que a Cosac Naify lança com patrocínio da Fundação Vale, apresenta uma nova visão do trabalho do artista por meio de um universo singular: a seleção feita no livro faz com que as obras se relacionem, dialoguem e criem uma tensão e unidade próprias, permitindo um novo e surpreendente olhar sobre a poética criativa do artista. Nove das 25 instalações presentes no livro também fazem parte da exposição de mesmo nome, em exibição no Museu Vale, em Vila Velha, no Espírito Santo, até o dia 21 de fevereiro de 2010. A mostra ainda estará no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro entre junho e agosto deste ano. Além disso, uma exposição individual de Waltercio está programada em setembro, no Gabinete de Arte Raquel Arnaud, em São Paulo.
Já no título,
Salas e abismos concilia duas ideias aparentemente contraditórias mas fundamentais para a compreensão da obra de Waltercio Caldas. Um dos maiores artistas brasileiros em atividade, Waltercio sempre teve na forma como cada trabalho será apresentado aos olhos do espectador um ponto importantíssimo de sua obra. No início da carreira, acondicionava objetos em caixas, como em "Condutores de percepção" (1969), em que duas barras de vidro transparente com pontas de prata repousam sobre o veludo preto de uma caixa da mesma cor. No texto de apresentação do livro, o crítico de arte Paulo Venâncio Filho, curador da exposição do Museu Vale, toma esta peça como ponto de partida para demonstrar como Waltercio vai transformando o ambiente em escultura no amadurecimento de sua poética.
As salas seriam as caixas de outrora, fundindo objeto e lugar, sobrepondo a obra de arte com sua própria exposição. Um entusiasta dos parênteses - recorreu aos sinais gráficos inúmeras vezes em seus livros-objetos - Waltercio também usa com frequência paredes de vidro, fios de lã colorida e finíssimas hastes de alumínio para delimitar espaços. Os limites quase transparentes substituíram a antiga moldura e as caixas de fundo negro, dissolvendo os objetos no espaço e dando a eles sutileza e discrição. As peças deixaram de estar "dentro" de alguma coisa para estar "entre", suspensas, abrindo-se para a perturbação e a instabilidade.
Ao levar os trabalhos para o espaço sem molduras, o artista tirou deles qualquer vestígio ilustrativo. Coados dos excessos alegóricos, os objetos se apresentam ao olhar quase zerados, dando ao espectador a sensação de vertigem. É aí que a sala vira abismo, para depois voltar a ser sala. A sequência dos ambientes, tanto na exposição quanto no livro, cria novos abismos. Pensados pelo artista como um trajeto, os trabalhos exigem que se mude de frequência à medida que se avança para a sala seguinte. Cada uma tem iluminação e montagem peculiares, gerando aproximações e antagonismos. São espaços fechados, mas que se comunicam com os seguintes, retomando a suspensão, os parênteses e os limites transparentes.
Não é à toa que
Salas e Abismos é literalmente a maior obra gráfica já feita pela Cosac Naify. Com projeto gráfico do artista, o livro também é um "lugar" criado por Waltercio para a visitação dos espaços expositivos, e que se encerra em si mesmo como obra de arte.
Venâncio Filho diz que Waltercio consegue unir campos semânticos aparentemente inconciliáveis como "salas" e "abismos" por nos fazer perceber que "a vertigem do familiar é a mais vertiginosa de todas. Salas de estar podem rapidamente se tornar salas de estranhar".
"Waltercio passou a usar o espaço como uma espécie de solvente e guardar o resíduo final dessa solvência. E é como se, a partir daí, restasse apenas o mais resistente, o mais essencial, o mais intenso. Cada trabalho passou a exercer menos uma condensação intelectual do que uma dissolução poética do espaço, do branco das paredes, do chão e do teto. O regime anterior da 'caixa' tomou a escala da espacialidade atual, agigantou-se, tornou-se sala, inverteu o domínio que tínhamos sobre ela e constituiu um lugar", escreve o curador.
O livro não tem a mesma ordem apresentada no Museu Vale - Waltercio acredita que ele é uma outra exposição. Além de mostrar os nove trabalhos vistos no Espírito Santo - alguns deles totalmente inéditos, como "O silêncio do mundo" - a edição da Cosac Naify inclui obras que nunca foram vistas no Brasil, caso de "Quarto amarelo" e "Quarto azul", ambas de 1999, apresentadas numa grande exposição do artista no Centro Galego de Arte Contemporánea, em Santiago de Compostella, em 2008.
"O silêncio do mundo" abre a exposição e o livro. Sala formada por mesas e objetos completamente negros, ela é, curiosamente, na opinião de Waltercio, um trabalho solar. Mas é também um ruído surdo, uma pausa, um cartão de visitas que tira o visitante/leitor da confusão de imagens em que estava mergulhado antes de começar o percurso, como um computador que é reiniciado para aprimorar sua performance.
As mesas, presentes neste trabalho, são outra obsessão de Waltercio. Objetos tão comuns nas salas "de verdade", cotidianas, elas formam uma espécie de linha do horizonte na poética do artista. Podem ser combinadas a outros objetos e formar uma espécie de natureza-morta, como acontece em "Maçãs falsas" (2009), em que duplas de maçãs são arranjadas em mesas com paredes de vidro e hastes de alumínio. Neste trabalho, é impossível não pensar em Cézanne e em toda a história da natureza-morta como gênero da pintura. Com ele, percebe-se a série de relações entre as salas que se estabelece no livro. "Maçãs falsas" se comunica com a "Série Veneza", assim como "Ping ping" se relaciona com a falsa cegueira de "O silêncio do mundo" e com "Orquestra" (2005). Neste último ambiente, setas coloridas de vinil, coladas à parede, insinuam o trajeto do som no ar. As setas se dirigem para esculturas na parede que podem aludir a instrumentos musicais, e, em vez de sair deles, parecem correr para seu interior. Um interior que, diga-se passagem, não existe, já que os "instrumentos" são vazados.
"Orquestra" também tem uma relação íntima com "Velocidade". Criado por Waltercio para a Bienal Internacional de São Paulo de 1983, o ambiente era um corredor, formado por duas paredes reproduzindo caixas de chicletes Adam´s. Em uma delas, os retângulos apareciam coloridos, sem a logomarca, apenas insinuando seus sabores pela cor (hortelã=amarelo, morango=rosa, menta=verde). Na outra parede, retângulos completamente brancos funcionavam como espelhos e receptáculos para a cor irradiada pela parede em frente. A cor tomava o ambiente, usando uma referência da história da arte (o pontilhismo de Seurat), mas dando a ela uma dimensão industrial e de pintura monumental, bem adequada ao tempo que veria o aparecimento da chamada "Geração 80".
"É curioso observar que, ao longo do tempo, a natureza dos materiais e a forma de montagem da minha obra acompanharam as questões da época, mas preservando o núcleo central de sua poética", diz o artista.
"Quarto amarelo" é outra obra em que a pintura extrapola para o ambiente. Waltercio aproveitou uma parte em "V" de uma das salas do centro cultural e pintou cada um dos lados deste ângulo com o mesmo tom de amarelo. Postas uma de frente para a outra, as paredes amarelas, suspensas do chão por um vão livre sustentado por pilotis, funcionam como dois imensos rebatedores de cor e luz para o ambiente. Três fios de lã, também amarelos, criavam sombras da cor no piso branco e funcionavam como os elementos de delimitação quase invisível que caracteriza o trabalho do artista.
"O amarelo vaza para as paredes e o chão do ambiente, como se a cor se expandisse", lembra Waltercio, que não adultera materiais e nem usa grandes recursos de montagem para fazer seus trabalhos. "Uso o aço inoxidável, a madeira e as tintas como eles se apresentam. Não há tecnologia alguma, só as ideias, os objetos e o aparecimento deles.
(A crítica) Sonia Salzstein escreveu certa vez que estes trabalhos seriam sempre contemporâneos, na versão forte do termo. Na realidade, meu trabalho não tem fases, tomo apenas o cuidado de que ele esteja sempre no início. Procuro preservar nos objetos a sua capacidade inicial de aparecer".
Textos de época de Paulo Sergio Duarte ganharam notas introdutórias escritas pelo crítico especialmente para a edição. Com elas, o crítico situa obras como "Ping ping" e "Velocidade" no tempo em que foram feitas e lança sobre elas um novo olhar.
SOBRE WALTERCIO CALDASWaltercio Caldas nasceu no Rio de Janeiro em 1946. Em 1965 estudou com Ivan Serpa no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Na década de 70 editou a revista
Malasartes e lecionou artes e percepção visual no Instituto Villa-Lobos. Começou a expor em 1973. Nesta mesma década, fez algumas exposições individuais nos principais museus brasileiros no Rio de Janeiro e em São Paulo. Na década de 80 fez exposições individuais nas mais importantes galerias brasileiras.
Hoje é considerado um dos artistas de maior renome do Brasil, com exposições feitas em diversos países do mundo: em 1990 na Pulitzer Art Gallery, Holanda; em 1991 na Kanaal Art Foundation, Kortrijk, Bélgica; em 1992 no Stedelijk Museum, Schiedam, Holanda e Documenta 9, Kassel, Alemanha; em 1993 no Centre d'Art Contemporain, Genebra, Suíça; e em 1997 na Christopher Grimes Gallery, Santa Monica, Califórnia, EUA. Representou o Brasil na Bienal de Veneza em 1997. Seus trabalhos estão nos acervos dos principais museus do mundo e esculturas para área externa expostas em Raum für den nächsten Augenblick, Neue Galerie, Kassel, Germany e na Omkring, Leirfjord, Noruega.
Sua mais recente exposição individual no Brasil é "Salas e abismos", aberta no ano passado e em cartaz até 21 de fevereiro deste ano no Museu Vale, em Vila Velha, Espírito Santo. A exposição segue em itinerância para o Rio de Janeiro, no MAM. Waltercio ainda tem uma exposição individual programada em São Paulo, em setembro, no Gabinete de Arte Raquel Arnaud. No exterior, o artista tem mostras agendadas para este ano em Madri e em Los Angeles, além do lançamento de um livro de artista em Barcelona.
Em 2007, após receber convite especial de Robert Storr, curador geral da 52ª Bienal Internacional de Arte de Veneza, cria especialmente para esta edição um ambiente chamado Half Mirror Sharp, instalado no Pavilhão Itália, formado por cinco esculturas 'relacionadas como uma sequência de partitura musical'. Waltercio Caldas mora e trabalha no Rio de Janeiro, Brasil.
WALTERCIO CALDAS E A COSAC NAIFYSalas e abismos é o terceiro livro que Waltercio lança na editora. A Cosac Naify antes editou uma monografia sobre o artista assinada por Paulo Sergio Duarte, uma edição rara, que pode ser tratada como obra de arte, publicada em 2000 e ainda disponível para compra no site da editora, na seção raríssimos. Depois disso, fez em 2008 uma edição atualizada do cult
Manual da ciência popular, nas versões em português e inglês, no qual o artista reafirmava sua paixão pelos livros mais de duas décadas depois da primeira publicação deste clássico. O artista fez ainda duas capas para livros da editora:
Duchamp - uma biografia (2000), de Calvin Tomkins, em que criou uma sobrecapa de acetato com desenhos para o livro, destacando mais uma vez sua relação com a transparência, e
A cultura do romance (2009), organizado por Franco Moretti. Waltercio assinou ainda a orelha de
Matisse: imaginação, erotismo e visão decorativa, organizado por Sônia Salzstein e lançado em setembro de 2009.
MANUAL DA CIÊNCIA POPULARWALTERCIO CALDASNova edição ampliada. Edições em português e inglês
Texto de Paulo Venancio Filho
Prefácios e comentários do artista
Capa dura; 19,5 x 24,5 cm; 88 páginas; 33 ilustrações
Preço: R$ 55,00
ISBN Português 978-85-7503-672-3
ISBN Inglês 978-85-7503-604-4
Os livros sempre fizeram parte da obra de Waltercio Caldas, um dos artistas plásticos brasileiros com maior reconhecimento mundial. Manual da ciência popular, agora em nova edição, revista e ampliada, reafirma sua atualidade e importância, 28 anos depois de sua primeira publicação pela Funarte, em 1982, incluindo trabalhos que não entraram na primeira tiragem. Ao entrelaçar obra de arte e fotografia, o livro transita entre uma linguagem e outra, fazendo com que vários objetos do cotidiano apresentem camadas de significados estéticos que perpassam a poética do artista. Os textos que acompanham as imagens estabelecem uma contínua circularidade entre si, num registro reflexivo com boa dose de ironia e muito humor.
Veja também:
Waltercio Caldas, de Paulo Sergio Duarte