• Fui comprar cigarros e nunca mais voltei

    Em meu último texto escrevi sobre não ler livros. Nesse, pretendo escrever sobre não terminar de ler livros.

    (Observem que já dei um pequeno passo nesta longa caminhada de estagnação. Num sem-fim de possibilidades, já escolhi um título — um tomo que me pegou pela fonte e espaçamento de linhas confortáveis à minha visão mequetrefe. Deito — sempre deitada e por isso jamais entenderei as elegantes porém inúteis poltronas de leitura — e começo a ler o escolhido como uma desbravadora confusa e feliz, aterrissando em terras estrangeiras.)

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    Se existe algo que me define é a incapacidade de terminar as coisas. Poderia escrever Ulisses e mais Ulisses, listando todas as coisas que deixei pela metade: pratos de salada, filmes, músicas, programas de tevê, jogos, diários, samambaias, cursos, artigos de medicina ayurvédica, tratamentos de pele, práticas esportivas, conversas e até inocentes e desavisados amigos.

    (A propósito, em Ulisses, parei na página cinco, por pura incapacidade de ser útil a mim mesma.)

    Vou largando tudo às moscas, deixando pelo meio do caminho todas as coisas que aguardam ansiosas por minha interação, como um pai sem coração o faria indo comprar cigarros e nunca mais voltando.

    Quando, anos depois, encaro os objetos de meu abandono involuntário, mergulho numa espécie de dúvida imaginativa, me questionando: Eu li ou não li? Aquele final eu inventei ou aconteceu? O assassino de Laura Palmer termina mesmo no xilindró? A Júlia Matos faz as pazes com a Yolanda Pratini? O coitado do Oblómov morre de tédio no final?

    (Na minha oblomovista e interminável pilha que toma a mesinha de cabeceira, pousa uma edição antiga do Rubem Fonseca de 230 páginas e que foi lida até a 227. Não entendo que motivo místico me impede de terminar essa leitura específica.)

    Eu sei. É absurdo, aflitivo e triste.

    Porque, sim, os livros esperam mesmo pela gente. Quem me brindou com essa doce descoberta, sentado numa rechonchuda poltrona de leitura, foi o meu sobrinho. Ele contou que o avô (meu pai) lhe disse uma vez que dirigia uma peça de teatro e, a fim de ficar perto do texto, escreveu toda a peça no chão.

    Assim, todos os atores ensaiavam sobre a peça, fazendo-a companhia, sem correr o risco de perdê-la de vista.

     

    *Natércia Pontes é autora de Copacabana dreams, finalista do Prêmio Jabuti 2013

  • Os livros de janeiro

    O ano começou intenso na Cosac Naify. Relembre os lançamentos de janeiro:

    Requiem – uma alucinação, Antonio Tabucchi

    Na obra, o autor presta sua homenagem a Lisboa, cidade que escolheu para viver, e sobretudo ao português, idioma no qual escreve o romance. Mesclando sonho e realidade, o protagonista caminha pelas ruas da capital portuguesa e sabe vagamente que tem tarefas a cumprir – entre elas, um encontro marcado para o meio-dia com o poeta Fernando Pessoa.

    Leia um trecho de Requiem – uma alucinação, quarto título do italiano Antonio Tabucchi publicado pela Cosac Naify.

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    Esperando Godot [nova tradução], Samuel Beckett

    Obra-prima do dramaturgo, romancista e poeta irlandês Samuel Beckett (1906-1989), ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1969, o clássico ganha reedição com tradução do professor de teoria literária da Universidade de São Paulo Fábio de Souza Andrade. Escrita em francês, a peça estreou em 1953 e se tornou um divisor de águas no teatro do século XX. Na história, dois vagabundos aguardam infinitamente, num descampado, a vinda do senhor Godot, que nunca aparece.

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    Introdução aos estudos literários, Erich Auerbach

    Escrito em 1943 para alunos da universidade de Istambul, durante o exílio forçado do autor. No livro, de forma ao mesmo tempo erudita e clara, Auerbach explica as bases de sua abordagem da literatura. Chamada de Filologia Românica, ela dá unidade à literatura europeia ao longo da história, partindo do Cristianismo e do latim. O livro descreve a evolução das línguas modernas derivadas do latim e traça um panorama dos períodos literários da Idade Média ao século XIX.

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    Coleção Um Dia na Aldeia, Rita Carelli (coord.)

    Lançamento dos três títulos que fecham a coleção, cuja proposta é apresentar um olhar autêntico e contemporâneo sobre diferentes povos indígenas ao possibilitar que eles mesmos contem suas histórias. Cada livro, em edição bilíngue, vem com o filme que o inspirou, produzido por cineastas indígenas. As ilustrações são de Mariana Zanetti. Conheça os três livros:

    A história do monstro Khátpy – Um dia na aldeia Kisêdjê, Ana Carvalho (adapt.)

    Os índios da aldeia Kisêdjê conhecem bem os perigos da mata. O monstro Khátpy é sem dúvida um deles. O curioso é que índio e monstro têm algo em comum: são hábeis caçadores e exemplares chefes de família. Enquanto o primeiro caça macacos, o segundo caça índios. Enquanto Khátpy usa da força bruta, o índio caçador vence pela esperteza. É o que contam os anciãos da aldeia, ao relembrar a história de como um caçador astuto conseguiu escapar das garras do monstro e voltar para o convívio de sua família.

    No tempo do verão – Um dia na aldeia Ashaninka, Rita Carelli (adapt.)

    Na aldeia Ashaninka, verão é tempo de descoberta. As crianças deixam de ir à escola para aprender com os mais velhos a vida na floresta: fazer flechas, construir abrigo na margem do rio, acender o fogo, cozinhar macaxeira, fisgar peixe com arpão… Tayri, Piyãko e Bianca nos mostram que novas experiências podem ser muito divertidas.

    Palermo e Neneco – Um dia na aldeia Mbya-GuaraniAna Carvalho (adapt.)

    Palermo e Neneco são irmãos e pertencem ao povo Mbya-Guarani. Espirituosos, os meninos dão um jeito de se divertir e dar risada até quando precisam ajudar nas tarefas da aldeia. Além de colher palmito e cortar madeira, gostam de Michael Jackson e de festas com cantoria ao som da rabeca e do violão. Palermo e Neneco vestem-se com camiseta e bermuda e usam dinheiro para comprar sabão nas fazendas vizinhas. Mas nem sempre este contato com os brancos é amigável.

    Leia o relato de Rita Carelli, coordenadora da coleção, sobre sua infância, vivida em uma aldeia indígena isolada no oeste do Mato Grosso

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    O caminho poético de Santiago: lírica galego-portuguesa, José António Souto Cabo; Maria Isabel Morán; Yara Frateschi Vieira (org.)

    O caminho poético de Santiago: lírica galego-portuguesa difere de antologias já existentes, porque propõe uma leitura inovadora da lírica medieval. A partir de um claro recorte geográfico, a obra apresenta ao leitor brasileiro 28 poetas ligados de diferentes maneiras a Santiago de Compostela, o mais importante centro religioso, político e cultural da Península Ibérica entre os séculos XII e XIII.

    Os poemas selecionados são organizados por autor e ilustram os diversos gêneros praticados à época – por exemplo, as cantigas de amigo, de amor e de escárnio e maldizer. Além disso, um texto informativo sobre cada trovador e sobre suas cantigas oferece proveitoso subsídio de leitura. O volume inclui ainda glossário, mapa de Santiago e principais topônimos, imagens de cancioneiros e vasta bibliografia. A lírica galego-portuguesa, mais antiga manifestação literária do nosso idioma, tem em O caminho poético de Santiago uma fonte valiosa.

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    Apresentamos também as (aguardadas) reimpressões deste mês:

    Guerra e paz [capa dura], de Liev Tolstói

    Depois da elogiada edição especial da obra-prima de Tolstói, com tradução inédita do russo, lançamos agora uma edição igualmente caprichada e preço mais acessível. Guerra e paz descreve a campanha de Napoleão Bonaparte na Rússia ao mesmo tempo em que acompanha os amores e aventuras de Natacha, Andrei, Pierre, Nikolai, Sônia e centenas de coadjuvantes, não menos marcantes. Com este trabalho, que lhe tomou três anos de dedicação, o também escritor Rubens Figueiredo ganhou o prêmio da APCA de melhor tradução do ano.

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    Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll

    O inventivo texto de Lewis Carroll ganhou um posfácio exclusivo e tradução integral do escritor e historiador Nicolau Sevcenko, e texto de quarta capa assinado pela escritora Ana Maria Machado. O artista plástico Luiz Zerbini criou e fotografou pequenas maquetas com baralhos, produzindo um efeito 3D. A edição tem cantos arredondados, como cartas de baralho, e traz ainda indicações de ensaios sobre Alice, biografia do autor, lista de artistas que já ilustraram a obra, links úteis e uma breve filmografia.

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    Esopo - fábulas completas, Esopo

    A Cosac Naify apresenta mais um material inédito: 383 fábulas atribuídas a Esopo traduzidas diretamente do grego. Nesta edição somam-se 26 fábulas inéditas ao corpus comumente usado. As ilustrações do artista Berliner incorporam a ideia de que os textos trazem animais metaforizando homens, misturando partes dos corpos de animais e de humanos, em situações tão irônicas e perturbadoras quanto as narradas no texto. É, ao mesmo tempo, uma referência acadêmica e uma ótima porta de entrada para se deliciar com os tão conhecidos animais de Esopo.

    O livro da Nina para guardar pequenas coisas, Keith Haring

    Além de incentivar a criatividade e o imaginário, O livro da Nina para guardar pequenas coisas nasceu a partir de uma história de afeto entre o artista plástico norte-americano Keith Haring (1958-90) e Nina, filha do pintor italiano Francesco Clemente. Em seu aniversário de sete anos, a menina recebeu de Haring um livro inteiramente personalizado. Um objeto pessoal para desenhar, pintar, colar adesivos, folhas, fotos dos amigos, lembranças de um dia no circo e até pensamentos – desde que sejam pequenas coisas. Publicado em fac-símile, a edição brasileira conta, ainda, com um depoimento exclusivo da própria Nina Clemente, 22 anos após ter ganhado o presente.

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  • Requiem – uma alucinação

    Requiem – uma alucinação é o quarto título do italiano Antonio Tabucchi publicado pela Cosac Naify. Na obra, o autor presta sua homenagem a Lisboa, cidade que escolheu para viver, e sobretudo ao português, idioma no qual escreve o romance. Mesclando sonho e realidade, o protagonista caminha pelas ruas da capital portuguesa e sabe vagamente que tem tarefas a cumprir – entre elas, um encontro marcado para o meio-dia com o poeta Fernando Pessoa.

    Leia um trecho do livro:

    Pensei: o gajo nunca mais chega. E depois pensei: não posso chamar-lhe ‘gajo’, é um grande poeta, talvez o maior poeta do século XX, morreu há muitos anos, tenho de o tratar com respeito, ou melhor, com respeitinho. Mas entretanto começava a aborrecer-me, o sol dardejava, o sol do fim de julho, e pensei ainda: estou de férias, estava tão bem lá em Azeitão, na quinta dos meus amigos, por que é que aceitei este encontro aqui no cais?, tudo isto é absurdo. E olhei aos meus pés a silhueta da minha sombra, e também me pareceu absurda, incongruente, não tinha sentido, era uma silhueta curta, esmagada pelo sol do meio-dia, e foi então que me lembrei: ele tinha marcado às doze, mas talvez quisesse dizer doze da noite, porque os fantasmas aparecem à meia-noite. Levantei-me e percorri o cais. Na avenida, o trânsito tinha parado, passavam poucos carros, alguns com chapéus de sol no porta-bagagem, era tudo gente que ia para as praias da Caparica, estava um dia quentíssimo, pensei: o que faço eu aqui no último domingo de julho?, e acelerei o passo para ver se chegava o mais rapidamente possível a Santos, talvez no jardim estivesse um pouco mais fresco.

    O jardim estava deserto, estava só o homem dos jornais em frente da sua banca. Aproximei-me e o homem sorriu. O Benfica ganhou, disse radiante, já viu as notícias? Fiz sinal que não, que ainda não tinha visto e o homem disse: foi um jogo noturno em Espanha, um jogo de beneficência. Comprei A Bola e escolhi um banco para me sentar. Estava a ler como se tinha passado o lance do jogo que tinha levado o Benfica a marcar o golo da vitória contra o Real Madrid, quando ouvi dizer: bom dia, e levantei a cabeça. Bom dia, repetiu o jovem de barbas que estava na minha frente, precisava da sua ajuda. Ajuda para quê?, perguntei eu. Ajuda para comer, disse o rapaz, há dois dias que estou sem comer. Era um rapaz dos seus vinte anos, de blue jeans e camisa, que me estendia timidamente a mão como se me pedisse esmola. Era loiro e tinha duas grandes olheiras. Dois dias sem tomar droga, disse eu instintivamente, e o jovem replicou: é a mesma coisa, também é comida, pelo menos para mim. Em princípio sou a favor de todas as drogas, disse eu, leves e pesadas, mas só em princípio, na prática sou contra, desculpe, sou um intelectual burguês cheio de preconceitos não posso aceitar que você faça uso de drogas neste jardim público oferecendo uma imagem desoladora do seu corpo, desculpe mas é contra os meus princípios, talvez eu pudesse admitir que você se drogasse na sua casa como se fazia antigamente, na companhia de amigos inteligentes e cultos ouvindo Mozart ou Erik Satie. A propósito, acrescentei, gosta do Erik Satie? O Rapaz Drogado olhou para mim com ar espantado. É um amigo seu?, perguntou. [...]

    requiem

     

    Conheça a obra de Tabucchi na Cosac Naify:

    Afirma Pereira (2013)
    Noturno indiano (2012)
    O tempo envelhece depressa (2010)

  • Vem aí – 2015 | Infantojuvenil

    Caros leitores,

    Reservem (mais) espaço na estante, pois os destaques do catálogo infantojuvenil para este ano – como sempre – não agradarão somente aos pequenos. Confira:

    [1º semestre]

    Coleção Wander Piroli

    A Cosac Naify dá continuidade à publicação das obras completas de Wander Piroli (1931-2006), considerado um dos mais admiráveis contistas mineiros e um revolucionário da literatura para crianças no país. Somam-se aos já lançados O matador e Três menos um é igual a sete, duas noveletas, ilustradas pelo também mineiro Lelis:

    O menino e o pinto do menino

    Obra-prima do escritor, o livro causou furor na época em que foi publicado (1975) pela ambiguidade do título. Porém, a história nada tem de polêmica, visto que é uma emocionante vivência entre um menino e um pintinho. Bumba ganha o bichinho na escola e o leva para casa, com a mãe contrariada. Preocupado em arrumar uma casinha, dar comida e abrigá-lo do frio, Bumba nem percebe que o coitado do pintinho está morrendo. Os pais, então, têm de lidar com a triste tarefa de revelar a dura verdade ao menino.

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    Os rios morrem de sede

    O menino Bumba está animado com o passeio do dia: irá pescar com o pai. Mais feliz do que ele, no entanto, é o próprio pai, que quer repetir com o filho exatamente o que fazia com seu pai, o avô de Bumba. Tudo deveria ser igual: as varas de pescar, o lanche da matula e até o trajeto de trem. Mas o pai se dá conta de que nada é como antes: nem a partida na estação, muito menos a paisagem, que já antecipa a decepção da chegada: por conta da poluição, não há mais mata, peixes ou mesmo rio. Mas é neste ambiente hostil que pai e filho se conectam afetivamente.

    sede

    Alice através do espelho, Lewis Caroll

    Para celebrar os 150 anos da publicação de Alice no País das Maravilhas (1865), a Cosac Naify presenteia o leitor com duas edições – especial e comercial – de Alice através do espelho, sequência publicada por Lewis Caroll dois anos depois, em 1867, e completa assim, a saga da menina Alice. A tradução saborosa é do poeta Alexandre Barbosa de Souza e a artista Rosângela Rennó assina as ilustrações.

    Mais um precioso título para a estante de textos clássicos e contemporâneos do catálogo infantojuvenil, acompanhados pelo olhar de talentosos ilustradores e artistas.

    A origem do JapãoNana Yoshida e Lica Hashimoto

    Se os legendários guerreiros samurais eternizaram os mitos e as lendas japoneses, neste livro voltamos a um tempo muito anterior. As autoras nos conduzem pela saga dos deuses que, de acordo com a mitologia japonesa, participaram da criação do país. Em dado momento, mito e história se entrelaçam, revelando um mundo riquíssimo de tradições acumuladas durante séculos. O ilustrador Carlo Giovani trabalhou com diferentes processos de dobradura e modelagem de papel, criando esculturas tridimensionais posteriormente fotografadas com efeitos de luz e transparência. A origem do Japão é o nono título da coleção Mitos do Mundo.

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    Cavalos da chuva, Cadão Volpato

    Terceiro livro do autor publicado pela Cosac Naify narra a deliciosa história sobre os tantos mundos possíveis dentro daquele que vivemos. Margarida ouviu “pode tirar o cavalinho da chuva!” quando estava prestes a fazer uma estripulia. Ela só queria pintar as unhas de azul quando a mãe bradou sobre o cavalo. O que a mãe não imaginava é que a filha conversava com cavalos. Quando cresceu, a mulher Margarida esqueceu seu dom, recuperando-o apenas se encontrasse o cavalinho na chuva. “Fotografias” feitas por Felipe Guga captam o tom fantástico do texto em belíssimas imagens, presas em abas na capa.

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    Coleção Maurice Sendak

    Na cozinha noturna

    O mestre Sendak nos conta a história de Mickey, um menino que cai de sua cama e vai parar dentro da cozinha noturna, onde padeiros – cujas ilustrações em muito se assemelham ao ator cômico Oliver Hardy – preparam o bolo do café da manhã. Quando os padeiros o confundem com leite e tentam assá-lo dentro do bolo, Mickey transforma a massa em um avião para buscar o leite que os padeiros precisam. A poesia ritmada e dinâmica é ornada pelas ilustrações que dão vida à cozinha noturna, uma Nova York construída de sacos de farinha, potes de geleia e enlatados.

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    O aviso na porta de Rose

    Este livro é um inventivo jogo de faz-de-conta. “Se quiser saber um segredo, bata três vezes”, diz o aviso na porta de Rosie. Kathy aceita o desafio e descobre que Rosie não é mais a Rosie, mas sim Alinda, a cantora encantadora. Kathy também já não é mais a Kathy, e sim Tcha-Tcharu, a dançarina árabe. Tendo as demais crianças como plateia, as meninas dão início a uma apresentação no quintal, que, sem aviso, é substituída por outra brincadeira, e por outra, e mais outra. Uma história que estimula a imaginação infantil, onde cada um pode ser o que quiser.

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    [2º semestre]

    Nina, Enrique Vila-Matas

    Há crianças que tem medo de escuro, de monstro ou de fantasma. Mas Nina — personagem criada pelo cultuado autor espanhol Enrique Vila-Matas neste que é seu primeiro livro infantil — tem um medo bastante peculiar: do alfabeto. Por pensar que existem milhares e milhares de letras, Nina acredita que nunca conseguirá aprender a ler. Em vez disso, a menina inventiva prefere viajar a bordo de um barco pirata e cruzar mares e oceanos na companhia de seu irmão imaginário e de Beto, seu gato favorito.

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    Jumanji, Chris Van Allsburg

    Jumanji é um clássico que marcou gerações, seja em livro ou na adaptação para o cinema, de 1995. Para se distrair enquanto os pais estão na ópera, os irmãos Peter e Judy decidem brincar no parque, onde se deparam com um jogo misterioso que contém o aviso: “Leia as instruções com muita atenção”. Ao rolar os dados tem início uma fantástica aventura, com macacos, leão e até uma pessoa saindo de dentro do tabuleiro. Peter e Judy precisam chegar à cidade dourada de Jumanji para terminar a partida e conseguir reverter os estragos antes que seus pais voltem.

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  • São Paulo, por German Lorca

    Em comemoração ao 461º aniversário de São Paulo, celebrado neste domingo, 25 de janeiro, pedimos ao fotógrafo paulistano German Lorca que comentasse sua relação com a cidade a partir de uma de suas fotos. Nascido pouco depois da realização da Semana de Arte Moderna de 1922, Lorca começou a fotografar em 1947 e, no ano seguinte, entrou para o Foto Cine Clube Bandeirante. Foi um dos pioneiros, junto com um grupo restrito de fotógrafos, a contestar as rígidas regras do fotoclube acerca dos padrões que então norteavam uma “boa fotografia”, gestando, assim, por meio da experimentação, uma nova forma de representar o seu tempo.

    A imagem comentada integra o livro German Lorca – volume que perpassa, através de uma criteriosa cronologia, todas as facetas do fotógrafo, destacando o que ele próprio costuma chamar de “fotografia de arte”, sua produção investigativa e experimental.

     

    “Fotografar São Paulo é uma descoberta constante da cidade em suas transformações demográficas e de modernização, representada nesta foto pelo surgimento da arquitetura moderna e sua relação com as pessoas.”

  • O pau de selfie e a autoficção – parte II

    Como dizia, durante as férias foi impossível ignorar o vaivém de banhistas com aquele objeto estapafúrdio debaixo do braço, posando pateticamente para varas apontadas para o alto. E, associando isso ao tema da autoficção, pensei em dois livros publicados pela Cosac Naify. Na primeira obra, O que amar quer dizer, o francês Mathieu Lindon joga luz sobre a amizade que desenvolveu com Michel Foucault nos últimos anos da vida do filósofo. Na segunda obra, O brilho do bronze, o brasileiro Boris Fausto percorre os anos que se sucederam à morte de Cynira, sua esposa. Nos dois livros o tema central é o luto, e o fato de estabelecê-lo como guia da narrativa dá, a ambos, recortes típicos das obras de ficção (ok, vamos imaginar que isso ainda exista…).

    Lindon, ao longo da narrativa, poda boa parte de sua vida, limitando o foco aos anos de convivência intensa com Foucault. As viagens da memória para antes ou depois deste período são apresentados à luz da amizade, e até mesmo o relacionamento com o pai é redimensionado em função da experiência com o amigo. Fausto, ainda que recorra a flashes de memória menos recentes, utiliza a ausência de Cynira como um filtro que modifica a leitura do mundo e das pessoas ao redor. Tudo parece sobreviver a Cynira, tudo é devir, e o sentido das coisas se relativiza. Sem doses excessivas de sentimentalismo, os dois autores lançam mão de técnicas de escrita e de estilo com qualidades suficientes para que, caso desejemos trocar Foucault por, digamos, Galant, ou Cynira por outro nome qualquer, nos sintamos como leitores de dois belos romances, e que nada ficam a dever, em termos técnicos, à literatura, de Patrick Modiano, ganhador do Nobel de 2014.

    Lindon e Fausto, ou pelo menos o Mathieu e o Boris que conheci a partir dos livros, renderiam ótimos personagens para a típica ficção de Modiano: passeiam por Paris ou São Paulo à sombra de suas perdas, negociando com a memória, buscando e rebuscando o passado à caça de preenchimentos e sentidos, e tentando aplicar, no dia-a-dia, a herança do outro que se foi. Para quem não conheceu pessoalmente Michel Foucault ou Cynira, e para quem não desfruta do convívio dos autores, o que permanece é a sensação de ter lido ótimos livros, com boas histórias sobre grandes personagens, e com ressonância similar às provocadas pelas melhores experiências artísticas. Sim, são livros de memórias colocados na prateleira da não-ficção. Mas, se por acaso fossem esquecidos na prateleira de literatura, um leitor menos informado poderia lê-los como ficção. E daí?

    Do ponto de vista da qualidade da escrita e do domínio da narrativa, qual a diferença entre o personagem que existiu em carne e osso e o que (pretensamente) nasceu da imaginação? As escolhas são similares. A dosagem das informações jogadas aqui e ali, as opções de caracterização dos personagens e do ambiente, os níveis de detalhamento dos acontecimentos. Acima de tudo, o resultado é capaz de levar o leitor até mundos insuspeitos e inesperados, como algumas de nossas obras literárias preferidas.

    O telejornalismo virou autoajuda (ou publicidade, vendendo lasanha congelada…), a presidente Dilma e o Comendador (o personagem da novela das 9, não confunda com algum envolvido na Operação Lava-Jato…) agora aparecem lado a lado na página do UOL, como se votassem na mesma seção eleitoral, e nós estamos preocupados com os limites da ficção? Logo da ficção? Muito bem: quanto da história da família Flaubert se misturou ao drama da família Bovary? Quanto de Carolina, mulher de Machado de Assis, foi parar nos olhos de Capitu? Não existia o Facebook, o Google, ou as mesas literárias – não confundíamos a vida com a ficção de um jeito tão automático – , mas a mistura sempre existiu. Seguramente em menor grau, mas, se todo bom artista respira em compasso com o próprio tempo, o que poderíamos esperar?

    É quando voltamos às selfies: o mundo hoje é um lugar com bilhões de centros, as verdades absolutas se despedaçaram, e o reflexo na literatura é tão forte quanto em outras áreas das relações humanas. Falar de si mesmo agora é possível, tirar as máscaras, colocar outras, expiar as culpas e pecados que no passado nos condenavam. Há um processo de radicalização, sem dúvida, tanto do lado da criação quanto da percepção, mas não creio que seja algo tão novo assim, e nem tão relevante, e muito menos desconectado do que acontece em todo canto. Talvez a leitura se modifique em algum aspecto quando tomamos conhecimento de que a história que estamos lendo nasceu de uma história real, ok, positivo, mas não do ponto de vista da fruição estética.

    O que amar quer dizer e O brilho do bronze são dois bons exemplos de como esse tipo de discussão já pode ser superada, ou pelo menos retirada da bolsa de polêmicas. Vamos dar um tempo na sessão Caras? Vamos voltar a falar de ficção? Foucault e Mathieu, Cynira e Fausto. Capitu e Machado, Quixote e Cervantes. E daí, companheiro? O importante mesmo é onde terminamos a leitura: em outro lugar, assustadoramente familiar. Agora vá, dê um pulo lá fora, assuma o pau de selfie que você encomendou na internet, tire uma foto daquelas de postar no Instagram, ajuste a distância, treine o sorriso, escolha seu filtro: sorria, você está vivendo sua vida. Esta é sua autoficção! E você pensando que era coisa de escritor…

    *Flavio Cafiero é escritor, roterista e dramaturgo. Publicou a coletânea de contos Dez centímetros acima do chão (2014) o romance O frio aqui fora (2013), finalista do Prêmio Jabuti 2014

  • Meus dias na aldeia

    Para comemorar o lançamento dos três últimos livros da coleção Um Dia na Aldeia, a Cosac Naify convida a todos para uma série de atividades e oficinas, dias 21 e 24 de janeiro, das 16h às 17h, na Livraria da Vila, em São Paulo. A coleção, coordenada por Rita Carelli, tem como proposta desmistificar algumas imagens preconcebidas que temos dos povos indígenas e mostrar às crianças que eles não estão apenas nos livros. Ao todo, são seis títulos: A história de Akykysia, o dono da caça; Das crianças Ikpeng para o mundo; Depois do ovo, a guerra; A história do monstro Khátpy; No tempo do verão; e Palermo e Neneco.

    Confira o relato de Rita sobre sua infância, vivida em uma aldeia indígena isolada no oeste do Mato Grosso:

    Eu sempre gostei de livros. Tive a sorte de ter uma mãe leitora e que pôde me proporcionar uma relação de intimidade com esse objeto. Desde cedo, criamos um ritual: sempre que estávamos em São Paulo, no sábado seguinte a receber seu salário, ela me levava até a Livraria da Vila e me deixava escolher um livro. Eram tardes longas e deliciosas, em meio a histórias e desenhos que continham mundos.

    Curiosamente, passei parte da infância em uma aldeia indígena bastante isolada no oeste do Mato Grosso, onde não havia escola e ninguém que falasse português. Lá, os livros não tinham lugar. O papel encardia fácil com a terra vermelha e a falta de familiaridade com aquele objeto o transformava rapidamente em algo roto e sem sentido nas mãos das crianças e dos adultos. Além disso, o céu era azul demais, o pátio vasto demais, a floresta escondia surpresas e a água do rio era fresca e boa.

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    Passávamos os dias entre banhos de rio, pescarias e treinos de arco e flecha. Com as mulheres, aprendi a socar pilão, acender fogo, descascar mandioca. Se, em meio a tantas tarefas e diversões, sentia falta das histórias dos livros, era só encostar na rede, ao lado do fogo, e ouvir o velho Ataina contá-las em sua fala musical e serena. Como as paredes eram de palha, e as casas próximas, era possível ouvir alguém respondendo ou completando o conto, de outra casa, de outra rede, e assim as conversas se teciam no ar, misturadas à fumaça perfumada de resina, ao estalar das brasas e ao choro dos bebês.

    Quando estava na cidade, a aldeia era meu paraíso secreto, o qual as outras crianças da escola – e também os adultos, professores e pais dos amigos – não podiam partilhar. Um mundo de espíritos no pátio, flautas sagradas e ensinamentos aos quais o Brasil deu as costas. Quando eu estava na aldeia, meu segredo eram os livros, a palavra escrita, os desenhos de outras terras e as tardes na livraria – que meus amigos dali nem sabiam existir.

    A coleção Um Dia na Aldeia, que agora lanço em parceria com o Vídeo nas Aldeias e a Cosac Naify, e patrocínio da Petrobras, amarra essas pontas da minha vida, meus dois tesouros, que naquele tempo pareciam inconciliáveis: os índios e os livros. Esta foi a maneira que encontrei de dividir com os amigos da cidade, a maravilha – e também as dores – da vida nas aldeias; e com os amigos de lá, o fascínio que guardam esses objetos e seu poder de carregar histórias e imagens e espalhá-las pelo mundo, convertidas em cores, papéis cortados e palavras ouvidas no balanço da rede.

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    *Rita Carelli, é coordenadora da coleção Um Dia na Aldeia. Além de escritora e ilustradora, é também atriz. Nasceu em São Paulo e viveu parte de sua infância entre os índios, de uma aldeia à outra, acompanhando seus pais em filmagens e pesquisas.

     

  • Mário de Andrade na FLIP 2015

    Mário de Andrade será o autor homenageado da 13ª edição da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty,  que acontece entre os dias 1º e 5 de julho. Do autor, a Cosac Naify publicou Será o Benedito!, crônica ilustrada por Odilon Moraes. Publicada no suplemento literário do jornal O Estado de S. Paulo, em 1939, o texto leve, com pitadas de humor, evoca um prosador de mão cheia. A obra integra a coleção Dedinho de Prosa, que procura contemplar autores fundamentais da literatura brasileira e universal, em texto integral e ilustrado. Leia um trecho do livro:

    A primeira vez que me encontrei com Benedito, foi no dia mesmo da minha chegada na Fazenda Larga, que tirava o nome das suas enormes pastagens. O negrinho era quase só pernas, nos seus treze anos de carreiras livres pelo campo, e enquanto eu conversava com os campeiros, ficara ali, de lado, imóvel, me olhando com admiração. Achando graça nele, de repente o encarei fixamente, voltando-me para o lado em que ele se guardava do excesso de minha presença. Isso, Benedito estremeceu, ainda quis me olhar, mas não pôde agüentar a comoção. Mistura de malícia e de entusiasmo no olhar, ainda levou a mão à boca, na esperança talvez de esconder as palavras que lhe escapavam sem querer:

    — O hôme da cidade, chi!… Deu uma risada quase histérica, estalada insopitavelmente dos seus sonhos insatisfeitos, desatou a correr pelo caminho, macacoaranha, num mexe-mexe aflito de pernas, seis, oito pernas, nem sei quantas, até desaparecer por detrás das mangueiras grossas do pomar.

    Nos primeiros dias Benedito fugiu de mim. Só lá pelas horas da tarde, quando eu me deixava ficar na varanda da casa-grande, gozando essa tristeza sem motivo das nossas tardes paulistas, o negrinho trepava na cerca do mangueirão que defrontava o terraço, uns trinta passos além, e ficava, só pernas, me olhando sempre, decorando os meus gestos, às vezes sorrindo para mim.

    mario

    Uma feita, em que eu me esforçava por prender a rédea do meu cavalo numa das argolas do mangueirão com o laço tradicional, o negrinho saiu não sei de onde, me olhou nas minhas ignorâncias de praceano, e não se conteve:

    — Mas será o Benedito! Não é assim, moço! Pegou na rédea e deu o laço com uma presteza serelepe.

    bene

     

     

  • O pau de selfie e a autoficção – parte I

    Como todo mundo com mais de dez anos de idade, conheci as já arqueológicas câmeras fotográficas, analógicas ou digitais, e toda vez que desejava me incluir em minhas próprias fotos precisava pedir a terceiros ou programar o timer. O acaso imperava, de um jeito ou de outro, e me restava torcer para não piscar na hora errada, não escolher uma angulação desfavorável em relação à luz e não ter o cenário invadido por estranhos. Ou seja: era torcer para que o mundo não se manifestasse do jeito que ele costuma ser, imprevisível e imperfeito, mas sim do jeito que eu gostaria que ele fosse. Já sabemos que esse problema acabou há anos com o advento dos smartphones, mas agora o passado recebeu o golpe fatal: a sensação do verão brasileiro é o pau de selfie, um bastão retrátil que se conecta aos telefones celulares e permite que as selfies sejam disparadas a distâncias superiores ao comprimento de um braço. Afinal, a um metro da lente, e com um cenário mais amplo e interessante logo atrás, todo mundo fica mais bonito, certo?

    Da mesma forma, como todo mundo com mais de dez anos, conheci o universo dos livros de ficção. Alguém lembra? Eram histórias inventadas, ao que parece, do nada. Surgiam da imaginação do escritor, ou eram adaptadas da experiência de terceiros, geralmente pessoas distantes, colhidas na imprensa ou de relatos orais. Nesse tempo, Amos Oz já era judeu, mas seus personagens judeus não eram versões tortas do próprio autor ou de seus amigos e familiares. Clarice Lispector já era, obviamente, uma mulher, mas as mulheres que povoavam sua obra não eram Clarices que se disfarçavam para conversar com baratas ou galinhas.

    Ainda não temos nada parecido com uma “caneta de selfie” para facilitar a tarefa de escrever sobre nosso próprio umbigo, mas não resta dúvida que, hoje, oito em cada dez livros podem ser encaixados, com pouco esforço, na categoria de autoficção. E é esta a incrível polêmica da qual temos nos ocupado ultimamente. O livro do Chico Buarque é ou não um romance autobiográfico? O Karl Ove de dentro do livro é o mesmo Knausgård que está do lado de fora? O que há de criação e o que há de fatalmente vivido nas histórias de Sérgio Sant’Anna, Alejandro Zambra ou Chimamanda Ngozi Adichie?

    Meu primeiro livro, O frio aqui fora, baseou-se num pontapé autobiográfico, a mudança radical do mundo corporativo para a literatura. Ao longo de um ano, respondi incontáveis vezes a perguntas sobre o que havia de biográfico na história. Aquele passeio pela cidade realmente aconteceu? Aquela menina que aparece no meio da trama é exatamente quem estou pensando que é? E sua mãe, ficou muito brava com aquela descrição?

    Você já entendeu o ponto: impossível dissociar as discussões sobre ficção e realidade do advento dos paus de selfie que invadiram, literalmente, nossas praias. São partes do mesmo fenômeno: a era do individualismo e do narcisismo, turbinada pelas novas tecnologias, com destaque para a internet. A linha pontilhada entre o público e o privado, fronteira paulatinamente ignorada ao longo do século passado, rompida definitivamente pelo avanço pantagruélico do eu sobre o nós, foi irremediavelmente estraçalhada pelo advento das redes sociais, nossas vitrines de ego-personagens. Quer falar sobre autoficção? Assista a um reality show ou leia uma timeline no Facebook. O que há de natural naqueles personagens com RG? O que há de intencional nas paixões e alegrias roteirizadas, editadas e reeditadas que postamos diariamente? É tudo real mas, já sabemos: é tudo ficção. Ou, se preferir: é tudo ficção, mas…

    Duas obras publicadas em 2014 me ajudaram a colocar a discussão sobre autoficção definitivamente na pasta de assuntos não-recicláveis: O que amar quer dizer, de Mathieu Lindon, e O brilho do bronze, de Boris Fausto.

    ***

    A continuação desse artigo será publicada na próxima semana, aqui no blog da Cosac Naify.

    *Flavio Cafiero é escritor, roterista e dramaturgo. Publicou a coletânea de contos Dez centímetros acima do chão (2014) o romance O frio aqui fora (2013), finalista do Prêmio Jabuti 2014

  • Vem aí – 2015

    Separe um bom espaço na sua estante, pois as novidades do catálogo adulto da Cosac Naify para 2015 estão incríveis! Confira alguns destaques:

    Coleção Mário Pedrosa

    Após anos fora de catálogo, a obra completa de Mário Pedrosa está de volta ao leitor. Trata-se do conjunto mais impressionante e significativo de textos escritos por um crítico brasileiro. Em paralelo à militância no ambiente artístico, Mário Pedrosa também desenvolveu atividades não menos importantes no plano político, inicialmente como membro do Partido Comunista, e, já octogenário, como membro fundador do Partido dos Trabalhadores.

    Pela primeira vez, um projeto editorial restitui ao leitor essas duas dimensões da obra de Mário Pedrosa, a artística e a política. Dividida em quatro núcleos temáticos – Arte, Arquitetura, Cultura e Política -, as edições trazem material de pesquisa inédito (notas, manuscritos, imagens, textos), bem como novos aparatos editoriais (prefácios, posfácios, notas, textos de orelha, depoimentos etc.) voltados para um público mais amplo, sem perder o rigor e a qualidade crítica.

    Quatro títulos dão início à coleção: dois volumes de arte (crítica diária I e II), um volume de ensaios sobre arquitetura e outro com seus escritos políticos.

     

    Coleção Murilo Mendes

    A Cosac Naify dá continuidade à publicação das obras completas de Murilo Mendes, considerado, ao lado de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, um dos quatro maiores poetas da literatura moderna do país. Para 2015, estão previstos cinco títulos: já no 1º semestre, Tempo espanhol e Sicilianas, ambos de 1959, reunidos em um mesmo volume, e As Metamorfoses (1944); e, no 2º semestre, chega às livrarias Contemplação de Ouro Preto (1954), Poesia Liberdade (1947) e Poliedro (1972).

     

    [1º semestre]

     

     Absalão, Absalão!, William Faulkner

    Absalão, Absalão!, escrito em 1936, é um dos mais prestigiosos romances do século XX. Ambientado no sul dos Estados Unidos durante e após a Guerra Civil Americana, narra a ascensão e queda de Thomas Sutpen, fundador de uma dinastia que acaba sendo destruído por sua própria descendência. Sexto título do autor publicado pela Cosac Naify, acompanhado de Palmeiras selvagens (2003), O som e a fúria (2004/2012), Luz em agosto (2007), A árvore dos desejos (infantojuvenil, 2009) e Sartoris (2010).

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    Moll Flanders, Daniel Defoe

    Escrita em 1722 por Daniel Defoe – autor de Robinson Crusoé, publicado três anos antes, e considerado o fundador do moderno romance inglês –, a obra se apresenta como uma autobiografia, datada de 1683, de uma mulher controversa, tida como a primeira protagonista da classe baixa na história da literatura inglesa. A tradução, inédita, é de Donaldson Garschagen. O lançamento marca a retomada da coleção Prosa do Mundo, com ousado projeto gráfico, e mais seis títulos previstos até o final deste ano.

    molera

     

    As pequenas virtudes, Natalia Ginzburg

    O livro reúne onze textos da italiana Natalia Ginzburg situados entre o ensaio e a autobiografia. Lançado em 1962, é considerado uma das grandes obras da escrita memorialística do século XX. Trata-se de uma prosa límpida, elegante, aliada ao vigor típico dos escritores que, ao falar das coisas mais prosaicas, desvelam as vivências mais profundas. Da autora, a Cosac Naify também publicou Léxico familiar e Caro Michele.

     

    Alexandre Herchcovitch [1:1]

    Livro comemorativo dos 20 anos de carreira do estilista paulistano, desde o primeiro interesse por criação de roupas, ainda na infância, até o estabelecimento de sua marca no país. A obra conta com projeto gráfico especial e ensaio exclusivo do fotógrafo Bob Wolfenson, com personalidades da moda brasileira vestindo peças icônicas de Herchcovitch.

     

    Esperando Godot, Samuel Beckett

    Nova edição da obra-prima do dramaturgo, romancista e poeta irlandês, com tradução do professor de teoria literária da Universidade de São Paulo Fábio de Souza Andrade. Escrita em francês, a peça estreou em 1953 e se tornou um divisor de águas no teatro do século XX. Na história, dois vagabundos aguardam infinitamente, num descampado, a vinda do senhor Godot, que nunca aparece.

     

    [2º semestre]

    Meus documentos, Alejandro Zambra

    Quarto título do celebrado autor chileno pela Cosac Naify. Neste livro de contos, que bem pode ser lido como um romance, ou como novelas arquivadas na pasta Meus documentos do computador, com a fina ironia e a precisão já habituais, Alejandro Zambra traça a anódina existência de alguns homens que se apegam a uma antiga ideia de masculinidade, ou de alguns seres que apostam suas últimas fichas no amor. A incessante busca do pai, o desencanto dos jovens da geração de transição, a legitimidade da dor, são alguns dos temas que cruzam Meus documentos. Pela Cosac Naify, Zambra publicou Bonsai (2012), A vida privada das árvores (2013) e Formas de voltar para casa (2014), todos disponíveis também em versão digital.

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    Os sertões – edição crítica, Walnice Nogueira Galvão

    A Cosac Naify lança a edição crítica do clássico de Euclides da Cunha: Os sertões. Lançado em 1902, Os sertões foi escrito durante a viagem do autor para Canudos, aonde foi como repórter d’O Estado de São Paulo a fim de relatar a guerra que lá ocorria. O que era pra ser um trabalho puramente jornalístico, porém, tornou-se um dos maiores romances da literatura brasileira. Euclides da Cunha alterou, emendou e corrigiu o livro em suas quatro primeiras edições, o que causou posteriormente um frutífero trabalho filológico. No total, são cerca de 10 mil variantes e correções.

    Durante nove anos, a professora da USP Walnice Nogueira Galvão trabalhou para estabelecer um texto o mais fiel possível à última vontade do autor, e registrou as mínimas variações, dando conta da obsessão de Euclides. A edição, dividida em dois volumes, traz, além do texto integral e revisto por ela, um ensaio fotográfico de Flávio de Barros sobre a Guerra de Canudos (1896 – 1897), um caderno de imagens e uma fortuna crítica profusa, com textos de Antonio Candido, Gylberto Freire, Luiz Costa Lima e Antonio Houaiss, entre outros.