Segunda-feira, 15 março, 2010, às 18:39
Já dizia o poeta: clássico é clássico e vice-versa. Mesmo transposta do mundo do futebol para literatura, a frase parece mostrar que não precisamos de quase nada para reconhecer um clássico: basta a percepção imediata de que estamos diante de um.
Mas se for preciso um critério para reconhecer um clássico, ele poderia ser o estudo do tipo e quantidade de derivações, adaptações e outras obras que gerou. O que os britânicos vêm fazendo com Shakespeare ao longo de séculos é um exemplo disso, atualizando-o a cada geração, a ponto de Jan Kott ter chamado o Bardo “nosso contemporâneo“.
No Brasil muitas vezes somos resistentes a reinterpretar e reinventar nossos clássicos, o que muitas vezes acaba por fossilizá-los. Por ora, no embalo das especulações de redatores e comentaristas neste blog, na semana passada, sobre um game de Macunaíma, ficaremos com a mais recente adaptação feita com Macbeth.
Está sendo desenvolvida na Inglaterra uma graphic novel interativa (quase um game?), em que a Peça Escocesa ganha movimento e vozes, dubladas por atores famosos: Juliet Stevenson será Lady Macbeth e Derek Jacobi será seu sanguinário marido. A ideia é que o Macbeth interativo seja um instrumento para o estudo de literatura nas escolas britânicas.
Ainda em fase de testes, a HQ estará disponível em três textos: o original, uma versão adaptada e uma terceira, adaptada e simplificada para leitores mais novos.
Em breve, publicaremos aqui uma pequena amostra do que uma peça como Macbeth, que temos a impressão de conhecer de cor, pode virar na mão de um Kurosawa, de um Orson Welles ou de um Antunes Filho.
Sexta-feira, 12 março, 2010, às 21:01
É difícil imaginar, mas Liev Tolstói, criador de obras-primas como Guerra e paz, Khadji-Murát e Anna Kariênina, andava, falava, piscava, sorria, tinha amigos e parentes. Obviamente. Mas como? Quer dizer, é difícil pensar em como agiam figuras que ganharam proporções mitológicas, de que maneira desempenhavam funções básicas e cotidianas. Como viviam a vida, enfim.
Neste vídeo, feito em 28 de agosto de 1908, dia em que o escritor completou 80 anos, o pioneiro do cinema russo Aleksandr Osipovich Drankov flagrou momentos em família de Tolstói, ele e sua longa barba branca. Estas são as primeiras imagens em movimento de um dos maiores mestres da literatura universal, hoje sob os cuidados do Arquivo Nacional de Imagens e Fotografias da Rússia. O material foi digitalizado por Eric W. Hoffman, da Media Center of Stetson University.
O filme mostra Tolstói entre parentes e amigos, numa carruagem que o leva à estação de trem, para então seguir para Iásnaia Poliana, a casa onde nasceu e viveu, há anos transformada em museu. Nas cenas, ele entrega presentes a crianças filhas de camponeses, misturadas a uma pequena multidão que o acompanha pelo trajeto. Michael Denner, editor do portal na internet Tolstoy Studies, acredita que uma das meninas é Aleksandra L’vovna, terceira filha do escritor, que volta à cena em outro momento. Também aparece sua esposa, Sofia Andreevna Tolstaia, com flores nas mãos. Tolstói ainda caminha pela neve, anda a cavalo e, num salto no tempo, aparece por campos floridos e descansa numa cadeira de balanço.
Nas últimas e mais fortes imagens, Liev Tolstói está morto sobre a cama. Os trechos de seu cortejo fúnebre revelam a admiração popular que o escritor despertou ainda em vida.
Sexta-feira, 12 março, 2010, às 15:18
Música, design e pequenas preciosidades cotidianas ganham sintonia perfeita nos cartazes elaborados por Kiko Farkas para seguidas temporadas da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP). Entre os 300 desenhos que o designer produziu de 2003 a 2007, mais de cem foram selecionados para compor o livro Cartazes musicais, lançado na abertura da exposição no Centro Universitário Maria Antonia.
Abaixo, Kiko comenta a história que há por trás de quatro cartazes, escolhidos pelo próprio artista.
[Leia entrevista de Kiko Farkas a Daniel Trench e, depois, passe por aqui para baixar quatro cartazes como papel de parede para seu computador]
O Brasil em cartaz
Este foi feito para a turnê da OSESP na Europa, em 2003. Quis criar um cartaz que falasse do Brasil, da música brasileira, o que, na minha visão, está muito ligado a Villa-Lobos. Por isso optei por criar uma atmosfera que se remetesse ao som da floresta amazônica, algo telúrico. Por outro lado, não gostaria que fosse óbvio, que mostrasse a mata. Então optei pela imagem da borboleta, trabalhada em diversas combinações, como um pensamento musical. Beethoven, por exemplo, fez coisas incríveis com apenas cinco notas, que se alternam e se multiplicam.

Instrumentos imaginários
Durante a produção dos cartazes – sete ou oito por mês – eu alternava alguns coloridos e cheios de formas com outros mais sóbrios, clássicos, que funcionavam como uma pausa, um respiro. Além disso, sempre procurei evitar o uso de notas musicais, partituras, tons amadeirados etc.. Mas os instrumentos musicais são algo fascinante, e deles poderia vir algo. Então fiz associações livres de alguns deles; portanto, o que se vê neste cartaz é um instrumento imaginário, que deu origem a uma série. Gosto muito do resultado: simples, direto, forte, quase uma marca. Por isso o escolhi para ser a capa do livro.

São Paulo é magenta
Já reparou como há épocas em que São Paulo fica repleta de azaleias? Andando pelas ruas, vi a cidade pintada de magenta, por causa dessas flores. Recolhi uma pétala e digitalizei, ou, como prefiro dizer, usei nossa máquina de loucura. Mexi na cor, nos tamanhos, sem saber aonde iria chegar. Mas mesmo com um resultado bonito, achei que estava faltando algo. E então surgiu a ideia de colocar, no centro, uma cadeira. Um convite para sentar e ouvir.

Chaves em coro
Certa vez, na casa da minha mãe, achei uma caixa antiga do meu pai, cheia de chaves, centenas delas, uma diferente da outra. Fiquei encantado com aquela variedade, que representam diferentes lógicas e modos de acesso, quase uma promessa. Digitalizei todas as chaves, e deixei as imagens guardadas, já pensando em usá-las em alguma oportunidade. Na hora de criar um cartaz para o coro da OSESP, não pensei duas vezes. Aqui, cada forma é uma voz.

Quinta-feira, 11 março, 2010, às 19:40
Os franceses, como era de esperar, andam ressabiados com a revolução do livro digital.
Primeiro, mostraram-se arredios ao famigerado acordo do Google com editores e autores: os irredutíveis gauleses foram os que mais chiaram quando o gigante ianque tentou impor seu contrato à força, no ano passado.
Enquanto os animados italianos acabam de fechar um acordo com o Google para digitalizar “de graça” seus acervos raros, em Paris a Bibliothèque Nationale recusa-se a permitir que a sua formidável coleção passe pelos portentosos scanners do Google. Alega que está fazendo uma digitalização própria (muito mais lenta e, dizem os críticos, onerosa para o Estado).
A incrível rede de pequenas livrarias da França, preservada graças à lei do preço único, também se sente — com razão — ameaçada pelo que o Le Monde chama de “cannibalisation du livre physique”.
E foi com pé-atrás que o Le Monde des Livres desta semana recebeu o lançamento de uma coleção de cem clássicos franceses especialmente licenciados para serem lidos num console Nintendo DS — Rimbaud, Radiguet e Maupassant estão lá.
Nerds japoneses, britânicos e alemães também já têm à disposição suas “bibliotecas Nintendo”. “Resta saber se os adolescentes de doze a quinze anos largarão os Pokemons para ler os clássicos”, diz o viperino articulista do Le Monde. Pensando bem, Uma temporada no inferno até que parece nome de game.
E por aqui? Será que ainda veremos Mário de Andrade fazendo suas estripulias no habitat natural do Super Mario?
Quinta-feira, 11 março, 2010, às 11:43
O produtor e músico Paulo Bira leu e se encantou com a série Brasileirinhos, escrita por Lalau e ilustrada por Laurabeatriz. O encanto foi tanto que se dedicou por dois anos a musicar os poemas sobre animais em extinção. Chamou feras no assunto – Zeca Baleiro, Suzana Salles e Paulo Tatit – e o resultado é o CD Brasileirinhos: música para os bichos do Brasil, lançado recentemente.
Sempre é tempo para agradecimentos, quanto mais para torná-los públicos. É ao Bira que deixamos aqui nossa admiração pelo trabalho incrível. Vale a pena ler, ver e ouvir.
Quarta-feira, 10 março, 2010, às 16:35
Dê uma olhada neste vídeo da Copa de 1970. Em sete segundos, Tostão age ligeiro, domina a bola e dá uma amostra do que foi o mitológico ataque da seleção que conquistou o tricampeonato mundial.
Hoje, na posição de um dos principais comentaristas esportivos do país, o ex-jogador dedicou sua coluna no jornal Folha de S. Paulo ao desaparecimento. O sumiço de jogadores como Adriano, o Imperador, dos gramados serve de princípio para a tese de que, “em algumas profissões, sumir é charmoso e prático”.
A partir desta premissa, ele cruza futebol e literatura, à moda do mestre Nelson Rodrigues (a propósito, em uma de suas crônicas Nelson referiu-se a Tostão como o “Anão de Velázquez”, remetendo ao anão que aparece no quadro As meninas):
“Muitos escritores desaparecem para escrever seus livros. Há ainda os que se isolam para refletir sobre suas vidas, verdades, finitudes e insignificâncias diante do mundo. Estou louco para ler o novo romance sobre o assunto, Doutor Pasavento, do escritor espanhol Enrique Vila-Matas, traduzido por José Geraldo Couto”.
Você lê a íntegra do artigo de Tostão no site da Folha (acesso exclusivo para assinantes) e nos veículos que reproduzem conteúdo do jornal, como o Jornal do Brasil.
Terça-feira, 9 março, 2010, às 19:45
O designer Kiko Farkas já está a postos para o lançamento do livro Cartazes musicais. O evento ocorre no Centro Universitário Maria Antonia logo mais, às 20h, e marca o início da exposição de mesmo nome. Na foto acima, o artista se prepara para uma entrevista ao Metrópolis, da TV Cultura, na edição do programa que deve ir ao ar amanhã.
O livro reúne parte dos 300 cartazes produzidos por Farkas entre 2003 e 2007 para os concertos da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP). Na obra, ele traduz em cores e formas o universo musical da orquestra.
“Para um designer, um grande feito é conseguir criar um ótimo cartaz, ou talvez dois ou três. Se forem bastante reproduzidos em bienais, anuários e competições pelo mundo, tornam-se, por repetição, icônicos. Penso em muitos designers que realizaram isso, incluindo eu mesma. Outra coisa, porém, é um designer reunir um conjunto grande de cartazes, e somente cartazes, todos de igual qualidade, em um livro”, ressalta no texto de apresentação da obra a designer norte-americana Paula Scher, criadora dos cartazes para o Public Theater de Nova York.
O lançamento é aberto a todos: conheça o livro, visite a exposição e passe por aqui para deixar seu comentário.
Quinta-feira, 4 março, 2010, às 17:21

São 17h desta quinta-feira e Boris Schnaiderman visita a Cosac Naify. Aos 92 anos, o tradutor de Khadji-Murát, de Liev Tolstói, lançamento da coleção Russinhos, chega com a costumeira simpatia, dá um aceno e deseja boa tarde a toda a equipe.
O grande nome da literatura russa no Brasil deixa a boina de lado e põe a mão na massa: sacou a caneta do bolso e começou a autografar exemplares da novela de Tolstói — um clássico da literatura de guerra, em que os sabres faíscam e as balas perdidas pipocam pelos morros do Cáucaso.
Entre as dezenas de traduções que já fez, Khadji-Murát está entre as mais queridas pelo tradutor, que exclama no prefácio do livro: “Que exuberância, que riqueza de perspectivas, que intensidade!”.
Boris também autografou um outro livro de guerra: o memorável relato de sua experiência como pracinha na campanha da FEB, Guerra em surdina.
Aguarde neste blog mais notícias sobre Boris, Tolstói e os exemplares autografados.
Terça-feira, 2 março, 2010, às 16:53
As imagens deste vídeo são um dos poucos registros cinematográficos de Sigmund Freud. Um senhor de idade, impecavelmente vestido, descansando em um jardim gramado. A placidez da cena não dá a menor ideia da longa batalha que ele, muitas vezes completamente sozinho, travou para avisar ao mundo que um novo continente havia sido descoberto… dentro do próprio ser humano.
Em 2010, a obra de Sigmund Freud entra em domínio público e passa a circular em novas traduções, muito além do círculo especializado dos psicanalistas. O acontecimento tem duas implicações imediatas: pode revelar ao leitor em geral a excelência da prosa de um gigante do pensamento, no mesmo passo em que exigirá edições criteriosas, que não traiam o espírito e a letra do original. Não custa lembrar que a Freud foi concedido o Prêmio Goethe de Literatura – o único que recebeu em vida – reservado somente aos grandes estilistas da língua alemã.
O tratamento pela palavra inventado por Sigmund Freud na virada do século XX, ao qual ele deu o nome de psicanálise, impõe aos pacientes uma exigência fundamental: que eles preservem uma liberdade absoluta diante de seus pensamentos e digam tudo o que lhes passa pela cabeça, sem exercer qualquer tipo de censura. Se há uma explicação para sua dor ou inquietação, o primeiro a tentar expressá-la deve ser ele próprio.
Talvez este convite ao uso mais desinibido da linguagem já bastasse para tornar a um só tempo polêmica e fascinante a tradução de uma obra científica, mas a verdade é que, desde as suas primeiras publicações, Freud cruzava também com as artes a cada novo passo de sua ciência. Em um autor que concede tanto valor à linguagem, a relação com as artes não poderia deixar de ser intensa: ela se faz notar por todos os cantos – nos escritos sobre literatura, nos relatos clínicos “que podem ser lidos como novelas” e principalmente na confissão de que os escritores teriam descoberto a psicanálise antes mesmo que ela viesse a surgir. E Freud não recua diante da constatação de que os processos inconscientes do psiquismo guardam semelhanças com os processos da criação artística. Por sua vez, a psicanálise também inspirou a arte. Basta pensar no surrealismo e em artistas como André Breton, Georges Bataille, Michel Leiris e Luis Buñuel, todos eles leitores do dr. Freud.
A prosa de Freud se destaca pela capacidade para apresentar um universo incomum numa linguagem comum e acessível. Os processos obscuros do inconsciente são descritos com nitidez diante dos olhos do leitor, que parece assistir à construção de suas teorias: ele busca o sentido da investigação enquanto escreve e chama o leitor para dentro de seu texto, apresentando mistérios que estão por ser solucionados.
A Cosac Naify publicará nos próximos meses dois dos títulos mais importantes de Freud: Luto e melancolia e seu título mais vendido na Europa, Conferências introdutórias à psicanálise, ambos nas versões inéditas da tradutora e psicanalista Marilene Carone, responsável pela elaboração do primeiro projeto de tradução da obra freudiana para o português a partir do original alemão. Estas 28 Conferências de tom cativante e rigoroso, proferidas por Freud em 1915 e 1916 na Universidade de Viena, formariam o primeiro volume deste projeto interrompido pela morte da tradutora em 1987. Como tradutora, Marilene esteve preocupada em conciliar a apresentação despojada e serena das ideias centrais da psicanálise com a construção hábil e paciente dos conceitos, sem privilegiar um destes aspectos em prejuízo do outro. Nas páginas do Folhetim, suplemento da Folha de S. Paulo, ela foi a primeira a debater com rigor as opções adotadas nas traduções então correntes de Freud. Mais do que verter a obra de um psicólogo, ela buscou preservar o estilo e a riqueza verbal de um autor que foi, além de criador da psicanálise, um dos maiores prosadores das ciências humanas do século XX, ao lado de Claude Lévi-Strauss e Maurice Merleau-Ponty, entre outros.
Terça-feira, 2 março, 2010, às 12:03
A rede de apoio a Denise Bottmann organizou um blog e um abaixo-assinado online, articulado por tradutores como Jorio Dauster, Heloisa Jahn, Ivo Barroso e Ivone C. Benedetti.
No dia 25 de fevereiro, a batalha de Denise contra plágios na tradução literária no Brasil ganhou novo capítulo. Numa incrível manobra de inversão, ao denunciar casos de cópias evidentes em versões para o português, a tradutora passou a ser processada, e seu blog Não Gosto de Plágio, a ser ameaçado de sair do ar.