Um dos momentos máximos da ficção de Liev Tolstói, considerado um dos maiores escritores da literatura russa, Khadji-Murát é o sexto volume da coleção Russinhos, que publica pequenas obras-primas de grandes autores russos. A obra – a última escrita pelo autor – foi publicada logo após sua morte na Rússia, em 1910, e ganha tradução de Boris Schnaiderman, diretamente do original russo.
A história, que “tem algo de violentamente cinematográfico”, como afirma Schnaiderman no prefácio do livro, narra a saga verídica do guerreiro tchetcheno que se alia aos inimigos na geografia física e social do Cáucaso do século XIX.
Conhecido por seus vastos romances, como Guerra e Paz e Anna Kariênina, Tolstói “expõe as contradições autodestrutivas do indivíduo e (...) concentra em miniatura todo um vasto painel humano”, como escreve o crítico Nelson Ascher na orelha do livro. A edição inclui ainda glossário de termos russos e quarta capa de Vadim Nikitim.
UM TOLSTÓI ORIENTALISTA
História e memória são as matérias-primas desta narrativa que põe em cena o líder rebelde caucasiano Khadji-Murát em sua luta contra a incorporação da Tchetchênia e do Daguestão pelos russos. A região até hoje é foco de instabilidade política, o que dá uma surpreendente atualidade a este livro publicado em 1910.
Foi no agreste Cáucaso que o jovem Liev Tolstói serviu como oficial do exército, décadas antes; a experiência repercutiria em seus últimos dias, quando o escritor, agora um ativista em prol dos perseguidos pelo regime czarista, voltou a interessar-se por aquele povo infenso à dominação imperial.
Estamos em território russo, mas o cenário não é aquele a que estamos habituados. Não se trata dos personagens aristocráticos que falam francês e desfilam pelos salões de Moscou e Petersburgo, nem dos mujiques, soldados e outros tipos populares eslavos que povoam as narrativas de Tolstói.
O escritor aqui é um orientalista que se mostra fascinado pela marca da cultura islâmica em pleno Império Russo, e que está simbolizada na capa do livro, com a imagem de uma espada curva que mimetiza o Crescente. A espada, típica dos guerreiros da região, faz parte do acervo do Museu Hermitage.
A SÍNTESE DA OBRA
Em seu prefácio, Boris Schnaiderman aponta Khadji-Murát como “uma síntese entre o que Tolstói realizara em Guerra e paz e as suas novelas”. Khadji-Murát é uma de suas narrativas breves mais bem realizadas, ombreando com Padre Sérgio, Sonata Kreutzer e A morte de Ivan Illitch, mas permanece como uma espécie de segredo compartilhado entre poucos e felizes leitores.
A redação de Khadji-Murát ocupou o escritor entre 1896 e 1904, é um exemplo de concisão. Reelaborados e reescritos à exaustão, os manuscritos encontrados após a morte do autor somavam 2166 páginas – a tradução brasileira não passa de duzentas.
OS LEITORES DE KHADJI-MURÁT
“Aqui, a descarga elétrica partiu da terra, passou pelas mãos e foi direita ao papel, sem qualquer tipo de isolamento, arrancando todas as camadas exteriores com um sentido de verdade.” – ISAAC BÁBEL
“Na descrição da última batalha, que também é a última descrição feita por Tolstói, a genialidade essencial do velho mestre – a arte de nos fazer enxergar como se fôssemos testemunhas – aflora com pathos, majestade e excitação pura, à altura de sua grande trajetória.” – COLM TOÍBÍN
“Khadji-Murát poderia ser uma personagem de tragédia de Shakespeare ou um capítulo apócrifo do Grande sertão: veredas de Guimarães Rosa. Murát, o protagonista desta narrativa, tem o dom de ser ao mesmo tempo um herói-traidor e um traidor-herói, rei e guerrilheiro, sem deixar de ser santo.” – VADIM NIKITIN
FIQUE DE OLHO
> NAS LIVRARIAS
Novas edições da coleção Russinhos
Anna Kariênina em edição atualizada, com nova capa
Ainda em 2010: Ressurreição, de Liev Tolstói
> NO BLOG DA COSAC NAIFY
Em primeira mão, capítulo de Guerra e paz, de Tolstói, por Rubens Figueiredo
> NOS CINEMAS
A última estação, de Michael Hoffman, filme sobre os últimos dias de Tolstói. Em breve, estreia nos cinemas