• 90 anos de Flannery O’Connor

    A norte-americana Flannery O’Connor (1925-1964), uma das mais consagradas vozes da literatura do século XX, faria hoje em 90 anos. Da autora, a Cosac Naify publicou Contos completos, título que integra a coleção Mulheres Modernistas – uma reunião de novas traduções de autoras que ajudaram a escrever a história da literatura moderna, em edições com fotografias, notas e apêndices que por vezes apontam um entrecruzamento entre vida e obra.

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    Nesses Contos completos, traduzidos por Leornado Fróes, O’Connor aborda temas como religião, racismo e violência, sempre numa atmosfera de extremo realismo. Leia abaixo um trecho de “O trem”, um dos 31 contos do livro:

    Pensando no condutor, ele quase se esqueceu do beliche. Sua cama era em cima. O homem da estação tinha dito que podia lhe dar uma de baixo e Haze perguntou se ele não tinha mais das de cima; o homem disse que sim, se era o que ele queria, e deu-lhe a cama de cima. Recostado na poltrona, Haze viu como o teto se arredondava no alto. Era lá que ficava. Puxavam o teto para baixo e ela se desdobrava e aí por uma escadinha se subia até lá. Não tendo visto nenhuma escada por perto, Haze pensou que as guardassem no armário, que era logo na entrada. Assim que embarcou no trem, ele viu o condutor em pé diante do armário, vestindo seu paletó de condutor. Haze tinha parado ali — bem ali onde ele estava.

    A forma da cabeça era igual e sua nuca era igual, tal como o curto alcance do braço. Quando ele olhou para Haze, virando-se do armário, Haze viu que seus olhos eram iguais também; eram os mesmos — iguais aos do velho Cash, à primeira vista, embora se modificassem depois. Tornaram-se diferentes enquanto ele os observava; endureceram-se completamente. ‘Ei, ô… a que horas você arruma as camas?’, Haze murmurou.

    ‘Ainda falta muito tempo’, disse o condutor, voltando a mexer no armário.
    Haze, sem saber o que mais dizer-lhe, foi para sua cabine.

    O trem voando agora cinza passava por instantes de árvores e velozes extensões de terra e um céu sem movimento que ia depressa escurecendo ao longe na direção contrária. Sob a luz fraca e amarelada do trem, Haze recostou a cabeça na poltrona e olhou pela janela. O condutor tinha passado duas vezes, duas vezes para a frente, outras duas para trás, e na segunda para a frente deu uma olhada em Haze, instantânea e penetrante, indo porém sem dizer nada; Haze, virandose, olhou-o pelas costas, como da vez anterior. Até o andar era igual. Todos esses crioulos das barrancas se pareciam. Tinham sempre esse jeitão da negrada — carecas, socados, pesadões, que nem de pedra. O velho Cash, em seu tempo, chegou a pesar noventa quilos — sem gordura nenhuma — e era baixo que só vendo. Haze queria falar com o condutor. O que iria dizer o condutor, quando lhe contasse que era de Eastrod? O que ele diria? (…)

     

  • Dois brilhos

    Em fevereiro criamos a campanha ‪#‎novapoesiabr‬ ‪#‎euleiopoesiabrasileira‬, para celebrar as tantas vozes dos poetas contemporâneos do nosso catálogo. Neste post, Armando Freitas Filho homenageia as poetas Laura Liuzzi (Desalinho, 2014) e Alice Sant’Anna (Rabo de baleia, 2013). 

    Laura conheci desde sempre; seu codinome: bebê branquinho. Alice, só ao 15 anos, já aprendiz de poeta; sentada no sofá da sala, seus pés mal tocavam o chão. Laura apareceu para mim como poeta aos 20 anos: poemas soltos dentro de uma pasta cinza, se bem me lembro. A poesia de Laura é uma linha reta, mesmo quando desalinha; a de Alice é uma entrelinha insinuante. O brilho da primeira é scarlet; o da segunda, lunar. Para este leitor foi um privilégio ter visto primeiro essas duas luzes.

    Dois brincos

    O calor das pérolas
    e a cor distanciam
    do marfim da faca
    de abrir folhas de livro
    do frio da lua sujeita a nuvens
    da luz gentil e educada
    da taça, que ainda assim fere
    com seu cristal fascinante

    As belas pérolas de brilhos
    diferentes, bem perto
    da lâmpada, em cima
    da mesa de cabeceira
    no halo da luz que aquece
    o róseo mármore imóvel
    onde os brincos se deixam estar
    depois da noite, antes do dia

     

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    *Armando Freitas Filho estreou com o livro Palavra em 1963. Em 2003, teve seus 13 livros de poesia reunidos no volume Máquina de escrever. Nos anos seguintes publicou Raro mar (2006), Lar, (2009) e Dever (2013). Foi vencedor dos prêmios Jabuti, Alphonsus de Guimaraens, Portugal Telecom e Alceu Amoroso Lima.

  • Nova Prosa do Mundo

    A Prosa do Mundo é uma das mais icônicas coleções da Cosac Naify. Sua criação, em 2000, marcou a ampliação do catálogo da editora e a aposta em novas áreas, com a publicação dos primeiros títulos de literatura. Ali já se imprimiram as características que depois virariam nossa marca editorial: traduções de qualidade, sempre direto da língua original, aparato crítico cuidadosamente selecionado e um projeto gráfico refinado. Passados quinze anos, decidimos atualizar o projeto gráfico da coleção, originalmente criado por Fábio Miguez.

    Nossa premissa foi manter as imagens das capas – escolhidas a partir de uma cuidadosa pesquisa, em geral respeitando a época e o lugar das histórias –, já muito identificadas com os livros. Acreditando na força dessas imagens, optamos por dar a elas protagonismo total, sem nem sequer a interferência do título ou autor. A identificação de cada volume está na lombada, onde a tipografia elegante e geométrica garante a unidade da coleção na estante. Na contra-capa, os autores dos textos complementares e os tradutores ganharam o devido destaque.

    A fonte escolhida, que tem a particularidade de conter letras com larguras contrastantes, compõe uma estampa ritmada nas guardas, mesclando os nomes dos autores e da coleção.

    A cereja do bolo é o fitilho, onde está estampado “Prosa do Mundo”.

    [Os títulos da Nova Prosa do Mundo já estão em pré-venda em nossa loja virtual]

     

    *Elaine Ramos é diretora de arte da Cosac Naify

  • Bota-fora Cosac Naify

    Vamos mudar de endereço em São Paulo e, para nos despedirmos, abriremos as nossas portas para oferecer aos leitores livros de 5 a 40 reais. Serão mais de 500 títulos disponíveis, incluindo os últimos exemplares das edições antigas da coleção Prosa do Mundo – para os colecionadores, essa é a chance de completar a estante!

    De 19 a 22 de março, das 10h às 16, na rua Júlio de Castilhos, 248, Belenzinho [próximo à estação Belém do Metrô | saiba como chegar]. Lembrando que a promoção é válida apenas em nosso endereço físico. Pagamento em cartão de débito, crédito ou em dinheiro.

    Confira alguns destaques:

     

    Contos reunidos, João Antonio

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    David Bowie está aqui, vários autores

     

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    Peter e Wendy, J. M. Barrie

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    O livro da Nina para guardar pequenas coisas, Keith Haring

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    A autobiografia de Alice B. Tolkas, Gertrude Stein
    Auto-de-fé, Elias Canetti
    Chapeuzinho Vermelho, Irmãos Grimm
    O companheiro de viagem, Gyula Krúdy
    Conversas com Woody Allen, Eric Lax
    O círculo de giz caucasiano, Bertolt Brecht
    Diálogos com Leucó, Cesare Pavese
    Os embaixadores, Henry James
    A floresta do bicho-preguiça, Anouck Boisrobert e Louis Rigaud
    O homem nu, Claude Levi-Strauss
    Macbeth, William Shakespeare
    Palmeiras selvagens, William Faulkner
    O perseguidor, Julio Cortázar

  • Arnaldo Antunes + Márcia Xavier = Et eu tu

    A foto desta semana está no livro-objeto ET EU TU, parceria entre o poeta Arnaldo Antunes e a artista plástica Márcia Xavier.  As fotos e foto-montagens da mineira foram “respondidas” com poemas do paulista, resultando não apenas em um livro de poemas ou numa obra fotográfica, mas em “uma parceria de dois códigos”, conforme os autores.

    Vencedor do Prêmio Jabuti 2004, o projeto gráfico assinado por Arnaldo, Márcia e o artista Carlito Carvalhosa resulta em um livro-objeto com fôlderes desdobráveis e transparências, potencializando o diálogo poético estabelecido pelos autores.

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  • Bibliotecários ilustres

    Hoje, 12 de março, é comemorado o Dia do Bibliotecário. Para celebrar a data, apresentamos três ilustres bibliotecários, que vieram a se tornar nomes fundamentais da cultura do século XIX-XX:

    Jacob Grimm 

    Autor, junto com seu irmão, Wilhelm, dos clássicos contos maravilhosos – também vulgarmente conhecidos como “contos de fada” –, Jabob Grimm trabalhou, entre 1805 e 1806, como bibliotecário particular do rei Jérôme Bonaparte, irmão de Napoleão, durante a ocupação francesa na Europa Central.

    A partir desse período, Jabob e Wilhelm começaram a coletar os contos maravilhosos, enviando boa parte deles ao escritor Clemens Brentano. O material é rejeitado, surgindo disso a ideia de uma coletânea de contos maravilhosos, cujo primeiro tomo foi publicado em 1812 e o segundo em 1815. Um anos depois, Jacob é nomeado bibliotecário na cidade de Kassel.

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    Marcel Duchamp

    Em 1915, dois anos após o estrondoso impacto que seu Nu descendo uma escada causou na Exposição Internacional de Arte Moderna, Duchamp trocou Paris por New York.  Ainda que já fosse famoso na capital americana, deu aulas de francês por um período para conseguir se sustentar. Um de seus alunos era John Quinn, o advogado e colecionador de arte.

    Depois de saber que Duchamp havia trabalhado como bibliotecário em Paris, Quinn, que se tornou seu amigo e mentor, arranjou-lhe um emprego na Biblioteca Morgan, coordenada pelo Instituto Francês –  museu que tinha também um centro de estudos ligado ao consulado francês em Nova York. Em Duchamp – uma biografia, há uma passagem na qual o artista fala de seu encontro com Belle da Costa Greene, diretora da biblioteca:

    Vi Miss Belle Greene na biblioteca às três e quarenta e cinco da tarde. Ela perguntou-me quais eram meus desejos, como o número de horas de trabalho e a remuneração que eu queria. Ela resolveu pedir, ao presidente do Instituto Francês, cem dólares por mês por quatro horas de trabalho todas as tardes (das duas às seis). Minha esperança foi ultrapassada: eu garanto-lhe que, em vez de esse emprego ser um obstáculo para meu próprio trabalho, ele vai me dar a liberdade de que preciso.

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    Jorge Luis Borges

    Em 1938, dois anos antes da publicação de Antologia da literatura fantástica, o mestre argentino começou a trabalhar na Biblioteca Municipal Miguel Cané, no bairro portento de  Boedo. Anos mais tarde, já consagrado pela crítica, foi diretor da Biblioteca Nacional da Argentina, entre 1955 e 1973.

     

     

  • Yoknapatawpha, a cidade fictícia de Faulkner

    Em Absalão, Absalão!, novo título da série William Faulkner, o autor retorna ao lendário condado de Yoknapatawpha, onde se passa grande parte de sua obra, para narrar a ascensão e queda da família Sutpen durante a Guerra Civil Americana.

    Yoknapatawpha, distrito fictício do estado de Mississipi, ao sul dos Estados Unidos, já foi o palco da ruína dos Compson, em O som e a fúria; da vida trágica de Joe Christmas, em Luz em agosto; e por onde avança a ferrovia John Sartoris, batizada em homenagem ao coronel morto na Guerra de Secessão, presente em Sartoris.

    Abaixo, o mapa desse lugar tão peculiar e inóspito, criado pelo mestre Faulkner:

    mapaClique aqui para visualizar a imagem em maior resolução.

     

  • Mulheres indicam mulheres

    Aqui na editora, todo o dia é dia, mas em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, comemorado neste domingo, 8 de março, preparamos um post especial: as mulheres por trás dos nossos livros indicam livros de autoras do nosso catálogo. Confira as cinco dicas:

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    Florencia Ferrari, diretora editorial, indica O efeito etnográfico e outros ensaios, de Marilyn Strathern: “Marilyn Strathern revolucionou a antropologia e os estudos de gênero com uma teoria radical baseada na noção de relação”.

     

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    Aline Valli, produtora gráfica, indica Mira Schendel: do espiritual à corporeidade, dedicado às ideias e a obra da artista: “Mira Schendel inspira com sua com sua linguagem gráfica particular e encanta com o seu mistério”.

     

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    Érika Hamassaki, gerente comercial, indica Sangue no olho, da chilena Lina Meruane: “Lina Meruane estreia no Brasil com romance intenso, que fala de amor, família e loucura”.

     

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    Elaine Ramos, diretora de arte, indica Onda, da ilustradora coreana Suzy Lee: “Em Onda, Suzy Lee cria uma personagem que interage com as características físicas do livro de forma original e engenhosa”.

     

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    Isabel Coelho, diretora editorial do núcleo infantojuvenil, indica O cântico dos cânticos, de Angela Lago: “Angela Lago foi pioneira em unir a literatura infantil brasileira ao livro-objeto”.

     

  • O retorno do real

    Que “real” é esse que retorna no livro de Hal Foster, O retorno do real? É a central e mais difícil das questões, e não à toa a que mais se mantém produtiva desde a época do lançamento de sua primeira edição, em 1996. “No começo da década de 1960, Jacques Lacan estava empenhado em definir o real em termos de trauma”, escreve Foster, e continua: “Lacan define o traumático como um encontro faltoso com o real. Na condição de faltoso, o real não pode ser representado; só pode ser repetido; aliás, tem de ser repetido”. Diante disso, não é apenas a natureza desse “real” que deve ser questionada, é a própria possibilidade de conciliação desse “real” com o “retorno”. O “retorno do real” não não consiste no resgate de uma situação passada, de um contexto conhecido, reconstruído e encenado (como um filme de época, por exemplo); significa o esforço da arte contemporânea de dar conta do absurdo e da violência do cotidiano – que nunca se dá completamente à visão, mas somente em partes, faltoso e lacunar, e por isso retorna e, nesse retorno, é repetido.

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    Quarenta anos antes de O retorno do real, em 1956, surge O arco e a lira, de Octavio Paz. Na teoria da imagem que aí desenvolve, Paz parte do mesmo ponto do qual parte Lacan em sua teoria do real traumático: o surrealismo. Se a argumentação de Foster não perde jamais de vista o contexto estadunidense (como o segundo capítulo, sobre o minimalismo, deixa bastante claro), a abertura de um ponto de fuga em Octavio Paz nos permite acrescentar a América Latina na equação (pois toda perspectiva crítica é, também e por definição, faltosa e lacunar). Do contato com os surrealistas, Paz extrai tanto a noção da permanência do arcaico quanto a noção da atividade onírica, instaurando, já de saída, a heterogeneidade de todo gesto artístico: nunca totalmente em seu tempo, nunca totalmente em qualquer outro tempo. Em Paz, contudo, a poética onírica surrealista se mescla à festa indígena e sua potência arcaica, que instaura no tempo presente do cotidiano – cronológico, progressivo e acelerado, como Foster encontra em Andy Warhol ou Cindy Sherman, por exemplo – um tempo suspenso, que valoriza o gasto excessivo, o dispêndio descontrolado, e não a acumulação programática do museu.

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    Andy Warhol, Carro branco em chamas III, 1963. Crédito: The Andy Warhol Foundation for the Visual Arts, Inc./ licenciado por AUTVIS, Brasil, 2013

    Eis, portanto, uma triangulação da apropriação surrealista: Octavio Paz, não apenas em O arco e a lira, Lacan, a partir da repetição e do trauma; e, finalmente, Foster a partir de Lacan, de quem retira a ideia do “olhar não só como algo maléfico, mas também violento, uma força que pode deter, e até matar, se não for desarmada antes”, que resulta não apenas nas “cenas de desastre” de Warhol, mas também no “artifício da abjeção” usado por artistas como John Miller e Mike Kelley.

    Essa é a estratégia inerente ao projeto de Foster, apropriação, ou seja, resgate, retorno e revisão. Todos os sete capítulos são organizados ao redor desse procedimento e é esse procedimento que funciona como fio condutor entre eles, sustentando a ideia principal de Foster – a possibilidade de mapear a arte do século XX a partir de três momentos de intensidade, meados dos anos 1920 (Duchamp e os surrealistas), meados dos anos 1960 (Donald Judd, Pollock e Rauschenberg) e meados dos anos 1990 (Allan Sekula, Lothar Baumgarten, entre outros). É a defesa da apropriação que sustenta o trabalho pioneiro de Foster ainda hoje, possibilitando, paradoxalmente, a emergência da crítica, dos questionamentos e de narrativas alternativas.

    Já está em pré-venda em nossa loja virtual  O complexo arte-arquitetura, segundo título de Hal Foster publicado pela Cosac Naify.

    *Kelvin Falcão Klein é crítico e professor de literatura na Unirio, autor de Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas (Ed. Modelo de Nuvem, 2011). Escreve em falcaoklein.blogspot.com.br

  • Arquitetura em diálogo

    Eu penso que uma das vantagens da entrevista é ter o entrevistado se expressando com mais frequência em primeira pessoa. Diferentemente de outros textos não literários, em que o emprego do “eu” e do “nós” tende a transparecer certo sentimentalismo ou mesmo egocentrismo, na entrevista, a urgência do ato de responder fragiliza os filtros pessoais. Quando estimulado pelo entrevistador, o entrevistado, em sua fala de sujeito determinado, encontra espaço para a exposição direta, não escamoteada, de seus argumentos. Perde-se muito do pudor em se posicionar explicitamente com “Eu…”.

    Arquitetura em diálogo (2015) apresenta dez entrevistas feitas por Alejandro Zaera-Polo para as publicações monográficas da El Croquis. Há de se notar, neste caso, que o termo “diálogo” é mais pertinente que “entrevista”: Zaera-Polo é um participante ativo, que não se restringe a fazer perguntas, mas expõe francamente análises e julgamentos a respeito dos arquitetos com os quais está conversando. Seja para provocar ou corroborar, sempre busca ampliar o conteúdo em discussão. Melhor comprovação não há do que a conversa com a nipônica e monossilábica dupla de arquitetos Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa, na qual o entrevistador se mostra mais eloquente que os entrevistados.

    Metade dos entrevistados recebeu o prêmio Pritzker após a publicação original das entrevistas, o que indica tanto a importância dos arquitetos que estão em Arquitetura em diálogo quanto o valor de seus discursos antes do reconhecimento máximo – isto é, antes de possíveis envaidecimentos e mistificações subsequentes. Coube a Martin Corullon, do escritório paulistano Metro, a organização e a apresentação do livro com diálogos de 1992 a 2000.

    Eram tempos diferentes dos atuais. O muro de Berlim acabara de ser posto abaixo. As expectativas e o otimismo com a União Europeia, que permeiam diversas falas, foram praticamente varridos pela crise de 2008. Enquanto muito se mencionava o Japão pós-milagre econômico, a China mal era citada. O que eram Google, Facebook, Twitter, Instagram, senão nada? Contudo, o que poderia ser visto como datado é exatamente de onde provêm as grandes virtudes do livro.

    Na década de 90, aspectos da globalização transformam de vez a dinâmica dos grandes escritórios de arquitetura, a exemplo das recorrentes encomendas de projetos fora do país sede. Mais do que isso, nos diálogos, os arquitetos apresentam questões verificáveis em edifícios, textos e exposições concluídos ou concebidos posteriormente às entrevistas. O interesse de Rem Koolhaas pela estrutura e instalações prediais desdobra-se no texto “Junkspace” – publicado em O campo ampliado da arquitetura: Antologia teórica 1993-2009 (2013) , de A. Krista Sykes. – e na exibição Fundamentals da Bienal de Veneza de 2014. Rafael Moneo já faz análises acerca de projetos notáveis de seus colegas de profissão, que, reunidas, deram origem a Inquietação teórica e estratégia projetual (2008).

    As dez entrevistas anteciparam, na El Croquis, e introduzem, em Arquitetura em diálogo, um amplo espectro de ideias arquitetônicas.

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    Por esta característica, acredito que o livro deva ser recebido pelos arquitetos brasileiros como provocação e estímulo. Em entrevistas de arquitetos brasileiros que li recentemente, predominam discursos acerca das trajetórias, da operacionalidade dos escritórios, do modo como apresentar melhor seus trabalhos – perspectivas eletrônicas, pranchas de concursos, etc. –, da afirmação da figura do arquiteto na sociedade. O que falta? Reflexão sobre os próprios projetos. Estudos que ponham em dúvida certos cânones e operações naturalizadas no cotidiano da prática. Pesquisas arquitetônicas em si.

    Delas, Arquitetura em diálogo é heterogeneamente repleto. Herzog & de Meuron aproximam-se da arte porque nela encontraram “pessoas [...] mais interessadas em descobrir que em defender algo”. Peter Eisenman discute a interioridade da arquitetura fundamentando-se em filósofos contemporâneos. Koolhaas questiona a compulsão pela “ordem” no ato projetivo de arquitetos como Corbusier, Mies e Kahn. Jean Nouvel defende a arquitetura enquanto produção de um objeto ambíguo e misterioso. Frank Gehry apresenta a cronologia do raciocínio que levou à espetacularização formal do Guggenheim Bilbao, então em construção. Steven Holl analisa o modo como o conceito surge e fundamenta o projeto. Vemos Enric Miralles numa de suas últimas entrevistas e Álvaro Siza se posicionar verbalmente acerca de sua própria obra, como poucas vezes o fez.

    Não é simples sair da rotina operativa do escritório para fazer uma autoanálise e verbalizá-la em debate na esfera pública. Quantos fazem isto no Brasil? Poucos. Pouquíssimos. Arquitetura em Diálogo é um belo incentivo à reflexão.

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    * Francesco Perrotta-Bosch é arquiteto e ensaísta. É autor de “A arquitetura dos intervalos”, vencedor do Prêmio de Ensaísmo da revista Serrote em 2013. Tem artigos publicados nas revistas Bamboo, Monolito, ProjetoDesign e em seu blog acercaacerca.com.br