Belisa, “que todo mundo chama de Bili, viva e levada”, lembra uma menina que todos conhecemos: a Alice, do País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Aos personagens esquisitos e situações nonsense que a personagem inglesa enfrenta soma-se uma linguagem experimental e o resultado é o novo livro de Décio Pignatari, um dos principais integrantes do grupo concretista paulistano, junto dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos. Bili com limão verde na mão narra a jornada de Bili, sua protagonista, atravessando bile, balbúrdia, baques e banho. Bilí transforma sua experiência de crescimento em um livro que ultrapassa classificações de gêneros e faixas etárias.
“- Por tudo aquilo que eu sei e que eu não sei, com quase treze anos, a minha vida não está legal”. Assim começa o livro, que segue em frente com um texto fluente e rápido, em que nossa heroína desata a destilar a bile em ácidos comentários sobre seus amigos, sua família e todos aqueles que passam na sua frente: “Nunca vi aquele moleque sardento que sempre vem mijar de propósito no muro de casa”. Resolve ir até a casa de seu avô e no caminho encontra um limão, que toma para si. “Bili apertou o Limão no ar como quem apanha um passarinho que quer voar”.
Verde e rugoso, belíssimo. A raiva de Bili é tanta que ela atira o limão nas coisas que vê pelo caminho. Mas elas teimam em voltar contra a garota, como um bumerangue, e, nessa segunda parte do livro, o jogo entre linhas e cores do projeto gráfico traduz a força do texto de Pignatari, que cria claramente uma oposição entre a garota e os objetos que a maltratam. Exausta, “eladormiudecompridonagrama”.
Na terceira parte que se inicia com o repouso, o País das Maravilhas de Alice invade o sonho de Bili: como se entrasse na toca do coelho, a garota cai em um sono profundo e onírico, em que os bichos e objetos que encontrou pelo caminho trocam de cor e a perseguem, amontoando-se sobre sua cabeça. No final, já desperta, Bili retorna ao equilíbrio: depois de um banho, despe-se de toda a bile e está amadurecida para uma nova viagem. “Veja, meu limão... a minha mão parece mão de mulher.” E desponta a primeira estrela no céu.
Livro de prosa elaborada como poesia, Bili com limão verde na mão traz neologismos como “Cocoruto”, “borboletras”, “gramabarro”, palavras transformadas em ilustração e projeto gráfico especial, elaborado pela designer Luciana Facchini e pelo ilustrador Daniel Bueno. Os personagens foram concebidos a partir de módulos, numa tentativa de revisitar a estética dos anos 1970, lembrança do concretismo.
Sobre o autor
Décio Pignatari nasceu em Jundiaí, São Paulo, em 1927, e atualmente mora em Curitiba, Paraná. Foi um dos principais integrantes do grupo concretista paulistano, junto dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos. Além de poeta, Pignatari escreveu um romance, uma peça de teatro e é tradutor, professor e estudioso de Semiótica, assunto de diversos de seus livros.