• Poemas negros

    Em homenagem ao Dia da Consciência Negra, Emanoel Araújo, diretor do Museu Afro Brasil de São Paulo, lê “Foi mudando, mudando”, do livro Poemas negros. Lançada em 1947, a obra ganha uma nova edição pela Cosac Naify, que resgata as ilustrações de Lasar Segall e o prefácio de Gilberto Freyre.

     

  • Uma mentira que vale mais do que mil verdades

    Cavalheiros,

    Certamente esta plateia tão ilustre já ouviu falar do Barão de Munchausen e de suas fantásticas aventuras. Um homem que, no final do século XVIII, antes mesmo de o primeiro satélite ser lançado em órbita, explorou a Lua, viajou ao centro da Terra, escapou de monstros e animais ferozes. As façanhas do Barão atravessaram os séculos e tornaram-se um fenômeno literário, ganhando um sem-número de versões.

    Ilustração de Rafael Coutinho para "As surpreendentes aventuras do Barão de Munchausen" (Cosac Naify, 2014)

     

    Tais histórias não apenas foram exaustivamente adaptadas e traduzidas como também influenciaram escritores de gerações posteriores, direta e indiretamente. Encontramos ecos da personalidade do Barão, por exemplo, em Pinóquio – um dos mais célebres mentirosos da literatura –, ainda que não se possa comprovar que Carlo Collodi de fato tenha se inspirado no personagem de Rudolf Erich Raspe. Outra referência foi a homenagem que L. Frank Baum fez ao Barão no clássico O maravilhoso Mágico de Oz ao criar o País dos Munchkins.

    Diferente de Pinóquio, no entanto, os causos do Barão não podem ser lidos como sofisticadas enganações, mais sim como relatos absurdos e amplificados da experiência de um explorador disposto a defender seus ideais a qualquer custo. Nesse aspecto, a figura do Barão guarda mais semelhanças com outra figura da literatura cavalheiresca: Dom Quixote de La Mancha. Quase duzentos anos antes de Munchausen, o herói espanhol é apresentado por Cervantes em uma novela que parodia as de cavalaria por meio de um idealista que parte para viver as fantasias que lia nos escritos da época. Em ambos os personagens, há uma visão de mundo pelo prisma do impossível.

    Ilustração de Rafael Coutinho para "As surpreendentes aventuras do Barão de Munchausen" (Cosac Naify, 2014)
    Contudo, a grande diferença entre o Barão de Munchausen e outro personagem literário, é o fato de que ele existiu de verdade. Militar alemão, Karl Friedrich Hieronymus von Münchhausen participou das campanhas russas contra os turcos e, ao retornar, divertia seus pares com relatos absurdos de episódios que teriam acontecido durante a viagem.

    Encantado com a inventividade do Barão, Rudolf Erich Raspe, um bibliotecário com pretensões a escritor, apropria-se, reescreve e publica dezessete causos em 1785, em Londres. De imediato, as histórias conquistam não apenas os adultos, mas especialmente as crianças, sendo ainda hoje o livro de cultura alemã que mais influenciou a literatura infantil inglesa.

    A ambiguidade criada acerca do público leitor deste livro é um dos fatores de sua longevidade.

    Não demorou a surgir novas edições com episódios “inéditos”, que circularam durante todo o século XIX na Europa. O livro também chamou a atenção de ilustradores, como Gustave Doré. Diante desse fenômeno, o Barão de Munchausen extrapola a popularidade de seu criador Rudolph Erich Raspe para se fixar definitivamente na historiografia literária dos relatos de viagens imaginárias, conquistando seu lugar no panteão de heróis do gênero, como Robison Crusoé, de Daniel Defoe, e Gulliver, de Jonathan Swift.

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    O Barão, porém, é um homem do final de um século repleto de novas descobertas e invenções, mas que não deixa de satirizar o momento eufórico. Não à toa, as versões posteriores à original de Raspe incorporam justamente as tensões do período referentes à política inglesa e suas rivalidades com holandeses e franceses, principalmente. Muitos dos casos mais estapafúrdios vividos pelo Barão têm um pé na história europeia. O momento da narrativa que evidencia essa intenção é a grande viagem de conquista da África, presente na última versão do livro, de 1793, que sofreu modificações mais evidentes de texto e foi amplamente difundida no século XIX

    No Brasil, foi apenas em 1891 que o tradudor e adaptador Carlos Jansen publica Aventuras pasmosas do celebérrimo Barão de Münchhausen. Desde então, poucos foram os aventureiros que se dedicaram a este universo tão fértil. Foi diante deste panorama que evidenciou-se a necessidade de um livro que trouxesse o tamanho – literalmente – desta tradição. Assim, apresentamos os inéditos trinta e quatro capítulos das aventuras do Barão de Munchausen da versão de 1793, acrescidos de dois prefácios e um apêndice. Essa edição também traz as magníficas ilustrações exclusivas do artista Rafael Coutinho.

    Ilustração de Rafael Coutinho para "As surpreendentes aventuras do Barão de Munchausen" (Cosac Naify, 2014)

    Assim, é com olhos de novidade que o leitor brasileiro deve abrir esta edição das aventuras completas do Barão de Munchausen, o anti-herói que viaja duas vezes para a Lua, percorre o mundo em navios, balões, sob o dorso de um cavalo e ainda encontra tempo para lutar com Dom Quixote, seu maior rival literário.

     

    *Isabel Coelho Lopes é diretora do núcleo infantojuvenil da Cosac Naify. Este texto é uma versão reduzida da apresentação escrita  para a edição de As surpreendentes aventuras do Barão de Munchausen (Cosac Naify, 2014)

     

  • “Just another future song (…)”

    Os anos 1970 foram a década milagrosa de David Bowie. A decolagem definitiva de sua carreira pode ser rastreada até o LP The rise and fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars, de 1972, no qual encontramos um rock autoconsciente, reflexivo, narrativo e povoado de imagens, tremendamente significativo para as posteriores gerações de músicos.

    De fato não há dúvidas de que The rise and fall… está entre os cinco ou seis álbuns mais influentes da história do rock; mas o realmente assombroso é que Bowie não parou por aí. O álbum lançado no ano seguinte, Aladdin Sane, retoma algumas propostas do antecessor e segue em direção ao jazz e à música de vanguarda. E o que dizer das reinvenções e das novas zonas exploradas num ritmo que hoje nos parece enlouquecedor ou impensável não apenas na carreira de um solista, como também na de várias bandas de rock? Desde o soul cantado à maneira de um robô finamente programado para simular sentimentos (Young Americans) até a então incipiente música eletrônica e o synthpop (Low, “Heroes” y Lodger); desde o projeto de adaptar o romance 1984, de George Orwell, para uma ópera glam rock (Diamond Dogs) até a compilação de toda sua carreira (Scary Monsters), os álbuns lançados por Bowie na década de 1970 foram, são e certamente continuarão sendo uma cartilha para aqueles que querem formar uma banda de rock.

    A verdade é que não se trata unicamente de música. Os personagens que Bowie interpretava (o extraterrestre Ziggy Stardust, o enigmático Duque Branco de Station to Station, o misterioso Aladdin Sane do álbum de mesmo nome, entre outros) e as histórias que suas canções contam abriram frente para quem depois tentou oferecer, por meio do rock, uma soma de música, conceito, imagem e narrativa, desde Rush até Muse, passando pelos Smashing Pumpkins de Machina e o Marilyn Manson de Mechanical Animals. Até mesmo Pink Floyd, banda aparentemente tão distante de certas coordenadas estéticas de Bowie, deixou transparecer a influência de The rise and fall… no álbum duplo The Wall, no qual o mito do cantor de rock como messias é explorado até os recantos mais sombrios.

     

    Mas essa intensíssima criatividade não poderia durar para sempre. Os anos 1980 viram um Bowie desorientado. Depois dos piores trabalhos de sua carreira e de uma década de 1990 de tentativas e com acertos parciais, os excelentes Heathen e Reality, de 2002 e 2003 respectivamente, ofereceram a promessa de uma renovação do talento de Bowie. Lamentavelmente o silêncio no qual o músico submergiu a partir de 2004 ameaçou colocar fim às esperanças.

    Mas em 2013, uma surpresa.

    Bowie lançou The next day, um disco que, desde a capa – a arte de “Heroes” entrecortada por um retângulo branco – até as composições, se vincula claramente a seus trabalhos do fim da década de 1970. E em outubro de 2014, pudemos escutar a canção “Sue (Or in A Season Of Crime)”, que à uma inquietante paisagem sonora de mais de sete minutos somou-se uma performance vocal na órbita do som de Scott Walker. Certas zonas de The Next Day e a nova “Sue” parecem mostrar um Bowie ansioso por se atirar com tudo na experimentação sonora (e a assombrosa combinação de influências) que o caracterizou em seus melhores anos.

    O que mais, então, se pode esperar de um David Bowie em seus 67 anos?

    Seria talvez um pouco ingênuo ou otimista pensar que um de seus trabalhos futuros possa representar para a música da segunda década do século XXI o que The rise and fall… e Low foram para a década de 1970, talvez porque essa rede de relações que é a música em geral, e o rock em particular, tenha se tornado tão complexa a ponto de uma figura individual já não conseguir impor um formato como fez Bowie em seu momento.

    Ao mesmo tempo, Bowie, sem ter sido estritamente um “inovador” (seu grande talento sempre foi pegar uma tendência incipiente e desenvolver suas potencialidades), soube como ninguém abrir caminho a outros artistas, soube como tornar imprescindíveis e fascinantes certas tendências estéticas e musicais. É impossível, portanto, prever o que dele virá. O que sim está claro é que seus melhores álbuns, sua força intelectual e criatividade estarão sempre aí para inspirar às gerações.

     

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    O livro David Bowie, publicado pela Cosac Naify em 2014

     

    *Ramiro Sanchiz (Montevideo, 1978) é escritor e jornalista. Estudou filosofía e letras na Universidad de la República Oriental del Uruguay. Publicou, entre outros livros, os romances Los viajes, La historia de la ciencia ficción uruguaya, El orden del mundo e Ficción para un imperio.

     

  • Fabrício Corsaletti lê Murilo Mendes

    Depois de anos fora de catálogo, a Cosac Naify começou a reeditar em 2014 a obra completa ­– poesia e prosa – de Murilo Mendes, considerado, com Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, um dos quatro maiores poetas da literatura moderna do país. Quatro títulos já integram a coleção: Poemas (1930), Antologia poética, reunião inédita de seus poemas, em edição comercial e especialA idade do serrote (1968) e Convergência (1970).

    Convidamos o poeta Fabrício Corsaletti para ler um poema de A idade do serrote, livro de memórias de Murilo Mendes. “Prima Julieta” foi o escolhido:

     

    Nesta quinta-feira, dia 13 de novembro, Fabrício Corsaletti e o compositor Zeca Baleiro se encontram em São Paulo para discutir a obra de Murilo Mendes. O evento, uma parceria entre a Livraria da Vila e a revista Brasileiros, coloca em pauta a atualidade da obra do poeta mineiro. Não perca!

    VILABrasileiros: Atualidade de Murilo Mendes
    Livraria da Vila – Rua Fradique Coutinho, 915 – Vila Madalena
    13 de novembro, às 19h30
    Entrada gratuita

  • Rafael Coutinho fala sobre “As surpreendentes aventuras do Barão de Munchausen”

    O quadrinista Rafael Coutinho conta como foi ilustrar a nova edição do livro As surpreendentes aventuras do Barão de Munchausen, com episódios inéditos, que chega às livrarias em novembro:

     

     

  • DO(U)ZE DIÁLOGOS ROUBADOS

    Ilustração de Daniel Bueno para a capa de "Dez centímetros acima do chão", novo livro de Flavio Cafiero

     

    1
    - Acordei meio zoada.
    - Você está sentindo alguma coisa?
    - Não, vó. Só um pouco atrapalhada. Zoadaça.
    - Mas você vai à escola, não vai?
    - Claro. Hoje tenho aula com aquele professor zoado.
    - Zoado como? Atrapalhado?
    - Não, vó. O cara é fera. Zoado mesmo.
    - Você precisa dormir mais. Chegou tarde?
    - Ô. A festa tava, assim, tipo… Zoada.
    - Zoada, é?
    - Zoadaça!
    - Você gostou ou não da festa, filha?
    - Se gostei, vó? A festa tava zoada!
    - A vó foi ao médico ontem.
    - E?
    - Osteoporose.
    - É ruim?
    - Ossos descalcificados.
    - É o quê, vó? Como assim?
    - Meus ossos estão assim… Zoados. Zoadaços, filha.
    - Ih, vó. Se cuida.

     

    2
    - Aqui diz que a quantidade de vezes que as pessoas sorriem durante o dia cai ano após ano.
    - Aquelas pesquisas imbecis, outra vez?
    - Vertiginosamente.

     

    3
    - Nossa comunicação tá um pouco larga, você não acha?
    - Larga?
    - Larga, frouxa.
    - Frouxa?
    - Parece que você se segurou num punhado de balões de hélio e vai sair voando.
    - Nem brinca, um sujeito morreu assim.
    - Eu sei.
    - Você acha que eu corro risco?
    - Com sorte, encontram o corpo.

     

    4
    - Pense bem, rapaz. Nada pode ser muito fácil.
    - Sei.
    - Respire uma, duas, três vezes.
    - Assim?
    - E agora diga.
    - Itaquaqueque… Itaque… Itaquaquecetuba. É isso?

     

    5
    - O tempo é rei.
    - Tempo tempo tempo tempo.
    - O tempo vai chegando e já escapando. Engatado no próprio rabo.
    - Esquece, vai. O tempo cura.
    - Só o tempo vai dizer.
    - Pois é, o tempo é sábio.
    - O tempo é sábio, mas é curto.
    - Dá um tempo, vai.
    - Nã-nã-não. Tempo é dinheiro.
    - Tá sem tempo?
    - Ô. Faz tempo.
    - Um passatempo, que tal?
    - Passatempo?
    - Passatempo.
    - Cuidado. O tempo é obediente.
    - É. Ele passa.

     

    6
    - Banho quente é um perigo para a pele.
    - Banho quente é ruim para o cabelo, também.
    - Banho quente enfraquece a imunidade.
    - Banho quente gripa, deixa mole.
    - Banho quente demora, gasta muita água.
    - Enferruja tudo.
    - Mas é bom, né.
    - Banho quente é bom.

     

    7
    - E por que você não tira um tempo sozinha e vai pra uma casa na praia?
    - Ah, não. Não suporto.
    - Você não gosta de praia?
    - Não, eu não gosto de casa.

     

    8
    - Posso enviar a proposta para o senhor ainda hoje.
    - Muito bem, eu agradeço.
    - O senhor trabalha com e-mail?
    - Não, sou advogado.

     

    9
    - Mais um café?
    - Não, obrigada.
    - Uma água?
    - Não, muito obrigada.
    - Não vai querer mais nada?
    - Por enquanto não.
    - É que a senhora estava me olhando, então eu pensei.
    - É que você é bonito.

     

    10
    - Como é o nosso amor?
    - O nosso?
    - É, o nosso. Não quero o amor em geral, quero o nosso. Como é?
    - Hmmm. Imagine a primeira gota de uma chuva muito aguardada, daquelas chuvas que
    ameaçam a cidade por dias.
    - A primeira gota?
    - A primeira a se formar, a primeira a vencer a multidão de gotas potenciais, aquela que dá início à chuva.
    - É assim?
    - Calma. Ela desce, ela cai, não sabe que é a pioneira, nem se sabe gota. Ela cai reto e
    atravessa o furo mínimo do telhado de uma casa, um furo quase do mesmo tamanho da gota. A gota atravessa o telhado perfeitamente, pelo furo, sem resvalar.
    - Então é assim?
    - E a gota atravessa o furo e cai direto no meu olho, que acabei de abrir. Uma coreografia perfeita, sem controle, mas perfeita. Eu desperto, abro os olhos e a gota termina a trajetória no meu olho direito. Os meus cílios chegam a tocar na gota. Essa gota, no meu olho…
    - É assim o nosso amor?
    - Quase assim.

     

    11
    - Tudo bem com você?
    - Tudo bem. E você?
    - Eu o quê?
    - Tudo bem com você?
    - Nem te conto…

     

    12
    - Por favor, uma garrafinha d’água.
    - Com bolinha ou sem bolinha?
    - Não sei. Que tipo de bolinha você tem?

     

    *Flavio Cafiero é autor da coletânea de contos Dez centrímetros acima do chão, que chega em novembro às livrarias. Seu romance de estreia, O frio aqui fora (Cosac Naify, 2013), foi um dos finalistas do Prêmio Jabuti 2014

  • Três livros de Aloiso Magalhães

    Não sei como as datas comemorativas das profissões são determinadas, que tipo de organismo é encarregado de estabelecer um calendário, mas o Dia do Designer foi sabiamente instituído como uma homenagem a Aloisio Magalhães. Nascido em 5 de novembro de 1927, ele faria hoje 87 anos.

    Embora mais conhecido por seus grandes projetos de identidade visual, desenvolvidos ao longo das décadas de 1960 e 1970 à frente do escritório de design PVDI, no Rio de Janeiro, Aloisio começou sua carreira projetando livros experimentais, no grupo d’O Gráfico Amador, em Recife, nos anos 1950.

    Aloisio nunca abandonou essa vertente experimental, que certamente oxigenava seu trabalho no PVDI. Comento aqui brevemente três dos meus preferidos:

    Doorway to Brasília, 1959
    Este livro foi desenvolvido em parceria com Eugene Feldman na Falcon Press, sua gráfica na Filadélfia, onde eles já tinham editado o Doorway to Portuguese, em 1957. A dupla viajou para Brasília na época em que a capital ainda estava em construção; fotografou a cidade, e usou as imagens como matéria-prima para experimentações no offset. Eles faziam intervenções ao longo das etapas do processo, da gravação da chapa à impressão, obtendo resultados imprevistos, cuja expressividade vem da própria técnica. O livro alterna imagens quase abstratas com outras reconhecíveis das construções icônicas de Brasília e inclui um pequeno texto de Lucio Costa.

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    Imagens do livro Linha do tempo do design gráfico no Brasil. Elaine Ramos e Chico Homem de Melo (org.), São Paulo, Cosac Naify, 2012.

     

    1/8/16 Informação esquartejada, 1971
    Outra vez interessado em explorar a técnica como linguagem, Aloisio se apropria de folhas de outdoor. Impressas em gigantografia para serem vistas de longe, na escala da cidade, essas folhas são transformadas em livro e assim podem ser apreciadas mais de perto, na distância da mão, intimamente. Com esse deslocamento, o que era informação inteira, voltada para a comunicação imediata, vira um fragmento abstrato: a retícula vira o conteúdo, para deleite visual, aberto “à imaginação e à fantasia do leitor”. A única informação verbal vem estampada na capa e explica o conceito e o processo do livro. As folhas são encadernadas aleatoriamente; cada exemplar é único.

    Imagens do livro Linha do tempo do design gráfico no Brasil. Elaine Ramos e Chico Homem de Melo (org.), São Paulo, Cosac Naify, 2012.

     

    1/4/8 Hollywood, 1971
    Este é na verdade uma proposta de livro apresentada à Souza Cruz, e não chegou a ganhar uma edição. O processo é semelhante ao projeto do 1/8/16, mas, ao discurso da escala ele acrescenta o sequenciamento. O formato é o dobro do anterior (26 x 34 cm), a capa, um mapa com a imagem inteira na escala do livro, e as páginas internas seguem a sequência mapeada.

    Imagens de A herança do olhar, o design de Aloisio Magalhães. João de Souza Leite (org.), Rio de Janeiro, Artviva, 2003.

     

    *Elaine Ramos é diretora de arte da Cosac Naify

  • Nino Cais fala sobre “O paraíso são os outros”

    É na próxima quinta-feira, dia 6 de novembro, o evento de lançamento de O paraíso são os outros, com texto de Valter Hugo Mãe, inspirado na obra do artista visual Nino Cais. A noite de autógrafos será na Central Galeria, em São Paulo, com presença dos autores e exposição das obras de Nino.

    Amigos e parceiros criativos, os dois se conheceram em 2012, quando Cais expunha na 30ª Bienal de São Paulo. O escritor ficou fascinado por seu trabalho e fez questão de conhecê-lo pessoalmente. No ano seguinte, Valter sugeriu que Nino assinasse a ilustração de capa de seu terceiro livro publicado pela Cosac Naify, O apocalipse dos trabalhadores (2013).

    Os dois mantiveram contato, entre idas e vindas de Valter Hugo Mãe ao Brasil, e foi a partir de uma visita do escritor ao ateliê do artista que nasceu O paraíso são os outros, ainda inédito em Portugal, publicado exclusivamente pela Cosac Naify. Valter Hugo ficou tão tocado pelas fotografias antigas de casais coletadas e manipuladas por Nino Cais que produziu o texto de O paraíso são os outros em menos de um dia. Fomos ao ateliê de Nino e conversamos um pouco sobre essa experiência. Veja abaixo a entrevista:

     

    Para saber mais sobre o evento, clique aqui.

    Não perca!

     

  • A importância da “Odisseia” segundo Gógol

    A Cosac Naify lança a edição definitiva – em versão comercial e especial – de umas das obras fundadoras do pensamento ocidental: Odisseia, texto atribuído ao poeta grego Homero, provavelmente escrito entre os séculos VIII e VI aC. É pouco provável que um poeta com esse nome tenha existido, e não é mais possível reconstruir, com um mínimo de precisão, o processo pelo qual, entre os séculos VIII e VI aC, o texto dos poemas adquiriu a forma na qual hoje são lidos. Uma das razões é que quase nada sabemos acerca do uso da escrita na Grécia no século VIII aC, já que performances poético-musicais faziam parte do cotidiano grego, ou seja, ainda no século V aC, esse era o modo principal de recepção de uma composição poética.

    A tradução e a introdução, inéditas, são de Christian Werner, livre-docente de língua e literatura grega na Universidade de São Paulo (USP). A edição conta também com apresentação do homerista americano Richard Martin, posfácio especial do escritor e professor de filosofia Luiz Alfredo Garcia-Roza, e, em apêndice, um texto de Kafka e um poema de Kaváfis.

    O caráter atemporal de Odisseia e suas inúmeras possibilidades de leitura já foram intensamente explorados ao longo da crítica literária e da história da filosofia, de Auerbach a Adorno, para citar apenas dois exemplos. Em carta escrita a Nicolai Mikháilovitch Iazykov, datada de 1845, o romancista e teatrólogo russo Gógol enaltece a importância da chegada da tradução do clássico de Homero na Rússia do século XIX e sua contribuição ao exercício da crítica literária. Abaixo, um trecho da carta*:

    […] a Odisseia age no gosto e no desenvolvimento do sentimento estético. Ela revigora a crítica. A crítica está cansada e emaranhou-se na análise de obras enigmáticas da nova literatura, atirou-se por desespero e, desviando-se das questões literárias, disparatou a toda. Com a Odisseia, podem, sim, aparecer muitos críticos sensatos, tanto mais que é de se duvidar que haja no mundo outra obra que possa ser considerada por tantos aspectos como a Odisseia. Eu tenho certeza que os comentários, as análises, as reflexões, as observações e as ideias suscitadas por ela irão repercutir entre nós nas revistas durante anos. Os leitores não ficarão em prejuízo por causa disso: os críticos não serão desprezíveis: muito será exigido deles, terão de reler, reexaminar, reexperimentar e repensar; um despreparado sem fundamentos não encontrará nem o que dizer sobre a Odisseia.

    A edição especial de Odisseia vem acompanhada de 26 pranchas encartadas e sobrecapa com colagens do artista plástico Odires Mlászho. O lançamento será no dia 4 de novembro, terça-feira, na Galeria Vermelho, em São Paulo.

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    *Tradução de Renata Esteves, publicada em sua dissertação de mestrado: “Vissariôn G. Belínski: uma apresentação”, sobre um dos mais importantes críticos literários da Rússia no século XIX

  • O apocalipse de Heloisa Seixas

    O cavalo sobe na árvore e canta como galo. A estrada é longa, mas o portão é
    estreito. Alguém de negro dança na praia. A galinha anuncia a escuridão.
    O dia raiou e o peixe está morto. Alguém de negro está agachado na praia. A
    serpente vibra no céu. A virgem está pálida, porém feliz como um rato.
    Alguém de negro corre na praia. A cabra assobia com seus dois dentes. O
    som do clarim soa forte. As ondas quebram. Alguém de negro defeca na
    praia. A porca deita nos ovos e o galo permite. A noite está coberta de
    fuligem e o escuro permanece. Alguém de negro permanece, permanece na praia.

    Canção interpretada pela trupe de artistas mambembes em O sétimo selo, de Ingmar Bergman

     

    A heroína desta história, um quase romance, se confunde com o protagonista, uma espécie de xadrezista tenaz. Assim se organiza também, como numa conversa bêbada, a narrativa alternada em prolepses e flashbacks, erguida em várias camadas: as tulipas vazias, as bolachas de chope amontoadas sobre a mesa e beijadas pela gordurosa brisa do Leme.

    Hálito de chope à parte, Heloisa trata com uma lucidez aguda, quase autômata, a saga pela qual passou, ao lado do marido, sempre ao lado do marido, o escritor Ruy Castro. Ficção e realidade dançam um antigo bolero, em algum nightclub fumoso, cujo último cliente, exalando álcool pelos buracos, pede mais um copo alto de vodka pura.

    O cenário também é movente — e emula a paisagem esbarrancada da Avenida Niemeyer, o pisca-pisca de uma geringonça refletido nos olhos curiosos de um menino apaixonado por música, cinema e literatura: um quarto sombrio de UTI, uma galeria carioca badalada dos anos setenta, uma casa de repouso abraçada por um milharal, um lago salgado, uma pequena e assustadora loja de máscaras venezianas, um apocalíptico desfile da Portela, na Sapucaí.

    Heloisa vai abrindo os selos e contando, numa intricada renda de filé crivada de vastas referências literárias, cinematográficas e musicais — o livro é também outros tantos livros, filmes e músicas —, os desgastados degraus de sua íntima Escadaria da Penha, os percalços da vida e da então delicada saúde do marido: a alucinante e épica aventura de amar outro corpo, o suplício de estar vivo.

    O oitavo selo é tão colorido quanto doído. Esquartejado e musical. (Embora surja um Frank Zappa aqui, uma Gang 90 ali e um Paulinho da Viola acolá, a trilha sonora de fundo crepita baixinho, como o mar de Ipanema, na voz de um Tom Jobim sussurrante, aprisionada num carro hermético, beirando a aleia de castanholeiras, a caminho do hospital.)

    Com o olho clínico, uma cadência discreta — algumas vezes descarada — e uma elegância vocabular precisa, Heloisa joga corajosamente com a perda e o medo, este último, um lobo de gengiva escura**, maior e mais doloroso que a morte.

    A morte, essa figura tão indevassável quanto uma cerimônia monástica realizada numa igreja colonial, tão incompreensível quanto uma faca de cozinha atravessada na garganta, revelada num exame rotineiro de raio X, a pontinha extravasando a pele, à esquerda**. A morte, essa figura tão mesquinha e desprovida de graça, que teve a pachorra de calar Millôr, Carmen Miranda, Nelson Cavaquinho e o cavaleiro Antonius Block.

    Hálito de morte à parte, ela, a grande adversária das gentes, a fantasmagórica baútta, a sinistra e obstinada personagem de Bergman, parece não vencer dessa vez.

    No mesmo planeta apocalíptico, onde a peste incha os corpos, os cavalos comem uns ao outros, os túmulos são abertos e os restos de cadáveres estão espalhados por toda parte**, há ainda a livraria, o cheiro doce do sebo, o quartinho do tesouro, a palavra, o humor.

    A profecia encrespou o mar.

    Heloisa, que também é xadrezista tenaz, derruba estrategicamente as peças do tabuleiro e derrama sobre todas as dores, as mãos carnudas do amante, os gestos adivinhados, um livro valente, de capa laranja, escrito como uma declaração de amor.

    setim2

    * Natércia Pontes é autora de Copacabana Dreams

    **as passagem assinaladas fazem menção ao livro de Heloisa Seixas ou ao filme de Ingmar Bergman