Sala de Imprensa

26/01/2012
ANIMAIS NA JAULA

Assessoria de Imprensa


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Segundo livro de Mario Bellatin publicado pela Cosac Naify, Cães herois é a perturbadora história de um homem paraplégico, seu enfermeiro e trinta pastores belga malinois “prontos para matar quem quer que seja com uma única mordida na jugular”

Assim como em Flores, a edição brasileira de Cães herois tem projeto gráfico radical: livros mutilados, sem capa, envoltos em plástico

Conheça o homem imóvel: é a partir dele que se configura toda a rotina de uma casa, as vidas da sua mãe e irmã; a de seu enfermeiro e, sobretudo, as de seus trinta pastores belga malinois. 

Em algumas ocasiões, o homem imóvel é acometido por ataques de vazio e solidão. Para acalmá-lo, se organiza o desfile de seus trinta cães, um a um, pelo quarto. É quando o homem imóvel obriga seu enfermeiro, com quem mantém uma pervertida relação de autoridade, a massagear a perna que alega doer demais. O enfermeiro é também o treinador de seus cães. 

O homem imóvel mantém ainda, em seu quarto, um casal de periquitos-australianos e uma ave de cetraria. Sua mãe e irmã dedicam-se a um trabalho obscuro de classificação de sacolas plásticas vazias. Com regularidade, ele ordena que se telefone a uma enigmática Central de Informações, para que possa averiguar quantos cães cabem dentro de uma nave espacial.

Não resta dúvida: estamos no universo muito particular de Mario Bellatin, que com seu estilo de cortes abruptos, elipses e metáforas misteriosas – uma delas, aqui, aproximando a atmosfera do quarto onde se passa a história com o “futuro da América Latina” – faz de Cães heróis uma poderosa narrativa sobre a imobilidade, a alienação e o desamparo humano. 

Bellatin afirma ter encontrado o personagem principal da trama através de um anúncio no jornal: “Certa tarde, respondi a um anúncio de classificados sobre cães pastores belga malinois. Foi como descobrir uma dobra na realidade, um lugar que continha esta ficção".
A partir disso, Bellatin dá forma a toda uma máquina claustrofóbica, que tem no cotidiano de um homem paraplégico sua principal engrenagem. À certa altura, conta que quando este homem era mais jovem, toda a sua família vivia reclusa em diferentes instituições. No hospital em que vivia, o homem imóvel recebeu a visita de um menino que, além de muitos recortes de fotografias de cães, dizia ter uma máquina de escrever em que criava histórias de “cães heróis”. 

Neste teatro em que nada se move e ninguém abandona suas marcas, o homem imóvel, paralisado e sem sair do quarto, emite sons e ruídos que comandam seus cachorros. Há certa atmosfera que se relaciona ao futuro da América Latina, mas tal informação, uma intuição, é oferecida, como quase tudo neste breve romance, de forma lateral. “Em cada linha sentimos a presença da dor e da violência, mas também um certo humor que se alimenta da claustrofobia e da obsessão”, anota o escritor Michel Laub no texto de quarta capa do livro. 

Com poucos elementos, e através de uma fenda mínima de realidade, Bellatin constrói um mundo de fantasia e loucura. Um lugar sem saída, onde enjaulados estão todos.  


* Cecilia Gianetti é escritora, cronista e roteirista, autora do romance Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi (Ediouro/Agir, 2007).

SOBRE O AUTOR
Mario Bellatin nasceu no México, em 1960. Celebrado por sua escrita direta, que embaralha fronteiras entre gêneros, realidade e ficção, Bellatin teve suas obras traduzidas em países como França, Itália, Alemanha e Portugal, entre outros. Cães heróis é seu segundo livro publicado pela Cosac Naify. O primeiro, Flores, foi considerado pela revista francesa Magazine Litteraire um dos “24 clássicos mexicanos de ontem e de hoje”, ao lado de obras de Juan Rulfo e Carlos Fuentes. Fundador da Escola Dinâmica de Escritores, oficina literária de renome internacional.

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