• Lewis Carroll por Virginia Woolf

    Em 2015, a história da menina Alice que segue o coelho branco por um buraco no bosque e cai num país maravilhoso completa 150 anos. O texto abaixo integra a edição de Alice através do espelho e o que ela encontrou lá, continuação da saga criada por Lewis Carroll, que a  editora lança este mês. Com ilustrações da artista Rosângela Rennó, o livro vem em uma caixa acompanhado de Alice no País das Maravilhas, ilustrado por Luiz Zerbini, publicada pela Cosac Naify em 2009.

    A obra completa de Lewis Carroll foi publicada pela editora Nonesuch Press em um grosso volume de 1 293 páginas.¹ De modo que agora não há desculpa – Lewis Carroll precisava existir completo de uma vez por todas. Nós precisamos tentar abarcá-lo como um todo, na íntegra. Mas falhamos – uma vez mais, falhamos. Pensamos ter capturado Lewis Carroll; olhamos novamente e vemos um clérigo de Oxford. Pensamos ter capturado o Reverendo C. L. Dodgson – olhamos novamente e vemos um elfo dos contos de fada. O livro se quebra ao meio em nossas mãos. Para cimentá-lo, recorremos à Vida.

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    Mas o Reverendo C. L. Dodgson não teve vida. Passou pelo mundo tão suavemente que não deixou rastros impressos. Mesclou-se tão passivamente em Oxford que é invisível. Acatou todas as convenções; foi pudico, perfunctório, pio e jocoso. Se existiu uma essência dos professores de Oxford do século dezenove, ele foi essa essência. Era tão bom que suas irmãs o idolatravam; tão puro que seu sobrinho não tem nada a dizer contra ele. Simplesmente é possível, ele sugere, que “uma sombra de desapontamento paire sobre a vida de Lewis Carroll”. O senhor Dodgson nega imediatamente essa sombra. “Minha vida”, ele diz, “foi isenta de provações e privações”. Porém essa água-viva sem um pingo de tinta continha dentro de si um cristal de perfeita dureza. Que continha infância. O que é algo muito estranho, pois a infância normalmente se apaga lentamente. Fagulhas de infância persistem quando o menino ou a menina são homem e mulher adultos. A infância volta às vezes de dia, mas é mais comum que volte à noite. Isso, porém, não era assim com Lewis Carroll. Por algum motivo, não sabemos qual, sua infância foi interrompida abruptamente. Ele a alojava inteira como um todo dentro de si. Não podia deixá-la se dispersar. E assim, conforme ele foi envelhecendo, esse impedimento no centro de seu ser, esse bloco duro de pura infância, privou o homem maduro de alimento. Ele se esgueirou através do mundo adulto feito uma sombra, solidificada apenas na praia de Eastbourne, com garotinhas cujos vestidos ele prendia com alfinetes de segurança. Mas como a infância permaneceu dentro dele inteiriça, ele foi capaz de fazer o que ninguém pôde fazer – ele foi capaz de voltar para aquele mundo; foi capaz de recriá-lo, de modo que nós também voltássemos a ser crianças.

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    No intuito de nos fazer criança de novo, ele primeiro nos faz dormir. “Caindo, caindo, caindo, será que essa queda nunca terá fim?” Caindo, caindo, caímos naquele mundo aterrorizante, loucamente inconsequente, e no entanto perfeitamente lógico, onde o tempo corre, depois para; onde o espaço estica, depois se contrai. É o mundo do sono; é também o mundo dos sonhos. Sem nenhum esforço consciente, os sonhos vêm; o coelho branco, a morsa e o carpinteiro, um atrás do outro, virando e se transformando uns nos outros, eles vêm ricocheteantes e saltitantes, passando através da nossa mente. É por esse motivo que as duas Alices não são livros para crianças; mas são os únicos livros em que nós nos tornamos crianças. O presidente Wilson, a rainha Victoria, o articulista do jornal The Times, o falecido lorde Salisbury – não importa quão velho, quão importante, ou quão insignificante você seja, você se torna outra vez uma criança. Virar criança é ser muito literal; é achar tudo tão estranho que nada é surpreendente; é ser impiedoso, cruel, e no entanto tão passional que qualquer desdém, uma sombra, veste o mundo inteiro de luto. É ser Alice no País das Maravilhas.

    É também ser Alice através do espelho. É ver o mundo de ponta-cabeça. Muitos dos grandes satiristas e moralistas nos mostraram o mundo de cabeça para baixo, e nos fizeram vê-lo como as pessoas adultas o veem, como selvageria. Apenas Lewis Carroll nos mostrou o mundo de ponta-cabeça como uma criança o vê, e nos fez dar risada como uma criança dá risada, irresponsavelmente. Nos bosques do puro nonsense, rodopiamos às gargalhadas, rindo:

    Procuraram com dedais – com cuidado, perseguiram,
    Caçaram com fé e facão –
    Despertaram sua cobiça com ações da ferrovia –
    Seduziram com sorrisos e sabão.
    ²

    E então acordamos. Nenhuma das transições de Alice no País das Maravilhas é tão estranha quanto acordar. Pois despertamos para descobrir – será que é o Reverendo C. L. Dodgson? Será Lewis Carroll? Ou ambos combinados? Esse conglomerado que pretendia produzir uma edição bowdlerizada de Shakespeare³ para o uso das empregadas domésticas britânicas; implora que elas pensem na morte antes de ir ao teatro; e sempre, sempre se dar conta de que “o verdadeiro objetivo da vida é o desenvolvimento da personagem…”4.

    Será, então, que, mesmo em 1 293 páginas, existe isso que chamam de “completude”?

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    ¹Este texto foi originalmente publicado na revista londrina News Statement and Nation, em 9 de dezem bro de 1939, por ocasião do lançamento da primeira edição da obra completa de Lewis Carroll. [N.E.]

    ² Citação dos versos do poema The Hunting of the Snark [Caça ao Esnarque, 1876, tradução de Alexandre Barbosa de Souza e Eduardo Verderame].

    ³ O termo Bowdlereised no original, aqui traduzido como “bowdlerizada”, faz referência a Thomas Bowdler [1754-1825], inglês que publicou a obra completa do dramaturgo William Shakespeare editando o texto original, de modo a aproximá-lo do que considerava apropriado para mulheres do século dezenove. O termo, então, faz referência àquilo que foi modificado do original por motivo de censura. [N.E.]

    4 No original em inglês: character, que tanto significa “personagem” quanto “caráter”, permitindo um trocadilho. [. .]

     

     

  • Leitores entrevistam Alejandro Zambra

    Na semana passada, através do Facebook e Instagram, convidamos os leitores a enviarem suas perguntas para o chileno Alejandro Zambra, que lança seu quarto livro pela Cosac Naify, a coletânea de contos Meus documentos. Foi uma tarefa difícil, mas selecionamos as quatro melhores e Zambra já as respondeu. Parabéns, Renata, Reginaldo, Pedro e Evandro! Em breve um exemplar do lançamento chegará à casa de vocês. Abaixo, a entrevista*:

    [Renata Assumpção] Zambra, como foi o processo de seleção dos contos que fazem parte do livro?

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    [Alejandro Zambra] Oi, Renata. Meus documentos começou como uma reunião de contos, embora nenhum deles fosse um conto no sentido tradicional, e terminou como um livro de relatos ou – melhor dizê-lo assim – como um livro, apenas. Acho que se formatou como livro quando encontrei o título. Tinha algo em torno de 25 contos, mas fui ficando com esses 11; queria que fossem como 11 filhos, todos ligeiramente parecidos e diferentes ao mesmo tempo. Cortei contos de que gosto muito, como “Fantasia”, e, ao final, incluí textos recentes, que escrevi quase de forma simultânea ao longo de 2011 e 2012. Somente dois dos relatos tinham versões anteriores, mas as versões atuais são bastante recentes.

    [Reginaldo Cruz] Quem e o que você encontra, quem e o que você perde quando escreve seus livros?

    [AZ] Cada caso é diferente do outro. Com Meus documentos acho que encontrei vários escritores que sou ou que penso ser. Adoro essa polifonia, e nesse livro estão todos os tons que me interessa explorar. Os romances talvez desenhem para mim um só rosto apenas; já esse livro é de vários escritores que se parecem.

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    [@mr.pedrotario] Caro Zambra, sempre que termino a leitura de seus livros, fica um sentimento de “quero mais” impregnado em mim. Você pretende escrever um romance longo, um calhamaço?

    [AZ] Olá! Não tenho uma preferência pelas formas breves, realmente; gosto dos tijolos, mas, na verdade, nunca penso muito em quão longo ou curto vai ficar um livro. Agora estou embarcando em algo que está ficando assim, bem longo, mas quem sabe, depois, me dá na telha podar um pouco…

    [Evandro Cruz] Zambra, como é seu processo para definir que um livro “acabou”, ou seja, que ele está pronto para enviar para a revisão, que a história não avançará dali?

    [AZ] Nossa, não sei dizer. O primeiro sinal é quando percebo que estou escrevendo um texto “publicável”. Há coisas que escrevi e que me agradam, mas que não publicaria; eu as escrevi para mim. E há outras que imediatamente me parecem comunicáveis, como se o próprio texto pedisse para sair. E um pouco, também, porque quero que deixe de me pertencer. Também por isso publico, para deixar para trás. Nos processos seguintes, sou tão obcecado que me torno caricato. Faço correções até que a editora se enche e para de me responder os emails, e manda tudo para a gráfica. Mas uma vez o texto impresso, já me esqueço dele. Minha primeira sensação, quando recebo um livro meu impresso, é “já não poderei escrevê-lo nunca mais”. Mas depois me tranquilizo e começo outra coisa.

    Pela Cosac Naify, além de Meus documentos (2015), o autor publicou Bonsai (2012), A vida privada das árvores (2013) e Formas de voltar para casa (2014).

    * tradução de Livia Deorsola

  • Valter Hugo Mãe sobre Joan Miró

    No próximo domingo, 24 de maio, São Paulo recebe a exposição “Joan Miró – a força da matéria”, que fica em cartaz no Instituto Tomie Ohtake até 16 de agosto. A mostra dedicada ao artista catalão será dividida cronologicamente em três seções: anos 30 e 40; anos 50 e 60; e anos 70. Ao todo, serão 112 obras expostas.

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    O texto de “Joan Miró – a força da matéria” é assinado pelo escritor Valter Hugo Mãe e integra o catálogo da exposição, que será lançado no dia 23 de maio e estará a venda no Instituto Tomie Ohtake. Confira um trecho abaixo:

     

    A reinauguração da cultura, sobre Joan Miró

    “Las miradas son semillas, mirar es sembrar Miró trabaja como un jardinero y con sus siete manos traza incansable – círculo y rabo, io! y ah! – la gran exclamación con que todos los dias comienza el mundo.”

    Octavio Paz

     

    A morte da pintura está para Joan Miró como a morte de deus esteve para Friedrich Nietzsche. Foi fundamental que saísse da equação para que o exercício da arte, que é o mesmo que dizer vida, correspondesse à mais do que genuína personalidade do mestre catalão.

    A desmistificação é ponto essencial para o domínio da identidade. Alguns artistas não consentem, nem remotamente, com propagar o expectável. A arte, em sua superior oportunidade, é mais o enunciado de um novo postulado do que a obediência a quaisquer premissas estabelecidas. Ou, como diria Merleau-Ponty, a arte “é antes a realização de uma verdade do que o reflexo de uma verdade prévia” (Merleau-Ponty, 1999). Para Miró, por essência, a arte foi sempre um imperativo de liberdade. Se quisermos simplificar o seu aparecimento no mundo podemos declarar que se definiu exatamente por uma fúria imprescindível pela liberdade. Ao manifestar-se interessado em assassinar a pintura está a dizer que quer ser sem ser o mesmo. Quer ser sem ser o mesmo, o que justificaria o seu constante modo de fuga, desatando obrigações para com academismos prévios e, sobretudo, impiedosamente divergindo de si, a cada tempo começando outros métodos, explorando outros materiais, problematizando estilos, tão surpreso quanto sempre angustiado pela compulsiva busca.

    Joan Miró atravessa o pior do século XX. Numa Europa em guerra, plena de ideologias totalitárias e predadoras, a sua origem catalã será invariavelmente um radical para permanente inconformismo e protesto. Uma espécie de mácula afetiva, como um pecado original de que ele se orgulharia e pelo qual se bateria sempre. A passagem por Paris, fundamental para a sua depuração, nunca lhe roubaria a convicção de ser catalão, coisa que evidenciaria constantemente na obra como linha de força e também como digno sofrimento. A liberdade possível é sempre uma ansiedade na assunção de uma identidade. Para Joan Miró, a Catalunha foi a base para todas as ansiedades, lugar plástico e espiritual de onde retiraria as referências mais recorrentes e inelutáveis, como quem cataloga os tópicos materiais de uma alma. Faria arte como quem é e como quem luta.

    Discursando na sua distinção durante o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Barcelona, em 1979, Miró terá dito: “Quando um artista se expressa num contexto em que a liberdade é difícil, deve converter cada uma das suas obras numa negação das negações, numa libertação de todas as opressões, de todos os preconceitos e de todos os falsos valores estabelecidos.” (Punyet-Miró 2014). Antoni Tàpies, claramente influenciado pela obra de Miró e por ele também instigado a um mesmo brio para com a Catalunha, viria a declarar que “o impacto clandestino da obra de Joan Miró, como também a de Picasso, foi uma contribuição importantíssima para uma tomada de consciência que não se reduzia, é claro, aos problemas da estética, mas sim, como provoca todo o criador, se estendia a toda a vida. (…) Miró gozou com todos os oficialmente bem pensantes, porque ninguém demonstrou como ele o fracasso e a inutilidade de todas as falsas hierarquias que perdem o tempo a condecorarem-se, e depois têm de correr precipitadamente atrás dos passos dos que realmente fazem caminho.” (Tàpies, 2002). Neste sentido, é importante entender que a assunção de uma identidade nunca foi um modo de fechar o sujeito, ou a arte, num lugar ou num tempo, muito pelo contrário. A identidade é o único modo de converter um sujeito, ou a arte, num tópico de respeito universal. Vale a pena atentar no diz Joan Punyet-Miró, ponderando acerca da atenção de Miró à cultura de outros lugares, como a chilena, e estabelecendo um paralelo com outros génios seus contemporâneos, como seriam Picasso e Dalí: “havendo criado uma poética artística universal, transladam-se mais além do limite nacional, político ou geográfico, para acabar sendo de qualquer lugar e de lugar nenhum por vezes.” (Punyet-Miró, 2014).

    De outro modo, a urgência pela oportunidade de uma realidade própria era já coisa antiga no espírito de Joan Miró. Contrário à padronização e fascinado com a amplificação dos sentidos, diria: “Quando saía com o meu pai de casa e lhe dizia que o céu era violeta, zoava de mim. E isso dava-me muitíssima raiva.” (Dupin, 2004). Para Miró era claro que o artista não podia simplesmente existir à maneira do mundo. O mundo precisava também de existir à maneira do artista.

    O criador é um distúrbio no universo da continuidade. Lembro sempre uma passagem de Clarice Lispector, no livro Água Viva, para ponderar acerca destes assuntos: “Minha liberdade pequena e enquadrada me une à liberdade do mundo – mas o que é uma janela senão o ar emoldurado por esquadrias?” (Lispector, 2012). Do mesmo modo, a tela branca de um pintor, como assim a folha de um escritor, se apresenta também como uma ordem já bastante imposta à imaginação que se debate para materializar. A tela branca é uma regra, que Miró haveria de problematizar e contra a qual haveria de se rebelar inúmeras vezes. Miró foi a mais frequente perturbação de toda e qualquer continuidade artística.

    Miró, que se assumiu um pessimista, um homem profundamente insatisfeito, buscava na arte a transgressão a todas as coisas, não apenas aos cânones estabelecidos, ele lidava com algo incrivelmente mais poderoso e que se punha como uma revelação cosmogónica, uma certa reinauguração da expressão, para uma expressão mais pessoal e, ao mesmo tempo, universal. O caminho mais verdadeiro para a universalidade acabou por encontrá-lo no aprofundamento constante da sua própria consciência. É na meditação sobre si mesmo e suas raízes que o mestre pode tornar-se infinitamente sapiente e conservar todo o esplendor e a frescura mais típicos do que é começador ou menino. A verdade, dentro dele, é um diamante que se reparte em todos os gestos, sempre puro na sua essência. Fácil se torna de entender porque na candura de tantos dos seus trabalhos, mesmo dos que discorrem sobre assuntos difíceis ou violentos, há uma espécie de reaprendizagem do gesto artístico ou um primitivismo que tinge tudo de espontaneidade, de originalidade. Nenhum outro artista moderno logrou tal grau de originalidade.

    [...]

    Conheça a obra de Valter Hugo Mãe publicada pela Cosac Naify:

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  • Acontecimentos

    Às vezes lembro que me formei em Rádio e TV e então tomo um susto. Desde que fui pegar meu diploma (não fui) jamais pisei numa rádio e, em televisão, trabalhei uma única vez, numa experiência traumática, digna de um pesadelo exibido em PAL-M, com direito a estática, assédio moral, escravidão, gente louca, perda de fé na humanidade e constipação intestinal.

    Acho que foi a Flávia que um dia me disse que era uma “pessoa rádio”. Tenho muito clara a graciosa figura em minha cabeça dela dizendo: “É que eu sou uma radio person, Cigana”.

    Cigana. É assim que uma parcela de amigos me chama devido a minha fama internacional de leitora de mãos.

    Li centenas de palmas enleadas e trêmulas que aguardavam o veredicto da minha quiromancia charlatã e sincera. Quantos filhos terei? Vou ficar rico? Vou morrer cedo? Vou conhecer o amor da minha vida? Eram questões que eu respondia de batepronto, sem dó nem piedade dos meus interlocutores que tentavam humildemente dar aquela conferidazinha no além. Muitas das vezes eu adivinhava antigas tragédias ou previa casamentos relâmpagos, mudanças de continente abruptas, fortunas indesejadas, assim como acertava na mosca o número, o gênero e a altura de filhos vindouros ou o prognóstico de doenças crônicas e de sonhos ainda não ensaiados e isso também me assustava pra dedéu.

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    Minha explicação pura e simples para esse obscurantismo todo é que também sou uma radio person, Flavoca. Não só daquelas pessoas que vibram quando toca Stars do Simply Red na Alpha FM, que cantam junto com a Marina Lima os maravilhosos versos de Acontecimentos, ou que se sentem acalentadas pela voz de roqueiro fofo do locutor da rádio Kiss, mas que captam microscópicos trejeitos faciais, inexpressivas alterações na entonação de uma palavra emitida. Para o azar dos meus, costumo pescar significados rasteiros no viés de um olhar e antecipar todo o iceberg debaixo da escolha de uma palavra ou de um gesto alheios a ponto de ser praticamente constituída por uma saca desconjuntada de paranoias escravizantes e de também ganhar dos amigos de longa data o justo apelido de Chatércia.

    (Outra origem para esse apelido meigo é também a minha prática excessiva e despudorada da egolatria, da autoanálise piegas e do debate autocêntrico. Costumo frequentar divãs e sofás desavisados abarrotada de questões batidas e tão somente interessada em condescendência e elogios à minha pessoa, mas isso é outro texto.)

    Enfim, acho que é por isso que virei quiromante ou escritora. Se não sofresse de uma desordem de fala (ceceio) e pronunciasse o S como o deputado Vicentinho, talvez tivesse sido mesmo radialista, vai saber.

     

    * Natércia Pontes é autora de Copacabana dreams

  • Dez curiosidades sobre Alice

    Em 2015, ano que o clássico Alice através no espelho completa 150 anos de publicação, preparamos uma edição comemorativa de tirar o fôlego dos amantes da saga de Lewis Carroll: uma caixa com o inédito Alice através do espelho, com ilustrações da artista Rosângela Rennó, e a edição especial antes esgotada de Alice no País das Maravilhas, ilustrada por Luiz Zerbini, publicada pela Cosac Naify em 2009.

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    Para acalmar os ânimos dos leitores ansiosos, a edição está em pré-venda em nossa loja virtual. Também já adiantamos uma imagem do making of do processo de criação das ilustrações assinadas por Rennó.

    Confira abaixo dez curiosidades sobre Lewis Carroll e sua famosa personagem:

    1. O nome de batismo de Carroll é Charles Lutwidge Dodgson. O pseudônimo Lewis Carroll foi adotado em 1856, por sugestão do editor da revista The Train, na qual o autor publicou seus primeiros contos e poemas.

     

    2. A famosa personagem de Carroll é inspirada em Alice Liddell, que o autor conheceu em 1856, então com três anos de idade. A pequena era filha do meio de Henry Liddell, amigo de Lewis Carroll e decano da Christ Church, a mais prestigiosa instituição da Universidade de Oxford,

    3. Alice no País das Maravilhas surgiu durante um passeio de barco com as três filhas de Henry Lindell, em 4 de julho de 1862. Carroll improvisou uma história fantástica em que Alice, a sua preferida entre as irmãs, era a personagem principal.

    4. No final daquele mesmo ano, a história da menina que caía em um buraco se transformou em livro, atendendo ao pedido dela. As aventuras de Alice debaixo da terra era o título do livrinho que Lewis Carroll deu para Alice como presente de Natal.

    5. Lewis Carroll teve por anos a fotografia como um de seus passatempos prediletos. Abaixo, uma imagem de Alice Liddell, já com dezessete anos, que integra o 9º volume da coleção Photo Poche, dedicado à produção fotográfica de Carroll:

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    6. Uma nova adaptação cinematográfica de Alice através do espelho está prevista para 2016. O elenco inclui Johnny Depp, Anne Hathaway e Helena Bonham Carter.

    7. O primeiro a ilustrar Alice no País das Maravilhas foi o inglês John Tenniel, celebrado artista da época, em 1865. Sete anos depois, quando Carroll publicou Alice através do espelho, Tenniel também assinou as ilustrações.

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    8. Alice no País das Maravilhas e Alice através do espelho tiveram suas primeiras adaptações cinematográficas em 1903 e 1915, respectivamente.

    9. A rainha Vitória e Oscar Wilde eram fãs assumidos da saga de Alice.

    10. Nos anos 1930, Alice no País das Maravilhas foi banido na China, porque alguns julgavam desrespeitoso que personagens animais fossem capazes de usar a linguagem humana.

    E você? Sabe de algum fato curioso sobre Carroll e sua Alice?
    Comente neste post!

  • Making of: “Alice através do espelho”

    Poucos conhecem a continuação da história da menina Alice, que segue o coelho branco por um buraco no bosque e cai num país maravilhoso, onde vive inacreditáveis aventuras acompanhada de seres que agem dentro da lógica do nonsense. Em 2015, essa história completa 150 anos e, além de revisitá-la, o leitor terá a oportunidade de continuar a jornada por um novo mundo, através do espelho. Em breve, chega às livrarias uma caixa com dois livros: o inédito Alice através do espelho, com ilustrações da artista Rosângela Rennó, e a edição especial antes esgotada de Alice no País das Maravilhas ilustrada por Luiz Zerbini, publicada pela Cosac Naify em 2009, desta vez, com uma faca especial na capa.

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    A artista fez um making of da concepção e produção do livro. O processo envolveu as ilustrações da edição publicada em 1865 e frames de adaptações cinematográficas da obra:

    Eu parti do próprio título original, Through the Looking-Glass, aproveitando os dois significados que a palavra glass pode ter –  “espelho” e “lente”.  

    A brincadeira toda foi feita a partir de diferentes versões da Alice. Utilizei algumas das ilustrações de John Tenniel e fragmentos de adaptações para o cinema e televisão, de 1915 até os dias atuais. A ideia foi espelhar, espelhar, espelhar, e atravessar essas diferentes ‘Alices’, explorando os desdobramentos possíveis ao vê-la através do espelho e das lentes.

    Abaixo, a Gabi Carrera fotografa com diversas lentes de aumentos as imagens concebidas. Chantilly, a gata que aparece na foto, também participou ativamente do processo!

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    Alice através do espelho foi publicado originalmente seis anos depois do primeiro livro. A obra evidencia o Lewis Carroll matemático, uma vez que é construída dentro das regras do jogo de xadrez. As personagens agem exatamente como peças numa partida: capturam peões e cavalos, dão o xeque-mate. Neste mundo, dividido em quadrantes como um tabuleiro, delimitados por riachos e outros obstáculos, as personagens-peças brancas e vermelhas não esperavam encontrar a menina Alice, que, sem muito entender das particularidades deste universo, em onze movimentos (ou capítulos) vence a partida, ou seja, torna-se rainha.

    A caixa Alice + Alice, que reúne a saga completa de Lewis Carroll, já está em pré-venda em nossa loja virtual. Corra para garantir a sua!

     

  • Troca de indicações

    Aqui na Cosac Naify, os editores das diferentes áreas sempre trocam impressões sobre os livros nos quais estão trabalhando. Uma sugestão para o texto de orelha aqui, um palpite sobre a arte da capa ali, nenhum livro passa sem que diversas opiniões sejam ouvidas.

    Aproveitando esse diálogo produtivo entre as áreas, convidamos dois editores para indicar cinco títulos de editorias diferentes das que atuam. Confira a seleção:

    Vanessa Gonçalves, do núcleo infantojuvenil

    Uma das coisas mais legais de se trabalhar em uma editora é o acesso que temos aos livros, mesmo antes de publicados. Embora atuando no editorial infantil, tenho contato diário com meus colegas editores do catálogo adulto. Conversamos, trocamos ideias, palpitamos no trabalho uns dos outros. Quando um livro novo chega da gráfica, quase sempre já estou morrendo de vontade de lê-lo (se é que já não o li antes, em prova). Por isso foi tão difícil de escolher os meus cinco títulos preferidos.

    As vozes de Marrakech
    Este foi o primeiro livro que li quando comecei a trabalhar na editora, pouco antes de estar disponível nas livrarias. Trata-se de um belíssimo relato de viagem do Elias Canetti, com episódios vivenciados ou presenciados por ele durante um dia e uma noite no Marrocos. São diversas crônicas marcadas pelo estranhamento cultural.

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    O africano
    Meu primeiro contato com o Le Clézio se deu pelo juvenil Pawana. Fiquei tão tocada com a dramaticidade da literatura dele que tive vontade de ler mais, e foi assim que cheguei a O africano. Também um livro de memória, é narrado por um filho que, na tentativa de encontrar a si mesmo, refaz pela lembrança afetiva a trajetória do pai médico pelo continente africano, quando ele, o narrador, ainda era garoto. Mas, como bem lembra o autor, no primeiro parágrafo do livro “todo ser humano é resultado de pai e mãe. Pode-se não reconhecê-los, não amá-los, pode-se duvidar deles. Mas eles aí estão: seu rosto, suas atitudes, suas maneiras e manias, suas ilusões e esperanças, a forma de suas mãos e de seus dedos do pé, a cor dos olhos e dos cabelos, seu modo de falar, suas ideias, provavelmente a idade de sua morte, tudo isso passou para nós.”

    Um, dois e já
    Ao fazer esta seleção, começo a me dar conta de que os livros de viagem e de memória são uma tendência entre os meus preferidos. Um, dois e já é uma novelinha deliciosa da uruguaia Inés Bortagaray e tem, para mim, um dos melhores títulos de livro de todos os tempos. Os irmãos do meio como eu certamente irão se identificar com a menina narradora que, durante uma viagem de carro com a família, luta com unhas e dentes para se sentar na janelinha.

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    Carta a D. – História de um amor
    “Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca.” Carta a D. é a declaração de amor que todos os apaixonados gostariam de ter escrito. André Gorz rememora a bonita e duradoura relação com sua mulher no momento em que ela é acometida por uma doença incurável. Os dois decidem, então, morrer juntos. Impossível terminar a leitura sem lágrimas nos olhos.

    Os miseráveis
    As 1.976 páginas de Os miseráveis me acompanharam durante bons meses no ano passado em centenas de viagens de metrô. E cheguei ao ponto de andar na rua lendo, subir escada lendo… É um romance magistral, um clássico e uma verdadeira aula de sociologia, ciência política e religião.

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    Miguel Del Castillo, do editorial adulto 

    Quando comecei a trabalhar no núcleo infantojuvenil da Cosac Naify como assistente, eu era um jovem de 22 anos com uma faculdade ainda por concluir. Agora não estou mais lá, tenho 28 anos e um filho de 2 meses. Apesar das mudanças, meus livros infantis favoritos da editora continuam os mesmos:

    Livro das perguntas
    É pra ler uma pergunta por vez, junto com uma criança ou sozinho, pois cada pergunta de Neruda esconde uma beleza e uma potência poética (perdão por essa expressão) impressionantes. “Por que não ensinam os helicópteros a tirarem mel do sol?”

    A grande questão
    “O que é que eu vim fazer no mundo?” é a grande questão do alemão Wolf Erlbruch neste livro ilustrado. É bom poder se identificar com a resposta do pato, por exemplo, que diz não ter a menor ideia.

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    Leocádio, o leão que mandava bala

    Acho geniais todos os livros do Silverstein, na verdade, mas o Leocádio costuma ser menos lembrado quando se fala no autor, talvez por ser um livro mais longo, romanesco. A história é uma parábola maravilhosa dos dias atuais — sobre fama, dinheiro, consumo e a importância de nossas origens.

    leleo

     

    O Fazedor de Velhos
    Sou fã dos chamados “romances de formação”, e a editora tem um belo catálogo desse tipo de livro. O Rodrigo Lacerda diz ter escrito este para espairecer um pouco enquanto escrevia outro romance seu, mais difícil, segundo ele. Aqui, a formação do personagem Pedro se dá através da literatura.

     

    rodrigo

     

     

    Os meninos da rua Paulo
    Meu outro romance de formação favorito (que, diga-se de passagem, li só aos vinte e poucos anos) é o clássico do húngaro Ferenc Molnár. É tão atemporal que o leitor pode, de fato, ter qualquer idade. Quem não ficar pelo menos com os olhos cheios d’água no final não tem coração.

    BÔNUS
    Todos os livros da coleção As Aventuras do Capitão Cueca são sensacionais. Sobre eles falei mais longamente neste post aqui.

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  • Cosac Naify na FLIP 2015

    Um dos destaques da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty – deste ano é o argentino Diego Vecchio, novo autor da casa, que vem ao Brasil para lançar Micróbios, celebrada reunião de contos que transita entre o humor e a tragédia, com uma boa dose de nonsense. Para compor a narrativa, Vecchio – hipocondríaco assumido – se inspirou na obra de Samuel Auguste, médico e confidente de Rousseau, A saúde dos homens de letras, no qual tenta demonstrar, através de uma série de casos terríveis, que a literatura é como a masturbação: uma prática que faz mal à saúde.

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    Inédito no Brasil, Micróbios  já está em pré-venda em nosso site e chega às livrarias em julho. Quem assina o texto de orelha do livro é o francês Mathieu Lindon, autor de O que amar quer dizer, lançado na Flip de 2014. Leia um trecho abaixo:

    “Na complicada história das relações entre ciência e literatura, Micróbios, do argentino Diego Vecchio, é um acontecimento. Conhecemos escritores médicos, como Tchekhov e Céline, mas eis a questão: como curar-se pela literatura? Não psiquicamente, mas organicamente, digo.

    Com uma erudição bem-humorada e uma imaginação tão fantástica quanto rigorosa, os nove contos do livro apresentam casos clínicos raros. Cada história traz uma enfermidade sofrida em diferentes regiões do mundo, de modo a alcançar uma ironia universal que não deixa nenhuma literatura de pé: nem a escandinava, nem a russa, nem a norte-americana, nem a japonesa, nem a argentina…”

     

    Além de Diego Vecchio, conheça os outros autores da Cosac Naify que participam da festa:

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    Boris Fausto estreia na Flip no segundo dia do evento, e traz as representações literárias dos afetos familiares, do luto e da vida amorosa de O brilho do bronze à festa.

    O autor nasceu em 1930, em São Paulo. É bacharel em Direito e doutor em História pela Universidade de São Paulo, onde se aposentou como professor do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Trabalhou na consultoria jurídica da reitoria da USP e foi procurador do Estado. É autor de A revolução de 1930: história e historiografia (1969); História geral da civilização brasileira: período republicano (1977); Crime e cotidiano (1984); Negócios e ócios (1997); Brasil e Argentina: um estudo de história comparada (1850-2002) (2005); Getulio Vargas: o poder e o sorriso (2006); O crime do restaurante chinês (2009); Memórias de um historiador de domingo (2010), entre outros.

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    Beatriz Sarlo, autora de Modernidade periférica, participa da mesa de abertura da festa em homenagem a Mario de Andrade e conversa sobre literatura de viagem com a portuguesa Alexandra Lucas Coelho.

    Sarlo nasceu em Buenos Aires, em 1942. Fundou, em 1978, com Carlos Altamirano e outros intelectuais, a revista Punto de Vista, que ao longo de 30 anos foi uma referência para a renovação do pensamento crítico na Argentina. Estreou na literatura em 1985, com El imperio de los sentimientos, a que se seguiria, em 1988, Modernidade periférica. O cruzamento entre crítica literária e cultural é a marca de alguns de seus trabalhos mais inspirados, como Jorge Luis Borges, um escritor na periferia (Iluminuras, 2008) e Ensayos argentinos – De Sarmiento a la vanguardia (1997), escrito com Carlos Altamirano.

    A Flipinha, programação infantil da festa, contará com Rita Carelli, coordenadora da coleção Um Dia na Aldeia, e o ilustrador Odilon Moraes:

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    Além de escritora e ilustradora, Rita é também atriz. Nasceu em São Paulo, em 1984, e viveu parte de sua infância entre os índios, de uma aldeia à outra, acompanhando seus pais em filmagens e pesquisas. Hoje, dedica-se a compartilhar com outras crianças as alegrias e as dificuldades das crianças indígenas do Brasil.

    Odilon Moraes nasceu em 1966, na cidade de São Paulo (SP). Formado em arquitetura, sua profissão sempre foi a de ilustrador de livros. Com o passar dos anos, publicou suas próprias obras, escritas e ilustradas, que podem ser encontradas no catálogo da Cosac Naify. A princesinha medrosa (2002/2008) foi seu primeiro livro ilustrado, seguido de Pedro e Lua (2004). Ambos receberam o prêmio de Melhor Livro para Crianças, oferecido pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). É também de sua autoria o livro-objeto Ismália [2006], criado a partir do poema simbolista de Alphonsus de Guimaraens, e o livro-imagem O presente (2010). Ainda na Cosac Naify, coordena a seleção de ilustradores para a coleção Dedinho de Prosa, para a qual já ilustrou O homem que sabia javanês [2003], de Lima Barreto, O presente dos magos (2004), de O. Henry, e Será o Benedito! (2008), de Mário de Andrade. Hoje, Odilon divide suas atividades entre a produção e os cursos que ministra, no Instituto Tomie Ohtake e em outras instituições.

     

  • Leitura para as mães: “As pequenas virtudes”, de Natalia Ginzburg

    Natalia Ginzburg é uma das grandes vozes da literatura do século XX. No próximo mês, a Cosac Naify lança As pequenas virtudes, livro que reúne onze textos da autora italiana situados entre o ensaio e a autobiografia. Trata-se de uma prosa límpida, elegante, aliada ao vigor típico dos escritores que, ao falar das coisas mais prosaicas, desvelam as vivências mais profundas.

    Além de escritora e ativista política – foi deputada em Roma pelo Partido Comunista  –, Natalia era mãe de três filhos, Carlo, Andrea e Alessandra, frutos do casamento com Leone Ginzburg. O marido, também ativista, foi morto pelo regime fascista italiano em 1944. Natalia os criou sozinha, com a ajuda de sua mãe, como mostra “Os sapatos rotos”, em que a autora expressa seus anseios e angústias em relação à maternidade.

    Abaixo, nosso presente para as mães, um trecho de “As pequenas virtudes”, ensaio que dá nome ao livro, sobre a difícil tarefa de educar:

    “No que diz respeito à educação dos filhos, penso que se deva ensinar a eles não as pequenas virtudes, mas as grandes. Não a poupança, mas a generosidade e a indiferença ao dinheiro; não a prudência, mas a coragem e o desdém pelo perigo; não a astúcia, mas a franqueza e o amor à verdade; não a diplomacia, mas o amor ao próximo e a abnegação; não o desejo de sucesso, mas o desejo de ser e de saber.

    No entanto fazemos frequentemente o contrário: apressamo-nos a ensinar o respeito pelas pequenas virtudes, fundando sobre elas todo nosso sistema educativo. Desse modo, escolhemos a via mais cômoda: porque as pequenas virtudes não apresentam nenhum perigo material, ao contrário, mantêm ao abrigo dos golpes da sorte. Descuidamos de ensinar as grandes virtudes, apesar de amá-las, e gostaríamos que nossos filhos as assimilassem: mas nutrimos a confiança de que elas emergirão espontaneamente de seu espírito, num dia futuro, considerando-as de natureza instintiva, ao passo que as outras, as pequenas, nos parecem fruto de reflexão e cálculo, e por isso pensamos que devam ser absolutamente ensinadas.

    Na verdade a diferença é só aparente. As pequenas virtudes provêm igualmente do fundo de nosso instinto, de um instinto de defesa: mas nelas a razão fala, sentencia, disserta, como um brilhante advogado da integridade pessoal. As grandes virtudes jorram de um instinto em que a razão não fala, um instinto ao qual me seria difícil dar um nome. E o melhor de nós está nesse instinto mudo, e não em nosso instinto de defesa, que argumenta, sentencia e disserta com a voz da razão.

    A educação não é outra coisa senão um certo vínculo que estabelecemos entre nós e nossos filhos, certo clima no qual florescem os sentimentos, os instintos, as ideias. Ora, creio que um clima todo inspirado no respeito às pequenas virtudes resulte insensivelmente em cinismo, ou no medo de viver. Em si mesmas, as pequenas virtudes não têm nada a ver com o cinismo ou com o medo de viver: mas todas juntas, e sem as grandes, geram uma atmosfera que leva àquelas consequências. Não que as pequenas virtudes sejam, em si mesmas, desprezíveis: mas seu valor é de ordem complementar, e não substancial; elas não podem estar sós, sem as outras, e são – quando desacompanhadas – um pobre alimento para a natureza humana. O modo de exercitar as pequenas virtudes, em medida temperada e quando for de todo indispensável, o homem pode encontrá-lo em torno de si e bebê-lo no ar: porque as pequenas virtudes são de uma ordem bastante comum e difusa entre os homens. Mas as grandes virtudes, essas não se respiram no ar: e devem ser a primeira substância da relação com nossos filhos, o primeiro fundamento da educação. Além disso, o grande também pode conter o pequeno: mas o pequeno, por lei natural, não pode jamais conter o grande.”

     

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    Conheça também Léxico familiar e Caro Michele, outros dois títulos da autora publicados pela Cosac Naify.

     

  • Dicas para mães leitoras

    Flávia, Letícia e Beth. Convidamos mães que se dividem entre o trabalho na editora e os filhos para dar uma indicação de livro para o Dia das Mães, comemorado neste domingo. Veja quais foram os escolhidos:

    Flávia Castanheira, designer, mãe da Irene, 6

    “Minha dica para as mães é o livro Esopo – fábulas completas, reunião de 383 fábulas atribuídas ao pensador grego, ilustradas pelo artista carioca Eduardo Berliner. As fábulas de Esopo não ensinam uma “moral”, são ferramentas para a reflexão sobre temas essenciais da vida de todos nós. Além dos textos serem curtos, a edição de formato pequeno e confortável é perfeita para as pausas na rotina de uma mãe atarefada.”

    sosoLetícia Mendes, gerente de projeto, mãe de Caetano, 5, e Olívia, 2

    “Minha indicação são os livros do Zambra! Todos! Bonsai, A vida privada das árvores, Formas de voltar para casa – e não vejo hora de ler o próximo Meus documentos! Uma leitura gostosa, que me prende e não me faz desistir dos livros apesar da correria imposta pelas duas crianças pequenas!”

     

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    Beth Fernandes, assistente comercial, mãe de Daniel, 16

    “Minha dica de presente para o Dia das Mães é o livro A fazenda africana, obra-prima da escritora dinamarquesa Karen Blixen, que conta a história de uma mulher sofrida, que, como muitas outras, precisa lutar contra situações adversas para traçar seu próprio caminho.”

     

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