Depois de encantar os leitores com as histórias de Marcelino Pedregulho (2008) e Raul Taburin (2010), a Cosac Naify lança Senhor Lambert , uma novela ilustrada de Sempé. Grande mestre do cartum mundial, seus títulos já venderam mais de 30 mil exemplares no Brasil. Às histórias do menino que enrubesce sem razão e do exímio mecânico de bicicleta que não sabe andar de bicicleta vem se somar a misteriosa aventura amorosa do discreto Senhor Lambert.
O bistrô Chez Picard é o ponto de encontro de amigos que almoçam juntos todos os dias, como um ritual. E, todos os dias, cada uma das mesas se ocupa em conversar (ou discutir) um assunto em especial: há os que falam sobre política (é possível os socialistas se conciliarem com a direita?), sobre futebol (qual é o melhor centroavante de todos os tempos?), há um senhor apressado que dialoga apenas com a garçonete (“Traga-me direto o café, Lucienne, não quero sobremesa...”).
Até que este rotina é inesperadamente alterada. Isso porque, num dia qualquer, Lambert desaparece sem qualquer explicação. Depois, chega às vinte para as duas (ele nunca chegava depois do meio-dia e meia, no máximo vinte para uma). E pior: chega antes de todo mundo. Tentando manter a descrição, os amigos não se contêm quando a causa do sumiço vem à tona. O segredo de Lambert é um tempero apimentado: uma paixão avassaladora que tomou conta de sua vida. “Uma mulher com M maiúsculo. Aquela que todo homem percebe na hora.”
Com esse ingrediente mais do que especial, em meio a filés à moda da casa, escalopes à milanesa, terrines do chef e saladas de salmão, o tema das conversas no Chez Picard passa a ser um só: os amores vividos (ou sonhados) do passado. As histórias saboreadas incluem beldades havaianas (ou seriam taitianas?), mulheres casadas, jovens atrizes promissoras... Tudo para aconselhar Lambert na difícil tarefa de lidar com as mulheres: “Com as mulheres, você sabe, é preciso tato, muito tato...”.
As ilustrações traçam um retrato fiel da vida parisiense. Com seus desenhos precisos e elegantes, Sempé torna o pequeno bistrô francês um lugar real, com cartazes na parede, chapéus e sobretudos pendurados e até um gatinho escondido sob alguma mesa (a quem Lucienne alimenta após a saída dos fregueses). No início e no fim do livro, Sempé reproduz o menu do dia, repleto de queijos, vinhos e steaks de dar água na boca – além, claro, de algumas manchas de comida.
Senhor Lambert é uma pequena amostra da convivência entre amigos e de como um acontecimento muito pessoal pode dar sabor à vida de todos que o cercam. Para abrir o apetite e nos lembrar de como é gostoso dividir não apenas pratos, mas também histórias.
LEIA TAMBÉM, DO MESMO AUTOR
Marcelino Pedregulho (2009)
Raul Taburin (2010)
SOBRE O AUTOR
O ilustrador Jean-Jacques Sempé é uma das grandes referências do cartum mundial. Nascido em Bordeaux, em 1932, foi expulso do colégio por ser distraído e indisciplinado. Aos dezessete anos, tentou empregos nos Correios e num banco até, finalmente, conseguir um trabalho de vendedor ambulante de pasta de dente. Nesta época, ele descobriu que sua vocação era desenhar. Sempé se alistou no exército, mas também foi expulso por desenhar nas horas em que deveria estar de guarda. Autodidata, tentou a chance em Paris. O começo foi difícil, e só conseguiu publicar desenhos em alguns jornais aos dezenove anos. Na década de 1950, inventou um personagem, o Pequeno Nicolau, cujas tirinhas foram publicadas em Le Moustique. Pouco tempo depois, conheceu René Goscinny, que sugeriu que fizessem em dupla uma série com o garoto, cujas histórias revelam muito da infância de Sempé. Em 1962, publicou o primeiro de seus 26 livros. Em 1979 realizou um grande sonho: desenhar a capa da revista norte-americana The New Yorker. Desde então, seus cartuns podem ser encontrados com frequência no periódico.
SOBRE O TRADUTOR
Jornalista paulistano, Mario Sergio Conti foi repórter da Folha de S. Paulo, diretor de redação de Veja e correspondente da Rádio Bandeirantes na França. Um dos fundadores de piauí, dirigiu a revista por cinco anos, e lá publicou inúmeros cartuns e capas de Sempé. Escreveu Notícias do Planalto (1999), sobre a ascensão e queda do presidente Fernando Collor, e Eles foram para Petrópolis (2009), com Ivan Lessa. Quando morou em Paris, leu todos os livros infantis de Sempé para a sua filha Lina, inclusive Marcelino Pedregulho e Raul Taburin, que traduziu para o português, e ia sempre com ela à Rue de l’Université visitar a galeria que expõe os trabalhos do artista. Além de tradutor de Sempé, Conti é hoje repórter de piauí e apresentador do programa Roda Viva, da TV Cultura.