• Acho melhor sim

    Na preparação para o último Clube de Prosa, sobre o livro Bartleby e companhia, mandamos um e-mail ao autor, Enrique Vila-Matas, com a pergunta: “Você já passou por algum momento bartleby? Já se viu travado ou sem vontade de escrever?”

    Eis a resposta:

     

    Outro dia meu amigo Rodrigo Fresán disse em uma entrevista: “Os escritores morrem sempre no campo de batalha”. Isso me fez lembrar uma coisa que Roberto Bolaño disse em outra entrevista: “A literatura se parece muito à luta dos samurais, mas um samurai não luta contra o outro samurai: luta contra um monstro. Além disso, ele geralmente sabe que será derrotado. Ter coragem, sabendo previamente que você será derrotado, e ir à luta: isso é a literatura”.

    

Tenho a impressão de que, no que se refere ao campo literário, irei à luta sempre até o final, até o fim dos meus dias. 



    Escrevo estas palavras justamente quando lá se vão cinco dias sem escrever uma só linha, transformado – obrigado pelas circunstâncias – em um pobre bartleby. Por causa de uma gripe que me impediu de trabalhar, levo cinco dias de conduta ágrafa, somente interrompida por estas linhas que agora te escrevo e que me resgatam de meu silêncio de quase uma semana.

    

Há alguns minutos, exatamente quando chegou o seu email, comecei a me sentir melhor e a sair de minha pequena morte, de minha travessia bartleby de cinco dias. Isso me permitiu voltar a me colocar em movimento.

    
O que te conto me mostra que o mais garantido é que eu deixe definitivamente de escrever somente quando chegar a última gripe. Mas nesse dia também irei à luta, não duvide, amigo. Amo acreditar no combate.

    

Um abraço de Barcelona, 


     

    Enrique

     

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    Leia também:

    - O fim encenado da literatura, por Antônio Xerxenesky
    - A literatura do não, por Antonio Tabucchi

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    Próxima edição:

    Clube de Prosa Cosac Naify
    Discussão - Diário da guerra do porco, de Adolfo Bioy Casares
    Mediação – Julio Pimentel Pinto
    29/2, quarta-feira, às 19h30
    Livraria Cultura – Loja Artes – Conjunto Nacional
    Av. Paulista, 2073, São Paulo (SP)
    retirada de senhas a partir das 18h30. 25 lugares

  • Dia de Iemanjá

    Dia 2 de fevereiro, dia de Iemanjá. A Rainha do Mar está retratada no volume 2 da coleção Mitos do mundo, intitulado Os príncipes do destino, do sociólogo Reginaldo Prandi, ilustrado por Paulo Monteiro. Na cultura africana, cada ser humano está sob a proteção de um dos dezesseis príncipes, o seu padrinho do destino, cuja missão é colecionar histórias. A história é contada no livro por Ossá, um dos príncipes do destino:

     

    “A história falava de Iemanjá, que era casada
    …..com o rei Oquerê.
    Eles viviam bem, cumprindo os acordos
    …..matrimoniais,
    mas um dia cada um falou mais do que devia
    e as palavras de um ofenderam gravemente o
    …..outro.
    Brigaram como nunca tinham brigado antes.
    Dolorosamente, agressões verbais se materializaram.
    Temendo a fúria de Oquerê, Iemanjá fugiu, correu desabalada.
    Ele foi atrás dela, perseguiu-a pelas estradas.
    Quando Oquerê alcançou Iemanjá e se lançou sobre ela,
    ela caiu no chão, quase vencida.
    Mas Iemanjá tinha um frasco que sua mãe,
    que era Olocum, a Senhora do Oceano, lhe dera.
    Ao cair, Iemanjá derrubou o frasco
    e o frasco se abriu.
    De seu conteúdo líquido se formou um caudaloso rio.
    E fugindo pelo rio lá se foi Iemanjá.
    Lá se foi Odoiá, que na língua do lugar é Mãe do Rio.

    O rio ia levando Iemanjá em fuga para o mar,
    para o oceano, que era o reino de sua mãe.
    Mas o rei se transformou numa montanha
    e interceptou a fuga do rio que corria para o mar.
    Desesperada, Iemanjá chamou por seu filho Xangô, deus do trovão.
    Xangô lançou seus raios sobre a montanha e a partiu em duas,
    abrindo caminho para o rio, que prosseguiu na direção do litoral.
    Em meio às trovoadas de Xangô,
    Iemanjá prosseguiu seu curso e alcançou o mar,
    alcançou a proteção de sua mãe no mar,
    mar onde ela reina até hoje,
    onde sucedeu à mãe e é rainha.
    Rainha do Mar, Iemanjá.”

     

     

    Conheça outras obras sobre cultura afrobrasileira publicadas pela Cosac Naify:

    Agbalá, um lugar-continente, de Marilda Castanha
    As tranças de Bintou, Sylviane A. Diouf
    Minhas contas
    , de Luiz Antonio e Daniel Kondo
    Uma princesa nada boba, de Luiz Antonio

  • Péssimo para nomes

    Notório esquecedor de nomes e prenomes, o escritor Rodrigo Lacerda conta como resolveu esse problema diante das centenas de personagens de Guerra e Paz

    Os que me conhecem sabem o tamanho do meu sofrimento por não lembrar os nomes das pessoas que reencontro. Às vezes são só relações distantes que, por um motivo ou por outro, eu deveria manter. Outras vezes a situação se torna mais delicada, quando são ex-colegas de trabalho.

    Mas até alguns amigos, caso não os veja há muito tempo, estão sujeitos a se tornarem um rosto sem nome e uma lembrança solta, sem procedência. A coisa piora porque, apesar de péssimo para nomes e identificações sociais rápidas, sou muito bom fisionomista. Lembro muito bem das caras, sei que as conheço. Os nomes, porém, me escapam, enganam, humilham.

    O primeiro livro que li de Liev Tolstói, A sonata a Kreutzer, é uma novelinha curta e com um número reduzido de personagens. Os dois assuntos só começaram a se cruzar quando, entusiasmado com esse primeiro contato, e imaginando – santa ingenuidade adolescente! – ter pego o embalo necessário, aventurei-me num de seus romances maiores, justamente o Guerra e Paz.

    Em menos de 50 páginas, meus problemas de identificação rápida foram à Lua. Fiquei perdido no cipoal de títulos nobiliárquicos, de grupos sociais e, sobretudo, na gigantesca galeria de personagens. Os tipos humanos citados não só são muitos, mas cada um tem prenome e pelo menos uns dois sobrenomes, além de um apelido e, muitas vezes, um apelido ainda mais íntimo, usando um diminutivo. Cada grupo em que esse personagem é conhecido refere-se a ele de uma forma, dependendo do grau de intimidade.

    Os bailes da aristocracia russa no início do séc. XIX me deixaram na mesma aflição que os coquetéis, eventos e recepções da minha vida atual. Perdi a primeira batalha contra o romance. Tempos mais tarde, após nova tentativa, perdi a segunda, e acabei desistindo de conquistar aquele território.

    Anos se passaram desde aquelas primeiras tentativas. Um belo dia, já trabalhando na editora Cosac Naify, fui encarregado de cuidar da edição de Anna Kariênina, a outra obra-prima do mestre russo.

    Em silêncio, tremi nas bases, mas, fingindo uma obediência destemida, aceitei a tarefa. A grande questão que se colocava era: como editar um livro desses sem ter pleno domínio de quem é quem na história?

    Após alguns dias de angústia, tive uma idéia. A título de caprichar na edição, convenci o editor-chefe na época, o poeta e professor Augusto Massi, e também o tradutor, o ficionista Rubens Figueiredo, que deveríamos incluir em nossa edição, como apêndices, uma lista de personagens e uma árvore genealógica das famílias de destaque no livro.

     

     

    Glossário salvador

    Enquanto eu lia o calhamaço da tradução, fui tomando nota de cada nome que surgia, resumindo as informações dadas sobre eles em pequenos verbetes. Quando o personagem tinha laços de sangue com as famílias protagonistas, ia encaixando-os num esquema genealógico tosco, cheio de traços, flechas e rasuras. Em seguida, o tradutor pegou esse material bruto e, gentilmente, com perfeccionismo crescente, poliu-o e completou-o, “arredondando” as minhas notas.

    Com aquelas muletas, feitas sob medida para mim (embora não assumidamente), consegui finalmente entrar no universo literário dos grandes romances de Tolstói.

    Fiquei, claro, embasbacado com a amplitude e a profundidade de sua compreensão da alma humana, e admirei, com todas as forças, sua visão maravilhosamente ética do mundo, apesar de tudo.

    Voltei então ao Guerra e paz, meu velho campo de batalha. Não se operou, na minha cabeça, nenhum milagre neurocognitivo, isto é, a confusão de nomes no romance se criou como sempre, porém, dessa vez, misteriosamente, ela não me fez desistir da leitura, nem me incomodou muito.

    Já havia me acostumado com a ideia de que esses grandes romances de Tolstói são como a vida. Não se pode evitar sua abundância de personagens, a profusão de nomes e temperamentos, e nem se deve tentar fugir disso. A vida é assim, muito maior do que nossa capacidade de absorvê-la. Assim, aquilo que até hoje me angustia no cotidiano, nos romances de Tolstói deixou de ser um problema.

    Agora uma nova edição de Guerra e paz, recém-lançada pela Cosac Naify, com o mesmo Rubens Figueiredo como tradutor, também traz uma lista de personagens, no caso, os históricos. Na releitura a que esse novo lançamento me obriga, talvez eu nem recorra mais tanto aos apêndices (se conseguir resistir ao imperativo internalizado de ficar checando quem é quem a todo momento). Mas é sempre bom saber que eles estão ali. E talvez ajudem a outros como eu, que poderão ir aos poucos molhando o pé no talento oceânico de Tolstói, para em seguida se jogarem de cabeça dentro dele. Talvez eu não seja o único a me beneficiar dessas ajudas, afinal de contas.

    *Rodrigo Lacerda é escritor, tradutor e editor.
    Organizou a linha de literatura brasileira contemporânea na Cosac Naify
    e publicou O fazedor de velhos e Vista do Rio, entre outros.

  • Leonard Cohen, o bardo favorito

    É dia de comparar mitologias. Lançado hoje, o novo álbum de Leonard Cohen mostra que o cantor/compositor e escritor canadense está em grande forma aos 77 anos. Old Ideas é seu melhor disco desde o clássico I’m your man, de 1988. Sua voz está ainda mais grave e cavernosa, à beira de um pigarro, mas sempre amenizada por um sussurro gentil e um brilho irônico em cada palavra. Não parece mais ter dúvidas sobre a vida, o amor e a morte, mesmo que as expresse, em litanias sensuais e blues autoparódicos. (Com sorte, ainda dá para ouvir o disco aqui).

    Em sintonia com Old Ideas, lembramos de seu primeiro romance, A brincadeira favorita, que já pode ser garantido na pré-venda também a partir de hoje e será lançado no primeiro dia de março. Coincidentemente, o próprio Cohen mencionou há uma ou duas semanas o livro, numa entrevista para o cantor e fã Jarvis Cocker (conhecido pela banda Pulp), publicada no jornal inglês The Guardian. Com o habitual fino senso de humor, ele revela que só conseguiu terminar A brincadeira favorita porque a dona do apartamento londrino em que ele morava na época (1959), ameaçava despejá-lo caso ele não escrevesse três páginas por dia.

    Como se viu, a ameaça funcionou. Gestado num período de cerca de cinco anos, primeiro como uma assumida autobiografia, chamada Beauty at close quarters (Ballet of lepers foi outro nome cogitado), depois como ficção livremente baseada na sua educação sentimental e literária, o livro, finalmente lançado em 1963, foi reescrito umas cinco vezes na sua fiel Olivetti. Nesse tempo, ele lançou dois elogiados livros de poesia – Let us compare Mythologies e The spice-box of earth -, participou de um documentário com outros cinco poetas, inclusive seu amigo e mentor Irving Layton (Six Montréal poets), percorreu o Canadá e os EUA recitando seus poemas com músicos de jazz, “refugiou-se” em Londres, Atenas e na sua querida ilha grega de Hydra.

    Situada em frente à ilha onde Lord Byron também buscara inspiração, Hydra era ponto de encontro de outros escritores e músicos, um lugar abençoado por luz hedonista, na qual ele se banhava diariamente, ao lado de Marianne, a bela norueguesa que conheceu na praia e lhe deu dois filhos (Adam e a menina Lorca). Na sua casinha caiada de branco, tocava bouzouki e bebia ouzo com os amigos, tomava ácido e via o disco de Ray Charles derreter literalmente sob o sol, no prato da vitrola. Mas não deixava de escrever as três páginas diárias, mantendo a promessa feita à sua síndica inglesa.

     

     

    Nada mal. De acordo com o escritor, também canadense, Michael Ondaatje, A brincadeira favorita “tem a cadência de um longo poema em prosa, em que as cenas emergem como enigmáticos episódios de vida própria, e não partes de uma narrativa convencional. Como num poema, os silêncios, espaços e o que não é dito, são essenciais para a atmosfera do livro.” Entusiasmado, um crítico chegou a anunciar: “James Joyce não morreu. Ele é conhecido em Montreal pelo nome Cohen… e escreve do ponto de vista de Henry Miller.” Quem ler o livro vai ver que não é exagero.

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    Leia também:

    - Novos rumos, velhas ideias

  • O projeto gráfico de Design para um mundo complexo

    Assim como ocorre com diversos outro títulos da editora, o projeto gráfico de Design para um mundo complexo merece um comentário à parte, a começar pelo papel no qual é integralmente impresso, conhecido como Kraft Ouro.

    A substituição dos papeis comumente utilizados nos miolos de livros por essa variedade empregada na indústria de envelopes é, a seu modo, um comentário sobre nosso costume de destinar certos materiais a certos usos pelo engessamento de suas funções.

    Não se trata, contudo, de simplesmente utilizar um papel “estranho”. Se os envelopes contêm mensagens, e se alguns papéis são mais utilizados para a fabricação de envelopes, eles passam também a significar “embalagem”, independentemente de sua configuração como envelope.

    Assim, além de reforçar o caráter de mensagem que permeia todo o livro, o projeto induz a outra experiência fundamental: a leitura se produz numa embalagem (a teoria), que se relaciona de forma sempre incerta e incompleta com seu conteúdo (a realidade).

     

     

    Dois dispositivos visuais aprofundam e reafirmam esse comportamento: por um lado, todas as imagens – mesmo as fotografias e logotipos – foram transformadas em ilustrações em preto-e-branco desenhadas à mão, próximas de esboços; por outro, a capa e as demais seções do livro são identificadas e permeadas por uma padronagem hexagonal que, multiplicada, produz uma imagem semelhante às “redes dentro de redes dentro de redes”.

     

     

    Mensagem, embalagem, esboço e rede, o projeto gráfico de Design para um mundo complexo pode ser finalmente entendido como uma metáfora material que transforma em experiência de leitura a afirmação de Aldous Huxley escolhida como epígrafe para o livro: “Nossas teorias mais refinadas, nossas descrições mais elaboradas são apenas simplificações cruas e bárbaras de uma realidade que é, em suas amostras cada vez menores, infinitamente complexa”.

     

    *André Stolarski é designer formado em arquitetura pela FAU/ USP e sócio-diretor da Tecnopop. Pela Cosac Naify publicou Alexandre Wollner e a formação do design moderno no Brasil, e traduziu as obras Elementos do estilo tipográfico, Pensar com tipos e ABC da Bauhaus.

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    LANÇAMENTO – Design para um mundo complexo

    Sessão de autógrafos com o autor, Rafael Cardoso
    Livraria da Travessa – Ipanema
    31/1, terça-feira, às 19h
    Rua Visconde de Pirajá, 572, Ipanema
    Rio de Janeiro (RJ)
    Mais informações: (21) 3205-9002

  • Massacre em Buenos Aires

    “A velhice é um massacre”. A frase está num dos livros recentes de Philip Roth. Crua, de uma lucidez rancorosa, não dá margem a resposta. 40 anos antes, Adolfo Bioy Casares colocou esse mesmo diagnóstico no papel, mas literalmente. Em Diário da guerra do porco imagina uma Buenos Aires em guerra contra seus velhos. Entregues ao “vício das lembranças”, ao truco e ao Fernet, bebida amarga, lembrete irônico de que a vida perde a doçura, homens e mulheres de cabelos brancos, “vorazes, roncadores, verdadeiros porcos” vêem-se diante de uma enorme onda de violência.

    Milícias formadas por jovens saem às ruas para espancá-los, alguns até a morte. Os novos bárbaros têm nojo, desprezo profundo pela velhice. Acima de tudo, têm medo, não querem encarar o próprio futuro, a decrepitude que os espera. Isidro Vidal, personagem que o “diário” acompanha com mais interesse, ainda não chegou aos 60. Está próximo, no entanto – próximo o suficiente para ver-se ameaçado, depois de testemunhar a morte de alguns amigos.

    Uns reagem com bravatas, querem mostrar que ainda não perderam a força e a valentia. Outros desesperam-se, escondem-se no sótão dos cortiços em que vivem, tremem ao menor ruído. Vidal é sereno, tenta entender a situação, busca conversar com o filho, marginalmente ligado aos fascistas que promovem a cruel limpeza “etária”.

    A cidade, descrita minuciosamente pelo autor, é tomada por fogueiras, que lançam um fulgor vermelho na noite. A ameaça é permanente, não há descanso. Ao saírem em cortejo para enterrar um de seus colegas de truco, os velhos são apedrejados, têm de correr, esconder-se atrás das lápides, lançar-se no gramado que cobre os mortos.

    Em meio a esse caos, Vidal filosofa: “pela primeira vez julgou entender por que diziam que a vida é sonho: se alguém vive bastante, os fatos de sua vida, como os de um sonho, tornam-se incomunicáveis, porque não interessam a ninguém.” E de fato, atravessa as cenas de batalha como se estivesse sonhando. Em alguns trechos, Bioy Casares lança mesmo essa dúvida ao leitor: tudo pode ser um sonho, afinal.

    A amargura de Vidal, porém, interessa às mulheres, que o procuram; feias, malcheirosas, velhas; mas também, no meio delas, uma jovem, bela, de pele macia. O amor surge como porta de saída do pesadelo, como alternativa para a morte. Ainda assim, Vidal não sabe o que fazer. Vaga pelos escombros, procurando entender se há sentido em permitir-se novos desejos e ambições.

    Escrito em 1968, quando o próprio Bioy (1914-1999) talvez começasse a se debater com a ideia de ocaso, Diário da Guerra do Porco acaba sendo menos pessimista do que poderia. O autor dizia não gostar do livro, mas de alguma forma sentiu-se impelido a escrevê-lo. Talvez quisesse afirmar – e assim convencer a si mesmo – que, se há tempestade, escura, avassaladora, que provoca desespero, pode haver também bonança.

    De qualquer forma, é grande literatura, um romance à altura de sua criação mais conhecida, A Invenção de Morel, e que nada fica a dever aos brilhantes jogos literários de seu amigo mais famoso, Jorge Luis Borges.  Não são poucos, aliás, os que consideram Diário da Guerra do Porco sua obra-prima, e Rubem Fonseca, autor da quarta-capa, é um deles. Como nos contos inesquecíveis de Histórias fantásticas, o livro é escrito com rara elegância, muito bem recriada pelo tradutor José Geraldo Couto. Bioy Casares parece incapaz de uma frase ou idéia vulgar, de um clichê, de uma observação inútil.

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    Clube de Prosa Cosac Naify
    Discussão - Diário da guerra do porco, de Adolfo Bioy Casares
    Mediação – Julio Pimentel Pinto
    29/2, quarta-feira, às 19h30
    Livraria Cultura – Loja Artes – Conjunto Nacional
    Av. Paulista, 2073, São Paulo (SP)
    retirada de senhas a partir das 18h30. 25 lugares

  • São Paulo, ontem e hoje

    Um dos principais responsáveis por retratar a cidade de São Paulo no fim do século XIX e início do XX foi Guilherme Gaensly. Suas imagens, reunidas em um livro que leva seu nome, mostram uma cidade poética e inspiram afeto.

    Hoje, São Paulo celebra 458 anos. Folheando Guilherme Gaensly, nos sentimos desafiados a conferir como estão algumas das paisagens centrais que serviram de inspiração para o fotógrafo. Apresentamos aqui o registro desse passeio.

     

    Panorama de Santa Cecília

    Ao centro das duas imagens é possível localizar as torres da Santa Casa de Misericórdia, construída, no bairro de Santa Cecília, em 1884.

     

    Praça da República

     

    Viaduto do Chá

    Idealizado por Jules Martin e projetado pelo engenheiro Stevaux, ambos franceses, o antigo viaduto do Chá, fabricado na Alemanha, desencadeou o início da urbanização do Anhangabaú (substituído pelo atual na década de 1930).

     

    Vale do Anhangabaú

    Vista do viaduto do Chá em direção ao norte, apontando as plantações no vale do Anhangabaú. Em destaque, à esquerda, o Teatro Politeama Nacional, recuado da rua São João. (…) Em 1914 foi destruído por um incêndio.

    Na foto abaixo, que retrata a vista da mesma região, é possível observar que no local onde estava o Teatro, hoje está localizado o Palácio dos Correios, inaugurado na década de 1920.

     

    Rua Direita

    Em frente ao prédio onde se instalara a Casa Alemã, precursora das lojas de departamento, uma família observa Gaensly registrar a rua tomada por elegantes construções.

    A torre da Igreja Santo Antônio, localizada na Praça do Patriarca, pode ser vista ao centro da duas fotos.

     

    Esquina da rua Direita com a rua 15 de novembro

    O Café Girondino, inaugurado em 1875, estava localizado na esquina da rua direita com a rua 15 de novembro. Um Café homônimo, inspirado neste do fim do século XIX, está localizado a poucas quadras dali, na rua Boa Vista, 365, desde o fim da década de 1990, com vista para o mosteiro de São Bento.

  • O “realismo socialista” em São Paulo


    O estado de São Paulo vivia um momento de orgulho. Apesar de derrotado pelas forças getulistas em 1932, ganhou grande destaque com a crescente industrialização e a fundação, em 34, da USP. Reconciliado com os insurgentes, o presidente Getúlio Vargas indica um dos caciques paulistanos para governador, Armando de Salles Oliveira. Este, disposto a mostrar a pujança do estado ao resto do país, cria a revista S.Paulo, veículo de vida breve mas marcante.

    Editada pelos poetas modernistas (de forte tendência nacionalista de direita) Cassiano Ricardo e Menotti Del Picchia, a revista S.Paulo era feita basicamente de fotomontagens, um recurso inovador na época, muito inspirada pelo similar soviético, URSS em Construção, que se valia das colagens vanguardistas de Ródtchenko.

    Pela primeira vez a imagem sobrepujava – e muito! – o texto, que aparecia em letras miúdas, quase como um mero acessório. Era o texto que “ilustrava” as imagens e não o contrário.  As cenas, ditribuídas em páginas duplas e até triplas pelas grandes dimensões da revista, mostravam a dinâmica de multidões, prédios em construção, indústrias a pleno vapor  e a exuberância da agricultura. Ironicamente, tomava o princípio da propaganda soviética, ou seja, do chamado realismo socialista, e o transpunha para uma situação política bem diferente – para não dizer antagônica.

    Apesar do sucesso, a revista teve apenas dez números, deixando de ser editada com a saída de Salles Oliveira do governo e o subseqüente golpe militar de 37, quando Getúlio instaura o período ditatorial do chamado Estado Novo (que vai até 1945).

    No aniversário da cidade, separamos algumas imagens da vibrante revista S.Paulo contidas no livro Linha do tempo do design gráfico no Brasil, que acabamos de lançar. Você também pode ver outras imagens do livro no nosso Tumblr.

    *Elaine Ramos é diretora de arte da Cosac Naify.
    Daniel Benevides é jornalista e coordenador de comunicação da editora.

  • A sinfonia americana de Lévi-Strauss

    Os leitores brasileiros terão agora acesso à versão integral das Mitológicas, obra magistral do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss (1908-2009). Com a excelente tradução de Beatriz Perrone-Moisés, a Cosac Naify acaba de lançar o último volume desta tetralogia, O Homem Nu (originalmente publicado em 1971). Ao longo de 747 páginas, visitando mais de trezentas narrativas, o livro dá continuidade e sugere um desfecho para esta longa viagem através da mitologia dos índios das duas Américas.

    Lévi-Strauss quer demonstrar nas Mitológicas a existência de uma “unidade profunda” da mitologia ameríndia. E o fio condutor é um mito colhido entre os Bororo do Mato Grosso, batizado em O Cru e o Cozido (primeiro volume, de 1964) como “mito de referência” ou “M1”. Este conta a história de um herói abandonado pelos seus no topo de uma árvore, na qual havia subido para roubar ovos de araras. Ao romper sua situação de isolamento e penúria, ele instaura a cultura e estabelece separações entre diferentes ordens do cosmos. A narrativa bororo conduz a uma série de mitos de povos vizinhos relacionados à aquisição do fogo de cozinha, da caça e da agricultura, nos quais o motivo do “desaninhador de pássaros” vai aos poucos se metamorfoseando em outros.

    Depois de um longo périplo, que inclui a passagem do hemisfério sul ao norte, O Homem Nu inicia-se com mitos dos povos Klamath e Modoc (norte da Califórnia), que promovem o reencontro com a figura deste “desaninhador”, apresentando fortes ressonâncias com os mitos do Brasil Central. Lévi-Strauss traça então um percurso de sete partes, buscando inventariar as modalidades norte-americanas deste motivo e, ao mesmo tempo, refazer todo o caminho trilhado nos outros três volumes.

    O título O Homem Nu deixa notar o deslocamento das metáforas culinárias, presentes nos títulos dos demais volumes, para aquelas associadas às vestimentas e aos adornos. O herói dos mitos norte-americanos do “desaninhador” é, no mais das vezes, um homem nu que deve reconquistar a cultura. Ele tem suas roupas roubadas por um antagonista, geralmente seu pai, que quer se tornar novamente jovem, poderoso e atraente.

    Lévi-Strauss evidencia que vestimenta e culinária são códigos conversíveis, mostrando-se eficazes para tratar do problema do estabelecimento das diferenças.

    O autor demonstra que os mitos dos povos do Noroeste da América do Norte – em uma extensão que vai do norte da Califórnia (EUA) à Colúmbia Britânica (Canadá) – confirmam hipóteses levantadas de modo apenas especulativo em suas análises do material sul-americano. Um bom exemplo pode ser encontrado em “O mito único”, segundo capítulo da sétima parte. Lévi-Strauss apresenta a narrativa dos índios Coos (costa do Oregon) sobre mais um “desaninhador” (M793A), encontrando aí a condensação de diversos temas e motivos, que já haviam sido abordados em outras passagens das Mitológicas. Certas ligações estruturais (lógicas) que haviam sido apontadas em outros momentos são comprovadas com essa versão e suas variantes. O leitor que tiver fôlego para percorrer toda a sequência que vai de M1 a M793A (e então a M813, que retorna ao Brasil Central, fechando a tetralogia) se dará conta de que a terra do mito é mesmo redonda e de que é possível acompanhar essa epopeia, na qual os mitos transformam-se uns nos outros.

    A demonstração em torno deste “mito único” cede espaço ao célebre “Finale”, em que Lévi-Strauss rebate críticas dirigidas ao seu trabalho e retoma a analogia entre mito e música, proposta na “Abertura” de O Cru e o Cozido. O sonho de Lévi-Strauss era compor uma peça musical. Sentindo-se impotente para tanto, empenhou-se, não com menos paixão, em compor outro tipo de peça, desta vez articulando mitos ameríndios, de modo a criar uma “sinfonia de sentidos”, um “mito da mitologia”. Sua inspiração maior foi a obra de Richard Wagner, especialmente, a tetralogia O Anel dos Nibelungos. “Pai da análise estrutural dos mitos”, Wagner teria tomado consciência da homologia profunda entre a estrutura dos mitos (no caso, nórdicos) e a da música sinfônica.

    O tema da homologia vem à tona no “Finale”. (Veja-se, por exemplo, a passagem em que a estrutura do Bolero de Ravel é comparada à de um mito.) Percebemos que o movimento do texto mimetiza o do desfecho de uma sinfonia (e, por extensão, a dinâmica dos mitos), recuperando diversos temas abordados ao longo da obra para desembocar num crescendo de associações e emoções que culmina no silêncio.

    Nos últimos instantes, Lévi-Strauss recupera a descrição de um pôr do sol, presente em Tristes Trópicos, narrativa sobre sua viagem ao Brasil nos anos 1930. A imagem do crepúsculo, na qual um jogo de cores e luzes se acelera para desembocar em escuridão, sugere a analogia com o final de uma orquestra e, por fim, empresta-se para evocar um “nada” (“rien”), constatação da insignificância e transitoriedade do homem (e sua consciência) diante do mundo que habita. Constatação que, na contracorrente de idéias filosóficas caras ao existencialismo sartriano, remonta aos próprios mitos ameríndios. Pois se estes discorrem sobre a conquista da cultura, jamais deixam de evidenciar que esta se fez às custas de uma separação trágica. Os mitos provam que uma comunicação entre diferentes seres e patamares já existiu, e recuperam um tempo perdido, em que a humanidade era compartilhada entre todos os seres, e em que céu e terra eram províncias permeáveis, como atesta a figura assídua do “desaninhador”.

    Vista em seu conjunto, a sinfonia americana de Lévi-Strauss revela-se uma composição em co-autoria com os povos ameríndios. Representa menos um inventário de universais do Espírito humano do que um exercício de interlocução constante entre um autor, que jamais deixou de estar comprometido com a cultura européia, e o pensamento de povos distribuídos na vastidão das duas Américas.

     

    *Renato Sztutman é professor do Departamento de Antropologia da USP.
    Este texto, com algumas alterações, foi originalmente publicado no jornal
    O Globo
    , no caderno Prosa & Verso, no dia 14/1/2012.

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    Leia também:

    - O outro mundo de Lévi-Strauss, por Florencia Ferrari

  • O fim encenado da literatura

    Lendo entrevistas com autores, muitas vezes encontramos justificativas de por que aquela pessoa se tornou uma escritora e produziu determinada obra. As razões são variadas: conflitos pessoais que buscava retrabalhar na ficção, o desejo de mergulhar no próprio inconsciente e encarar os seus demônios, o simples prazer de fabular e criar ficções… Embora nunca tenhamos acesso aos verdadeiros motivos que levam o catalão Enrique Vila-Matas a escrever, uma coisa é certa: não estamos diante de um autor comum. Boa parte de sua produção, como O mal de Montano e Doutor Pasavento parecem surgir de uma questão ou uma hipótese crítica, algo comum de se encontrar na teoria literária, mas raro na ficção. Tal é o caso de Bartleby e companhia, um catálogo de ficcionistas que abandonaram a literatura.

     

     

    O narrador de Vila-Matas monta uma lista e estuda os casos de autores que sofrem da síndrome de Bartleby, nome extraído do personagem de Melville que se nega a fazer atividades até praticamente desaparecer. A fórmula do personagem de Melville não é nem de recusa nem de afirmação, como aponta Deleuze em Bartleby e a fórmula. Por isso mesmo, se revela tão devastadora. Bartleby encarna a negação em seu mais profundo estado – e é esta negação violenta que o narrador de Vila-Matas dirá que, além de ser uma constante na história da literatura do século XX, atualmente se tornou um mal endêmico. Deleuze sinalizou, ainda, que a fórmula de Bartleby é contagiosa; a síndrome detectada por Vila-Matas também se revela transmissiva e perigosa, como a ameaça de um silêncio literário que pode dominar a todos os escritores.

    Assunto pesado, complexo, e com tudo para cair em um hermetismo enfadonho, não fosse o fato de que estamos lidando com uma obra de Enrique Vila-Matas. Como disse antes, o autor catalão se vale de uma premissa extraída da crítica literária para fazer ficção, usando a literatura para pensar a própria literatura. O detalhe é que Vila-Matas o faz com humor, irreverência e desrespeito. Ciente de que a literatura é uma impostura e um jogo, mescla autores falsos com outros verdadeiros, atribui obras inexistentes a escritores reais, confundindo e enganando o leitor. E, ao falar do silêncio e dos escritores que abandonam a literatura, acaba fazendo uma das maiores homenagens ao poder da ficção.

    Esse é apenas um dos paradoxos curiosos que o romance (se é que podemos chamar uma obra tão híbrida de romance) contém. O narrador de Bartleby e companhia se apresenta como uma vítima da síndrome de Bartleby, isto é, foi alguém que publicou um livro no passado e depois nunca mais. Porém, ao tratar do tema de escritores que abandonaram a literatura, ele está justamente rompendo o ciclo e escrevendo. Certo, o que o narrador escreve são “notas de rodapé” a um texto invisível, como se a única possibilidade de criação literária nos dias de hoje não passasse de comentários marginais a uma obra maior, inalcançável.

    O livro de Vila-Matas é imprescindível para pensar o fazer literário nos dias de hoje porque diagnostica uma suposta crise e procura uma solução. Para poder falar, é necessário lidar com o silêncio, encará-lo nos olhos. O romance está morto e só nos resta descrever o fim e contemplar o apocalipse. Para o narrador de Vila-Matas, o momento de crise não é paralisante, mas produtivo. É pela encenação do fim da literatura que podemos ressuscitá-la infinitamente.

     

    *Antônio Xerxenesky é autor dos livros A página assombrada por fantasmas
    e Areia nos dentes.

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    Leia também:

    - A literatura do não, por Antonio Tabucchi

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    Clube de Prosa Cosac Naify
    Discussão - Bartleby e companhia, de Enrique Vila-Matas
    Mediação – Emilio Fraia
    26/1, quinta-feira, às 19h30
    Livraria Cultura – Loja Artes – Conjunto Nacional
    Av. Paulista, 2073, São Paulo (SP)
    retirada de senhas a partir das 18h30. 25 lugares