Por Cosac Naify
Quinta-feira, 29 julho, 2010, às 16:28

Mais de 90 obras inéditas de Keith Haring chegam a São Paulo em mostra organizada pela Caixa Econômica Federal, vinte anos após a morte do artista, em 1990, aos 32 anos. São serigrafias, gravuras e litografias nunca antes apresentadas no Brasil, além da exibição dos documentários The Universe of Keith Haring, de Chistina Clausen, e Drawing the line, com direção de Elisabeth Albert.
Haring, cujo trabalho deu ao grafite o status de arte, visitou o Brasil em diversas ocasiões, a primeira delas para participar da Bienal de São Paulo de 1983. Por onde passou, deixou registrado o seu traço fora de museus e galerias, como nos muros de uma avenida paulistana – desenho que já não existe mais – e na casa de seu amigo e artista Kenny Scharf, em Ilhéus, Bahia.
Keith Haring – Selected Works acontece na Caixa Cultural São Paulo (Galeria Vitrine da Paulista), de 31 de julho e até 5 de setembro. Depois, segue para Caixa Cultural Rio de Janeiro, onde permanece de 28 de setembro a 14 de novembro.
Algumas das obras em exposição estão em Ah, se a gente não precisasse dormir!, que a Cosac Naify acaba de lançar ao lado de O livro da Nina para guardar pequenas coisas, criado pelo artista para Nina Clemente.
Keith Haring – Selected Works
De 31 de julho a 5 de setembro – São Paulo
De 28 de setembro a 14 de novembro – Rio de Janeiro
Caixa Cultural São Paulo – Galeria Vitrine da Paulista (Conjunto Nacional)
Av. Paulista, 2083
Mais informações: (11) 3321 4400
Por Cosac Naify
Terça-feira, 27 julho, 2010, às 12:56

Ensaio da peça Fábulas de La Fontaine, sob direção de Robert Wilson, encenada na Comédie Française, Paris, 2004. Foto: Martine Frank / Magnum Photos
Quem frequentava os teatros nos anos 1970, sobretudo na Europa, podia não saber, mas estava diante de profundas transformações no modo de pensar e apresentar a arte teatral. O que se anunciava era a ruptura com a estética dos padrões midiáticos, além do questionamento dos recursos formais, que enveredavam pela autonomia da cena em relação ao texto. Também cabem nesta implosão as noções dramáticas de representação de mundo e a dinâmica entre imitação e ação. Neste novo cenário, os espectadores eram chacoalhados em várias direções, isso sim era evidente.
Este movimento é chamado de “teatro pós-dramático” pelo crítico e dramaturgo alemão Hans-Thies Lehmann, 65, que está no Brasil a convite do Instituto Goethe de São Paulo para participar do debate “Perspectivas pós-coloniais do teatro contemporâneo”, hoje, às 19h.
Lehmann é professor de Estudos Teatrais da Universidade Johann Wolfgang Goethe, em Frankfurt, e membro da Academia Alemã de Artes Cênicas. Pela Cosac Naify, publicou, em 2007, o livro Teatro pós-dramático (tradução de Pedro Süssekind), no qual oferece um vasto panorama dos processos teatrais dos anos 1970 aos 90, pontuando a utilização de tecnologias audiovisuais e a incorporação de elementos das artes plásticas, música, dança, cinema, vídeo e performance. Teatro pós-dramático é o 11º título da coleção Cinema, Teatro e Modernidade, com coordenação de Ismail Xavier.
Em entrevista a Lucas Neves, para o caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo de hoje, Hans-Thies Lehmann refaz a ligação do teatro com as origens desta arte, uma volta à ideia de encontros e festividade, e situa o texto em relação às novas tecnologias. Leia, abaixo, um trecho da entrevista.
*
Folha – Na introdução ao livro Teatro pós-dramático, o senhor observa que o teatro deixou de ser uma arte de massa. Pode ele ainda hoje ser relevante, impactar a sociedade?
Hans-Thies Lehmann – Sim. Acredito no futuro do teatro como uma prática artística e social. Muitos acham que o seu futuro está em manter a dimensão literária, o classicismo. É assim que poderia reagir à cultura midiática, com sua velocidade e virtualidade. Não acredito que esse seja de fato seu futuro. Quando uso o termo “pós-dramático”, me refiro ao teatro europeu desde os anos 60 e 70, enlaçado em redes midiáticas, que tem de encontrar seu lugar e se afasta da estrutura dramática tradicional.
Mas há uma segunda acepção do termo: estamos regressando a uma ideia muito mais ampla do que seja o teatro, com elementos de ritual, de encontros comunitários, de festividade. É o futuro que deixamos para trás.
Folha – O senhor entende o teatro pós-dramático como resposta à era da imagem, em que novas tecnologias põem fim ao primado do texto. Mas não se pode ver também como concessão, rendição a ela?
Há esse perigo. Sei que a descoberta dessa grande variedade de linguagens cênicas pode desaguar num entretenimento mainstream. Não acredito que um conceito teórico seja o suficiente para produzir bom teatro.
Muitas técnicas e estilos do pós-dramático foram aceitos como expressão autêntica e interessante de nosso tempo. Há mesmo quem tenha assumido o pós-dramático como discurso para fugir dos vícios do teatro dramático das grandes instituições. Mas não há teatro político que não seja visualmente incômodo, atordoante.
Perspectivas pós-coloniais do teatro contemporâneo
com Hans-Thies Lehmann
Instituto Goethe de São Paulo, hoje, às 19h
R. Lisboa, 974, Pinheiros – São Paulo (SP)
Grátis
Por Celso Longo*
Segunda-feira, 26 julho, 2010, às 13:25
Há cerca de quinze anos, quando me deparei pela primeira vez com uma aula de comunicação visual na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, era difícil encontrar livros de referência para o design distribuídos por aqui, ainda mais editados em português. Restavam duas opções: a biblioteca da faculdade (muito boa, diga-se de passagem) e a compra fora do Brasil — com as economias advindas dos kebabs e albergues. Àquela época, cabe lembrar, a Amazon era ainda um embrião. Felizmente, de lá pra cá, a situação mudou. Títulos fundamentais começaram, gradualmente, a chegar às nossas estantes.
É o caso, por exemplo, de três publicações que a Cosac Naify lançou recentemente: História do design gráfico, de Philip Meggs e Alston Purvis; BiblioGráfico, de Jason Godfrey; e Geometria do design, de Kimberly Elam. Para se ter a dimensão da importância desses livros, basta dizer que eles seriam suficientes para elaborar um roteiro sintético de estudo, dentro dos amplos domínios do design gráfico.
A consagrada bíblia de Meggs é, nessa tríade, nosso ponto de apoio central. Nela, a história do design é desvelada — com fatos consistentes e cerca 1.300 imagens — desde a invenção da escrita (a “contrapartida visual da fala”, nas palavras do autor) até o pós-modernismo e a revolução digital. Um trabalho hercúleo de documentação que transcende o período da Revolução Industrial ao Modernismo, normalmente abordado pelos autores que se aventuram pela historiografia do design. Desse modo, podemos compreender, por exemplo, como Johann Gutenberg foi de fato um visionário para a criação do mundo moderno, na mesma medida em que Johann Fust, seu credor, transformou-se numa suposta inspiração para o lendário Dr. Fausto — mágico alemão que vendeu sua alma ao diabo em troca de conhecimento e poder.
Já BiblioGráfico, como sugere o nome, é uma poderosa taxonomia de publicações essenciais ao design gráfico — “um livro sobre vivenciar livros”. Um livro formado por cem livros clássicos, divididos em seções fundamentais a qualquer necessidade de busca de um designer ou estúdio: tipografia; didáticos; monografias; etc. Nele encontramos, por exemplo, desde Die Neue Typographie, de Jan Tschichold, até Make it Bigger, de Paula Scher. Bibliográfico funciona como um oráculo. Algo semelhante a teclar a letra “S” na agenda eletrônica do celular e aparecer o nome e o número de Steven Heller e, independente da hora ou ocasião, poder apertar “call” e perguntar, sem delonga:
— Alô! Qual livro você indicaria para uma abordagem fundamentada sobre a interação entre palavras e edifícios, design gráfico e arquitetura, tipografia e cidade?
E, em poucos segundos, obter a resposta:
— Ah… Jock Kinneir, Words and buildings!
Simplesmente, fantástico. E, caso você não busque nada em especial, os cem livros selecionados são, no mínimo, uma fonte salutar de inspiração para qualquer pessoa minimamente sensível ao poder do design editorial de excelência.
O terceiro livro do roteiro, o recente Geometria do design, foca suas forças no desenho — substrato para qualquer ato projetual consciente. Apresenta e discute a geometria subjacente às estruturas visuais de ícones do design (gráfico e de produtos industrializados). O livro pode ser dividido em dois grandes blocos: o primeiro, mais teórico, traz ao alcance do leitor o universo matemático das proporções. O segundo aplica esses axiomas geométricos a diversos exemplos consagrados, como a cadeira Barcelona, de Mies van der Rohe, ou o cartaz Beethoven, de Josef Müller-Brockmann — em engenhosas sobreposições de diagramas construtivos impressos em papel vegetal sobre imagens fotográficas impressas em papel couché.
Se a linguagem é a somatória da semântica, da pragmática e da sintaxe, nosso breve roteiro para designers gráficos e interessados em cultura visual completa seu ciclo com esses três títulos selecionados. Ao livro de Meggs e Purvis cabe a tarefa de mostrar as origens e significados do design gráfico; Godfrey aponta em seu mapa onde estão os tesouros; e, finalmente, a educadora e designer Kimberly Elam apresenta-nos os princípios visuais da composição geométrica.
Prato cheio para o novo semestre que se inicia.
*Celso Longo é arquiteto. Trabalha com design gráfico em seu próprio estúdio, o Imageria, e dá aulas no curso de design da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo [ESPM]
Por Cosac Naify
Sexta-feira, 23 julho, 2010, às 13:03

Após mais de dois anos fechada para reforma e restauro, a Biblioteca Mário de Andrade reabre as portas de sua Coleção Circulante, disponível para consultas e empréstimos de obras de diversas áreas. São mais de 42 mil títulos, sobretudo de literatura e ciências humanas, que voltam a estar disponíveis aos leitores.
O local apresenta novas instalações, como a ampliação do espaço para pesquisa local, onde antes funcionava a sala de leitura da Biblioteca.
O catálogo da Circulante pode ser acessadopelo site e também por meio de terminais de consulta distribuídos pelas salas.
A Biblioteca Mário de Andrade foi criada em 1944, um ano antes da morte do escritor a quem presta homenagem. Autor de muitas das obras mais importantes do Modernismo brasileiro, o criador de Macunaíma foi retratado diversas vezes pelo fotógrafo B. J. Duarte, que trabalhou como chefe da Seção de Iconografia da prefeitura de São Paulo, a convite de Mário, então diretor do Departamento de Cultura do município. Entre os flagrantes, vemos o escritor no Parque Infantil Dom Pedro II, rodeado de crianças – queria que os livros chegassem a elas – e uma foto de uma das bibliotecas circulantes (em formato literalmente circulante) criadas durante a sua gestão, em 1937. As imagens fazem parte do livro B. J. Duarte: caçador de imagens.

Biblioteca Mário de Andrade
Rua da Consolação, 1024, Centro – São Paulo
Segunda a sexta, das 8h30 às 20h30 | Sábados, das 10h às 17h
Por Cosac Naify
Quinta-feira, 22 julho, 2010, às 16:52

Teatro Globe, Londres. Foto: Peter Marlow | Magnum Photos
Numa abordagem original da arte teatral, Williams traça um panorama histórico das relações entre o texto e aspectos que vão desde a arquitetura dos teatros até os cenários, a música e a movimentação dos atores.
A seguir, Ismail Xavier responde a três questões sobre o tema e o livro. As respostas à entrevista foram parcialmente publicadas no último domingo, no caderno Ilustríssima da Folha de S. Paulo [18/7/2010]. Abaixo, a versão na íntegra.
*
Qual é a importância de Raymond Williams para os estudos sobre teatro?
Dentro de sua reflexão sobre a cultura, com ênfase para a teoria literária, ele desde cedo incluiu o teatro em seu percurso como professor e ensaísta. Drama em cena (1954) é resultado de cursos que ministrava na Associação Nacional Trabalhadores e no Departamento de Extensão Universitária da Universidade Oxford; neste momento já havia escrito um livro sobre literatura dramática e percebeu que era urgente discutir o problema da encenação, da relação entre texto e espetáculo. Seus estudos sobre teatro e literatura dramática incluem Drama from Ibsen to Brecht (1968) e o notável Tragédia moderna (Cosac Naify, 2002), em que de certa forma responde a outro clássico, A morte da tragédia (Perspectiva, 2006), de George Steiner, na reflexão sobre o trágico na modernidade. São livros que, de distintos pontos de vista, dialogam com a obra de Peter Szondi, autor de Teoria do drama burguês (Cosac Naify, 2004) e Teoria do drama moderno (CosacNaify, 2001), contribuições decisivas na composição de um quadro de referência para se pensar o teatro contemporâneo, o cinema e a tele-ficção.
Como as relações entre texto e encenação desde a Grécia antiga ajudaram a transformar o teatro e sua dramaturgia?
Este é exatamente o tema de Drama em cena, que já nos anos 1950 responde a uma inquietação presente na cultura teatral desde que figuras como Antonin Artaud e outros haviam questionado a primazia do texto e marcado o espetáculo em cena como o momento essencial do teatro. Williams opta pelo retrospecto para ampliar o horizonte de uma questão que veio ao centro em função dos debates do século XX, momento de afirmação da figura do encenador como autor. Ele focaliza a relação entre texto e performance para evidenciar a sua historicidade, mobilizando um amplo repertório para destacar a arquitetura dos teatros, o espaço da cena, a composição das máscaras, gestos e falas e a montagem efetiva do espetáculo em distintos momentos da história. Sua intenção é marcar as formas pelas quais a ação no palco está longe de ser a pura transcrição de um texto e também mostrar que, a cada época, a concepção que se tem do espaço cênico e da sua relação com o público influencia a forma como se escreve. Há, enfim, pontos de inflexão que ele analisa, como o caso da relação entre o roteiro da encenação de A gaivota por Stanislavski e o texto de Tchekhov.
Por que Raymond Williams incluiu um capítulo sobre o filme Morangos silvestres (1957), de Bergman, num livro cujo tema é a encenação no teatro?
Este capítulo foi incluído na edição de 1968 porque Williams observou com clareza que as questões implicadas na passagem do texto ao filme são semelhantes às enfrentadas no teatro. No caso de Morangos silvestres, havia o roteiro publicado e também o comentário do próprio Bergman, o que permitiu a análise.
Este capítulo é um bom exemplo do que me interessa na coleção Cinema, Teatro e Modernidade: discutir aspectos da cultura moderna e contemporânea que envolvem esta articulação entre as estruturas dramáticas e a crescente valorização da cena e da experiência do olhar, não só como algo acoplado às novas tecnologias da imagem-som (cinema, TV, Internet), mas também ao novo estatuto da performance e do “tornar visível” no palco, nas vídeo-instalações e na vida cotidiana.
Por Cosac Naify
Segunda-feira, 19 julho, 2010, às 15:42

La muerte pensando en Frida, de Pablo Ortiz Monasterio
Por Pablo Ortiz Monasterio*
A julgar pela quantidade de vezes que Frida Kahlo foi fotografada, é possível dizer que sua relação com os fotógrafos era estupenda. A fotografia foi um elemento fundamental em sua vida, em especial em seus anos de formação: familiarizada com a câmera desde menina, é evidente que se sentia à vontade diante dela. Frida aprendeu a transmitir o que desejava, era uma modelo nata e por isso conseguiu construir uma imagem de si mesma de uma forma tão elaborada, assim como fez em sua obra pictórica. Por tudo isso, não é exagero considerar o conjunto de retratos fotográficos de Frida como outra de suas obras-mestras. A consciência do poder da própria imagem se fortaleceu sobretudo a partir do fatídico acidente que sofreu em 1925 e que marcou seu corpo para sempre: “Sabia que o campo de batalha do sofrimento se refletia em meus olhos. Desde então, comecei a olhar diretamente para a lente, sem piscar, sem sorrir, decidida a mostrar que seria uma boa lutadora até o final”.
No acervo reunido em Frida: suas fotos, boa parte das imagens foi feita por seu pai, Guillermo Kahlo, fotógrafo profissional. Ele se autorretratou sistematicamente em imagens que guardam uma estranha e poderosa relação com praticamente toda a obra de Frida, que utilizou seu próprio rosto como referente para expressar a dor, a paixão, o amor, a justiça e tantas outras coisas que os críticos apontam em seus quadros.
Também foram encontradas no baú da artista outras relíquias, como a foto do gato preto com o pelo eriçado que ela usou em Autorretrato con collar de espinas y colibri, de 1940, e o famoso flagrante do motociclista atravessando um pântano, duas imagens emblemáticas do húngaro Martín Munkacsi.
Frida Kahlo e Diego Rivera foram profusamente fotografados por grandes autores. Além de Munkacsi, entre eles estavam Nickolas Murray, Manuel Álvarez Bravo, Fritz Henle, Gisèle Freund, Edward Weston, Lola Álvarez Bravo, Pierre Verger e Juan Guzmán.
Paradoxalmente, na rica coleção que dá origem ao livro não há tantos retratos feitos por estes nomes. Supomos que Frida enviava suas fotos aos amigos, como um presente. É o que imaginamos que aconteceu, por exemplo, com seu formidável retrato ao lado de Diego, feito por Munkacsi para a Life Magazine.
Sobre Nickolas Murray, os rumores diziam que eram namorados, que se amavam muito. Suas fotos de Frida são excepcionais, sobretudo as coloridas. No livro, temos muitas instantâneas que ele fez da pintora no hospital e na cama, quando ela se recuperava das muitas cirurgias pelas quais passou. Essas imagens permitem imaginar a intimidade, inclusive amorosa, entre ambos.
*O mexicano Pablo Ortiz Monasterio é fotógrafo e organizador
do livro Frida Kahlo: suas fotos
Por Aline Valli*
Quinta-feira, 15 julho, 2010, às 16:30
Ao visitar uma livraria é fácil perceber como as publicações de livros voltados para o público adulto se apresentam sob padrões não muito variados. Poucas fogem aos formatos facilmente reconhecidos, que incluem, por exemplo, o “ótimo aproveitamento de papel”, o uso de miolos em papéis off-white ou amarelos, capas brochura, impressão em preto e branco.
Claro, muitas vezes o custo de produção de algo mais elaborado é o grande inimigo de projetos diferenciados e a opção pela padronização acaba sendo o único caminho viável.
No setor dos livros infantojuvenis, para a sorte das crianças, a realidade não é a mesma: há uma grande multiplicidade de recursos interessantes, como pop-ups, facas especiais, substratos diferenciados, acabamentos mais elaborados e cores, muitas cores.
Mas também há espaço para ousadia na categoria “adultos”, e muitas editoras, com o objetivo de seduzir os leitores, apostam em projetos gráficos inovadores, procurando criar recursos gráficos surpreendentes que dialogam com o texto, aumentam o valor percebido do produto e os deixam irresistíveis.
Ousar na produção gráfica não torna necessariamente o projeto do livro mais caro e os recursos gráficos aplicados não exigem, em todos os casos, grandes requintes técnicos por parte das gráficas. O segredo está em fazer uso dos recursos existentes de uma forma nada convencional.
Na Cosac Naify, um dos exemplos mais felizes é Flores, do mexicano Mario Bellatin. Formada por narrativas curtas, a obra tem entre os personagens centrais um cientista que descobre um fármaco causador de deformações físicas. As características literárias foram transferidas para o projeto gráfico: o livro não tem capa – por isso a espinha onde os cadernos são costurados fica aparente – e vem dentro de um saco plástico, como se fosse um teste de laboratório. O que seria a orelha do livro foi encartada neste recipiente, solta, como se estivesse mutilada. Suas páginas foram impressas com duas cores: o texto em preto e um pantone verde claro, que lembra o ambiente hospitalar.

Zazie no metrô é outro caso em que o projeto mimetiza graficamente as peculiaridades do texto. No romance, Raymond Queneau narra as andanças da desbocada Zazie pela Paris dos anos 50. O sonho da menina é andar de metrô, mas justamente no dia em que ela está prestes a realizá-lo, uma greve do transporte a impede de fazer o passeio subterrâneo. O projeto de design e a produção gráfica utilizam páginas duplas, cujo meio traz reproduções de cartazes franceses da época, impressos a partir do sistema chamado Íris, que aqui mesclou as cores azul e vermelha na mesma unidade de impressão. A proposta é causar um efeito de representação de fragmentos urbanos, criando assim, de forma quase literal, um pano de fundo para a narrativa. O miolo, ou seja, a parte interna do livro, leva papel bíblia, o que faz com que os cartazes sejam levemente vistos através da transparência do papel.


Já Bartleby, o escrivão, de Herman Melville, traz para o seu projeto gráfico toda a negatividade do personagem central, um copista que trabalha num escritório em Wall Street e que responde “acho melhor não” para todos os pedidos de seu patrão. Utilizamos a costura tipo Singer, tanto na encadernação das páginas quanto na abertura do livro. Portanto, antes de encarar o texto, o primeiro desafio do leitor é descosturá-lo para chegar ao seu interior. Ao se deparar com o miolo, o leitor encontra páginas duplas, onde estão impressas imagens de um muro de concreto que atravessam o volume do início ao fim. O segundo desafio é rasgar todas as páginas com uma régua de plástico que acompanha a edição, para finalmente se chegar ao enredo. Para facilitar a abertura, o livro foi impresso em papel de baixa gramatura (offset 56 g/m2) e na capa, impressa em serigrafia, foi utilizado um material do tipo junta mecânica, usado na vedação de motores de carros.


Estes projetos são alguns exemplos que ilustram a fuga da padronização e nos fazem um convite para buscarmos inovações de forma criativa – e sem nos perdermos em meio a altos orçamentos.
*Aline Valli é produtora gráfica da Cosac Naify
Por Cosac Naify
Quarta-feira, 14 julho, 2010, às 19:22
Inspirado pela vista de sua própria casa, localizada na Gendarmenmarkt, uma das principais praças de Berlim, o escritor alemão E. T. A. Hoffmann (1776-1822) analisou as pessoas, hábitos e costumes de um mundo em mudança: a Europa do início do século XIX.
Enquanto as cidades cresciam e a urbanização florescia, Hoffmann lançava um olhar perspicaz a esse universo, exemplarmente apresentado em A janela de esquina do meu primo. Com esse conto, Hoffmann aproximou-se da literatura realista e inseriu “o indivíduo no turbilhão da cidade moderna”, como definiu o comentarista Carlos Eduardo Ortolan no programa Entrelinhas, da TV Cultura, que você assiste a seguir:
Por Cosac Naify
Domingo, 11 julho, 2010, às 08:00
“Ah, se a gente não precisasse dormir! [...] Tudo é divertido, tudo faz parte do jogo”, exclamou o artista pop norte-americano Keith Haring (1958-90), pouco antes de morrer, quando indagado pela revista Rolling Stone sobre se não se aborrecia com as coisas triviais da vida.
A explosão de sprays, pincéis e traços do artista não poderiam sugerir resposta diferente. Keith Haring adorava viver – e seu grafite era a expressão máxima disso. “Em menos de dez anos, de 1980 a 1989, ele ajudou a dobrar a língua daqueles que achavam que grafite não era arte. E fez isso apenas por meio de seu trabalho e de seus inconfundíveis personagens dançantes”, avalia o jornalista Mario Cesar Carvalho na reportagem exclusiva produzida para a edição brasileira de Ah, se a gente não precisasse dormir!, lançamento deste mês.
A dupla de grafiteiros Osgemeos, Gustavo e Otávio Pandolfo, reafirma a importância de Haring, no texto de quarta capa do livro: “Keith Haring foi sem dúvida um dos artistas da arte pop mais consagrados internacionalmente. Com seu trabalho, atravessou barreiras, superou várias dificuldades e conquistou o mundo. Uma arte alegre, questionadora e divertida, com traços fortes e linguagem direta, que somou muito para a cena do grafite em Nova York nos anos 1980.”
A cena urbana paulistana não passaria incólume à energia de Haring. Na mesma década, ele veio ao Brasil e marcou os profissionais do spray que com ele conviveram. Recorda o grafiteiro Rui Amaral: “Naquela época, quase ninguém fazia grafite à mão livre. Fui um dos primeiros. Vi Haring grafitando como se estivesse dançando e aquilo mexeu comigo. Demorou para que o grafite ganhasse terreno aqui”.
“Minha obra começou na pintura e agora está na arte pública. Hoje tenho plena consciência de que o que faço tem uma relação com o grafite, com a arte de rua, com aquela emoção de fazer nas ruas o que não era permitido”, diz a artista Fabiana de Barros.
Embora tenha alçado o grafite ao estatuto de arte urbana, o feito de Haring não evitou que um painel de sua autoria, pintado num muro próximo à avenida Paulo VI (continuação da avenida Sumaré, na capital paulista), realizado em 1983 – ano em que participou da Bienal de Arte de São Paulo –, tenha sido apagado. Osgemeos conhecem bem a sensação: desenhos da dupla também desapareceram de um imenso muro que margeia a avenida 23 de Maio.

A rara imagem do painel está no livro Ah! Se a gente não precisasse dormir!
Foto de Paulo Labriola
Por Cosac Naify
Quinta-feira, 8 julho, 2010, às 18:56
Por Ronaldo Fraga*
Conheci o México na passagem do verão de 2009 para 2010. Antes de viajar, as pessoas me diziam que, fatalmente, após visitar o país, eu iria querer criar algo sobre a Frida Kahlo. Mas eu não apostava nisso. Afinal, a pintora sempre foi inspiração para a moda, isso não era novidade. Mas quando me vi nos locais onde ela viveu, como a Casa Azul, ou por onde ela passou, como a residência da amiga Dolores Olmedo, fiquei altamente impactado por sua presença. Frida foi uma personagem de muita força, e até hoje não surgiu uma figura feminina que se equipare a ela. Acredito que isso nunca vai acontecer. Ela se transformou num ícone mundial não apenas por sua obra, mas também por sua biografia, sua personalidade e pelas características da época em que viveu.
Ir ao México é como visitar uma Disneylândia latinoamericana. Digo isso porque há, no país, uma enorme presença da cultura norte-americana, exercendo uma forte pressão sobre os costumes e as tradições mexicanas. Daí surgiu a ideia da coleção Disneylândia, que une Frida e as personagens Minnie e Mickey Mouse. Meu afeto pela América Latina me levou a querer manifestar as contradições do continente, e é impossível falar sobre isso sem considerar estes dois símbolos.
Para criar as peças de roupas, explorei principalmente as cores e os bordados dos trajes da Frida – reparem como ela dá ao bordado uma atemporalidade incrível. E agora descubro, pelo livro Frida: suas fotos, que a origem de seu gosto por este tipo de vestimenta vem, em grande parte, de sua mãe, que tinha raízes indígenas. Ao assumir esta herança legítima, Frida nos mostra como nós, latinoamericanos, podemos ser sofisticados, vibrantes e exuberantes, características que são genuínas. Por tudo isso, é impossível falar de estilo sem falar de Frida Kahlo.
*Ronaldo Fraga é desenhista e estilista. Já homenageou a bailarina Pina Bausch e a cantora Nara Leão, entre outros personagens, em suas coleções. Parte de suas criações está reunida no livro Ronaldo Fraga, da Coleção Moda Brasileira I (Cosac Naify, 2007)