• A repetição como elemento ficcional

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    Aproveitando o aguardado lançamento da segunda edição de O som e a fúria, gostaria de usar esse retorno para comentar um tema caro a Faulkner e à literatura em geral, um tema que é precisamente esse, a repetição. Concluído em 1929, O som e a fúria abre a segunda fase do conjunto de obras de Faulkner, mas, ao mesmo tempo, lida com temas, ambientes e personagens que acompanharão o autor em vários outros livros. O foco deste romance são os Compson, uma família da velha aristocracia sulista que Faulkner captura em quatro partes, dedicadas a datas precisas (7 de abril de 1928, 2 de junho de 1910, 6 de abril de 1928 e 8 de abril de 1928, respectivamente), e um apêndice mais amplo, cobrindo o período de 1699 a 1945.

    Faulkner sempre transitou (ficcionalmente e biograficamente) pelo sul dos Estados Unidos, frequentemente ressaltando seu lado violento, seus conflitos raciais e os ecos traumáticos da Guerra da Secessão, a guerra civil que dividiu o país em dois lados.

    A repetição, portanto, está no centro não só de O som e a fúria, mas de toda a poética de Faulkner, de seu pensamento artístico. Desde o nível mais imediato da repetição de palavras e nomes próprios nas falas por vezes confusas dos personagens (“Caddy, Caddy, Caddy”), passando pela repetição de eventos fixos que são transformados pelas percepções e pontos de vista desses mesmos personagens, até chegar num nível, digamos, “intertextual”, algo exemplificado já pelo título: “o som e a fúria” é a repetição criativa que Faulkner realiza de um verso de um dos solilóquios de Macbeth, peça de Shakespeare, que começa com uma repetição de palavras (“o amanhã, o amanhã, o amanhã”) e termina com a célebre definição: a vida é “uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem sentido algum”.

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    Das inúmeras ocorrências traumáticas vivenciadas por seus personagens, Faulkner dá especial ênfase àquela que é sem dúvida a mais definitiva – a morte. Isso porque a morte é a própria essência da repetição, ela não cessa de acontecer, sendo talvez a única certeza da vida e, ainda assim, sempre surpreende, assusta e imobiliza. A falta de sentido da vida, na citação de Macbeth, é justamente seu fim abrupto, pois essas palavras são proferidas por Macbeth ao saber da morte de sua esposa – e lembremos o que Rei Lear, outro personagem shakespeariano, fala diante do cadáver de Cordélia, sua filha: “nunca, nunca, nunca”.

    A terceira parte de O som e a fúria é narrada por Jason Compson, que deve lidar com a morte do pai por um processo de repetição – ele carrega consigo tanto o nome quanto a função do pai, e essa carga lhe pesa tremendamente, tornando-o cínico e por vezes brutal. Em momentos extremos, a mente perde contato com a função imediata e significativa da linguagem, e as palavras se apresentam apenas como fluxo, ritmo, relatório confuso de uma violência. É esse intervalo entre significação e fluxo que Faulkner tenta elaborar não apenas em O som e a fúria, mas em toda sua obra.

    *Kelvin Falcão Klein é crítico e professor de literatura na Unirio, autor de Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas (Ed. Modelo de Nuvem, 2011). Escreve em falcaoklein.blogspot.com.br

  • Nas ondas de “No Mar”

    Pai e filha saem de barco pelo Mar do Norte, numa viagem de reconhecimento e aproximação. Aos sete anos, Maria está a postos para a aventura da sua vida – ir da Dinamarca à Holanda a bordo de Ishmael, durante dois dias. O pai-capitão é quem narra essa história, misturando passagens de sua vida a relatos da jornada em alto-mar, até que o imprevisível se anuncia: a menina desaparece. Em No Mar, obra de Toine Heijmans, o vaivém do oceano se mistura ao ritmo da narrativa, que é claustrofóbica e urgente.

    Na obra, a vida moderna – cheia de frestas e abismos – parece mais assustadora ao protagonista do que o mar e suas ameaças. A viagem sabática se torna possível quando Donald é afastado por três meses do emprego que manteve nos últimos 15 anos, num momento em que se vê anestesiado pela rotina. “As promoções que eu esperava nunca chegavam”, afirma, resoluto.

    A relação com a esposa também parece ruir, e o narrador sente que a vida em casa se assemelha mais e mais à natureza das reuniões de trabalho – permeada por compromissos e vazios. O peso de existir é, em partes, o subtexto de No Mar. A paternidade é também estampa da história, com Donald reafirmando sua participação na vida de Maria e repensando o papel de pai. A conexão com a filha é, de certa maneira, seu mecanismo de existência.

    O autor está no Brasil para participar do Café Amsterdã. Saiba mais aqui, em reportagem da Folha de S. Paulo.

  • Modernidade ao sul

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    Le Corbusier e Josephine Baker com o Pão de Açúcar ao fundo

    Prestes a completar o cinquentenário de seu falecimento, o arquiteto franco-suíço Le Corbusier continua a dividir opiniões e a ser foco de polêmicas. A mais recente, em torno de suas relações com o fascismo. Tais acusações aparecem em três biografias recém-lançadas na França. A querela já cruzou o oceano e chegou nas páginas da Folha de S.Paulo, em crônica de Ruy Castro, Prestígio boiando.

    Controverso, Le Corbusier era também multifacetado. Além de arquiteto, foi pintor e escreveu mais de quarenta livros. Grande parte de sua obra escrita versa sobre o urbanismo moderno e a crise das cidades. Se em alguns momentos sua prosa assume um caráter doutrinário, em outros revela ao leitor o lirismo dos tempos modernos. Entre estes escritos, talvez o mais sedutor seja Precisões, que registra sua passagem pela América do Sul em 1929.

    Nessa época, Le Corbusier atravessava uma situação adversa em solo europeu. O sucesso obtido no início dos século declinava, mesmo arquitetos modernos viam-no com ressalvas e a crise econômica produzia uma escassez de encomendas. Diante disso, nada mais conveniente do que difundir sua doutrina para uma seleta intelectualidade sul-americana.

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    Vista da cidade do Rio, a partir da entrada da baía da Guanabara, com a proposta de Le Corbusier

    O livro é o testemunho dessa viagem e reúne dez conferências proferidas em Buenos Aires e um “corolário” sobre São Paulo, Rio de Janeiro e Montevidéu. As páginas de Precisões vão muito além do seu racionalismo cartesiano dos anos 20; nelas desponta o viajante disposto a observar, desenhar e a se emocionar com as novas descobertas. Pois, ao final, a América do Sul torna-se uma aventura para Le Corbusier que vê por aqui uma liberdade de ação já impossível no velho continente.

    Nas conferências, introduz elementos que capta no dia-a-dia de sua viagem, como ao descrever o casario típico de Buenos Aires, onde o “fato arquitetônico” existe nas plantas, na disposição dos cômodos, nos terraços e desaparece nas fachadas, cópias do velho ecletismo europeu.

    É a grande escala, porém, que permite a Le Corbusier ver a potencialidade deste continente, “a América é dimensionada pelo avião”. Ao sobrevoar a bacia do Prata, descreve as vastas distâncias, os leitos caudalosos dos rios e seus meandros sinuosos, as planícies sem fim. Em sua narrativa sente-se pequeno, lamenta “como somos velhos em um mundo novo!”, comparando a ocupação do “vasto interior” aos feitos homéricos.

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    Perspectiva aérea da cidade do Rio com a proposta de Le Corbusier

    A natureza – até então um mero pano de fundo em sua arquitetura, um elemento coadjuvante e inerte nos anos 20 – agiganta-se em suas palavras. Não apenas ao falar da baía de Montevidéu, da bacia do Prata e dos pampas, ou então do revelo montanhoso de São Paulo. O verdadeiro deslumbramento ocorre nas passagens sobre o Rio de Janeiro. Lá a natureza aparece como “uma espécie de chama verde desordenada, que paira sobre a cidade (…) e muda de aspecto a cada momento”, um elemento plástico-poético a ser desafiado.

    Aliás, outro ponto alto do livro são as propostas urbanísticas que ele faz para cada uma das cidades visitadas. São proposições feitas da noite para o dia, em imensas folhas de papel, sobre as quais desenha freneticamente com o carvão e gizes coloridos: imagens encantadoramente provocativas. Em todas elas, a cidade, a natureza e o devir urbano se relacionam.

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    Capa original do livro Precisões, com desenho da proposta para Buenos Aires

    Se lido com atenção, Precisões não apenas é uma resposta àqueles que chamam Le Corbusier de autoritário e cartesiano, ou então a seus detratores atuais, mas também é fonte de reflexão sobre uma certa modernidade ao sul que parece permanecer viva a nos instigar, ou como se lê em suas páginas: “é o conceito de vida que se tem de mudar, é a noção de felicidade o que se deve resgatar”.

    * Alexandre Benoit é arquiteto e artista gráfico, mestre pela FAU USP. Edita a revista Contravento e é professor na Escola da Cidade.

  • Clarice Lispector desembarca nos Estados Unidos

    Clarice Lispector, por Claudia Andujar | Cosac Naify

    Editada por Benjamin Moser, a obra completa de Clarice Lispector acaba de chegar aos Estados Unidos. A descoberta da autora rendeu grandes destaques, como a capa da New York Times Book Review e resenhas elogiosas da revista New Yorker e do Los Angeles Review of Books.

    Para comemorar a expansão da pungente obra de Clarice nas Américas, leia abaixo o texto da professora da USP Yudith Rosenbaum, que integra a edição da biografia escrita por Moser, Clarice,:

    “Viver não é vivível”, escreve Clarice Lispector. Para Benjamin Moser, a frase soa como um desafio. Seria possível contar a história de alguém que lutou radicalmente para descobrir “o jeito de ser gente”?

    Mas, assim como Clarice não se rendeu à dificuldade de expressar um real sempre rebelde às suas palavras, seu biógrafo americano não desistiu de compreender a indevassável vida dessa ucraniana, brasileira, nordestina e carioca, estrangeira em toda parte. Ao investigar o mundo perdido das raízes russo-judaicas de Clarice, Moser reconstitui o périplo da família de refugiados da Ucrânia até sua chegada à Maceió de 1922, trazendo o retrato de uma época de miséria, fome e violência.

    A revelação inédita de episódios brutais vividos pela família antes de chegar ao Brasil, bem como a missão falhada da escritora – “salvar a mãe” da invalidez e da morte – fundamentam a tese do livro. O autor vê na obra a incansável busca mística do judaísmo por uma origem enigmática, pela letra oculta de um Deus que a teria abandonado, busca a que ela jamais renunciou. Daí, talvez, sua famosa frase: “Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria”.

    Essa vida “não vivível” ganha um tratamento envolvente e não raro impactante, que enlaça, com fluência, a obra e o cotidiano da “dona de casa que escrevia” a episódios significativos da história do Brasil. Mesmo o leitor já familiarizado com a inquietante personalidade da escritora conhecerá uma Clarice ampliada em seus paradoxos. Para Moser ela escreveu “a maior autobiografia espiritual do século xx”, o que revela o alcance desse estudo original. Ainda que o mistério, o mito e o enigma sigam resistindo aos fatos, este livro, pelo modo corajoso como aborda temas até hoje silenciados, representa um marco indispensável para quem quiser chegar mais perto da vertiginosa essência de Clarice.

    Assista também à aula do professor José Miguel Wisnik sobre chaves de interpretação da obra de Clarice Lispector, publicada pelo Instituto Moreira Salles:

    A Matéria Clarice (José Miguel Wisnik) from mira filmes on Vimeo.

  • #eu amo valter hugo mãe – Turnê pelo Brasil

    Valter Hugo Mãe por Joana Sousa

    Valter Hugo Mãe por Joana Sousa

    Valter Hugo Mãe está chegando para uma turnê pelo Brasil! Durante o mês de agosto, o escritor português participa do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento, passando por Porto Alegre (3/8), Rio de Janeiro (4/8) e São Paulo (8/8). Vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura em 2012, o autor de A máquina de fazer espanhóis é dono de uma prosa vigorosa e cativante. Desde a sua ida à FLIP, conquistou os leitores brasileiros com sua paixão pelas palavras e pelo Brasil.

    Já é fã do autor português? Compartilhe sua leitura com a hashtag #euamovalterhugomãe!

    Leia trechos das obras do autor e confira a agenda da Turnê Valter Hugo Mãe no Brasil:

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    A máquina de fazer espanhóis [leia um trecho do livro]

    António Jorge da Silva é um barbeiro de 84 anos que, depois de perder a mulher, passa a viver num asilo. Sozinho, mas sem sucumbir ao pessimismo, Silva se vê obrigado a investigar novas formas de conduzir sua vida. Ele, que viveu sob o peso da ditadura salazarista, faz também uma dura revisão de seu passado e de toda uma geração.

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    O filho de mil homens 

    O livro narra a história do pescador Crisóstomo, “um homem que chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter tido um filho”. Ao falar de uma aldeia rural e dos sonhos anulados de quem vive nela, o autor atravessa temas como solidão, preconceitos, vontades reprimidas, amor e compaixão.

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    O apocalipse dos trabalhadores 

    Duas empregadas domésticas, Maria da Graça e Quitéria fazem bicos como carpideiras para incrementar o orçamento mensal, e passam madrugadas velando defuntos desconhecidos. Essa experiência entre mortos e a proximidade da finitude fazem com que tenham uma relação particular com a fé e a religião.

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    A desumanização [leia um trecho do livro]

    O romance se passa na paisagem inóspita dos fiordes islandeses. Uma menina de 11 anos nos conta, de maneira muito especial, o que lhe resta depois da morte da irmã gêmea. Um livro feito de delicada melancolia e extrema beleza plástica.

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    O paraíso são os outros
    Obras de Nino Cais

    Valter Hugo Mãe reflete sobre a maneira moderna de se amar tomando como protagonista uma menina intrigada com um estranho comportamento dos animais (e dos humanos): a necessidade de viver em casal. Mas não o faz da forma tradicional, e sim evocando temas como homossexualidade, adoção, lealdade, segundo casamento, felicidade e também solidão.

    Turnê Valter Hugo Mãe no Brasil – Fronteiras do Pensamento

    Dia 3/08 – Porto Alegre
    Fronteiras do Pensamento
    Às 19h45, no Salão de Atos da UFRGS
    Av. Paulo Gama, 110

    Dia 4/08 – Rio de Janeiro
    Ciclo O ato criador
    Às 18h, no Teatro Alcione Araújo da Biblioteca Parque Estadual 
    Avenida Presidente Vargas, 1261

    Dia 8/08 – São Paulo
    Sabatina da Folha de S.Paulo
    Distribuição de senhas com uma hora de antecedência
    Às 14h30, no Teatro Eva Herz

     

  • Mais Maurice Sendak

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    Crianças vivem na fantasia e na realidade; elas vão e voltam facilmente, de uma forma que não lembramos mais como fazer.
    Maurice Sendak

    Este mês, a Cosac Naify apresenta aos leitores brasileiros dois títulos do autor norte-americano Maurice Sendak (1928 – 2012), considerado o pai do livro infantil moderno. Conheça os acréscimos à coleção e não perca os dois eventos de lançamento em São Paulo:

    2 ilustracao de Maurice Sendak

    O aviso na porta de Rosie é um inventivo jogo de faz-de-conta. Durante uma tarde, a pequena Rosie e seus amigos do bairro viram os mais diversos personagens,  nas quais cada um pode ser o que quiser.

    cozinha noturna - ilustracao de Maurice Sendak

    Em Na cozinha noturna, o mestre Sendak nos conta a história de Mickey, um menino que cai de sua cama e vai parar dentro da cozinha noturna, onde padeiros preparam o bolo do café da manhã – e o confundem com o leite.

    Maurice Sendak em quatro links essenciais:

    Faz-de-conta é coisa séria: a editora Vanessa Gonçalves escreve sobre a importância da fantasia na obra de Sendak

    Crianças fazem as melhores críticas: leia no blog da Cosac a transcrição de uma conferência informal do autor

    Uma entrevista de Sendak ilustrada pelo New York Times [em inglês]

    Assista ao documentário Diga-lhes Tudo que Quiser: um retrato de Maurice Sendak

    Lançamentos | Coleção Maurice Sendak

    O aviso na porta de Rosie: lançamento com oficina de faz-de-conta (SP)

    Domingo, 26 de julho, às 15h
    Livraria da Vila | Fradique Coutinho
    Rua Fradique Coutinho, 915
    Vila Madalena

    Na cozinha nourna: lançamento com oficina de culinária  (SP)
    Sábado, 1º de agosto, às 16h
    Livraria Cultura | Shopping Iguatemi

  • O aviso na porta de Rosie: faz-de-conta é coisa séria

    rosie - ilustracao de Maurice Sendak

    Quando Rosie decide encenar um grande musical, ela só precisa de um chapéu de plumas, um vestido elegante e sapatos de salto alto, provavelmente emprestados do guarda-roupa da mãe. Kathy vira Tcha-Tcharu, a dançarina árabe, ao vestir um camisolão e enrolar uma toalha na cabeça. O cenário é o quintal de casa, devidamente equipado com cadeiras dobráveis para acomodar a plateia: as crianças da vizinhança.

    Tudo parece uma grande brincadeira. Mas, analisando a fundo, o faz-de-conta infantil tem uma importância singular no desenvolvimento cognitivo, físico, social e emocional das crianças. “Não estamos brincando. É um espetáculo de verdade”, responde Rosie a um dos colegas ao ser indagada sobre o que estavam fazendo. E, para as crianças, o faz-de-conta é, de fato, coisa séria.

    Assumir papéis pressupõe vivenciar situações imaginárias pautadas pela imitação da realidade: mãe, médica, professora, cantora… No faz-de-conta, as crianças podem ser quem quiserem, já que aprendem a agir em função de um personagem e, a partir dele, vivenciam sentimentos e comportamentos pautados pelas regras sociais que conhecem. Fantasiar é, antes de tudo, uma oportunidade de socialização. E também de encontro com seu próprio mundo.

    Ao brincar, a criança amplia suas possibilidades de se comunicar. É um momento de troca com seus pares (“Vamos perguntar à Rosie o que a gente poderia fazer”), de resolução construtiva de conflitos (“Devolva meu chapéu”, “Não devolvo”), de troca de ideias (“Tenho que ir apagar um incêndio. Vocês querem ir junto?”) e de interação (“Todo mundo quieto”, “Batam palmas, todos, e berrem viva!”).

    Além de desenvolver seu potencial criativo, a brincadeira também permite à criança transformar a função dos objetos da forma que bem entender. Assim, porão pode ser camarim, cobertor vermelho pode ser disfarce, terra pode ser bolo de aniversário, panela pode ser disco voador.

    Conhecido por contar suas histórias sob o ponto de vista da criança, levantando a bandeira da imaginação infantil, Maurice Sendak parece saber muito bem a importância do faz-de-conta e da atividade lúdica para a libertação e a imersão no mundo real: “Crianças vivem na fantasia e na realidade; elas vão e voltam muito facilmente, de uma forma que não lembramos mais como fazer”. Assim, que outro autor seria capaz de transformar suas personagens em bombinhas para uma barulhenta brincadeira de fogos de artifício? “Sou a maior bombinha vermelha do mundo inteiro e lá vou eu! BUMM! BUMM-BUMM-aUISHHHH!”

    E lá vão elas. Fazendo de conta e sendo simplesmente crianças.

    *Vanessa Gonçalves é editora de livros infantojuvenis da Cosac Naify.

  • Cosac Naify na Flip

    A 13ª Festa Literária Internacional de Paraty começa amanhã! Confira a nossa programação e leia trechos de obras dos nossos autores.

    Um dos destaques da Flip deste ano é o argentino Diego Vecchio, novo autor da casa, que vem ao Brasil para lançar Micróbios, celebrada reunião de contos que transita entre o humor e a tragédia, com uma boa dose de nonsense. Para compor a narrativa, Vecchio – hipocondríaco assumido – se inspirou na obra de Samuel Auguste, médico e confidente de Rousseau, A saúde dos homens de letras, no qual tenta demonstrar, através de uma série de casos terríveis, que a literatura é como a masturbação: uma prática que faz mal à saúde. Leia um trecho do livro clicando aqui.

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    De micróbios e soldados

    Diego Vecchio e Saša Stanišić

    Quinta-feira, 2 de julho, às 15h

    Mediação: Joca Reiners Terron

    Livro de cabeceira

    Vecchio e outros autores convidados da Flip 2015 leem trechos de seus livros prediletos

    Domingo, 5 de julho, às 16h

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    Boris Fausto estreia na Flip no segundo dia do evento, e traz as representações literárias dos afetos familiares, do luto e da vida amorosa de O brilho do bronze [um diário] à festa. Leia um trecho do livro.

    Encontro com Boris Fausto

    Sexta-feira, 3 de julho, às 10h

    Mediação: Paulo Roberto Pires

    mora

    A Flipinha, programação infantil da festa, e a FlipZona, voltada aos jovens, contarão com Rita Carelli, coordenadora da coleção Um Dia na Aldeia, e o ilustrador Odilon Moraes, ilustrador de Será o Benedito!, de Mário de Andrade, autor homenageado da Flip deste ano.

    FlipZona

    Quinta-feira, 2 de julho

    Casa da Cultura, às 10h30

    Rita Carelli conversa com o escritor angolano Ondjaki

    Mediação Cristiano Recksziegel

    Flipinha

    Sexta-feira, 3 de julho

    Tenda da Flipinha, às 14h

    O poeta das águas e a menina das histórias

    Rita Carelli
    Tiago Hakiy

    Mediação: Bernadete Passos

    Contar, cantar e ilustrar

    Odilon Moraes
    Alessandra Roscoe
    Adriana Falcão

    Sábado, 4 de julho

    Tenda da Flipinha, às 14h

    Mediação: Anna Cláudia Ramos

  • Pós-Flip na Cosac Naify

    Não vai estar em Paraty? Autores convidados, Boris Fausto e Diego Vecchio participam de eventos em São Paulo logo depois da festa. Marque na agenda a programação da Cosac Naify no pós-Flip:

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    Diego Vecchio no Instituto Cervantes

    Dia 7 de julho, terça-feira, às 19h30

    Mediação: Antônio Xerxenesky

    Instituto Cervantes de São Paulo

    Auditório | Espaço cultural

    Av. Paulista, 2439 – térreo

     

    Boris Fausto - credito Carlos Fausto

     

    Sabatina com Boris Fausto: entrevista com jornalistas da Folha de S.Paulo

    Quarta-feira, 8 de julho, às 19h30

    Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos

    Avenida das Nações Unidas, 4777

  • “Crianças fazem as melhores críticas”: com a palavra, Maurice Sendak

    Credito James Keyser Getty Images

    Este mês, a Cosac Naify lança dois títulos de Maurice Sendak, pai do livro infantil moderno: O aviso na porta de Rosie e Na cozinha noturna. Leia abaixo a transcrição de uma conferência informal do autor norte-americano ministrada na Filadélfia (EUA), em dezembro de 1985, e publicada no livro Caldecott & Co.: Notes on Books and Pictures (Farrar Straus & Giroux, 1989).

    Tradução: Barbara Wagner Mastrobuono

    Tenho pensado ultimamente sobre os monstros – ou fantasias ou o que quer que sejam – que me assustavam quando criança, e que provavelmente me assustaram o suficiente para eu virar artista. Só consigo pensar em alguns. Meus pais, claro. O aspirador de pó, que me assusta até hoje. Minha irmã. Alguns horrores ordinários saídos de filmes, livros, do rádio. O sequestro Lindbergh. E, por fim, a escola, pela qual eu nutria um ódio profundo. Tirando os meus pais – esses monstros ocasionais e involuntários – as coisas que me assustavam eram imprevisíveis, o que mostra que essas pessoas determinadas em saber o que assusta as crianças (me incluo entre elas) na realidade não sabem de nada. Acho que até um psicólogo infantil concordaria comigo.

    O que me interessa é o que as crianças fazem no momento específico de suas vidas em que não há regras ou leis, quando elas desconhecem, emocionalmente, o que se espera delas. Em Onde vivem os monstros, Max fica bravo. O que você faz quando fica bravo? Bem, você é cruel com sua mãe, e depois se arrepende, e daí tudo fica em paz. Provavelmente vai acontecer tudo de novo amanhã, mas a parte problemática para as crianças, com sua lógica primitiva e sua falta de experiência, é passar de um momento crítico para o próximo.

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    No meu livro Na cozinha noturna o problema de Mickey é: o que eu posso fazer pra ficar acordado a noite toda e ter toda a diversão que sempre me foi negada pelos adultos? O fato de ter havido tamanha explosão quando o livro foi lançado, de ele só ter sido aceito em certas bibliotecas depois que alguém pintou fraldas no Mickey pelado, me parece um testemunho cruel de nossas atitudes puritanas. Aparentemente, um menininho que não estava usando seu pijama era mais assustador para algumas pessoas que qualquer monstro que já inventei.

    (…)

    Eu me importo muito com as crianças. E quando digo que não escrevo para elas não significa que não me importe. Em todas as minhas músicas e em meus filmes preferidos eu projeto uma forte nostalgia pela infância, uma relação passional com a infância. A mesma coisa acontece com literatura – de Melville a James, eu sempre pareço conseguir encontrar um subtexto que envolva as crianças. Essas são as reverberações que me afetam e entram no meu trabalho.

    As crianças estão completamente à mercê dos adultos – seus pais, seus irmãos e seus professores. Suponho que hoje em dia haja nas escolas o mesmo tipo de pessoas horrorosas que havia quando eu era criança. Tive o azar de ter diversos professores indiferentes e frios. Mas eu era uma criança muito difícil. Eu odiava a escola. Mesmo quando eu era encorajado a fazer o que eles achavam que eu queria fazer – escrever e pintar – eu não sentia prazer, porque eu estava fazendo aquilo em uma sala de aula. Eu não tinha jeito. Meus pobres pais foram chamados à sala do diretor diversas vezes, e houve muitas ponderações e questionamentos sobre como uma criança aparentemente inteligente conseguia ser tão burra o tempo todo e tão indiferente a respeito do que deveria estar aprendendo.

    Para mim o desafio era ficar vivo até os dezessete anos para conseguir sair da escola. Era só uma questão de contar os anos até lá, quando por lei eu estaria livre. A ideia de fazer faculdade era uma maldição para mim. Era loucura total pensar que alguém pudesse escolher continuar estudando. Então eu escolhi não continuar.

    Nosso aspirador de pó era com certeza o mais excêntrico dos meus terrores da infância. Minha mãe o pegava inocentemente – era um Hoover antigo, do tipo que você liga na tomada para o saco inflar. E, aparentemente, eu também inflava. Me contaram que eu começava a gritar descontroladamente quando via o aspirador, e por isso me levavam para o apartamento vizinho até que minha mãe terminasse de aspirar. Eu me pergunto porque minha mãe nunca comprou um modelo silencioso e compacto. Talvez fosse uma arma muito eficiente.

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    Usei esse medo quando Onde vivem os monstros foi transformado em ópera uns anos atrás. É um livro de apenas 385 palavras que precisava virar uma ópera de no mínimo três quartos de hora. Eu estendi a cena de abertura, na qual Max briga com sua mãe. E, para dar um tom dramático, fiz a mãe entrar com um aspirador. Max fica louco e ataca o aspirador com sua espada. Para minha surpresa, minha fobia de aspirador se tornou um momento significativo de uma ópera.

    (…) Crianças sempre me perguntam de onde veio a ideia dos Monstros. Na verdade eu não sei de onde eles vieram, mas é preciso falar alguma coisa para as crianças. Quando comecei a desenhar as figuras eu parti da iconografia medieval, desenhando grifos e outras criaturas, coisa que me era profundamente insatisfatória. De repente esses personagens começaram a aparecer, e, surpreendentemente, eram pessoas que eu conhecia.

    Acho que era a lembrança de domingos terríveis no Brooklyn nos quais minha irmã, meu irmão e eu tínhamos que nos arrumar para tios e tias que vinham nos visitar, nenhum dos quais eu realmente gostava. Eu não era uma criança graciosa ou generosa, já que eu me ressentia deles por virem comer a nossa comida. Eu nunca concordei, nem por um instante, que eles deveriam comer a nossa comida, ou que a gente devia dividi-la. E eu odiava o fato de a minha mãe ser uma cozinheira muito lenta, nos forçando a passar o que parecia uma eternidade na sala com pessoas que odiávamos.

    Em outras palavras, éramos crianças. E o único alívio de sentar e ouvir ao “como você cresceu” nocivo dos parentes era examiná-los criticamente e notar cada pinta, cada olho vermelho, cada pelo escapando das narinas, cada dente preto. Eu vivia com medo de que, se a minha mãe cozinhasse muito devagar, eles se inclinariam para frente, apertariam minha bochecha e diriam “Vocês parece tão gostosos, bem que a gente podia comer vocês”. E, de fato, não havia dúvida para nós de que eles o fariam. Eles comiam tudo que viam pela frente. Então, no fim das contas, parece que os monstros são aqueles tios e tias. Que descansem em paz.

    Apesar de eu não escrever para crianças, descobri há muito tempo que elas são a melhor audiência. Elas certamente fazem as melhores críticas. São mais honestas e diretas que críticos profissionais. Claro, qualquer pessoa é. Mas quando crianças gostam do seu livro, dizem: “Eu amo o seu livro, obrigado, eu quero casar com você quando eu crescer”. Ou: “Querido senhor Sendak: eu odeio o seu livro. Espero que você morra logo. Cordialmente”.