• Faxina

    [detalhe] Peça de estandarte bordado, Arthur Bispo do Rosário

    Poderia começar narrando a dor que senti ao me despedir de uma mala para ternos embolorada. Ou mesmo descrevendo o carinho que sinto por uma velha chaleira azul de ágata. Ou ainda relembrando uma perturbadora cena de A comilança (ou das minhas últimas férias), mas me contento em dizer: estou cheia.

    Sufocada pelo excesso, me desfiz de oito sacas de tralha. Alheia a tudo, esqueço que o exagero também pode estar no diminuto e abro mão de armações de óculos antigas, tsurus amassados, um pote de patê com um faisão estampado no invólucro, uma pequena almofada de rendeira (com bilros inclusos), um aromatizante de ambientes vencido (que guardava o cheiro da minha antiga casa, também vencida), uma edição de Dom Quixote malcheirosa e malcuidada, tampas e mais tampas de caneta mordidas.

    Peças e mais peças de roupas e bolsas e botas e chinelas e chapéus e, ai, como vocês não me dizem mais nada. Cobertos por uma capa gordurosa de poeira, esses objetos que me usaram e me deram sentido durante tantos anos sujam as pontas dos meus dedos e se amontoam num mórbido saco preto. Adeus.

    Estou empanzinada. Atravesso uma praça ensolarada, onde cada passante cacareja uma língua, e tampo meus ouvidos evitando também entender minha própria língua. Eu, que já entupi meus vasos e meus olhos de carros alegóricos erguidos com isopor e purpurina, só quero o cheiro do desinfetante e mais nada.

    Finjo que esqueço todas as histórias que ouvi, e a versões desdobradas de todas as histórias que ouvi, e escuto a brisa calma, o som mudo das seis horas da manhã, a leveza das patas de uma aranha escalando a parede branca da sala.

     

    *Natércia Pontes é autora de Copacabana dreams, finalista do Prêmio Jabuti 2013

  • Meninos de areia, Salvador, 1991

    O fotógrafo Christian Cravo nasceu em uma família de artistas. Filho do artista brasileiro Mario Cravo Neto (1947-2009) e neto do renomado artista baiano Mario Cravo Jr. (1923), Christian começou a flertar com a fotografia ainda menino, aos 12 anos.

    Dos 17 aos 19, fez uma imersão marcante pelo nordeste brasileiro, e a partir dessa experiência, elegeu a fotografia como veículo pelo qual poderia conhecer o mundo. Christian Cravo, publicado pela Cosac Naify, reúne o resultado dessa primeira experiência fotográfica: 300 imagens inéditas, produzidas entre 1991 e 1993 em Salvador, sua cidade natal.

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    Após registrar em livro seu olhar sobre Salvador, o fotógrafo está em cartaz, no Museu Afro Brasil [SP], com a mostra “Luz & Sombra”, reunião de 40 fotografias em preto-e-branco, resultado de várias incursões do artista por seis países africanos: Namíbia, Botsuana, Zâmbia, Quênia, Uganda e Tanzânia. Para saber mais, acesse o site do museu. A exposição vai até o dia 10 de maio.

     

  • 90 anos de Flannery O’Connor

    A norte-americana Flannery O’Connor (1925-1964), uma das mais consagradas vozes da literatura do século XX, faria hoje em 90 anos. Da autora, a Cosac Naify publicou Contos completos, título que integra a coleção Mulheres Modernistas – uma reunião de novas traduções de autoras que ajudaram a escrever a história da literatura moderna, em edições com fotografias, notas e apêndices que por vezes apontam um entrecruzamento entre vida e obra.

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    Nesses Contos completos, traduzidos por Leornado Fróes, O’Connor aborda temas como religião, racismo e violência, sempre numa atmosfera de extremo realismo. Leia abaixo um trecho de “O trem”, um dos 31 contos do livro:

    Pensando no condutor, ele quase se esqueceu do beliche. Sua cama era em cima. O homem da estação tinha dito que podia lhe dar uma de baixo e Haze perguntou se ele não tinha mais das de cima; o homem disse que sim, se era o que ele queria, e deu-lhe a cama de cima. Recostado na poltrona, Haze viu como o teto se arredondava no alto. Era lá que ficava. Puxavam o teto para baixo e ela se desdobrava e aí por uma escadinha se subia até lá. Não tendo visto nenhuma escada por perto, Haze pensou que as guardassem no armário, que era logo na entrada. Assim que embarcou no trem, ele viu o condutor em pé diante do armário, vestindo seu paletó de condutor. Haze tinha parado ali — bem ali onde ele estava.

    A forma da cabeça era igual e sua nuca era igual, tal como o curto alcance do braço. Quando ele olhou para Haze, virando-se do armário, Haze viu que seus olhos eram iguais também; eram os mesmos — iguais aos do velho Cash, à primeira vista, embora se modificassem depois. Tornaram-se diferentes enquanto ele os observava; endureceram-se completamente. ‘Ei, ô… a que horas você arruma as camas?’, Haze murmurou.

    ‘Ainda falta muito tempo’, disse o condutor, voltando a mexer no armário.
    Haze, sem saber o que mais dizer-lhe, foi para sua cabine.

    O trem voando agora cinza passava por instantes de árvores e velozes extensões de terra e um céu sem movimento que ia depressa escurecendo ao longe na direção contrária. Sob a luz fraca e amarelada do trem, Haze recostou a cabeça na poltrona e olhou pela janela. O condutor tinha passado duas vezes, duas vezes para a frente, outras duas para trás, e na segunda para a frente deu uma olhada em Haze, instantânea e penetrante, indo porém sem dizer nada; Haze, virandose, olhou-o pelas costas, como da vez anterior. Até o andar era igual. Todos esses crioulos das barrancas se pareciam. Tinham sempre esse jeitão da negrada — carecas, socados, pesadões, que nem de pedra. O velho Cash, em seu tempo, chegou a pesar noventa quilos — sem gordura nenhuma — e era baixo que só vendo. Haze queria falar com o condutor. O que iria dizer o condutor, quando lhe contasse que era de Eastrod? O que ele diria? (…)

     

  • Dois brilhos

    Em fevereiro criamos a campanha ‪#‎novapoesiabr‬ ‪#‎euleiopoesiabrasileira‬, para celebrar as tantas vozes dos poetas contemporâneos do nosso catálogo. Neste post, Armando Freitas Filho homenageia as poetas Laura Liuzzi (Desalinho, 2014) e Alice Sant’Anna (Rabo de baleia, 2013). 

    Laura conheci desde sempre; seu codinome: bebê branquinho. Alice, só ao 15 anos, já aprendiz de poeta; sentada no sofá da sala, seus pés mal tocavam o chão. Laura apareceu para mim como poeta aos 20 anos: poemas soltos dentro de uma pasta cinza, se bem me lembro. A poesia de Laura é uma linha reta, mesmo quando desalinha; a de Alice é uma entrelinha insinuante. O brilho da primeira é scarlet; o da segunda, lunar. Para este leitor foi um privilégio ter visto primeiro essas duas luzes.

    Dois brincos

    O calor das pérolas
    e a cor distanciam
    do marfim da faca
    de abrir folhas de livro
    do frio da lua sujeita a nuvens
    da luz gentil e educada
    da taça, que ainda assim fere
    com seu cristal fascinante

    As belas pérolas de brilhos
    diferentes, bem perto
    da lâmpada, em cima
    da mesa de cabeceira
    no halo da luz que aquece
    o róseo mármore imóvel
    onde os brincos se deixam estar
    depois da noite, antes do dia

     

    alicelaura

     

    *Armando Freitas Filho estreou com o livro Palavra em 1963. Em 2003, teve seus 13 livros de poesia reunidos no volume Máquina de escrever. Nos anos seguintes publicou Raro mar (2006), Lar, (2009) e Dever (2013). Foi vencedor dos prêmios Jabuti, Alphonsus de Guimaraens, Portugal Telecom e Alceu Amoroso Lima.

  • Nova Prosa do Mundo

    A Prosa do Mundo é uma das mais icônicas coleções da Cosac Naify. Sua criação, em 2000, marcou a ampliação do catálogo da editora e a aposta em novas áreas, com a publicação dos primeiros títulos de literatura. Ali já se imprimiram as características que depois virariam nossa marca editorial: traduções de qualidade, sempre direto da língua original, aparato crítico cuidadosamente selecionado e um projeto gráfico refinado. Passados quinze anos, decidimos atualizar o projeto gráfico da coleção, originalmente criado por Fábio Miguez.

    Nossa premissa foi manter as imagens das capas – escolhidas a partir de uma cuidadosa pesquisa, em geral respeitando a época e o lugar das histórias –, já muito identificadas com os livros. Acreditando na força dessas imagens, optamos por dar a elas protagonismo total, sem nem sequer a interferência do título ou autor. A identificação de cada volume está na lombada, onde a tipografia elegante e geométrica garante a unidade da coleção na estante. Na contra-capa, os autores dos textos complementares e os tradutores ganharam o devido destaque.

    A fonte escolhida, que tem a particularidade de conter letras com larguras contrastantes, compõe uma estampa ritmada nas guardas, mesclando os nomes dos autores e da coleção.

    A cereja do bolo é o fitilho, onde está estampado “Prosa do Mundo”.

    [Os títulos da Nova Prosa do Mundo já estão em pré-venda em nossa loja virtual]

     

    *Elaine Ramos é diretora de arte da Cosac Naify

  • Bota-fora Cosac Naify

    Vamos mudar de endereço em São Paulo e, para nos despedirmos, abriremos as nossas portas para oferecer aos leitores livros de 5 a 40 reais. Serão mais de 500 títulos disponíveis, incluindo os últimos exemplares das edições antigas da coleção Prosa do Mundo – para os colecionadores, essa é a chance de completar a estante!

    De 19 a 22 de março, das 10h às 16, na rua Júlio de Castilhos, 248, Belenzinho [próximo à estação Belém do Metrô | saiba como chegar]. Lembrando que a promoção é válida apenas em nosso endereço físico. Pagamento em cartão de débito, crédito ou em dinheiro.

    Confira alguns destaques:

     

    Contos reunidos, João Antonio

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    David Bowie está aqui, vários autores

     

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    Peter e Wendy, J. M. Barrie

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    O livro da Nina para guardar pequenas coisas, Keith Haring

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    A autobiografia de Alice B. Tolkas, Gertrude Stein
    Auto-de-fé, Elias Canetti
    Chapeuzinho Vermelho, Irmãos Grimm
    O companheiro de viagem, Gyula Krúdy
    Conversas com Woody Allen, Eric Lax
    O círculo de giz caucasiano, Bertolt Brecht
    Diálogos com Leucó, Cesare Pavese
    Os embaixadores, Henry James
    A floresta do bicho-preguiça, Anouck Boisrobert e Louis Rigaud
    O homem nu, Claude Levi-Strauss
    Macbeth, William Shakespeare
    Palmeiras selvagens, William Faulkner
    O perseguidor, Julio Cortázar

  • Arnaldo Antunes + Márcia Xavier = Et eu tu

    A foto desta semana está no livro-objeto ET EU TU, parceria entre o poeta Arnaldo Antunes e a artista plástica Márcia Xavier.  As fotos e foto-montagens da mineira foram “respondidas” com poemas do paulista, resultando não apenas em um livro de poemas ou numa obra fotográfica, mas em “uma parceria de dois códigos”, conforme os autores.

    Vencedor do Prêmio Jabuti 2004, o projeto gráfico assinado por Arnaldo, Márcia e o artista Carlito Carvalhosa resulta em um livro-objeto com fôlderes desdobráveis e transparências, potencializando o diálogo poético estabelecido pelos autores.

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  • Bibliotecários ilustres

    Hoje, 12 de março, é comemorado o Dia do Bibliotecário. Para celebrar a data, apresentamos três ilustres bibliotecários, que vieram a se tornar nomes fundamentais da cultura do século XIX-XX:

    Jacob Grimm 

    Autor, junto com seu irmão, Wilhelm, dos clássicos contos maravilhosos – também vulgarmente conhecidos como “contos de fada” –, Jabob Grimm trabalhou, entre 1805 e 1806, como bibliotecário particular do rei Jérôme Bonaparte, irmão de Napoleão, durante a ocupação francesa na Europa Central.

    A partir desse período, Jabob e Wilhelm começaram a coletar os contos maravilhosos, enviando boa parte deles ao escritor Clemens Brentano. O material é rejeitado, surgindo disso a ideia de uma coletânea de contos maravilhosos, cujo primeiro tomo foi publicado em 1812 e o segundo em 1815. Um anos depois, Jacob é nomeado bibliotecário na cidade de Kassel.

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    Marcel Duchamp

    Em 1915, dois anos após o estrondoso impacto que seu Nu descendo uma escada causou na Exposição Internacional de Arte Moderna, Duchamp trocou Paris por New York.  Ainda que já fosse famoso na capital americana, deu aulas de francês por um período para conseguir se sustentar. Um de seus alunos era John Quinn, o advogado e colecionador de arte.

    Depois de saber que Duchamp havia trabalhado como bibliotecário em Paris, Quinn, que se tornou seu amigo e mentor, arranjou-lhe um emprego na Biblioteca Morgan, coordenada pelo Instituto Francês –  museu que tinha também um centro de estudos ligado ao consulado francês em Nova York. Em Duchamp – uma biografia, há uma passagem na qual o artista fala de seu encontro com Belle da Costa Greene, diretora da biblioteca:

    Vi Miss Belle Greene na biblioteca às três e quarenta e cinco da tarde. Ela perguntou-me quais eram meus desejos, como o número de horas de trabalho e a remuneração que eu queria. Ela resolveu pedir, ao presidente do Instituto Francês, cem dólares por mês por quatro horas de trabalho todas as tardes (das duas às seis). Minha esperança foi ultrapassada: eu garanto-lhe que, em vez de esse emprego ser um obstáculo para meu próprio trabalho, ele vai me dar a liberdade de que preciso.

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    Jorge Luis Borges

    Em 1938, dois anos antes da publicação de Antologia da literatura fantástica, o mestre argentino começou a trabalhar na Biblioteca Municipal Miguel Cané, no bairro portento de  Boedo. Anos mais tarde, já consagrado pela crítica, foi diretor da Biblioteca Nacional da Argentina, entre 1955 e 1973.

     

     

  • Yoknapatawpha, a cidade fictícia de Faulkner

    Em Absalão, Absalão!, novo título da série William Faulkner, o autor retorna ao lendário condado de Yoknapatawpha, onde se passa grande parte de sua obra, para narrar a ascensão e queda da família Sutpen durante a Guerra Civil Americana.

    Yoknapatawpha, distrito fictício do estado de Mississipi, ao sul dos Estados Unidos, já foi o palco da ruína dos Compson, em O som e a fúria; da vida trágica de Joe Christmas, em Luz em agosto; e por onde avança a ferrovia John Sartoris, batizada em homenagem ao coronel morto na Guerra de Secessão, presente em Sartoris.

    Abaixo, o mapa desse lugar tão peculiar e inóspito, criado pelo mestre Faulkner:

    mapaClique aqui para visualizar a imagem em maior resolução.

     

  • Mulheres indicam mulheres

    Aqui na editora, todo o dia é dia, mas em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, comemorado neste domingo, 8 de março, preparamos um post especial: as mulheres por trás dos nossos livros indicam livros de autoras do nosso catálogo. Confira as cinco dicas:

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    Florencia Ferrari, diretora editorial, indica O efeito etnográfico e outros ensaios, de Marilyn Strathern: “Marilyn Strathern revolucionou a antropologia e os estudos de gênero com uma teoria radical baseada na noção de relação”.

     

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    Aline Valli, produtora gráfica, indica Mira Schendel: do espiritual à corporeidade, dedicado às ideias e a obra da artista: “Mira Schendel inspira com sua com sua linguagem gráfica particular e encanta com o seu mistério”.

     

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    Érika Hamassaki, gerente comercial, indica Sangue no olho, da chilena Lina Meruane: “Lina Meruane estreia no Brasil com romance intenso, que fala de amor, família e loucura”.

     

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    Elaine Ramos, diretora de arte, indica Onda, da ilustradora coreana Suzy Lee: “Em Onda, Suzy Lee cria uma personagem que interage com as características físicas do livro de forma original e engenhosa”.

     

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    Isabel Coelho, diretora editorial do núcleo infantojuvenil, indica O cântico dos cânticos, de Angela Lago: “Angela Lago foi pioneira em unir a literatura infantil brasileira ao livro-objeto”.