• 50 é pouco

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    Sou suspeito, pois gosto muito, mas continua sendo difícil pensar uma banda de rock melhor que os Rolling Stones. Formada há exatos 50 anos, em 1962, pelos amigos Mick, Keith e Brian Jones, era basicamente uma banda de covers, jovens brancos ingleses tentando imitar negros americanos. O primeiro show foi no Marquee, em Londres, alguns ensaios depois. Tocavam músicas de Chuck Berry e Bo Diddley, entre outros. Bill Wyman e Charlie Watts ainda não faziam parte do grupo, mas logo entrariam para o time lendário. À parte alguns momentos constrangedores nos anos 90 e 00, nunca deixaram as pedras criarem limo, como proclamavam no nome, tirado de uma música do ídolo Muddy Waters. Continuaram e continuam rolando, mesmo com todas as brigas, drogas e o peso da idade.

    Tudo já foi dito sobre eles, por outros e eles mesmos (como no livro According to the Rolling Stones). Foram fotografados em todas as situações, das mais glamourosas às mais patéticas. A expressão sexo, drogas e rock’n roll surge por causa deles (se não é verdade, é ben trovatto). A boca de Jagger virou a logomarca mais conhecida do mundo e a postura de Keith um símbolo do cool largado, autêntico (mas não a ponto de deixar de ficar bilionário). Watts, o caladão, tornou-se um inesperado ícone da elegância, com seu jeito jazzy de tocar. Enfim, o que mais dizer? Tornaram-se arquétipos, a essência do rock e de uma certa forma de ver a vida. E isso é para poucos.

    E já que este post é pessoal, resolvi eleger meus discos favoritos dos Stones e os pontos altos de cada um. Vamos lá:

    1. Black and Blue (1976)
    Uma das capas mais legais da história, com a cara dos cinco na frente, narizes e beiços e olhos caídos, num misto de decadência, malandragem e puro hedonismo (com direção de arte da brasileira Bea Feitler) . Marca a entrada de Ron Wood na guitarra. É só uma escolha idiossincrática, mas eu gosto.

    Pontos altos: Memory Motel, Hot Stuff e Melody (sem contar a bela cover de Cherry Oh Baby)

    2. Sticky Fingers (1971)
    Outra capa incrível, feita por Andy Warhol, em que uma calça jeans mostra um volume “animado” (do ator Joe Dalessandro) e traz um zíper de verdade.
    É o disco que tem as melhores tramas de guitarras já gravadas pela banda, a cargo de Keith e Mick Taylor, o substituto do finado dandi Brian Jones.

    Pontos altos: Wild Horses, Sister Morphine e Brow Sugar

    3. Beggars Banquet (1968)
    É a volta às raízes do blues depois de uma passagem rápida pela psicodelia.

    Pontos altos: Simpathy for the Devil (talvez a melhor do grupo), No expectations e Street Fighting Man

    4. Let it Bleed (1969)
    Último disco com Brian Jones, marca o fim do período mais sombrio da banda, numa época ditada pela Guerra do Vietnã. É também quando Keith assume o comando.

    Pontos altos: Gimme Shelter (outra possível melhor), a cover de Love in Vain e You Can’t always get what you want

    5. Some Girls (1978) e Exile on Main Street (1972) empatados
    Bom, entre 29 álbuns de estudio, fica difícil não dar um empate. Some Girls, ao lado de Tatto You (de 1981, com Start me up e Waiting on a friend) são os discos que tornaram os Stones uma banda de gigantescos shows em estádios e a mais tocada nas festas. Já o Exile, apesar de as críticas iniciais terem sido bem ruins, foi se tornando o disco favorito nas listas de melhores das revistas especializadas. Gravado no porão da mansão francesa de Keith, em uma série caótica de sessões, traz no entanto, uma coesão que parecia impossível. Coisa de gênio e de quem é abençoado por deus e o diabo.

    Pontos altos:  do Some Girls – Miss You e Beast of Burden; do Exile – Sweet Virginia, Rocks off e Happy

    Por fim, meu clipe favorito: gravado em super 8 por um mestre da fotografia, Robert Frank:
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  • Fantasias de Vitório

    Um simpático porquinho de nariz rosado levanta voo vestido de super-herói mascarado, em meio a uma chuva de confetes coloridos. Assim a estreante Veridiana Scarpelli nos apresenta o personagem rechonchudo, que causa empatia ao primeiro olhar. Adulto ou criança, não há quem resista ao carisma de Vitório – e à sua incrível capacidade de sonhar.

    Este é um livro para abrir sem ruídos: Shhhhh… O Vitório está dormindo! Mas, de repente, a aventura começa. O “zzzzzz” do sono profundo dá lugar ao “qua qua” dos patinhos, que aterrissam com seus guarda-chuvas, convidando Vitório a mergulhar numa poça d’água… Tchibum! Lá está ele no fundo do mar, rodeado de águas vivas. Se a imaginação permite, um buraco é a passagem para uma animada festa da bicharada – e por que não um porco usar uma fantasia de coelho, ratos se vestirem de abelhas e um jacaré colocar sua roupa de lhama? No silencioso livro-imagem, o leitor pode ouvir a agitação dos animais.

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    Concebido para despertar a curiosidade do leitor – que se contagia com o desejo de Vitório de experimentar –, a leitura é cadenciada e encadeada. Cada cena começa como uma pista da façanha que está por vir e se revela apenas ao virar da página, onde, então, tem início uma nova peripécia do porquinho. Ao final, a ilustração levanta a dúvida: teria sido tudo sonho ou realidade?

    O personagem é tão apaixonante que gostaríamos de poder dar vida a ele. Pensando nisso, preparamos este booktrailer com algumas das passagens oníricas do livro. Que tal embarcar na imaginação de Vitório e sonhar um pouco acordado?

  • Naturezas mortas

    O autor atravessa o tablado do auditório. Da prótese de gancho que recorda uma flor-de-lis pende a coleira. Na outra ponta um greyhound, talvez um whippet. O cachorro discreto gera murmúrios entre o público do higienizado campus da Cornell. Na mão esquerda, um gravador caixa-de-sapatos se confunde com a bata negra que chega aos pés do escritor.

    Todo o conjunto – a bata em contraste com a garra prateada, o trote elegante do cão, a expressão seráfica ou aborrecida do autor – forma uma curiosa harmonia de mosaico. Sentado, Mario Bellatin ouve em silêncio a apresentação. Só então liga o gravador. Enquanto o aparelho transmite a palestra (cujo conteúdo desconheço) o escritor afaga a cabeça do cão, evitando que este seja excitado por ruídos que o público não é capaz de perceber. Após apertar a tecla stop a inevitável pergunta: questões? Pronunciada por seus lábios, a palavra gera nos assistentes uma pequena dúvida: a voz da gravação e a que agora se ouve são a mesma?


    Esta não é apenas a narrativa semi-imaginária de uma palestra a que não assisti. É também o esboço de uma poética, cujos elementos Cães Heróis, recente lançamento da Cosac Naify, tanto sugere quanto desdobra.

    A disjunção entre voz e presença é um aspecto a tal ponto recorrente na literatura contemporânea que cabe perguntar pelo que há de específico deste procedimento nas novelas de Mario Bellatin. Não tardaremos a reconhecer (e desconhecer) o autor no treinador de Cães Heróis e no escritor protético de Flores, obra também publicada pela editora.

    Mas: a qual modalidade corresponde a luz fria desta presença ausente? Em certo ponto de Cães Heróis o protagonista, homem imóvel que mantém sob o controle de seus assovios trinta Pastores Belgas Malinois, é descrito como um proeminente etólogo-prático. Bellatin pode ser descrito como um etólogo-narrador que percorre o jardim das espécies e por vezes contempla, com humor e curiosidade indiferente, cães, doentes, peixes, deformados, cientistas, místicos, transexuais. Descreve seus hábitos e constata seus périplos, o jogo que tecem seus corpos e paixões, sua sorte, sem emitir julgamentos.

    No entanto, talvez um dia a ciência seja iluminada entre os giros de dança do shiker. Quem sabe o salão de beleza convertido em morredouro reassuma seu antigo esplendor e o homem imóvel reencontre, às seis da tarde, a criança que escreveu um livro sobre cães heróis. Uma natureza morta na língua inglesa (e todos os personagens de Bellatin, nestas e em outras obras, são naturezas mortas) é nomeada como still life. Vida, ainda. A rarefação narrativa própria destes livros como que sustenta o nume destes personagens que parecem a todo tempo se manter em um estado de semivida. Esperança, fastio que Bellatin compartilha conosco enquanto, de olhos fechados, acaricia a fronte do cão que silenciosamente se mantém sob seus pés.

    *Um dos dez vencedores do concurso Dez Mil FãsGuaracy Bolivar Araújo Mendes Júnior é doutorando e Professor de Filosofia (PUC/MG), gestor e produtor cultural; mora em Belo Horizonte (MG)

  • A importância da poda para o florescimento literário

    Com seu celebrado romance de estreia, Alejandro Zambra colocou em prática as lições aprendidas de Ezra Pound relativas à importância da poda para o florescimento literário. No sentido da exatidão, Bonsai é, além de uma novela escrita com a tesoura sintética de um poeta, uma planta sintática podada por um bom jardineiro. É também uma história protagonizada por dois estudantes de poesia, pois Julio e Emilia — mesmo que não o saiba — não são outra coisa senão poetas.

    Alejandro Zambra

    Desde o momento em que se conhecem, ambos se mostram impostores. O seu sintoma mais grave: disfarçam-se sob personas roubadas aos livros que lêem juntos. E o mais frívolo, que poderia ser o romantismo, porém não é, mas a volatilidade da paixão com que se envolvem, e o quanto são volúveis nos relacionamentos anteriores. Na primeira noite em que dormem juntos na casa das irmãs Vergara (pretendiam estudar Sintaxe Espanhola), por exemplo, Julio afirma ter lido Proust; Emilia não fica atrás, e lhe diz o mesmo — tudo mentira. Ou seriam omissões?

    Espécie de ciranda de ocultamentos que parodia o mecanismo amoroso da juventude no seu jogo típico de entrega e devolução, a narrativa segue atrás e adiante, mostrando a pré-história romântica e sexual do casal.

    Julio é subreptício, talvez ambíguo (“convencido e depressivo”, na opinião de Anita, a melhor amiga de Emilia). Já o primeiro namorado de Emilia permaneceu com quinze anos, enquanto ela completava dezesseis, dezessete, dezoito e assim por diante. Depois, ela também estacionou: “pois Emilia não continuou fazendo anos depois dos trinta, e não porque a partir de então tivesse decidido ir diminuindo a idade, mas porque poucos dias depois de completar trinta anos Emilia morreu, e então não fez mais aniversário porque começou a estar morta”.

    Quando Julio e Emilia se envolvem, iniciam um jogo de aparências baseado na literatura. Não apenas se amam e vivem entre lençóis encardidos (que recendem a pisco sour), mas lêem juntos na cama que se torna uma espécie de palco ou barco encalhado onde encenam livros de Marcel Schwob e Yukio Mishima e Georges Perec e Juan Carlos Onetti e poetas e mais poetas. Até chegarem a “Tantalia”, um conto de Macedonio Fernández no qual um casal circunscreve a permanência de seu amor à sobrevivência de uma plantinha, para então fatalmente descobrir que o sentimento terá a mesma duração do símbolo: morte da planta, morte do amor. Após a leitura, instala-se certo peso e estranhamento: a ficção contamina a realidade.

    No início do livro Julio está vivo, mas Emilia já morreu. No final, Julio continua vivo, mas antes de continuar vivo conhece o escritor Gazmuri, que tenta contratá-lo para que digite sua mais recente obra. Emilia, assim que o relacionamento termina, viaja para Madri, de onde não vai sair. Nunca mais.

    Esta é, porém, uma história triste que nunca resvala no sentimentalismo. Aqui não se chora, todavia não se ri. Gazmuri não contrata Julio, mas lhe conta o enredo de seu livro: “ele fica sabendo que uma namorada de sua juventude morreu. Como faz todas as manhãs, liga o rádio e ouve no obituário o nome da mulher. Dois nomes e dois sobrenomes. Tudo começa assim.” Mas tudo o quê? É o que Julio quer saber, e para isto escreve a história de Gazmuri cujo final não conhece, e que bem poderia ser (provavelmente é), Bonsai, o livro que ora estamos lendo. O jogo paródico iniciado nas leituras do casal continua, se duplicando em “Tantalia”, de Macedonio, e triplicando no relato de Gazmuri, culminando em mais impostura e solidão.

    O segredo desse “tudo” talvez estivesse antes disso, entretanto, um pouco antes do final, quando Julio e Emilia ainda tentavam prolongar sua paixão por meio da leitura de Proust e fracassaram na página 373: “o livro, desde então, ficou aberto”. Um tipo de madeleine frondosa, Bonsai corresponde à imagem, pois é um livro que nunca se termina de ler e enriquece na lembrança.

    *Joca Reiners Terron é escritor, autor de Curva de rio sujoDo fundo do poço se vê a lua, Não há nada lá, entre outros.

    PS: Leia também o texto de orelha de Bonsai, escrito por Emilio Fraia, editor do livro.

  • O beijo na arte e a arte do beijo

    O beijo roubado, de Jean-Honoré Fragonard (1788) ©Hermitage São Petersburgo - Rússia, The Bridgeman Art Library International

    O beijo, esse gesto espontâneo, mais e menos censurado ao longo da história, foi capaz de inspirar, em todos os tempos, o trabalho de grandes nomes das artes plásticas, que amplificam seus possíveis significados a cada representação. Dessa percepção nasceu Beijo de artista, novo título da coleção Mundo de Artista, da crítica e historiadora da arte Katia Canton. O livro apresenta e contextualiza – historica, social e artisticamente – os beijos pintados, como os de Marc Chagall, Gustav Klimt e Jean-Honoré Fragonard; esculpidos, como os de Rubens Gerchman e Brancusi; fotografados, como os de Henri Cartier-Bresson e Nan Goldin; além de catalogar retratos de beijos feitos em suportes menos convencionais, como grafite, colagem e instalações.

    Quando pensamos que o tema pode ter sido esgotado, a criatividade e a sensibilidade de um novo artista nos surpreende. A norte-americana Natalie Irish, de 30 anos, foi além ao associar beijo e arte e desenvolveu a técnica de pintar telas com os lábios. Este é seu Autorretrato (2011):


    No site da artista, há vídeos em que é possível entender como ela prepara a tela e a pinta com a boca. Em seu livro, Katia Canton propõe diversas atividades para os leitores exercerem seu lado criativo também; entre elas, a de experimentar a técnica de Natalie, seja com batom ou tinta atóxica. A própria autora de Beijo de artista se aventurou em fazer um “retrato beijado” e o resultado é este que vemos aqui à esquerda. Segundo ela, a tentativa mostra que o que Natalie faz não é nada fácil, mas pode ser bastante divertido!

  • Da capacidade de motivar as pessoas para o afeto


    O português Valter Hugo Mãe esteve no Brasil no início de maio para participar do projeto Navegar é preciso e lançar seu mais novo romance, O filho de mil homens, em algumas cidades do país. Em sua passagem por São Paulo, no dia 7, o escritor conversou por mais de uma hora com seus leitores, que lotaram a Livraria da Vila, em um papo intermediado por Daniel Benevides.

    Para quem não pode estar presente, ou para os que queiram rever, compartilhamos, no video abaixo, o registro de um trecho da fala de Valter Hugo, em que ele conta um pouco da experiência de escrever O filho de mil homens, como nasceu o protagonista Crisóstomo –  “a pessoa que eu queria ser” –, e revela algumas relações entre a ficção e sua própria vida.

  • A política da sensibilidade

    O próximo encontro do Clube de Prosa Cosac Naify tem como tema o romance História do pranto, de Alan Pauls, primeiro volume de uma trilogia completada por História do cabelo e pelo ainda por vir História do dinheiro.

    Se fosse possível resumir o livro que guiará nosso papo, poderia se dizer que é a história de um garoto excepcionalmente sensível, membro de uma família desajustada – a mãe passa os dias sob efeito de soníferos e outras pílulas e é praticamente inacessível; o pai foi embora de casa, o que reduz a relação entre os dois aos finais de semana; a avó, resignada com o marido truculento, pouco ou nada conversa; e o avô delira no seu desejo de ir embora para bem longe e ser agraciado com a chance de começar uma vida outra. Todos vivem juntos em um apartamento vizinho ao de um militar que talvez não seja o que parece.

    Mas ao ler esse livro com cuidado se percebe que é impossível reduzir a poucas linhas um texto tão complexo, tão profundamente literário, uma ficção tantas vezes maior que suas 85 páginas. A linguagem concisa, que pouco explica, em lugar de simplificar, de tornar objetivo, amplifica, cria zonas enigmáticas que permitem muitas, se não infinitas, leituras do aspecto formal e do conteúdo da narrativa.

    Nessa obra, a relação dos feitos do protagonista precoce e de impertinente lucidez é quase um detalhe. A fechadura pela qual o leitor observa a intimidade do apartamento da rua Ortega y Gasset, mais do que as banalidades de um cotidiano honesto, exibe cidadãos incorporados ao esquema político imposto nos anos 70 na Argentina, exemplares de quem tem a vida atravessada por uma configuração social e política tão singular, tão perversa, atingidos, em suas aparentes neutralidades, por uma violência velada, que nos sinaliza que ninguém fica imune.


    Em entrevista ao jornal argentino Página 12, na ocasião do lançamento de História do pranto, Pauls comenta que ao constatar a confluência entre o político e a intimidade criou sua via de acesso para ficcionalizar esse período histórico. “(…) para mim, sempre foi uma época muito atrativa, muito decisiva, mas que, ao mesmo tempo, me inspirava tanto respeito e me parecia tão difícil que não me permitia abordá-la. E tampouco me satisfaziam as estratégias que a literatura argentina havia eleito para tratar dela. Então me parecia que teria que inventar uma maneira nova, para mim, para poder me apoderar daquilo que me interessava daquela época.” (…) “(…) não me interessa muito a recuperação da verdade histórica. Me interessam mais os processos que a deformam. Assim como no gênero autobiográfico me interessa muito mais o modo como os escritores põem em cena suas vidas do que o fato de acessar a vida em si.”

    Também em seu romance Pauls não se preocupa em simular uma verdade; ao contrário, evidencia as lacunas, não nos deixa esquecer que se trata de um relato editado, e admite todos os riscos de quem opta pelas versões imprecisas, contraditórias – porque carregadas de afetividade – da memória.

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    Clube de Prosa Cosac Naify
    Discussão – História do pranto, de Alan Pauls
    31/5, quinta-feira, às 19h30
    Livraria Cultura – Loja Artes – Conjunto Nacional
    Av. Paulista, 2073, São Paulo – SP
    Grátis. Retirada de senhas a partir das 18h30. 25 lugares

  • Para conhecer Chanel

    Repleto de estilo e de belas ilustrações. Assim é o livro Diferente como Chanel, da ilustradora norte-americana Elizabeth Matthews, publicado no Brasil pela editora Cosac Naify, em 2009, com tradução da estilista brasileira Clô Orozco.


    Dirigido ao público infantojuvenil, o livro é uma pequena joia e conta a biografia de Gabrielle Coco Chanel, uma das maiores estilistas do século XX. Da sua infância pobre – a casa tinha um cômodo só, seu pai era vendedor ambulante e a mãe doente – até a vida adulta, quando se tornou uma grande estilista, passando pela adolescência no orfanato, para onde foi encaminhada junto com a irmã ao perder a mãe, e pela Escola de Notre-Dame, em Moulins (Auvergne), e os primeiros empregos ligados ao vestuário, tudo é contado com uma suavidade apaixonante.

    Chanel nasceu em 1883, em Saumur, no oeste da França. Era uma menina magricela e sem graça, mas gostava de ser diferente. No orfanato, aprendeu a costurar e fazia bonecas de pano que encantavam as outras órfãs. Na escola, por ser pobre, era colocada junto às meninas da sua classe social, mas nem por isso abaixava a cabeça.

    Já formada, foi trabalhar em uma alfaiataria e, posteriormente, abriu sua primeira butique, em Deauville, uma cidade próxima a Paris. Criou estilo, abriu novas filiais, como a mais festejada, em Paris. É dela a criação do cardigã, um tipo de casaco ou suéter tricotado, de mangas compridas, sem gola, com decote redondo ou em “v”, com abertura frontal, e que pode ou não ser abotoado. E também o “pretinho básico”, um vestido criado para ir ao teatro e que ainda hoje é usado, sendo sinônimo de bom gosto e elegância.

    O texto do livro é enxuto, exato e na medida, trazendo os principais fatos da vida de Chanel. As delicadas ilustrações, feitas pela própria autora, com caneta e aquarelas, falam por si, com destaque para a que figura na capa: uma Chanel elegante, confiante, moderna e charmosa, desfilando pelas ruas de Paris, com seu “pretinho básico” e chapéu estiloso. Uma perfeita caricatura da estilista.

    A obra traz, ao final, a cronologia da vida de Chanel, além de belíssimas ilustrações da estilista e de seu famoso perfume, o Chanel nº 5, feitas, respectivamente, pelo poeta e amigo Jean Cocteau e pelo caricaturista Sem.

    Elizabeth Matthews estreou na literatura infantil com este livro. A tradutora é estilista há mais de 30 anos e tem sua própria grife: Huis Clos – expressão inspirada em uma peça do filósofo existencialista Jean-Paul Sartre, que no Brasil é traduzida como Entre quatro paredes.

    Soube da existência desse título na ocasião do seu lançamento e achei uma graça. Mas só vim a lê-lo de fato recentemente e fiquei apaixonada, querendo saber mais sobre Chanel e sua vida. Com certeza despertará – e muito – a curiosidade do público infantojuvenil sobre essa fascinante, mas discreta, inovadora, mas simples mulher.

    *Uma dos dez vencedores do concurso Dez Mil Fãs, Cecilia Felippe Nery é jornalista formada pela Puccamp, pós-graduada em Jornalismo Internacional (PUC-SP) e Jornalismo Literário (ABJL). Mantém dois blogs sobre literatura, o Leituras e observações e o Leituras que não esqueço.

  • Do surrealismo à pré-psicodelia

    Resenha publicada na revista de fotografia ZUM#2 (2012), sobre o Fotolivros latino-americanos

    Há algo de cruel – e de amoroso – nesta publicação. Cruel, porque o leitor nunca possuirá, ou verá de perto, os belíssimos exemplares apresentados ou estudados neste livro. Mas esta é também uma obra de dedicação e cuidado. Com ajuda de colaboradores, Horacio Fernández vasculhou bibliotecas. museus e coleções para levantar os melhores livros de fotografia produzidos na América Latina desde os anos 1920. Não quaisquer livros. O fotolivro tem de ter unidade própria, mesmo que feito por mais de um fotógrafo. Há que levar em conta o projeto gráfico (e um valioso apêndice dá atenção a seis designers, como John Lange e Álvaro Sotillo) ou o tipo de texto que acompanha as fotos.

    Uma “história gráfica” da Revolução Mexicana é seguida pelo álbum Cusco histórico, de Martín Chambi e Juan Manuel Figueroa. A Revolução Cubana é responsável por exemplos de propaganda fotográfica; mas Fotolivros apresenta sua contrapartida, feita durante o governo de Pinochet, celebrando a “ordem” vigente comparada à “baderna” socialista.

    Este livro pode interessar mesmo a quem não é especialista em fotografia. Dos enfoques futuristasde Enrique Guttman na nascente agroindústria do algodão (México, 1937), ao surrealismo do argentino Arturo Cambours Ocampo, em 1942, e ao pleno pop de Eduardo Terrazas e Arnaldo Coen (México, 1975). Isso sem deixar de lado a pré-psicodelia, num preto e branco beat, de Wesley Duke Lee mostrando São Paulo com os textos de Roberto Piva (Paranoia, 1963) e o pós-glauberianismo de Antropologia da face gloriosa (Arthur Omar, 1997). As metrópoles latino-americanas parecem ter sido privilegiadas em detrimento dos registros do campo (o México aparece com destaque aí) e das cidades do interior. Omissões são inevitáveis, e o leitor dificilmente perdoará a ausência de Anna Mariani. Mas Fotolivros traz notas informativas sobre cada livro, sore os artistas que os fizeram e sobre as circunstâncias da publicação. Ao contrário de alguns livros fotográficos que se conhecem, não é obra para ser apenas folheada, mas lida com cuidado e admiração.

    *Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo e escreve semanalmente no caderno Ilustrada desde 1990. Paulistano, formou-se em Ciências Sociais e é mestre em Sociologia pela USP, com uma dissertação “Brasília e a Ideologia do Desenvolvimento”.

  • “Escrevo para continuar dançando”

    Como bailarina, a escritora e crítica Inês Bogéa sempre foi além dos movimentos da dança. Ela criava um mundo imaginário sobre cada peça, envolvida pelas narrativas dos grandes balés. Esse interesse pelas aventuras e particularidades dos personagens a levou a escrever dois livros em que reconta histórias do balé clássico. O mais recente, Outros contos do balé, será lançado amanhã, 12/05, na Livraria da Vila (Fradique Coutinho), em São Paulo. Confira, a seguir, um bate-papo com a autora.


    Sua vivência no balé teve início há mais de 30 anos, como bailarina clássica. Como você passou a escrever sobre dança, tendo sido crítica da Folha de S.Paulo por um longo período e autora de livros sobre o tema?

    Minha história no balé começou de ponta cabeça, na ginástica olímpica, fazendo estrelas e outros tantos movimentos desse esporte, que tem muito de dança. Depois, passei para a capoeira e, numa das curvas da vida, triste por ter levado uma benção no peito numa das rodas, assisti, na TV, ao Lago dos Cisnes, no colo do meu pai. A sensação de ver as meninas flutuarem nas pontas e as imagens de múltiplas dançarinas de tutu me marcaram. Entrei para fazer balé clássico na academia da D. Lenira, em Vitória. Me formei na metodologia da Royal Academy of Dancing, em Londres. Em 1998, entrei para o Grupo Corpo, e nele fiquei por 12 anos. Viajamos o mundo dançando. Nesse tempo, tínhamos um grupo de estudos de dança. Um texto meu foi enviado para o editor da Ilustrada (Folha de S.Paulo), na época Sérgio Dávila, que me convidou para escrever no jornal. Quando chegou o meu tempo de parar de dançar, pesquisei a história do Grupo Corpo e organizei o livro Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo. Esse foi meu ritual de passagem para o outro lado da cena.

    Como se dá esse processo de transformar em narrativa escrita histórias dançadas? Como bailarina, você procurava saber as histórias por trás dos movimentos?

    Reconto as histórias a partir do movimento da dança; lembro no corpo as sensações e emoções dos personagens que dancei e vivo as histórias dos outros personagens para completar a narrativa. Ao dançar alguns dos grandes balés, procurava saber a história para conhecer mais e criar um mundo imaginário sobre cada dança.


    Outros contos do balé é seu terceiro livro infantojuvenil [os dois primeiros são O livro da dança (Companhia das Letrinhas, 2002) e Contos do balé (Cosac Naify, 2007)]. Por que a escolha desse público leitor para suas narrativas sobre dança?

    Meus livros são para crianças de todas as idades. São minhas lembranças do prazer de dançar e da alegria de me mover que me levam a criá-los. Escrevo para continuar dançando com leitores de diferentes idades.


    Assim como em Contos do balé, em Outros contos do Balé você reconta cinco histórias
     de coreografias de dança clássica Como você chegou a essa seleção?

    Assim como no primeiro livro, a ideia é contar balés de diferentes gêneros, tempos, acentos e cores da dança clássica. Em Outros Contos do Balé você pode ler A Sílfide, marco da dança romântica; O corsário, onde a tônica está na descoberta de terra distantes e exóticas; La Bayadère, inspirada na dança indiana; O Quebra-Nozes, um marco da dança clássica; e O Pássaro de Fogo, um balé clássico moderno. O novo livro dialoga com o primeiro e traz novas perspectivas, nas próprias histórias e nas notas informativas.

    Você já dançou algumas das coreografias que compõem o livro? É possível eleger uma favorita?

    Dancei A Sílfide, O Pássaro de Fogo e O Quebra-Nozes, em diferentes papeis de solista e de corpo de baile. De cada um, tenho uma história diferente para contar. O bom é estar em cena, dançando.

    Neste livro, você apresenta aos leitores os profissionais que normalmente ficam nos bastidores de um espetáculo, mas que são igualmente importantes para sua realização. O que caracteriza, para você, uma montagem impecável?

    Para que um espetáculo aconteça, todos têm que dançar juntos. Desde o tempo de abertura da cortina ao início do movimento do bailarino, em diálogo com a música, o figurino, a luz, a cenografia, até os detalhes técnicos – por exemplo, o fechamento da caixa preta, o tempo entre uma obra e outra, movimentos de cena –, tudo tem impacto na percepção do espectador. Uma montagem impecável deve apresentar qualidade em todos esses elementos.