Sala de Imprensa

01/03/2009
CESARE PAVESE: O CANSATIVO TRABALHO QUE É A EXISTÊNCIA

Assessoria de Imprensa


Rafaela Cêra
55 11 3218-1466
rafaela.cera@cosacnaify.com.br

João Perassolo
55 11 3218-1468
joao.perassolo@cosacnaify.com.br


“Balançando entre verso e prosa, entre romance e poema, o escritor conseguiu dar voz ao seu dilacerante sentimento de inadequação, à angústia de uma condição dolorosamente imperfeita, desembocando no tédio de viver de forma sempre parcial e partida.”  Ettore Finazzi-Agrò

No começo do século XX, quando a poesia mundial se inflamava de modernidade e as enumerações encadeavam-se, verso livre após verso livre, Cesare Pavese (1908-1950) recusou as linhas-mestras desta lírica moderna e, com projeto definido, pôs-se a escrever com a métrica clássica de anapestos e a falar de camponeses, adolescentes e bêbados que vagavam pelas colinas de seu Piemonte natal. Em 1935, Pavese estreou na poesia com Trabalhar cansa, que a Cosac Naify e a 7 Letras lançam em edição bilíngue, em março, pela coleção Ás de Colete.

O volume é o segundo livro do autor na CN, que em 2001 publicou Diálogos com Leucó (Coleção Prosa do Mundo), 27 breves conversas entre seres mitológicos em torno de questões fundamentais para o autor, como o amor, a morte e a dor. Importante tradutor, editor e escritor, Pavese combina em sua obra uma formação clássica sólida, imersa no caldo cultural moderno da época convulsionada que viveu a Itália. Considerado um dos grandes escritores italianos, circulou entre os mais destacados intelectuais do período fascista: Norberto Bobbio, Tullio Pinelli, Massimo Mila, Giulio Einaudi, Leone Ginzburg, Natalia Ginzburg, Elio Vittorini, Italo Calvino e Vasco Pratolini.

Reunindo 70 poemas escritos entre 1930 e 1940, Trabalhar cansa se compõe de três diferentes fases. No início, poemas narrativos tradicionais de 1930 a 1933 combinam sua experiência das paisagens e figuras do Piemonte rural e urbano com a influência da cultura americana que lhe chegava pelos livros. Está nestes primeiros poemas a declaração de seu projeto poético: uma poesia radicalmente objetiva e narrativa, antilírica, que, nas palavras do tradutor Maurício Santana Dias, tinha por objetivo “tentar fazer a poesia aderir à experiência e buscar romper o cerco de alienação que teria apartado a arte da vida”.

Mais adiante, Pavese incorpora imagens, como havia de início evitado. Ao compor o primeiro poema da série “Paisagem”, postou entre colinas altas e baixas um eremita “alto e baixo, superiormente burlesco, a despeito das minhas convicções anti-imagéticas, da ‘cor de um freixo crestado’”, e descobriu, assim, a imagem. “Esta imagem, era, obscuramente, a própria narrativa”, diz Pavese em “O ofício de poeta”, texto escrito em 1934 e incluso em apêndice na presente edição. Os poemas finais de Trabalhar cansa, de “Paternidade” (1935) a “Noturno” (1940), apresentam uma poética mais subjetiva, que traz para o primeiro plano temas como a solidão e a inutilidade das ações.

O ritmo adotado em 1930, no começo da composição dos poemas, pouco modificou-se ao longo dos dez anos. Para Santana Dias, que assina uma introdução na edição, “é óbvio que essa regularidade extrema, longe de mimetizar o real, funciona mais como uma negação da realidade em que o escritor está imerso; ou seja, quanto mais o mundo à sua volta se tornava turbulento, excessivo, veloz, caótico, mais Pavese lhe impunha uma ordem clara e precisa.”

A última fase dos poemas de Trabalhar cansa foi elaborada a partir do confinamento de Pavese na Calábria, entre 1935 e 1936, sob a acusação de troca de cartas de conteúdo político anti-fascista, e depois de uma grande decepção amorosa – a notícia, recebida na volta do exílio, de que a mulher que amava estava prestes a se casar. Tais fatos teriam acentuado o recolhimento e o silêncio naturais do poeta.

Natalia Ginzburg, em seu livro Léxico Familiar (Cosac Naify, no prelo) deixa entrever, em seu relato, a personalidade de Pavese: “Vinha à casa de Leone [Ginzburg] todas as noites; pendurava seu cachecol lilás e seu casaco de martingale no cabide e sentava-se à mesa. Leone ficava no sofá, apoiando-se com o cotovelo na parede. Pavese explicava que não vinha lá por coragem, porque coragem ele não tinha nenhuma; e nem mesmo por espírito de sacrifício. Vinha porque, do contrário, não saberia como passar as noites; e não dava conta de passá-las sozinho. E explicava que não vinha para ouvir falar de política, porque ele ‘estava se lixando’ para a política. Ás vezes fumava cachimbo, a noite inteira, em silêncio. Às vezes, enrolando os cabelos nos dedos, contava casos de sua vida. (...) À meia-noite, Pavese apanhava o cachecol do cabide, ajeitava-o depressa em volta do pescoço; e apanhava o casaco. Ia descendo o Corso Francia, alto, pálido, com a gola levantada, o cachimbo apagado entre os dentes brancos e fortes, o passo largo e rápido, o ombro encolhido”.
 
Em texto exclusivo para a divulgação (veja a seguir), o professor de Literatura Portuguesa e Brasileira da Universidade de Roma “La Sapienza”, Ettore Finazzi-Agrò, ressalta a relação entre vida e obra de Pavese. “A obra poética de Cesare Pavese pode ser olhada pelo avesso, na contramão da sua formação artística e da sua existência humana, a partir justamente do fim, daquele suicídio gritante no silêncio de um quarto de hotel. Porque aqui a morte é o remate final – o ápice, talvez – de uma vida vivida na paralisia do não-lugar, no espaço oco e angustiante da insuficiência”.

Trabalhar cansa foi inicialmente publicado em 1936, pela revista Solaria, com poemas compostos até 1935; em 1942, o próprio Pavese fez, pela editora Einaudi, uma edição excluindo sete poemas da publicação anterior e incluindo, além dos poemas que compôs até 1940, dois textos acerca de seu metier: “O ofício de poeta (a propósito de Trabalhar cansa)”, de 1934, e “A propósito de alguns poemas ainda não escritos”, de 1940. Neste último texto, Pavese define Trabalhar cansa como “a aventura do adolescente que, orgulhoso do seu campo, imagina que a cidade é semelhante, mas nela encontra a solidão e tenta remediá-la com o sexo e a paixão que servem apenas para desenraizá-lo e lançar para longe do campo e da cidade, numa mais trágica solidão que é o fim da adolescência”. Na apresentação deste apêndice, declara: “Qualquer que venha a ser o meu futuro de escritor, considero concluída com este texto a pesquisa de Lavorare stanca.”

TRABALHAR CANSA, DE CESARE PAVESE
Por Ettore Finazzi-Agrò

É legítimo, para quem desconfia de qualquer interpretação baseada em dados biográficos, resumir uma literatura, uma ideologia, uma estética, uma inteira existência poética, enfim, na sua conclusão? Talvez seja possível (e, por isso, justo) apenas quando percebemos que aquela obra – em que se reflete a vida e vice-versa –, foi desde o início jogada no limite extremo entre o puro sobreviver e a vertigem do Absoluto. E quando percebemos, aliás, que esse cansativo trabalho que é a existência, esse demorar incerto e penoso num limiar precário, levou desde sempre um escritor a cultivar o “vício absurdo” da morte. De fato, a obra poética de Cesare Pavese (1908-1950) pode ser olhada pelo avesso, na contramão da sua formação artística e da sua existência humana, a partir justamente do fim, daquele suicídio gritante no silêncio de um quarto de hotel. Porque aqui a morte é o remate fatal – o ápice, talvez – de uma vida vivida na paralisia do não-lugar, no espaço oco e angustiante da insuficiência.

Se existe, com efeito, um escritor que habitou fundo e de forma integral uma ambigüidade sem saída, este foi com certeza Cesare Pavese: entre a sua pequena aldeia natal (Santo Stefano Belbo) e a grande cidade industrial (Turim), entre tempos díspares e ambos marcados pela incerteza (o antes e o depois em relação à Segunda Guerra, período, este, que ficou, apesar de tudo, um tempo de certezas ferozes e de incontroversas experiências), entre o empenho político e o anarquismo ideológico, entre o amor pela literatura norte-americana e a devoção à cultura nacional, entre, enfim, a opção pelo realismo e a atração inconfessada pelo decadentismo. Instâncias, todas essas, que entram na definição, aberta e reversível, da sua poética: balançando entre verso e prosa, entre romance e poema, o escritor conseguiu, nesse sentido, dar voz ao seu dilacerante sentimento de inadequação, à angústia de uma condição dolorosamente imperfeita, desembocando no tédio de viver de forma sempre parcial e partida.

Ler Pavese hoje, no nosso tempo ainda intempestivo e anacrônico, pode então representar um antídoto ao cansaço de existir, à consciência dolorosa de uma vida incompleta, ao sentimento de ser-pela-morte. Morte que é, desde o princípio, o nosso fim e que, quando chegará, terá talvez “os teus olhos”: o olhar de uma velha, silenciosa companheira em que, finalmente, nos espelharemos na nossa definitiva e (des)humana identidade, reconhecendo-nos na nossa patética – e todavia gloriosa – nudez.

Ettore Finazzi-Agrò é professor de Literatura Portuguesa e Brasileira na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade de Roma “La Sapienza”. No âmbito da literatura brasileira, já publicou um livro sobre Clarice Lispector, além de estudo sobre ela e sobre Nélida Piñon e vários ensaios sobre as obras de Guimarães Rosa, Mário de Andrade e outros grandes autores contemporâneos.

NOTURNO
A colina é noturna no claro céu.
Ela enquadra tua testa que mal se mexe
e acompanha esse céu. Tu pareces a nuvem
entrevista entre os ramos. Sorri em teus olhos
a estranheza de um céu que não é o teu.
A colina de terras e folhas encerra
com a massa escura a tua viva mirada,
a tua boca tem dobras de um doce entalhe
entre as costas longínquas. Pareces brincar
com a grande colina e a clareza do céu:
reconstróis para mim o cenário antigo
e o convertes mais puro.
 Mas vives distante.
O teu cálido sangue se fez na distância. 
As palavras que dizes não se correspondem
com a dura tristeza estampada no céu.
És apenas a nuvem docíssima, branca,
enredada uma noite entre ramos antigos.

19 DE OUTUBRO DE 1940

NOTTURNO
La collina è notturna, nel cielo chiaro.
Vi s’inquadra il tuo capo, che muove appena
e accompagna quel cielo. Sei come una nube
intravista fra i rami. Ti ride negli occhi
la stranezza di un cielo che non è il tuo.
La collina di terra e di foglie chiude
con la massa nera il tuo vivo guardare,
la tua bocca ha la piega di un dolce incavo
tra le coste lontane. Sembri giocare
alla grande collina e al chiarore del cielo:
per piacermi ripeti lo sfondo antico
e lo rendi piú puro.
 Ma vivi altrove.
Il tuo tenero sangue si è fatto altrove.
Le parole che dici non hanno riscontro
con la scabra tristezza di questo cielo.
Tu non sei che una nube dolcissima, bianca
impigliata una notte fra i rami antichi.

SOBRE O AUTOR
Cesare Pavese (1908-1950) nasceu em Santo Stefano Belbo, na região italiana do Piemonte, e mudou-se cedo com a família para Turim. Lá, estudou com o mestre Antonio Monti, professor também de Norberto Bobbio, Tullio Pinelli e Massimo Mila, de quem Pavese se aproximou. Em 1930, graduou-se com um trabalho sobre o poeta Walt Whitman e, a partir de então, passou a traduzir livros do inglês para o italiano – traduziu Moby Dick, de Herman Melville, entre outros -, a dar aulas e a escrever para a revista La Cultura. Em 1933, Giulio Einaudi fundou a editora Einaudi e Pavese foi trabalhar com o amigo. Por essa casa, Pavese lançou seu primeiro livro, Lavorare stanca (Trabalhar cansa), em 1943. Ao lado de seus amigos Leone Ginzburg, Elio Vittorini, Italo Calvino e Natalia Ginzburg, foi um dos mais importantes intelectuais, escritores e poetas italianos do período da Segunda Guerra Mundial. Aos 42 anos incompletos, em 1950, suicidou-se em um quarto de hotel, em Turim, deixando apenas a frase “A todos perdoo e a todos peço perdão” inscrita na primeira página de seu romance Diálogos com Leucó, postado na mesa-de-cabeceira.

COLEÇÃO ÁS DE COLETE
A coleção de poesia, editada em parceria com a editora 7 Letras, do Rio de Janeiro, conta com obras de poetas contemporâneos nacionais e estrangeiros. A complementação dos volumes com prefácios, biografia e bibliografia, mais o acabamento em capa dura e tecido, torna estas edições definitivas.

Coordenação: Carlito Azevedo

Belvedere [1971-2007], Chacal
Poesia reunida [1969-1996], Orides Fontela
Poemas [1968-2000], Francisco Alvim
A rosa das línguas, Michel Deguy
Sete pragas depois, Antonio Cisneros
Lero-lero, Cacaso
Antologia – Adília Lopes, Adília Lopes

LITERATURA ITALIANA NA COSAC
Diálogos com Leucó, Cesare Pavese
Um, nenhum, cem mil, Luigi Pirandello
Conversa na Sicília, Elio Vittorini
Homens e não, Elio Vittorini
Léxico familiar, Natalia Ginzburg – em 2009

Voltar