• Histórias do dinheiro

    Abrindo o novo livro de Alan Pauls, História do dinheiro, lendo suas primeiras páginas, algumas ideias vão se formando, expectativas vão sendo construídas e outras deixadas de lado. Essas ideias e expectativas se dividem entre três tópicos gerais:

    1- É um livro sobre o dinheiro como abstração, como símbolo;

    2- É um livro sobre o dinheiro na história recente da Argentina;

    3- É um livro sobre o dinheiro na vida de uma criança argentina.

    Sim, é um livro sobre a presença do dinheiro na vida de uma criança argentina, uma criança que cresce e que depois passa a refletir sobre esse passado. Mas o passado da criança, do qual se ocupa o narrador do livro, teve uma localização histórica precisa (aí a Argentina, a inflação, Carlos Menem), fazendo com que essa vivência resgatada seja tanto interna quanto externa – pertence tanto à subjetividade de uma criança quanto ao “desenvolvimento” econômico de um país.

    Mas também é mais simples do que isso: existem algumas cenas nas quais o narrador mostra apenas uma criança lutando, meio sem saber o que está fazendo, para se adaptar ao “mundo dos adultos”, suas convenções e regras frequentemente silenciosas, subterrâneas. Mas é precisamente no momento em que a narrativa fica mais “direta” (a rotina de uma criança) que ela se aproxima, paradoxalmente, do item 1, o dinheiro como abstração, como símbolo. Pois parte da experiência de amadurecimento da criança diz respeito ao seu contato com a abstração que é o dinheiro e com a etiqueta de sua circulação.

    O procedimento mais interessante de Pauls é o de situar a sua história nesse ponto intermediário entre a vivência e a abstração. Não lemos nem um tratado sobre as trocas e os bens, nem uma ficção convencional sobre a infância, mas uma tensa mescla dos dois (e de vários outros registros). “Ele lê tudo”, escreve o narrador. “Basta que uma coisa se apresente escrita para despertar seu interesse, não importa se é uma bula de remédio, um folheto entregue nas ruas, uma candente promessa de sodomia garatujada na parede de um banheiro ou”, e aí irrompe a outra face do procedimento, “as correntes de auspícios agourentos – fortuna e prosperidade para quem perpetuá-las, ruína, dor, naufrágios para quem interrompê-las – que começam a vir escritas nas notas de cinco mil pesos” (p. 65).

    Pauls privilegia esses momentos em que a história do dinheiro atravessa a história do personagem – como nesse caso bastante emblemático da consolidação do “jovem leitor”. A partir desse ponto, outro tema fundamental do romance fica em primeiro plano: o mistério da circulação do dinheiro, essa mecânica monstruosa que faz o papel trocar constantemente de mãos. No conto “Falso cupom”, incluído na coletânea O diabo e outras histórias, Tolstói se ocupa dessa mesma mecânica, mas num viés diferente: Tolstói persegue o cupom e as consequências decorrentes de seu uso de forma quase panorâmica, apresentando em traços gerais uma vasta galeria de personagens, cenários e situações. A voz (e principalmente o olhar) onisciente do narrador de Tolstói acompanha o percurso tortuoso do cupom e do dinheiro que ele gera (trata-se de um cupom de 2,50 que se transforma em um de 12,50), gerando uma série de cenas densas, que mesclam comédia e tragédia de forma genial.

    História do dinheiro, por outro lado, é bastante restrito em seu foco, e a densidade narrativa não está na visão certeira de cada cena, como em Tolstói, mas no desenrolar progressivo e paciente de uma vida, uma subjetividade. Essa diferença de estilo marca também uma diferença formal: o conto de Tolstói está dividido em duas longas seções, a primeira com 23 pequenos capítulos, a segunda com 20; o romance de Pauls corre sem divisão por 190 páginas, com períodos espaçosos dentro de parágrafos igualmente generosos. Essa dilatação estilística – característica da poética de Pauls – serve perfeitamente para esse mergulho demorado na subjetividade alheia que é História do dinheiro, uma subjetividade que circula, que vai e volta, errática e descontínua (pois acompanhamos, aos saltos, o percurso que leva a criança que se adapta ao mundo dos adultos até o homem feito que compra seu primeiro apartamento). Para Pauls, o segredo da memória é aquilo que a afasta da lógica do dinheiro – valoriza-se não aquilo que foi recém cunhado, mas aquilo que salta do mais arcaico dos tempos, inesperadamente, e que volta a circular.

    * Kelvin Falcão Klein é crítico, autor de Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas (Ed. Modelo de Nuvem, 2011). Escreve em falcaoklein.blogspot.com.br

  • Para lembrar Maria

    Maria, por Iberê Camargo

    Maria Coussirat foi a companheira de Iberê Camargo por 54 anos, até 1994, ano da morte do artista, cujo centenário comemora-se em 2014. Graças a ela, em grande parte, o acervo do pintor e gravurista é um dos mais bem preservados do Brasil: há quase vinte anos está sob os cuidados da Fundação Iberê Camargo, criada por ela. Dona Maria faleceu em fevereiro deste ano, aos 98 anos, em Porto Alegre, mas eu só me interei da notícia há cerca de um mês.

    Em junho de 2010, fui à Porto Alegre para o lançamento de Tríptico para Iberê e Iberê Camargo: Origem e destino e do livro de memórias Gaveta dos guardados. Conversando com Eduardo Haesbaert, coordenador do acervo de gravuras da Fundação, falei de minha vontade de conhecer dona Maria. Ele me disse: “Ela anda muito reclusa, fala pouco. Mas vamos tentar”. Eduardo foi assistente de Iberê em seus últimos anos de vida e há algum tempo ocupa (ouvi dizer que está de mudança) o célebre ateliê da rua Lopo Gonçalves, endereço em que o mestre se fixou no retorno do Rio de Janeiro a Porto Alegre, em 1982.

    O encontro com dona Maria foi desses inesquecíveis na vida. De volta ao hotel, corri para anotar as impressões da visita. Quando soube de seu falecimento, corri de novo, agora para reler o que eu havia anotado. Chego tarde, eu sei. Mas achei que, mesmo com atraso, a homenagem valia a pena.

    ***

    Aos noventa e quatro anos, dona Maria parece frágil. Quando vejo a escada caracol que liga o hall da sala de entrada à garagem, pergunto a Eduardo se ela consegue descer por ali. “Dona Maria é forte”, ele diz.

    Maria quase não diz palavra, mas me olha sem parar. Pergunto muitas coisas, ela responde pouco. Pergunto sobre o projeto da casa modernista, do arquiteto Emil Bered, que deixou a assinatura numa das paredes. Ela diz que foi tudo feito conforme Iberê queria, inclusive os banheiros separados para o casal. Na sala, os móveis são os mesmos de quando Iberê era vivo. Me aponta a poltrona favorita dele.

    Passada meia hora de um silêncio entrecortado por raras palavras, quando já não espero que a conversa se desenvolva com mais fluidez, ela desata a contar alguma história. Como a do gato Martin, que se sentava à mesa para jantar com seus donos. Nesse momento já estamos no escritório da casa e vejo uma foto em cima da mesa: lá está Martin, língua de fora, ao lado de Iberê na mesa de jantar, numa cadeira, como um legítimo membro da família que se senta para a refeição. Ela então relembra o caso de um gato que o casal tinha no Rio e que fugiu. Iberê colocou anúncio no jornal e não faltou quem telefonasse para entregar que o fujão estava hospedado no Hotel Glória. Hoje há cinco gatos na casa.

    Eduardo sabe os detalhes de quase todas as histórias e tenta ajudar a memória da anfitriã a resgatar datas, nomes de pessoas, de ruas. Mas noto que ela não precisa dessa ajuda carinhosa, embora aceite-a, resignada. Após algumas querelas sem importância, o próprio Eduardo confessa não saber por que teima em discordar dela. “No fim, ela tem sempre razão. Quando vou checar, vejo que estava certa”. Ela não diz nada, não triunfa sobre a confidência. Limita-se a olhá-lo de um jeito maternal. Eduardo visita dona Maria quase todos os dias. Ele tinha 21 anos quando se candidatou para o emprego de assistente de Iberê, que, assim que o avistou pela primeira vez no portão, lhe pediu para estender as mãos. “Era para saber se eu transpirava. Precisa ter as mãos secas para retirar o excesso de óleo das gravuras.” O mestre era um professor paciente, que gostava de ensinar, lembra.

    Digo à dona da casa que o breve texto “Depois (à Maria)”, de Iberê, é uma das declarações de amor mais bonitas que já li. Ela sorri de novo. Pergunto se ela se lembra de quando o leu pela primeira vez e o que sentiu, mas ela fica em silêncio. Percebendo a situação, Eduardo sugere que eu o leia em voz alta. Eu aceito de imediato, um pouco comovida. Ela me ouve com atenção, mas continua calada; apenas concorda com qualquer obviedade que eu diga (foram muitas). Quando ressalto a data em que foi escrito, “1940”, ela parece estranhar e começa a fazer contas – “bem, nos casamos em 1939…”, e eu emendo: “Vocês tinham um ano de casados quando ele escreveu isso”. “Acho que ele não se arrependeu”, ela devolve. Em seguida Eduardo lê um trecho da entrevista que Clarice Lispector fez com Iberê, em que a escritora fala sobre dona Maria, elogiando seu café, tão bom quanto os italianos. Mas Maria fez muito mais na vida do que cafés. Em 1936, quando conheceu o futuro marido, era estudante de belas-artes, tinha talento, e foi ela quem deu ao jovem pintor os materiais necessários para que ele começasse a trabalhar.

    Pergunto como era vê-lo pintar e já não sou capaz de descrever com precisão o semblante que surge em sua face. Ela se ilumina, olha para cima como se tivesse vendo diante de si a imagem de Iberê produzindo. “Era uma maravilha”, diz. Em meio a mais um longo silêncio, ela dispara: “Eu passava todos os textos de Iberê a máquina. Tudo, tudinho”.

    Iberê e Maria (reprodução de foto/Fundação Iberê Camargo)

    Agora ela me aponta o corredor. “Iberê o chamava de ‘corredor do tempo’. De um lado, estão quadros do início da carreira; do outro, quadros da última fase.” Entre as obras mais antigas (são claras, luminosas), está a vista da rua Lopo Gonçalves. Do lado oposto, quadros de tintas carregadas, tons sombrios. Entre estas obras, exemplares de ciclistas.

    De volta ao hall de entrada, vejo belas surpresas que antes não tinha notado, como a obra A idiota. A modelo, Helena, era empregada do casal Camargo e se tornou frequente nas telas de Iberê. Eduardo conta que, mal acabava de posar para o artista, Helena já saía limpando a sujeira de tintas pelo chão. Vejo dois lindos retratos que fez da esposa e digo que ela está muito bonita neles. Ela imediatamente arruma os cabelos que teimam em se soltar de uma presilha. E emenda: “Mamãe gostava muito de Iberê. Guardava o jantar para quando ele acabasse de pintar”.

    Já é noite e, no fim da visita, ela diz estar muito contente por me receber. Acredito no que diz. Fala para eu visitá-la de novo, quando voltar a Porto Alegre. E me presenteia com uma antiga edição de No andar do tempo, o livro de contos de Iberê – quem busca o exemplar na estante é Eduardo; sabe exatamente onde está. Ele diz a ela que vai viajar no dia seguinte para sua cidade, perto de Santa Maria. Promete telefonar quando chegar.

    ***

    Depois (à Maria)

    Quando eu estiver deitado na planície, indiferente às cores e às formas, tu deves te lembrar de mim. Aí, onde a planície ondula, a terra é mais fértil. Abre com a concha da tua mão uma pequenina cova e esconde nela a semente de uma árvore. Eu quero nascer nesta árvore, quero subir com os seus galhos até o beijo da luz. Depois, nos dias abrasados, tu virás procurar a sua sombra, que será fresca para ti. Então no murmúrio das folhas eu te direi o que meu pobre coração de homem não soube dizer.

    Iberê Camargo

    Porto Alegre, 1940

    * Livia Deorsola é editora da Cosac Naify.

  • Minhas derrotas favoritas

    Gol de Paolo Rossi na vitória da Itália sobre o Brasil em 1982

    Tenho a tendência, talvez melancólica, de me lembrar com maior nitidez de tudo que dá errado. Uma viagem onde tudo acontece como previsto costuma desaparecer da memória, enquanto que outras onde tudo deu errado, onde perdi a conexão do avião, desencontrei de um amigo ou passei mal com a comida, permanecem acesas, inesquecíveis.

    Com esse espírito, me lembro pouco ou quase nada dos jogos dos mundiais em que vencemos. Por outro lado, tenho cada cena das derrotas gravadas na retina. Me lembro de onde estava, com quem estava, meus dilemas e questões do momento.

    São duas as frustrações com as Copas do Mundo que me marcaram para sempre. A primeira, em 1974, quando tinha oito anos, a idade do meu filho hoje. Morava numa cidade pequena, no interior de São Paulo. A expectativa era grande, já que iríamos assistir ao jogo pela primeira vez em uma TV a cores, novidade para uma cidade daquele tamanho. Fomos eu e meu pai, convidados para admirar a nova aquisição do amigo dele. Dupla frustração: a seleção foi péssima e na TV a cores só se viam manchas coloridas correndo sobre o fundo verde.

    A segunda e mais dolorida tristeza se deu em 1982. Eu era mais velho, morava em uma cidade maior, e me arriscava com os amigos pelos gramados das redondezas. A seleção daquele ano foi a melhor que já tinha visto jogar na vida. Os brasileiros, e os não brasileiros também, acreditavam, e com razão, que essa era a grande seleção da Copa. Porém, como todos que viveram aquela época irão se lembrar, fomos desclassificados pela Itália. Chorei muito, senti raiva e frustração. Mas foi esse sentimento de torcedor que me alimentou para uma outra batalha. No dia seguinte era eu quem ia jogar, era o meu dia de fazer o gol.

    Acho que as lembranças das derrotas ficam porque nos transformam mais e de uma forma mais profunda do que as vitórias. E isso não apenas no futebol.

    Enquanto os sucessos tendem a reforçar nossas crenças, e têm sua importância na construção da auto-estima, nos fazem querer permanecer onde estamos, já que tudo está dando certo. As derrotas, ao contrário, ao nos levarem ao chão, nos fazem rever o lugar onde construímos a base de nossa segurança. Levantam-se mais fortes os que aprendem a cair, os que fazem dessa queda um motivo para mudança. Toda derrota é também um presente: a chance de recomeçar de outra maneira.

    Foi tudo isso que me serviu de inspiração para o meu livro O presente, que conta através de imagens a história de um menino que assiste a derrota da seleção brasileira. E não acho um livro triste, uma vez que trata do que a dor dessa derrota irá produzir no personagem: a inspiração para a ação. A camisa amarela pendurada na cama, desfalecida, irá ganhar vida novamente com o desempenho do garoto em um jogo de futebol com os amigos.

    Nossas vidas são feitas do equilíbrio entre derrotas e vitórias, que desempenham papéis diferentes. Uma assegura a confiança em nós mesmos, outra, a desconfiança do que já não nos sustenta. Se ganhássemos sempre, estaríamos perdidos.

    *Odilon Moraes é escritor e ilustrador. Pela Cosac Naify, lançou O presenteA princesinha medrosa, Traço e prosa e Pedro e Lua. Também ilustrou O homem que sabia javanês, de Lima Barreto; Ismália, de Alphonsus de Guimaraens; e Será o Benedito!, de Mário de Andrade, entre outros

  • O valor do riso [e do outro]

    “Eu não sou eu nem sou o outro,/ Sou qualquer coisa de intermédio:/ Pilar da ponte de tédio/ Que vai de mim para o Outro.” Os versos do poeta português Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) quase caberiam como epígrafe desta leitura de O valor do riso e outros ensaios, de Virginia Woolf (1882-1941), organizado e traduzido por Leonardo Fróes, autor também da apresentação. O “quase” acima é por uma ressalva: se são muitas as pontes que a obra constrói, seria difícil batizar uma delas de tédio, tamanho interesse que move o olhar da autora nesse trajeto até o lado de lá. Seja qual for o assunto ou personalidade central de cada um dos 28 ensaios, o outro é sempre aquele que aguça desde a mais rés curiosidade à questão mais essencial; é também a chave de uma possível resposta.

    Franca, ousada, clara quanto a suas posições diante dos debates e transformações sociais e estéticas que presencia e protagoniza, como um dos ícones incontornáveis do modernismo, não é difícil ver a mulher por trás dos textos aqui selecionados, o que não é tão evidente em sua ficção. Quando planejou escrever o romance Os anos (1937), Virginia tinha em mente um único protagonista, ela mesma, mas “ao escrever começou a se espraiar entre os personagens”, conta Peter Gay, em Modernismo: o fascínio da heresia. No entanto, mesmo essa voz inconfundível e marcada pelo teor opinativo não deixa de ter um caráter mediador de tantas outras vozes, para além da escritora.

    Virginia se debruça sobre diários, cartas, memórias, biografias, autobiografias, relatos de viagens com fascínio, como quem busca na vivência e expressão alheia desde o alimento para uma “imaginação exausta” ao segredo maior que interessa a todos desvendar. Cada livro é um enigma do tamanho de um “quem sou eu?” ou um estranho no qual se pode esbarrar sem querer e se tornar seu amigo mais íntimo.

    Batendo pernas pelas ruas no inverno londrino, Virginia constata que quando saímos de nossos lares já deixamos de ser nós mesmos. “Em casa nos sentamos cercados de objetos que expressam perpetuamente as esquisitices de nossos próprios temperamentos e reforçam as memórias da própria experiência [...]. Mas tudo isso desaparece quando a porta se fecha atrás de nós.”

    Em mais de um dos ensaios, Virginia destaca o fato de o interesse por nossa própria existência e pela dos outros ter se desenvolvido tardiamente no espírito humano – em “Torre inclinada”, originalmente uma palestra de 1940, ela calcula para o fato nem duzentos anos. Em outro, apresenta Thoreau como um exemplo máximo dos poucos que se interessaram tanto por si mesmo, que alcançou uma intensificação extrema do autoconhecimento.

    Não à toa, em “Carta a um jovem poeta”, ela critica aquele que “se interessa muito menos pelo que temos todos nós em comum do que por aquilo que ele tem à parte”. Esse gesto resulta, segundo ela, em poemas de difícil compreensão por descreverem um mundo que não existe “exceto num momento particular para uma pessoa em particular”.

    Reconhecer o outro, no entanto, está vinculado de forma estreita à noção intensa da própria existência em um lugar comum à vida humana, não confundir com lugar-comum, o que anularia toda singularidade: “a má poesia é quase sempre consequência do esquecimento de si mesmo, tudo se torna distorcido e impuro se você perder de vista essa realidade central”.

    Nessa toada, Virginia elege a prosa como uma forma privilegiada por ir a todo canto, inclusive aos mais sórdidos, cabendo a ela o “trabalho sujo”. Escutar atrás de portas, vasculhar gavetas, especular. Obviamente, o trabalho não é nada fácil uma vez que os possíveis acessos estão cheios de barreiras:

    “A longa avenida de tijolos está dividida em caixotes e em cada um deles habita um ser humano diverso que pôs fechaduras nas portas e trincos nas janelas para se garantir certa privacidade [...]. Caso entremos e falemos com a pessoa em questão, constataremos tratar-se de um animal precavido, retraído, desconfiado, nada espontâneo nos modos e cuidadoso ao extremo para não se entregar.”

    Assim, mesmo fora do terreno ficcional, Virginia Woolf mescla o sentido do dia a dia ao da interioridade. Mas se lá ela arquiteta verdadeiras passarelas temporais e sólidos viadutos entre uma consciência e outra, aqui o leitor é instigado à busca de si por meios dessas rotas de leitura sugerida, opção a que seus personagens não têm escolha.

    * Luciana Araujo é mestre em Teoria Literária pela USP.

  • Do que não cessa de se escrever

    O autor Bernardo Kucinski (foto de Carolina Ribeiro)

    Talvez um dos momentos mais angustiantes de K. – Relato de uma busca, premiado romance de Bernardo Kucinski, seja a cena em que o protagonista insiste a todo custo colocar uma lápide no cemitério um ano após a morte de sua filha, sequestrada e assassinada pela ditadura militar brasileira, mesmo sem haver um corpo enterrado. É fácil e imediata a associação com a tragédia clássica Antígona, em que esta se rebela contra a decisão do rei Creonte de proibir a realização dos rituais fúnebres de Polinice, seu irmão. Todavia, para além da proximidade, há uma distância instransponível, pois a modernidade não é trágica, mas catastrófica. K. não é trágico: como o título sugere, ele é kafkia-no. Antígona temia que seu irmão, ao não ser enterrado, jamais completasse a passagem para o mundo dos mortos; K., por sua vez, teme algo muito pior:

     

    A falta da lápide equivale a dizer que ela não existiu e isso não era verdade: ela existiu, tornou-se adulta, desenvolveu uma personalidade, criou o seu mundo, formou-se na universidade, casou-se. [Ele] Sofre a falta dessa lápide como um desastre a mais (…) para ela a tragédia da filha era continuação do Holocausto.

    Não é, pois, apenas o enterro de sua filha que o poder nega: este não admite sequer que a sequestrou, quanto menos torturou e assassinou. E, como se isso não fosse o bastante, seus lacaios produzem uma série de mentiras, nomeadas com o eufemismo de “contra-informação”: a filha está viva, fugiu, está em outro país. Não se trata apenas de despistar K., nem de torturá-lo psicologicamente (a perversa “guerra psicológica adversa” da doutrina de segurança nacional), mas de tentar justamente esfumar a própria existência de sua filha, de retirar sua consistência, isto é, desfazer sua biografia: os traços, vestígios que ela escreveu no tecido da vida – e é por isso, e não só pela esperança de encontrá-la viva, que K. segue essas falsas pistas, tentando desfazê-las, tentando devolver a sua filha à existência, roubada pela ditadura junto com sua vida e seu corpo. É nesse sentido que o romance (e a realidade da ditadura militar em que ele se inspira) é kafkiano: pois os personagens de Kafka nunca conseguem distinguir o que é parte do processo (do Direito, do poder) e o que não é, não conseguem separar a própria existência de uma teia confusa e pegajosa cuja finalidade parece ser apenas essa inscrição da vida no mentiroso discurso jurídico da verdade, sempre ausente, porque sem fundamento. K. nunca sabe a verdade sobre seu processo; K. nunca sabe a verdade sobre sua filha.

    E os efeitos dessa estratégia cínica da ditadura revelam-se quando o protagonista decide e logo desiste de escrever uma obra sobre a filha:

     

    Era como se faltasse o essencial; era como se as palavras, embora escolhidas com esmero, em vez de mostrar a plenitude do que ele sentia, ao contrário, escondessem ou amputassem o significado principal. Não conseguia expressar sua desgraça na semântica limitada da palavra, no recorte por demais preciso do conceito, na vulgaridade da expressão idiomática.

    De certa forma, os agentes do regime militar sequestraram também o relato sobre a existência de sua filha – e o fato de que o rabino negue o pedido de K. de colocar uma lápide para ela parece mostrar essa vitória. Mas a mentira não se confunde com a ficção e a linguagem não pode ser monopolizada pelo poder. O romance de Bernardo Kucinski devolve à K. e sua filha a consistência que a ditadura tentou lhes extraviar. A mentira produtora de catástrofes do poder jamais capturará e eliminará a poesia, trágica que seja, da vida. O discurso cínico e perverso do poder jamais abolirá a biografia que todo vivente escreve no mundo. Essa é a marca que todo testemunho deixa.

    * Alexandre Nodari é doutor em literatura pela UFSC e integrante da #ATOA.

  • 18 anos de Cosac Naify

    A Cosac Naify completa 18 anos e, para celebrar a data, 700 títulos* estarão com 50% de desconto até o fim de julho.

    Em nossa Loja Virtual, você pode ver a lista completa de títulos e adquirir os livros que faltam em sua vida. O frete é grátis em pedidos acima de R$150,00 e a compra pode ser parcelada em até 10x (parcela mínima de R$20,00). Se você mora em São Paulo, também pode visitar e comprar em nosso showroom, na R. General Jardim, 770, 3º andar.

    Veja também a lista de livrarias que estão participando da promoção, tanto online como em suas lojas físicas:

    FNAC
    Livraria Cultura (a partir do dia 14/7)
    Livraria Martins Fontes
    Livraria da Vila
    Saraiva

    * Sujeitos à disponibilidade de estoque.

  • Futebol, celeste e sofrimento

    (Queria escrever sobre arquitetura. Ou, até, sobre fotografia – as duas áreas que edito aqui na Cosac Naify –, mas está difícil fugir do futebol e da Copa do Mundo.)

    Nasci, teoricamente, flamenguista. Há fotos. Lá pelos oito anos, descobri que havia uma variedade de times. Meu pai (uruguaio residente no Brasil há décadas) e minha irmã torciam para o Flamengo. Já minha mãe e meu irmão, para o Fluminense. No melhor espírito diplomata que me acompanha ao longo da vida, decidi que era melhor mudar de time, pra não deixar ninguém chateado. As opções: Vasco e Botafogo. Era a época de Túlio Maravilha, da eterna camisa com o logo da Seven Up estampado. Não lembro se foi antes ou depois do título de campeão brasileiro de 1995, mas acabei me tornando botafoguense. (Talvez, se já conhecesse o maravilhoso hino do América – “A cor do pavilhão é a cor do nosso coração”, que grande verso –, tivesse optado pela minoria vermelha.)

    Túlio Maravilha brilhando muito

    Torci bastante. Entretanto, na final da Copa do Brasil de 1999 entre Botafogo e Juventude, algo aconteceu. Foram dois jogos sofridos, pra variar. No primeiro, perdemos de 2 a 1, jogando fora de casa. O segundo, no Maracanã, terminou em zero a zero, dando ao time de Caxias do Sul o título. Eu tinha doze anos e devo ter beirado um ataque cardíaco; chorava copiosamente quando o árbitro apitou o final da partida. De modo vagaroso e inconsciente, meu interesse no futebol nacional foi minguando, e hoje o que me resta, confesso, é um sentimento parecido àquele que você tem ao reencontrar um primo com o qual você brincava na infância e que hoje está distante: uma simpatia vaga, um interesse frouxo – você nunca lembra o que ele faz, se é casado ou não etc. (isto é: não me pergunte a escalação atual do Fogão).

    Só que, pouco a pouco, minha paixão futebolística-masoquista pelo Botafogo foi sendo suplantada por outra bem semelhante, porém mais profunda, que vinha de dentro. Era a Celeste.

    ***

    A adolescência e a maioridade sedimentaram em mim uma espécie de dupla nacionalidade, num reencontro com minhas origens paternas – o intercâmbio familiar era intenso desde cedo, mas uma hora ou outra a chave simplesmente vira. Comecei a torcer pelo Uruguai na Copa América, nas Eliminatórias, na Copa do Mundo, com um fervor semelhante àquele com o qual torcia pelo Brasil. Acho que na Copa de 2010 chegou quase ao mesmo nível, e nesta que agora vivemos, talvez pela proximidade geográfica, ficou pau a pau.

    Quando isso tudo começou, eu não sabia que o Uruguai era o Botafogo das seleções da América Latina. Jogos sempre dramáticos, vitórias espetaculares, derrotas frustrantes, classificações na repescagem, um time cheio de garra numa partida e apático na seguinte. (Nota: na escola, eu jogava de goleiro, ou seja, minha relação com o futebol pode ser entendida basicamente pela chave do sofrimento.) O problema é que uma seleção não é um clube, do qual você pode simplesmente ir se desligando, ou uma prática esportiva, que você pode largar e optar pelo sedentarismo: veja-se a quantidade de gente que quase não torce por seu clube, não joga futebol, mas vira fanático na hora da Copa. Este Mundial e o anterior confirmam contemporaneamente essa fama da Celeste.

    Na África do Sul, em 2010, Luisito Suárez protagonizou uma cena heroica: no jogo contra Gana, defendeu com a mão uma bola que ia entrar no gol. O juiz o expulsou, marcou penalidade máxima em favor do time africano que, contudo, desperdiçou a chance. A partida acabou indo para os pênaltis, e o Uruguai venceu, chegando à semifinal. Desde 1970 a Celeste não ficava entre as quatro melhores do mundo. Muitos compararam o feito à “mano de dios” de Maradona em 1986, mas aqui a mão se deu no setor defensivo – e foi, digamos, “legal”: terminou devidamente punida com cartão vermelho e tudo mais.

    No meio do caos, “la mano de dios” reinventada

    Alguns dias atrás, depois que o mesmo Suárez mordeu o zagueiro italiano Giorgio Chiellini, fiquei pensando que os heróis latinos são heróis caídos, controversos, são gente como a gente, às vezes parecem até vilões. Hesitei em me referir ao episódio como “la mordida de dios”, porque foi uma atitude plasticamente feia – embora, em teoria, tão problemática quanto a cabeçada proposital do zagueiro Pepe no primeiro jogo de Portugal, que tomou apenas o vermelho em campo –, por causa do histórico de mordedor, porque, assim como no caso de Maradona, seria sacralizar o mau-caratismo, mas era quase inevitável fazê-lo, já que pouco tempo após a mordida o Uruguai fez o gol que lhe deu a classificação na fase de grupos.

    Tudo acontece muito rápido numa Copa, fotografias emblemáticas diárias (Suárez ajoelhado após o gol contra a Inglaterra; Suárez mordendo Chiellini; Suárez na varanda de sua casa com os filhos, o semblante pesado), replays em câmera lenta reproduzidos ad infinitum nas mesas redondas à noite (Suárez apontando para o fisioterapeuta; o movimento da mandíbula de Suárez), há heróis e anti-heróis diários, Suárez já se foi, a Celeste, com um time envelhecido e que sem ele ficou visivelmente abatido, perdeu da Colômbia de James Rodríguez (jovem herói latino); Luisito e depois o resto da seleção foram recebidos no aeroporto pelo presidente Mujica (“los de la Fifa son una manga de hijos de puta”, disse ele na segunda ocasião; herói latino da terceira idade), e achei até melhor, assim o Uruguai não pega o Brasil, assim é menos sofrimento, mas garanto que os Del Castillo que vivem junto ao rio da Prata não acharam nada bom, agora fico torcendo apenas pelo Brasil, sem a atenção dividida, e já lavei e guardei minha camisa da “celeste alvinegra” (quando o atacante Loco Abreu jogou pelo Botafogo eu tive, preciso dizer, uma leve recaída).

     Miguel Del Castillo é escritor e editor de arquitetura da Cosac Naify.

  • Aos 7, na escuridão

    Escrever sobre adaptações de projeto (impresso x digital) é algo relativamente simples se compararmos o ato de escrever com o ato de adaptar em si.

    Adaptar envolve  observação, conhecimento prévio das possibilidades e, a despeito disso, testes. Escrever sobre o processo envolve refazer o caminho inverso ao do produto final.

    Como, geralmente, não tomo notas sobre o que estou fazendo, volto ao livro pronto e olho o que eu fiz e, vez ou outra, me surpreendo: “Quando eu fiz isso? O que eu perdi?”

    No último ano tive a oportunidade de trabalhar em livros com os quais mantinha um envolvimento sentimental prévio, como o Moby Dick, que por tratar de mar e pesca, para mim, trata de uma traineira azul com o porão lotado de peixes. E, mais recentemente, trabalhei em dois outros livros que me pegaram de surpresa: Na escuridão, amanhã, de Rogério Pereira e Aos 7 e aos 40, de João Anzanello Carrascoza. Não esperava me envolver com os livros e tentei manter a ilusão de que eles não se meteriam comigo ou com o meu trabalho.

    Ambos os livros tratam, de certa forma, de abandono. Um abandono de si, do acolhimento de restos e da perda de identidade entre o que fomos e o que falhamos em nos tornar. Tratam de adultos definidos pela infância e pela memória.

    Aos 7 e aos 40 resgata uma infância cheia de presentes-perpétuos, um momento deixa de existir quando sobreposto por outro e mais outro, num sem fim de troca de cenários. A vida adulta intercala os hiatos entre estas memórias de uma infância nostálgica, definidora  da busca do narrador por sentido, ou melhor: da busca do narrado por um remendo que ligue as duas pessoas: a do passado e a do presente, pois algo quebrou em algum ponto do caminho.

    Na minha infância a natação era a Igreja, mamãe não sabe nadar e eu tinha o hábito de pular do barco desde que aprendi a me arrastar até as bordas, indiferente ao tempo e a tudo. Por conseguinte,  isso gerava histeria (como é sabido, “as histéricas sofrem de reminiscências”*) e uma certa urgência de que eu aprendesse a nadar ao mesmo tempo em que aprendia a falar.

    Sempre que eu voltava do clube, ainda de sunga, touca, óculos de proteção e roupão, corria direto para o chuveiro.

    Ao entrar no banho (ainda vestindo os óculos), passava minutos (que se distendiam) encarando o chuveiro, lá no alto, enquanto ele jorrava contra as lentes e, nesses momentos, eu via o quão alto e distante ele ficava. E o tempo passou.

    Lá pelos vinte e poucos anos, – creio, porque o início da vida adulta me parece muito mais distante e difícil de precisar do que a infância -, num desses ímpetos de “vida saudável” que todo mundo tem em algum momento, voltei para natação, no mesmo clube, o Canto do Rio.

    Após a “aula”, ao chegar em casa, tendo fumado um monte no caminho de volta, – e, surpreendentemente, me sentir mais velho do que de fato era por não conseguir acompanhar o ritmo dos adolescentes, veja só – , me peguei levando óculos e a toca para o chuveiro, o mesmo chuveiro.
    Sem muita razão, vesti os  óculos e olhei pro alto e o chuveiro estava ali, jorrando contra mim a um palmo de distância, através de sua fúria contida, e eu só conseguia pensar, bastante incomodado com aquela proximidade: “Quando eu fiquei desse tamanho? O que eu perdi?”

    (…)

    Na escuridão, amanhã nos atira contra outra infância, uma infância roubada pelo pai demônio, onde suas faltas definem tudo o que o protagonista não é, uma infância que lhe destinou uma identidade composta, quase que totalmente, por obsessão/aversão. Ele vive uma guerra sem fim, no exterior, e a guerra é a única fuga possível. A guerra é um refúgio (de gente morta) digno do sangue maldito que herdara.

    (…)

    Meu pai foi perito criminal, paralelamente aos tempos do barco de pesca, e meu jardim-escola ficava na mesma rua do IML, apenas algumas quadras adiante.

    No caminho para o jardim, antes de passarmos pelo IML, – sempre pelo lado oposto da calçada -, papai parava numa padaria e pedia um conhaque e o virava de uma golada só.
    “Papai, por que o senhor está bebendo?”
    “Pra aguentar o cheiro de sangue velho.”

    O IML, visto pelas lentes fragmentadas do Google Street View

    Naqueles dias de necrotério estabeleci uma relação de cumplicidade peculiar com papai. Ele me buscava na escola e me levava para o trabalho dele enquanto não dava a hora do seu almoço…

    “Isso é um corpo, não é uma pessoa, o termo legal é ‘corpo’”.

    Lembro bem da frase do corpo e, mesmo recentemente, tendo o IML mudado de lugar, de sentir o tal cheiro de sangue velho quando passo por ali. Por estranho que pareça, sorrio quando penso nessa relação secreta que estabelecemos entre as gavetas: mamãe não podia desconfiar que eu fazia hora com ele no trabalho (que ela não leia isso!). E eu pensava, de um jeito infantil, que era importante que ele confiasse um segredo desses, que nem mamãe poderia saber, para mim. Coisa séria.

    Hoje, quando não me comovo em enterros ou ajo maquinalmente ao trâmite burocrático funerário de algum parente ou chegado, me pergunto a mesma coisa: “O que foi que eu perdi?”

    Ao contrário do que se possa pensar, meu pai e eu ainda mantemos a mesma cumplicidade infantil, um indício de que, seja como for, não perdi tanto, embora tenha me distraído em vários pontos do percurso.

    E, bem, aqui estou eu, preso entre dois livros e duas infâncias, num texto que deveria tratar de uma transposição gráfica, impresso x digital, um texto que deveria ser simples, porque, em teoria, envolve apenas revisitar o produto final, refazer o caminho inverso, sobre qual deveria ter tomado notas a fim de não perder essas coisas de vista.

    * Freud disse isso, não eu.

    ** Antonio Hermida é coordenador de mídia digital da Cosac Naify.

  • Guia da literatura para mal-humorados (parte II)

    Para ler a primeira parte da busca intensa da colaboradora por uma literatura adequada para o seu azedume e o mau humor, clique aqui.

    A sabedoria manda rejeitar o riso fácil — toda a graça escapista contida naquele livro onde o mal-humorado encontra uma distração segura, mas pouco ou nada além disso. A tática pode não funcionar, uma vez que o mau humor normalmente imuniza contra as piadinhas ordinárias, e na medida em que dificilmente é capaz de oferecer um consolo e até um princípio de cura. Desviando do riso fácil, eis o nome e sobrenome que resistiu aos testes mais dramáticos: Enrique Vila-Matas. O autor que (pelo menos é assim que eu entendo a coisa toda) escreve para quem encara o abismo e conclui que o melhor é sorrir.

    Vila-Matas: a cura para vosso mau humor?

    Tenho a impressão de que no cerne da escrita de Vila-Matas está contida uma curiosidade infantil (mas nunca ingênua) pelo mundo. Repare na necessidade de perscrutar os abismos e mapear as fronteiras (suas bem-humoradas investigações metafísicas), no desejo de brincar com o leitor e provocá-lo ao criar a conhecida e engraçada tensão entre ficção e realidade, no nonsense descarado que está sempre lá. Seus livros são uma celebração de tudo o que há de misterioso — produto de quem examina o incognoscível com seriedade mas também se diverte com ele.

    Vou ser herege. Algo no humor de Enrique Vila-Matas autoriza uma comparação com o tio de Mary Poppins, o sr. Peruca, aquele que em determinada cena do livro de P.L. Travers — e no filme da Disney, que também foi acusado de heresia — gargalha tanto que chega a levitar (culpa do Gás do Riso). Não que ele faça piadas cretinas. É o tio de Mary Poppins, não o tio do pavê. Acontece que tudo parece engraçado para o sr. Peruca, que é, vamos admitir, um sujeito muito bem-humorado, talvez um pouco histérico. Essa certamente não é a intenção, mas nos livros de Vila-Matas tudo parece engraçado, de modo que autor e leitor poderiam muito bem compartilhar uma identidade secreta, a do tio de Mary Poppins.

    (Você leu bem: acabei de comparar Vila-Matas ao tio de Mary Poppins.)

    Não enxergo no escritor um piadista incorrigível, assim como não considero sua obra um mero um antídoto contra o mau humor — embora tenha sido o caráter cômico de seus textos que prevaleceu nas leituras que fiz.

    Do volume de contos Exploradores do abismo, pesco “Amei Bo”, uma narrativa peculiar até mesmo para os padrões de Vila-Matas.

    Um sujeito está há décadas a bordo de uma nave espacial desgovernada. O restante da tripulação já morreu, inclusive a tal Bo do título. O sujeito, que é o protagonista e narrador, acredita que morrerá ali mesmo, e que a nave seguirá indefinidamente, mas então, sem aviso ou motivo, acaba pousando em Kajada, “capital mundial do humor”. Os habitantes de Kajada “vivem em perpétuo bom humor, em perfeita sintonia com a risada e a grande gargalhada do universo”.

    Os estranhos habitantes de Kajada demonstram uma “aversão insuperável pela seriedade quando esta aparecia como um disfarce para a ignorância ou a idiotice”. (Ou, acrescento mentalmente, durante uma crise de mau humor.) Para eles, a seriedade seria “um misterioso continente do corpo que serve para ocultar os defeitos da mente.” Há muitas frases desse tipo no conto. “O humor é a verdadeira essência do cosmo e do que existe muito além dele”. (Enrique Vila-Matas é um dos únicos autores que estão autorizados a escrever “essência” e “cosmo” na mesma frase. Outro é Rodrigo Fresán em O fundo do céu, narrativa que também tem sua dose de graça.) “Descobri que só existe o humor além dos limites dos limites dos limites ilimitados”. “O humor é o inquilino eterno do vazio.” “O humor é a verdadeira resistência de fundo.”

    E é. Onde não há uma piada pronta e óbvia com um alvo concreto, onde a graça não está evidente, enfim, lá, muito próximo do desespero ou do desapego, onde a graça deriva da falta de sentido ou da dificuldade de captar o sentido, lá está esse humor de que fala Vila-Matas no conto — em tudo e em nada.

    Posso ter entendido errado, mas não importa. Sou alguém que ri com Enrique Vila-Matas como Jane e Michael riem com o tio de Mary Poppins. (E não pedirei desculpas.)

    A fim de testar minha hipótese, confesso para uma amiga que Vila-Matas é eficaz contra meu mau humor. Estou tão imersa nessa ideia que acredito sinceramente que seus livros sejam uma espécie de antídoto contra o azedume, como um remédio qualquer que tivesse um efeito parecido em todos os organismos. “Vila-Matas me deixa de mau humor”, ela responde.

    Adeus, hipótese.

    Essa foi rápida.

    Esqueça tudo o que eu disse. Vila-Matas parece, mas não é uma unanimidade.

    * Camila von Holdefer Kehl é acadêmica de filosofia. Tem 26 anos e vive no Rio Grande do Sul. Escreve no blog Livros abertos.

  • Passagens boas de livros ruins

    Já começo discordando do meu título.

    Porque não os considero ruins. É que tenho um pendor Irmã Dulce, de achar que de alguma maneira quase tudo que leio e vejo é bom.

    Lembro bem do dia em que essa vocação complacente se concretizou em mim: foi no Ceará, numa praia chamada Barro Preto.

    Eu tinha uns treze anos e gostava de metal e gostava de detestar pagode, assim como todos os meus amigos. Pois que um bugre amarelo passou lançando pela areia alguma frase de duplo sentindo na voz rascante do Compadre Washington.

    Estávamos minha família e alguns amigos e amigas comendo caranguejos, camarão, bebendo cerveja, coca-cola. Aí eu arrotei:

    “Que lixo de música.”

    Uma das amigas do meu pai, que mais tarde tornou-se minha amiga, me inquiriu curiosa e um tantinho severa:

    “Por quê?”

    Respondi surpresa:

    “Ah, porque fala de bunda.”

    “E daí?”

    E daí que eu meu calei, peguei uma patola de caranguejo para disfarçar uma vergonha estranha que se irradiou pelo meu corpinho magro. É mesmo. E daí?

    Então, em prol desta cena que mudou minha maneira de ver o mundo, selecionei de roldão algumas passagens boas de cinco livros possivelmente considerados ruins – e sabe-se lá por quem.

    Servido o caranguejo e bom apetite!

    O perfume da ausente – Liala

    “A que peça alude, comandante?”

    “Falo em relação a mim, Anty. Não me entenda mal. Sei que o que aconteceu com você não foi uma peça. Foi uma coisa bem diferente. Poderia defini-la como tragédia, se não visse Guinigi tão feliz e você tão serena.”

    “Estou feliz também”

    “Quero crê-lo, Anty… Posso fumar, ou se aborrece?”

    “Fume.”

    Minutos de sabedoria – Carlos Torres Pastorino

    A vida é um canto eterno de beleza! Os homens complicam e dificultam a existência, porque se acreditam diferentes uns dos outros. Mas a vida é uma só e os homens são todos irmãos. Portanto não antagonize os outros. Distribua amor a todos que se chegam a você. Faça como o sol  que se dá a todos igualmente, em raios benéficos de luz e calor.

    Anauê! A apaixonante saga integralista numa colônia de imigrantes italianos – José Marcelo Grillo

    “Vito, deixa esses homens de lado. Eles vão trazer a desgraça para Floresta. Você não pode abandonar o Fernando.”

    “O Fernando já me abandonou, ao fazer o Germano pedir exoneração e renomear Argemiro de novo. Você não disse que a gente mandava nessas coisas?”

    “Mas o Germano não deu conta do recado. O Hortêncio, o maior ladrão de cavalo dessas redondezas tinha sumido e agora voltou, roubando mais do que nunca.”

    Rachaduras da Alma – Fídias Teles

    Para ativar o Belo

    Há muita feiura hoje, mas o belo continua em todo canto, é só busca-lo ou ativá-lo. Quer vê-lo? Provoque um escandaloso sorriso num bebê, contemple despojadamente o céu à madrugada, acaricie seu parceiro até vê-lo contorcendo-se em orgasmo!

    Toda a verdade sobre discos voadores  Ralph Blum e Judy Blum

    A sra. Webb disse que seu marido berrava: “Oh, meu deus! Estou queimado! Não posso enxergar!”

    Uma das lentes de seus óculos caiu da armação  de plástico, que ficou deformada.

    A sra. Webb  que, de vez em quando, trabalha como motorista substituta, levou-o para o hospital. O sargento Ed Wright, da patrulha rodoviária, levou os óculos de Webb para o dr. Harley Rutledge, diretor do departamento de física da universidade Southwest Missouri State, para uma análise.

    Rutledge, que trabalhou durante seis meses, tentando identificar misteriosos objetos voadores, disse ter posto os óculos sob um microscópio e parecia terem sido aquecidos internamente.

    O plástico aparentemente ficou quente e a armação saiu do lugar. O calor entortou o plástico, fazendo com que a lente caísse.

    * Natércia Pontes é autora de Copacabana Dreams.