• #eu amo valter hugo mãe – Turnê pelo Brasil

    Valter Hugo Mãe por Joana Sousa

    Valter Hugo Mãe por Joana Sousa

    Valter Hugo Mãe está chegando para uma turnê pelo Brasil! Durante o mês de agosto, o escritor português participa do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento, passando por Porto Alegre (3/8), Rio de Janeiro (4/8) e São Paulo (8/8). Vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura em 2012, o autor de A máquina de fazer espanhóis é dono de uma prosa vigorosa e cativante. Desde a sua ida à FLIP, conquistou os leitores brasileiros com sua paixão pelas palavras e pelo Brasil.

    Já é fã do autor português? Compartilhe sua leitura com a hashtag #euamovalterhugomãe!

    Leia trechos das obras do autor e confira a agenda da Turnê Valter Hugo Mãe no Brasil:

    maquina-de-fazer-espanhois

    A máquina de fazer espanhóis [leia um trecho do livro]

    António Jorge da Silva é um barbeiro de 84 anos que, depois de perder a mulher, passa a viver num asilo. Sozinho, mas sem sucumbir ao pessimismo, Silva se vê obrigado a investigar novas formas de conduzir sua vida. Ele, que viveu sob o peso da ditadura salazarista, faz também uma dura revisão de seu passado e de toda uma geração.

    filho-de-mil-homens_o

    O filho de mil homens 

    O livro narra a história do pescador Crisóstomo, “um homem que chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter tido um filho”. Ao falar de uma aldeia rural e dos sonhos anulados de quem vive nela, o autor atravessa temas como solidão, preconceitos, vontades reprimidas, amor e compaixão.

    apocalipse-dos-trabalhadores

    O apocalipse dos trabalhadores 

    Duas empregadas domésticas, Maria da Graça e Quitéria fazem bicos como carpideiras para incrementar o orçamento mensal, e passam madrugadas velando defuntos desconhecidos. Essa experiência entre mortos e a proximidade da finitude fazem com que tenham uma relação particular com a fé e a religião.

    desumanizacao

    A desumanização [leia um trecho do livro]

    O romance se passa na paisagem inóspita dos fiordes islandeses. Uma menina de 11 anos nos conta, de maneira muito especial, o que lhe resta depois da morte da irmã gêmea. Um livro feito de delicada melancolia e extrema beleza plástica.

    paraiso-sao-os-outros_o

    O paraíso são os outros
    Obras de Nino Cais

    Valter Hugo Mãe reflete sobre a maneira moderna de se amar tomando como protagonista uma menina intrigada com um estranho comportamento dos animais (e dos humanos): a necessidade de viver em casal. Mas não o faz da forma tradicional, e sim evocando temas como homossexualidade, adoção, lealdade, segundo casamento, felicidade e também solidão.

    Turnê Valter Hugo Mãe no Brasil – Fronteiras do Pensamento

    Dia 3/08 – Porto Alegre
    Fronteiras do Pensamento
    Às 19h45, no Salão de Atos da UFRGS
    Av. Paulo Gama, 110

    Dia 4/08 – Rio de Janeiro
    Ciclo O ato criador
    Às 18h, no Teatro Alcione Araújo da Biblioteca Parque Estadual 
    Avenida Presidente Vargas, 1261

    Dia 8/08 – São Paulo

  • Mais Maurice Sendak

    ilst-Maurice-Sendak

    Crianças vivem na fantasia e na realidade; elas vão e voltam facilmente, de uma forma que não lembramos mais como fazer.
    Maurice Sendak

    Este mês, a Cosac Naify apresenta aos leitores brasileiros dois títulos do autor norte-americano Maurice Sendak (1928 – 2012), considerado o pai do livro infantil moderno. Conheça os acréscimos à coleção e não perca os dois eventos de lançamento em São Paulo:

    2 ilustracao de Maurice Sendak

    O aviso na porta de Rosie é um inventivo jogo de faz-de-conta. Durante uma tarde, a pequena Rosie e seus amigos do bairro viram os mais diversos personagens,  nas quais cada um pode ser o que quiser.

    cozinha noturna - ilustracao de Maurice Sendak

    Em Na cozinha noturna, o mestre Sendak nos conta a história de Mickey, um menino que cai de sua cama e vai parar dentro da cozinha noturna, onde padeiros preparam o bolo do café da manhã – e o confundem com o leite.

    Maurice Sendak em quatro links essenciais:

    Faz-de-conta é coisa séria: a editora Vanessa Gonçalves escreve sobre a importância da fantasia na obra de Sendak

    Crianças fazem as melhores críticas: leia no blog da Cosac a transcrição de uma conferência informal do autor

    Uma entrevista de Sendak ilustrada pelo New York Times [em inglês]

    Assista ao documentário Diga-lhes Tudo que Quiser: um retrato de Maurice Sendak

    Lançamentos | Coleção Maurice Sendak

    O aviso na porta de Rosie: lançamento com oficina de faz-de-conta (SP)

    Domingo, 26 de julho, às 15h
    Livraria da Vila | Fradique Coutinho
    Rua Fradique Coutinho, 915
    Vila Madalena

    Na cozinha nourna: lançamento com oficina de culinária  (SP)
    Sábado, 1º de agosto, às 16h
    Livraria Cultura | Shopping Iguatemi

  • O aviso na porta de Rosie: faz-de-conta é coisa séria

    rosie - ilustracao de Maurice Sendak

    Quando Rosie decide encenar um grande musical, ela só precisa de um chapéu de plumas, um vestido elegante e sapatos de salto alto, provavelmente emprestados do guarda-roupa da mãe. Kathy vira Tcha-Tcharu, a dançarina árabe, ao vestir um camisolão e enrolar uma toalha na cabeça. O cenário é o quintal de casa, devidamente equipado com cadeiras dobráveis para acomodar a plateia: as crianças da vizinhança.

    Tudo parece uma grande brincadeira. Mas, analisando a fundo, o faz-de-conta infantil tem uma importância singular no desenvolvimento cognitivo, físico, social e emocional das crianças. “Não estamos brincando. É um espetáculo de verdade”, responde Rosie a um dos colegas ao ser indagada sobre o que estavam fazendo. E, para as crianças, o faz-de-conta é, de fato, coisa séria.

    Assumir papéis pressupõe vivenciar situações imaginárias pautadas pela imitação da realidade: mãe, médica, professora, cantora… No faz-de-conta, as crianças podem ser quem quiserem, já que aprendem a agir em função de um personagem e, a partir dele, vivenciam sentimentos e comportamentos pautados pelas regras sociais que conhecem. Fantasiar é, antes de tudo, uma oportunidade de socialização. E também de encontro com seu próprio mundo.

    Ao brincar, a criança amplia suas possibilidades de se comunicar. É um momento de troca com seus pares (“Vamos perguntar à Rosie o que a gente poderia fazer”), de resolução construtiva de conflitos (“Devolva meu chapéu”, “Não devolvo”), de troca de ideias (“Tenho que ir apagar um incêndio. Vocês querem ir junto?”) e de interação (“Todo mundo quieto”, “Batam palmas, todos, e berrem viva!”).

    Além de desenvolver seu potencial criativo, a brincadeira também permite à criança transformar a função dos objetos da forma que bem entender. Assim, porão pode ser camarim, cobertor vermelho pode ser disfarce, terra pode ser bolo de aniversário, panela pode ser disco voador.

    Conhecido por contar suas histórias sob o ponto de vista da criança, levantando a bandeira da imaginação infantil, Maurice Sendak parece saber muito bem a importância do faz-de-conta e da atividade lúdica para a libertação e a imersão no mundo real: “Crianças vivem na fantasia e na realidade; elas vão e voltam muito facilmente, de uma forma que não lembramos mais como fazer”. Assim, que outro autor seria capaz de transformar suas personagens em bombinhas para uma barulhenta brincadeira de fogos de artifício? “Sou a maior bombinha vermelha do mundo inteiro e lá vou eu! BUMM! BUMM-BUMM-aUISHHHH!”

    E lá vão elas. Fazendo de conta e sendo simplesmente crianças.

    *Vanessa Gonçalves é editora de livros infantojuvenis da Cosac Naify.

  • Cosac Naify na Flip

    A 13ª Festa Literária Internacional de Paraty começa amanhã! Confira a nossa programação e leia trechos de obras dos nossos autores.

    Um dos destaques da Flip deste ano é o argentino Diego Vecchio, novo autor da casa, que vem ao Brasil para lançar Micróbios, celebrada reunião de contos que transita entre o humor e a tragédia, com uma boa dose de nonsense. Para compor a narrativa, Vecchio – hipocondríaco assumido – se inspirou na obra de Samuel Auguste, médico e confidente de Rousseau, A saúde dos homens de letras, no qual tenta demonstrar, através de uma série de casos terríveis, que a literatura é como a masturbação: uma prática que faz mal à saúde. Leia um trecho do livro clicando aqui.

    velho

    De micróbios e soldados

    Diego Vecchio e Saša Stanišić

    Quinta-feira, 2 de julho, às 15h

    Mediação: Joca Reiners Terron

    Livro de cabeceira

    Vecchio e outros autores convidados da Flip 2015 leem trechos de seus livros prediletos

    Domingo, 5 de julho, às 16h

    bobos

    Boris Fausto estreia na Flip no segundo dia do evento, e traz as representações literárias dos afetos familiares, do luto e da vida amorosa de O brilho do bronze [um diário] à festa. Leia um trecho do livro.

    Encontro com Boris Fausto

    Sexta-feira, 3 de julho, às 10h

    Mediação: Paulo Roberto Pires

    mora

    A Flipinha, programação infantil da festa, e a FlipZona, voltada aos jovens, contarão com Rita Carelli, coordenadora da coleção Um Dia na Aldeia, e o ilustrador Odilon Moraes, ilustrador de Será o Benedito!, de Mário de Andrade, autor homenageado da Flip deste ano.

    FlipZona

    Quinta-feira, 2 de julho

    Casa da Cultura, às 10h30

    Rita Carelli conversa com o escritor angolano Ondjaki

    Mediação Cristiano Recksziegel

    Flipinha

    Sexta-feira, 3 de julho

    Tenda da Flipinha, às 14h

    O poeta das águas e a menina das histórias

    Rita Carelli
    Tiago Hakiy

    Mediação: Bernadete Passos

    Contar, cantar e ilustrar

    Odilon Moraes
    Alessandra Roscoe
    Adriana Falcão

    Sábado, 4 de julho

    Tenda da Flipinha, às 14h

    Mediação: Anna Cláudia Ramos

  • Pós-Flip na Cosac Naify

    Não vai estar em Paraty? Autores convidados, Boris Fausto e Diego Vecchio participam de eventos em São Paulo logo depois da festa. Marque na agenda a programação da Cosac Naify no pós-Flip:

    microbios convite

     

    Diego Vecchio no Instituto Cervantes

    Dia 7 de julho, terça-feira, às 19h30

    Mediação: Antônio Xerxenesky

    Instituto Cervantes de São Paulo

    Auditório | Espaço cultural

    Av. Paulista, 2439 – térreo

     

    Boris Fausto - credito Carlos Fausto

     

    Sabatina com Boris Fausto: entrevista com jornalistas da Folha de S.Paulo

    Quarta-feira, 8 de julho, às 19h30

    Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos

    Avenida das Nações Unidas, 4777

  • “Crianças fazem as melhores críticas”: com a palavra, Maurice Sendak

    Credito James Keyser Getty Images

    Este mês, a Cosac Naify lança dois títulos de Maurice Sendak, pai do livro infantil moderno: O aviso na porta de Rosie e Na cozinha noturna. Leia abaixo a transcrição de uma conferência informal do autor norte-americano ministrada na Filadélfia (EUA), em dezembro de 1985, e publicada no livro Caldecott & Co.: Notes on Books and Pictures (Farrar Straus & Giroux, 1989).

    Tradução: Barbara Wagner Mastrobuono

    Tenho pensado ultimamente sobre os monstros – ou fantasias ou o que quer que sejam – que me assustavam quando criança, e que provavelmente me assustaram o suficiente para eu virar artista. Só consigo pensar em alguns. Meus pais, claro. O aspirador de pó, que me assusta até hoje. Minha irmã. Alguns horrores ordinários saídos de filmes, livros, do rádio. O sequestro Lindbergh. E, por fim, a escola, pela qual eu nutria um ódio profundo. Tirando os meus pais – esses monstros ocasionais e involuntários – as coisas que me assustavam eram imprevisíveis, o que mostra que essas pessoas determinadas em saber o que assusta as crianças (me incluo entre elas) na realidade não sabem de nada. Acho que até um psicólogo infantil concordaria comigo.

    O que me interessa é o que as crianças fazem no momento específico de suas vidas em que não há regras ou leis, quando elas desconhecem, emocionalmente, o que se espera delas. Em Onde vivem os monstros, Max fica bravo. O que você faz quando fica bravo? Bem, você é cruel com sua mãe, e depois se arrepende, e daí tudo fica em paz. Provavelmente vai acontecer tudo de novo amanhã, mas a parte problemática para as crianças, com sua lógica primitiva e sua falta de experiência, é passar de um momento crítico para o próximo.

    sendak_banner_home

    No meu livro Na cozinha noturna o problema de Mickey é: o que eu posso fazer pra ficar acordado a noite toda e ter toda a diversão que sempre me foi negada pelos adultos? O fato de ter havido tamanha explosão quando o livro foi lançado, de ele só ter sido aceito em certas bibliotecas depois que alguém pintou fraldas no Mickey pelado, me parece um testemunho cruel de nossas atitudes puritanas. Aparentemente, um menininho que não estava usando seu pijama era mais assustador para algumas pessoas que qualquer monstro que já inventei.

    (…)

    Eu me importo muito com as crianças. E quando digo que não escrevo para elas não significa que não me importe. Em todas as minhas músicas e em meus filmes preferidos eu projeto uma forte nostalgia pela infância, uma relação passional com a infância. A mesma coisa acontece com literatura – de Melville a James, eu sempre pareço conseguir encontrar um subtexto que envolva as crianças. Essas são as reverberações que me afetam e entram no meu trabalho.

    As crianças estão completamente à mercê dos adultos – seus pais, seus irmãos e seus professores. Suponho que hoje em dia haja nas escolas o mesmo tipo de pessoas horrorosas que havia quando eu era criança. Tive o azar de ter diversos professores indiferentes e frios. Mas eu era uma criança muito difícil. Eu odiava a escola. Mesmo quando eu era encorajado a fazer o que eles achavam que eu queria fazer – escrever e pintar – eu não sentia prazer, porque eu estava fazendo aquilo em uma sala de aula. Eu não tinha jeito. Meus pobres pais foram chamados à sala do diretor diversas vezes, e houve muitas ponderações e questionamentos sobre como uma criança aparentemente inteligente conseguia ser tão burra o tempo todo e tão indiferente a respeito do que deveria estar aprendendo.

    Para mim o desafio era ficar vivo até os dezessete anos para conseguir sair da escola. Era só uma questão de contar os anos até lá, quando por lei eu estaria livre. A ideia de fazer faculdade era uma maldição para mim. Era loucura total pensar que alguém pudesse escolher continuar estudando. Então eu escolhi não continuar.

    Nosso aspirador de pó era com certeza o mais excêntrico dos meus terrores da infância. Minha mãe o pegava inocentemente – era um Hoover antigo, do tipo que você liga na tomada para o saco inflar. E, aparentemente, eu também inflava. Me contaram que eu começava a gritar descontroladamente quando via o aspirador, e por isso me levavam para o apartamento vizinho até que minha mãe terminasse de aspirar. Eu me pergunto porque minha mãe nunca comprou um modelo silencioso e compacto. Talvez fosse uma arma muito eficiente.

    imag_pg06

    Usei esse medo quando Onde vivem os monstros foi transformado em ópera uns anos atrás. É um livro de apenas 385 palavras que precisava virar uma ópera de no mínimo três quartos de hora. Eu estendi a cena de abertura, na qual Max briga com sua mãe. E, para dar um tom dramático, fiz a mãe entrar com um aspirador. Max fica louco e ataca o aspirador com sua espada. Para minha surpresa, minha fobia de aspirador se tornou um momento significativo de uma ópera.

    (…) Crianças sempre me perguntam de onde veio a ideia dos Monstros. Na verdade eu não sei de onde eles vieram, mas é preciso falar alguma coisa para as crianças. Quando comecei a desenhar as figuras eu parti da iconografia medieval, desenhando grifos e outras criaturas, coisa que me era profundamente insatisfatória. De repente esses personagens começaram a aparecer, e, surpreendentemente, eram pessoas que eu conhecia.

    Acho que era a lembrança de domingos terríveis no Brooklyn nos quais minha irmã, meu irmão e eu tínhamos que nos arrumar para tios e tias que vinham nos visitar, nenhum dos quais eu realmente gostava. Eu não era uma criança graciosa ou generosa, já que eu me ressentia deles por virem comer a nossa comida. Eu nunca concordei, nem por um instante, que eles deveriam comer a nossa comida, ou que a gente devia dividi-la. E eu odiava o fato de a minha mãe ser uma cozinheira muito lenta, nos forçando a passar o que parecia uma eternidade na sala com pessoas que odiávamos.

    Em outras palavras, éramos crianças. E o único alívio de sentar e ouvir ao “como você cresceu” nocivo dos parentes era examiná-los criticamente e notar cada pinta, cada olho vermelho, cada pelo escapando das narinas, cada dente preto. Eu vivia com medo de que, se a minha mãe cozinhasse muito devagar, eles se inclinariam para frente, apertariam minha bochecha e diriam “Vocês parece tão gostosos, bem que a gente podia comer vocês”. E, de fato, não havia dúvida para nós de que eles o fariam. Eles comiam tudo que viam pela frente. Então, no fim das contas, parece que os monstros são aqueles tios e tias. Que descansem em paz.

    Apesar de eu não escrever para crianças, descobri há muito tempo que elas são a melhor audiência. Elas certamente fazem as melhores críticas. São mais honestas e diretas que críticos profissionais. Claro, qualquer pessoa é. Mas quando crianças gostam do seu livro, dizem: “Eu amo o seu livro, obrigado, eu quero casar com você quando eu crescer”. Ou: “Querido senhor Sendak: eu odeio o seu livro. Espero que você morra logo. Cordialmente”.

  • Meu avô Artigas

    Até o dia 9 de agosto, o Itaú Cultural promove a Ocupação Vilanova Artigas, que festeja o centenário do célebre arquiteto, responsável pelos projetos do estádio do Morumbi e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). A Cosac Naify publicou dois títulos sobre o arquiteto paranaense, Caminhos da arquitetura (1999) e Vilanova Artigas (2000)

    artigas 1

    Da esquerda para a direita: Reginaldo Artigas (com Marco no colo), Vilanova Artigas, Virginia Artigas e Laura Artigas. Crédito: Arquivo pessoal – Família Artigas Forti

    Esta fotografia é a única que tenho com meu avô, o arquiteto Vilanova Artigas (1915-1985). Ele faleceu pouco tempo depois, quando eu tinha dois anos, e então minhas chances de conhecê-lo melhor foram interrompidas.

    Posso dizer que “descambei” para o mundo da arquitetura para me aproximar dele. De forma alguma foi uma obrigação, mas as casas do Campo Belo, onde brincava com meus primos e com a minha avó Virgínia; a FAU-USP, que visitava quando ia com meu pai andar de bicicleta pela USP; o Anhembi Tênis Clube, onde joguei futebol durante a infância, e outros tantos espaços desenhados por ele foram me encantando.

    Pilar Anhembi Tenis Clube2

    Desenho técnico – pilar do Anhembi Tênis Clube

    No Anhembi, por exemplo, os pilares despertavam a curiosidade da molecada:  subíamos por dentro deles e chegávamos, sem que ninguém visse, à cobertura única, e de lá conseguíamos ver os domos que iluminavam o espaço que abriga todo o clube. Sabíamos localizar, lá de cima, todas as áreas – inclusive o vestiário feminino.

    Nelson Kon-Casinha2

    A casinha (Crédito: Nelson Kon)

    A casinha tem escala ideal para uma criança: o pé direito baixo, inspirado na arquitetura de Frank Lloyd Wright (que só fui saber quem era muito tempo depois), tornava aquele lugar palpável. Eventualmente, os primos dormiam juntos lá, como se fosse uma casa de brinquedo, distante da casa dos adultos.

    Nelson Kon-Casa Vilanova Artigas2

    Casa Vilanova Artigas (Crédito: Nelson Kon)

    Na segunda casa de Artigas, que para mim, na época, era a casa da minha avó, tínhamos uma liberdade indescritível: enquanto brincávamos no terraço ou no jardim, os adultos conversavam na sala e os grandes panos de vidro possibilitavam a vigilância amorosa. Na casa, a vida familiar era feita de atividades que se completavam.

    Já o edifício da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Usp (FAU-USP) era bem mais complexo e um pouco intimidador. Sempre tive enorme respeito por ele, uma sensação semelhante à que tinha quando entrava em igrejas. Nestas, o que me intimidava mais eram as imagens sacras, o silêncio e seu eco. Na FAU, me sentia muito pequeno diante de um espaço que não entendia plenamente, embora as rampas e o salão caramelo fossem os melhores lugares do mundo para uma criança correr.

    Jose Moscardi 2

    A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (Crédito: José Moscardi)

    Outro lugar que me deixava entusiasmado era o escritório, no quinto andar do prédio do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-SP). Ficava encantado com transferidores, compassos, réguas e intermináveis lápis de cor. Era perfeito para passar a tarde desenhando enquanto esperava meus pais, ou meu tio Júlio, acabarem o expediente. No escritório também estavam os móbiles, os barcos de papel e muitos desenhos feitos por meu avô nas horas livres. Tudo convivia, como pretendemos mostrar na Ocupação Vilanova Artigas, que estará em cartaz no Instituto Cultural Itaú durante o mês de julho. O lado apolíneo e o dionisíaco (técnica e arte) precisavam estar em equilíbrio para chegar à boa arquitetura, como disse meu avô em várias ocasiões. Eu, ainda pequeno, desfrutava mais das festas de Dionísio, mas já começava a reverenciar a razão.

    Os desenhos, Artigas fazia para si como passatempo e como diversão para os netos. Criava a estrutura e nós a bombardeávamos com canetões, giz de cera ou qualquer artefato colorido que estivesse por perto. Para as comemorações de seu centenário, esses desenhos se transformaram no livro infantil A mão livre do vovô, com narrativa escrita por Michel Gorski e Silvia Zatz.

    As tênues memórias de infância e essa imersão inconsciente na obra de Artigas despertaram meu interesse pela arquitetura  em momento algum cogitei outra profissão. Os questionamentos só começaram depois. Na faculdade, algumas comparações inevitáveis entre avô e neto eram recorrentes e me incomodavam. Preferi estudar outros grandes arquitetos, buscar minha própria linguagem, embora a presença de Artigas estivesse por perto o tempo todo. Em meu último ano de arquitetura na Escola da Cidade, enfrentei o livro Caminhos da Arquitetura (Cosac Naify) e resolvi a insegurança que antes surgia com as comparações que, ainda hoje, considero injustas e nada artiguianas.

    Desenho de Vilanova Artigas

    Desenho de Vilanova Artigas

    Ao mesmo tempo eu podia perceber o afeto e o respeito que os amigos do meu avô tinham para com ele. Ainda hoje, todos fazem questão de me contar alguma história que passaram juntos. Com esses pedaços fui construindo minha memória com ele, sobre ele. Laura, minha irmã, também escreveu suas memórias no emocionante documentário Vilanova Artigas: O arquiteto e a luz, que poderá ser visto nos cinemas a partir do dia 25 de junho.

    Os festejos do seu centenário aprofundaram essa aproximação. Minha mãe, Rosa, começou a pesquisa e montou a estrutura para todas as homenagens. Entrei com ela no livro de obras, ajudei na pesquisa dos desenhos e dos projetos, para que todos possam entender, como nós, a história da produção de Artigas por meio de sua principal linguagem: o desenho. O site (www.vilanovaartigas.com) está lá, com parte do material de acervo disponível, e com o tempo receberá tudo que pudermos tornar acessível ao público, para que Vilanova Artigas continue nos surpreendendo, como surpreendeu sua geração e outras que seguiram, ensinando e cativando com desenhos, palavras e desejos de um país melhor.

    Ao me aproximar do meu avô, consegui entender sua angústia ao ensinar os mais jovens. Compreendi que, na vida, as coisas devem ser planejadas, como ele propunha, refletidas e construídas a longo prazo – ainda que nossa cultura, um tanto imediatista e precipitada, seja avessa a essa maneira de pensar.

    Hoje, posso falar que conheço Vilanova Artigas e tenho muito orgulho de poder chamá-lo de avô.

     * Marco Artigas é arquiteto formado pela Escola da Cidade e pós-graduado pela Universitat Politècnica de Catalunya (Barcelona). Já colaborou em projetos de Paulo Mendes da Rocha e João Filgueiras Lima (Lelé). Atualmente trabalha no seu próprio estúdio, desenvolvendo projetos de arquitetura e urbanismo.

  • A literatura antibiótica de Diego Vecchio segundo Mathieu Lindon

    Destaque da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty – deste ano, o argentino Diego Vecchio, novo autor da casa, vem ao Brasil para lançar Micróbios, reunião de contos que transita entre o humor e a tragédia, com uma boa dose de nonsense. Leia um texto de apresentação assinado pelo escritor e jornalista francês Mathieu Lindon, que faz parte da nossa edição de Micróbios.

    photo1 (14)

    O Blog da Cosac Naify adverte: o livro apresenta risco de contágio literário. Manuseie sem cuidado

    “Na complicada história das relações entre ciência e literatura, Micróbios, do argentino Diego Vecchio, é um acontecimento. Conhecemos escritores médicos, como Tchekhov e Céline, mas eis a questão: como curar-se pela literatura? Não psiquicamente, mas organicamente, digo.

    Com uma erudição bem-humorada e uma imaginação tão fantástica quanto rigorosa, os nove contos apresentam casos clínicos raros. Cada história traz uma enfermidade sofrida em diferentes regiões do planeta, de modo a alcançar uma ironia universal que não deixa nenhuma literatura de pé: nem a escandinava, nem a russa, nem a norte-americana, nem a japonesa, nem a argentina…

    A jocosidade inventiva mantém-se firme ao longo de todo o livro, numa reconstrução do mundo efetuada apenas por meio da medicina e da literatura, de onde todo o resto deságua. E, apesar do caráter bastante desagradável dos eventos físicos, a diversão é um aspecto incontornável.

    Em “A dama das tosses”, que abre o volume, a sra. Kristensen conta fabulações tão eficazes para fazer seus filhos dormirem que, pouco a pouco, ela se torna uma famosa autora de relatos cuja leitura visa à cura: Histórias para crianças com otite aguda purulenta, Histórias para crianças com difteria, Histórias para crianças com sarampo. “Tamanho frenesi de produção, como era de se esperar, acabou esgotando seu sistema imunológico. [...] Para que seus dedos não congelassem, a sra. Kristensen passara horas demais escrevendo ao lado da fornalha acesa, respirando um ar vi – ciado pelo anidrido carbônico exalado pela fornalha e por um corpo ao escrever, gastando setenta e quatro calorias por linha”.

    Ao escrever, é a saúde física da personagem que está sendo colocada em jogo. Na aventura da escrita, é justamente deste lugar comum – a literatura como cura – que o autor não pode sair são e salvo.”

    Mathieu Lindon é escritor e crítico literário francês, e trabalha há muitos anos no jornal Libération. É autor de dezenove romances, entre eles O que amar quer dizer, publicado pela Cosac Naify em 2014.

  • Qual é o jogo de “Alice através do espelho”?

    alice

    Resultado do sorteio: o vencedor da promoção é João Pedro Souza Matos. Agradecemos a participação! A caixa Alice + Alice está disponível em nossa loja virtual.

    Para comemorar o lançamento da Caixa Alice + Alice, vamos sortear um exemplar aos leitores do blog.

    Alice através do espelho, a continuação da saga da menina mais famosa da literatura infantil, acaba de ser lançada em edição caprichada, com tradução inédita de Alexandre Barbosa de Souza, ilustrações de Rosângela Rennó e texto de Virginia Woolf. O livro faz parte da Caixa Alice + Alice, nossa edição comemorativa dos 150 anos da obra de Lewis Carroll, que inclui também a edição de Alice no País das Maravilhas ilustrada por Luiz Zerbini, publicada pela Cosac Naify em 2009.

    No primeiro livro, Alice é ordenada a jogar uma partida de críquete com a Rainha de Copas e o resto dos seus súditos. Qual é o jogo de Alice através do espelho? Para concorrer, deixe sua resposta neste post até o dia 12 de junho. O vencedor será anunciado no dia 15 de junho aqui no blog. Participe!

  • Leitores entrevistam Alejandro Zambra

    Na semana passada, através do Facebook e Instagram, convidamos os leitores a enviarem suas perguntas para o chileno Alejandro Zambra, que lança seu quarto livro pela Cosac Naify, a coletânea de contos Meus documentos. Foi uma tarefa difícil, mas selecionamos as quatro melhores e Zambra já as respondeu. Parabéns, Renata, Reginaldo, Pedro e Evandro! Em breve um exemplar do lançamento chegará à casa de vocês. Abaixo, a entrevista*:

    [Renata Assumpção] Zambra, como foi o processo de seleção dos contos que fazem parte do livro?

    Meus-documentos_capa

     

    [Alejandro Zambra] Oi, Renata. Meus documentos começou como uma reunião de contos, embora nenhum deles fosse um conto no sentido tradicional, e terminou como um livro de relatos ou – melhor dizê-lo assim – como um livro, apenas. Acho que se formatou como livro quando encontrei o título. Tinha algo em torno de 25 contos, mas fui ficando com esses 11; queria que fossem como 11 filhos, todos ligeiramente parecidos e diferentes ao mesmo tempo. Cortei contos de que gosto muito, como “Fantasia”, e, ao final, incluí textos recentes, que escrevi quase de forma simultânea ao longo de 2011 e 2012. Somente dois dos relatos tinham versões anteriores, mas as versões atuais são bastante recentes.

    [Reginaldo Cruz] Quem e o que você encontra, quem e o que você perde quando escreve seus livros?

    [AZ] Cada caso é diferente do outro. Com Meus documentos acho que encontrei vários escritores que sou ou que penso ser. Adoro essa polifonia, e nesse livro estão todos os tons que me interessa explorar. Os romances talvez desenhem para mim um só rosto apenas; já esse livro é de vários escritores que se parecem.

    zambra
    [@mr.pedrotario] Caro Zambra, sempre que termino a leitura de seus livros, fica um sentimento de “quero mais” impregnado em mim. Você pretende escrever um romance longo, um calhamaço?

    [AZ] Olá! Não tenho uma preferência pelas formas breves, realmente; gosto dos tijolos, mas, na verdade, nunca penso muito em quão longo ou curto vai ficar um livro. Agora estou embarcando em algo que está ficando assim, bem longo, mas quem sabe, depois, me dá na telha podar um pouco…

    [Evandro Cruz] Zambra, como é seu processo para definir que um livro “acabou”, ou seja, que ele está pronto para enviar para a revisão, que a história não avançará dali?

    [AZ] Nossa, não sei dizer. O primeiro sinal é quando percebo que estou escrevendo um texto “publicável”. Há coisas que escrevi e que me agradam, mas que não publicaria; eu as escrevi para mim. E há outras que imediatamente me parecem comunicáveis, como se o próprio texto pedisse para sair. E um pouco, também, porque quero que deixe de me pertencer. Também por isso publico, para deixar para trás. Nos processos seguintes, sou tão obcecado que me torno caricato. Faço correções até que a editora se enche e para de me responder os emails, e manda tudo para a gráfica. Mas uma vez o texto impresso, já me esqueço dele. Minha primeira sensação, quando recebo um livro meu impresso, é “já não poderei escrevê-lo nunca mais”. Mas depois me tranquilizo e começo outra coisa.

    Pela Cosac Naify, além de Meus documentos (2015), o autor publicou Bonsai (2012), A vida privada das árvores (2013) e Formas de voltar para casa (2014).

    * tradução de Livia Deorsola