• Cosac Naify na Flip

    A 13ª Festa Literária Internacional de Paraty começa amanhã! Confira a nossa programação e leia trechos de obras dos nossos autores.

    Um dos destaques da Flip deste ano é o argentino Diego Vecchio, novo autor da casa, que vem ao Brasil para lançar Micróbios, celebrada reunião de contos que transita entre o humor e a tragédia, com uma boa dose de nonsense. Para compor a narrativa, Vecchio – hipocondríaco assumido – se inspirou na obra de Samuel Auguste, médico e confidente de Rousseau, A saúde dos homens de letras, no qual tenta demonstrar, através de uma série de casos terríveis, que a literatura é como a masturbação: uma prática que faz mal à saúde. Leia um trecho do livro clicando aqui.

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    De micróbios e soldados

    Diego Vecchio e Saša Stanišić

    Quinta-feira, 2 de julho, às 15h

    Mediação: Joca Reiners Terron

    Livro de cabeceira

    Vecchio e outros autores convidados da Flip 2015 leem trechos de seus livros prediletos

    Domingo, 5 de julho, às 16h

    bobos

    Boris Fausto estreia na Flip no segundo dia do evento, e traz as representações literárias dos afetos familiares, do luto e da vida amorosa de O brilho do bronze [um diário] à festa. Leia um trecho do livro.

    Encontro com Boris Fausto

    Sexta-feira, 3 de julho, às 10h

    Mediação: Paulo Roberto Pires

    mora

    A Flipinha, programação infantil da festa, e a FlipZona, voltada aos jovens, contarão com Rita Carelli, coordenadora da coleção Um Dia na Aldeia, e o ilustrador Odilon Moraes, ilustrador de Será o Benedito!, de Mário de Andrade, autor homenageado da Flip deste ano.

    FlipZona

    Quinta-feira, 2 de julho

    Casa da Cultura, às 10h30

    Rita Carelli conversa com o escritor angolano Ondjaki

    Mediação Cristiano Recksziegel

    Flipinha

    Sexta-feira, 3 de julho

    Tenda da Flipinha, às 14h

    O poeta das águas e a menina das histórias

    Rita Carelli
    Tiago Hakiy

    Mediação: Bernadete Passos

    Contar, cantar e ilustrar

    Odilon Moraes
    Alessandra Roscoe
    Adriana Falcão

    Sábado, 4 de julho

    Tenda da Flipinha, às 14h

    Mediação: Anna Cláudia Ramos

  • Pós-Flip na Cosac Naify

    Não vai estar em Paraty? Autores convidados, Boris Fausto e Diego Vecchio participam de eventos em São Paulo logo depois da festa. Marque na agenda a programação da Cosac Naify no pós-Flip:

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    Diego Vecchio no Instituto Cervantes

    Dia 7 de julho, terça-feira, às 19h30

    Mediação: Antônio Xerxenesky

    Instituto Cervantes de São Paulo

    Auditório | Espaço cultural

    Av. Paulista, 2439 – térreo

     

    Boris Fausto - credito Carlos Fausto

     

    Sabatina com Boris Fausto: entrevista com jornalistas da Folha de S.Paulo

    Quarta-feira, 8 de julho, às 19h30

    Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos

    Avenida das Nações Unidas, 4777

  • “Crianças fazem as melhores críticas”: com a palavra, Maurice Sendak

    Credito James Keyser Getty Images

    Este mês, a Cosac Naify lança dois títulos de Maurice Sendak, pai do livro infantil moderno: O aviso na porta de Rosie e Na cozinha noturna. Leia abaixo a transcrição de uma conferência informal do autor norte-americano ministrada na Filadélfia (EUA), em dezembro de 1985, e publicada no livro Caldecott & Co.: Notes on Books and Pictures (Farrar Straus & Giroux, 1989).

    Tradução: Barbara Wagner Mastrobuono

    Tenho pensado ultimamente sobre os monstros – ou fantasias ou o que quer que sejam – que me assustavam quando criança, e que provavelmente me assustaram o suficiente para eu virar artista. Só consigo pensar em alguns. Meus pais, claro. O aspirador de pó, que me assusta até hoje. Minha irmã. Alguns horrores ordinários saídos de filmes, livros, do rádio. O sequestro Lindbergh. E, por fim, a escola, pela qual eu nutria um ódio profundo. Tirando os meus pais – esses monstros ocasionais e involuntários – as coisas que me assustavam eram imprevisíveis, o que mostra que essas pessoas determinadas em saber o que assusta as crianças (me incluo entre elas) na realidade não sabem de nada. Acho que até um psicólogo infantil concordaria comigo.

    O que me interessa é o que as crianças fazem no momento específico de suas vidas em que não há regras ou leis, quando elas desconhecem, emocionalmente, o que se espera delas. Em Onde vivem os monstros, Max fica bravo. O que você faz quando fica bravo? Bem, você é cruel com sua mãe, e depois se arrepende, e daí tudo fica em paz. Provavelmente vai acontecer tudo de novo amanhã, mas a parte problemática para as crianças, com sua lógica primitiva e sua falta de experiência, é passar de um momento crítico para o próximo.

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    No meu livro Na cozinha noturna o problema de Mickey é: o que eu posso fazer pra ficar acordado a noite toda e ter toda a diversão que sempre me foi negada pelos adultos? O fato de ter havido tamanha explosão quando o livro foi lançado, de ele só ter sido aceito em certas bibliotecas depois que alguém pintou fraldas no Mickey pelado, me parece um testemunho cruel de nossas atitudes puritanas. Aparentemente, um menininho que não estava usando seu pijama era mais assustador para algumas pessoas que qualquer monstro que já inventei.

    (…)

    Eu me importo muito com as crianças. E quando digo que não escrevo para elas não significa que não me importe. Em todas as minhas músicas e em meus filmes preferidos eu projeto uma forte nostalgia pela infância, uma relação passional com a infância. A mesma coisa acontece com literatura – de Melville a James, eu sempre pareço conseguir encontrar um subtexto que envolva as crianças. Essas são as reverberações que me afetam e entram no meu trabalho.

    As crianças estão completamente à mercê dos adultos – seus pais, seus irmãos e seus professores. Suponho que hoje em dia haja nas escolas o mesmo tipo de pessoas horrorosas que havia quando eu era criança. Tive o azar de ter diversos professores indiferentes e frios. Mas eu era uma criança muito difícil. Eu odiava a escola. Mesmo quando eu era encorajado a fazer o que eles achavam que eu queria fazer – escrever e pintar – eu não sentia prazer, porque eu estava fazendo aquilo em uma sala de aula. Eu não tinha jeito. Meus pobres pais foram chamados à sala do diretor diversas vezes, e houve muitas ponderações e questionamentos sobre como uma criança aparentemente inteligente conseguia ser tão burra o tempo todo e tão indiferente a respeito do que deveria estar aprendendo.

    Para mim o desafio era ficar vivo até os dezessete anos para conseguir sair da escola. Era só uma questão de contar os anos até lá, quando por lei eu estaria livre. A ideia de fazer faculdade era uma maldição para mim. Era loucura total pensar que alguém pudesse escolher continuar estudando. Então eu escolhi não continuar.

    Nosso aspirador de pó era com certeza o mais excêntrico dos meus terrores da infância. Minha mãe o pegava inocentemente – era um Hoover antigo, do tipo que você liga na tomada para o saco inflar. E, aparentemente, eu também inflava. Me contaram que eu começava a gritar descontroladamente quando via o aspirador, e por isso me levavam para o apartamento vizinho até que minha mãe terminasse de aspirar. Eu me pergunto porque minha mãe nunca comprou um modelo silencioso e compacto. Talvez fosse uma arma muito eficiente.

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    Usei esse medo quando Onde vivem os monstros foi transformado em ópera uns anos atrás. É um livro de apenas 385 palavras que precisava virar uma ópera de no mínimo três quartos de hora. Eu estendi a cena de abertura, na qual Max briga com sua mãe. E, para dar um tom dramático, fiz a mãe entrar com um aspirador. Max fica louco e ataca o aspirador com sua espada. Para minha surpresa, minha fobia de aspirador se tornou um momento significativo de uma ópera.

    (…) Crianças sempre me perguntam de onde veio a ideia dos Monstros. Na verdade eu não sei de onde eles vieram, mas é preciso falar alguma coisa para as crianças. Quando comecei a desenhar as figuras eu parti da iconografia medieval, desenhando grifos e outras criaturas, coisa que me era profundamente insatisfatória. De repente esses personagens começaram a aparecer, e, surpreendentemente, eram pessoas que eu conhecia.

    Acho que era a lembrança de domingos terríveis no Brooklyn nos quais minha irmã, meu irmão e eu tínhamos que nos arrumar para tios e tias que vinham nos visitar, nenhum dos quais eu realmente gostava. Eu não era uma criança graciosa ou generosa, já que eu me ressentia deles por virem comer a nossa comida. Eu nunca concordei, nem por um instante, que eles deveriam comer a nossa comida, ou que a gente devia dividi-la. E eu odiava o fato de a minha mãe ser uma cozinheira muito lenta, nos forçando a passar o que parecia uma eternidade na sala com pessoas que odiávamos.

    Em outras palavras, éramos crianças. E o único alívio de sentar e ouvir ao “como você cresceu” nocivo dos parentes era examiná-los criticamente e notar cada pinta, cada olho vermelho, cada pelo escapando das narinas, cada dente preto. Eu vivia com medo de que, se a minha mãe cozinhasse muito devagar, eles se inclinariam para frente, apertariam minha bochecha e diriam “Vocês parece tão gostosos, bem que a gente podia comer vocês”. E, de fato, não havia dúvida para nós de que eles o fariam. Eles comiam tudo que viam pela frente. Então, no fim das contas, parece que os monstros são aqueles tios e tias. Que descansem em paz.

    Apesar de eu não escrever para crianças, descobri há muito tempo que elas são a melhor audiência. Elas certamente fazem as melhores críticas. São mais honestas e diretas que críticos profissionais. Claro, qualquer pessoa é. Mas quando crianças gostam do seu livro, dizem: “Eu amo o seu livro, obrigado, eu quero casar com você quando eu crescer”. Ou: “Querido senhor Sendak: eu odeio o seu livro. Espero que você morra logo. Cordialmente”.

  • Meu avô Artigas

    Até o dia 9 de agosto, o Itaú Cultural promove a Ocupação Vilanova Artigas, que festeja o centenário do célebre arquiteto, responsável pelos projetos do estádio do Morumbi e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). A Cosac Naify publicou dois títulos sobre o arquiteto paranaense, Caminhos da arquitetura (1999) e Vilanova Artigas (2000)

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    Da esquerda para a direita: Reginaldo Artigas (com Marco no colo), Vilanova Artigas, Virginia Artigas e Laura Artigas. Crédito: Arquivo pessoal – Família Artigas Forti

    Esta fotografia é a única que tenho com meu avô, o arquiteto Vilanova Artigas (1915-1985). Ele faleceu pouco tempo depois, quando eu tinha dois anos, e então minhas chances de conhecê-lo melhor foram interrompidas.

    Posso dizer que “descambei” para o mundo da arquitetura para me aproximar dele. De forma alguma foi uma obrigação, mas as casas do Campo Belo, onde brincava com meus primos e com a minha avó Virgínia; a FAU-USP, que visitava quando ia com meu pai andar de bicicleta pela USP; o Anhembi Tênis Clube, onde joguei futebol durante a infância, e outros tantos espaços desenhados por ele foram me encantando.

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    Desenho técnico – pilar do Anhembi Tênis Clube

    No Anhembi, por exemplo, os pilares despertavam a curiosidade da molecada:  subíamos por dentro deles e chegávamos, sem que ninguém visse, à cobertura única, e de lá conseguíamos ver os domos que iluminavam o espaço que abriga todo o clube. Sabíamos localizar, lá de cima, todas as áreas – inclusive o vestiário feminino.

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    A casinha (Crédito: Nelson Kon)

    A casinha tem escala ideal para uma criança: o pé direito baixo, inspirado na arquitetura de Frank Lloyd Wright (que só fui saber quem era muito tempo depois), tornava aquele lugar palpável. Eventualmente, os primos dormiam juntos lá, como se fosse uma casa de brinquedo, distante da casa dos adultos.

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    Casa Vilanova Artigas (Crédito: Nelson Kon)

    Na segunda casa de Artigas, que para mim, na época, era a casa da minha avó, tínhamos uma liberdade indescritível: enquanto brincávamos no terraço ou no jardim, os adultos conversavam na sala e os grandes panos de vidro possibilitavam a vigilância amorosa. Na casa, a vida familiar era feita de atividades que se completavam.

    Já o edifício da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Usp (FAU-USP) era bem mais complexo e um pouco intimidador. Sempre tive enorme respeito por ele, uma sensação semelhante à que tinha quando entrava em igrejas. Nestas, o que me intimidava mais eram as imagens sacras, o silêncio e seu eco. Na FAU, me sentia muito pequeno diante de um espaço que não entendia plenamente, embora as rampas e o salão caramelo fossem os melhores lugares do mundo para uma criança correr.

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    A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (Crédito: José Moscardi)

    Outro lugar que me deixava entusiasmado era o escritório, no quinto andar do prédio do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-SP). Ficava encantado com transferidores, compassos, réguas e intermináveis lápis de cor. Era perfeito para passar a tarde desenhando enquanto esperava meus pais, ou meu tio Júlio, acabarem o expediente. No escritório também estavam os móbiles, os barcos de papel e muitos desenhos feitos por meu avô nas horas livres. Tudo convivia, como pretendemos mostrar na Ocupação Vilanova Artigas, que estará em cartaz no Instituto Cultural Itaú durante o mês de julho. O lado apolíneo e o dionisíaco (técnica e arte) precisavam estar em equilíbrio para chegar à boa arquitetura, como disse meu avô em várias ocasiões. Eu, ainda pequeno, desfrutava mais das festas de Dionísio, mas já começava a reverenciar a razão.

    Os desenhos, Artigas fazia para si como passatempo e como diversão para os netos. Criava a estrutura e nós a bombardeávamos com canetões, giz de cera ou qualquer artefato colorido que estivesse por perto. Para as comemorações de seu centenário, esses desenhos se transformaram no livro infantil A mão livre do vovô, com narrativa escrita por Michel Gorski e Silvia Zatz.

    As tênues memórias de infância e essa imersão inconsciente na obra de Artigas despertaram meu interesse pela arquitetura  em momento algum cogitei outra profissão. Os questionamentos só começaram depois. Na faculdade, algumas comparações inevitáveis entre avô e neto eram recorrentes e me incomodavam. Preferi estudar outros grandes arquitetos, buscar minha própria linguagem, embora a presença de Artigas estivesse por perto o tempo todo. Em meu último ano de arquitetura na Escola da Cidade, enfrentei o livro Caminhos da Arquitetura (Cosac Naify) e resolvi a insegurança que antes surgia com as comparações que, ainda hoje, considero injustas e nada artiguianas.

    Desenho de Vilanova Artigas

    Desenho de Vilanova Artigas

    Ao mesmo tempo eu podia perceber o afeto e o respeito que os amigos do meu avô tinham para com ele. Ainda hoje, todos fazem questão de me contar alguma história que passaram juntos. Com esses pedaços fui construindo minha memória com ele, sobre ele. Laura, minha irmã, também escreveu suas memórias no emocionante documentário Vilanova Artigas: O arquiteto e a luz, que poderá ser visto nos cinemas a partir do dia 25 de junho.

    Os festejos do seu centenário aprofundaram essa aproximação. Minha mãe, Rosa, começou a pesquisa e montou a estrutura para todas as homenagens. Entrei com ela no livro de obras, ajudei na pesquisa dos desenhos e dos projetos, para que todos possam entender, como nós, a história da produção de Artigas por meio de sua principal linguagem: o desenho. O site (www.vilanovaartigas.com) está lá, com parte do material de acervo disponível, e com o tempo receberá tudo que pudermos tornar acessível ao público, para que Vilanova Artigas continue nos surpreendendo, como surpreendeu sua geração e outras que seguiram, ensinando e cativando com desenhos, palavras e desejos de um país melhor.

    Ao me aproximar do meu avô, consegui entender sua angústia ao ensinar os mais jovens. Compreendi que, na vida, as coisas devem ser planejadas, como ele propunha, refletidas e construídas a longo prazo – ainda que nossa cultura, um tanto imediatista e precipitada, seja avessa a essa maneira de pensar.

    Hoje, posso falar que conheço Vilanova Artigas e tenho muito orgulho de poder chamá-lo de avô.

     * Marco Artigas é arquiteto formado pela Escola da Cidade e pós-graduado pela Universitat Politècnica de Catalunya (Barcelona). Já colaborou em projetos de Paulo Mendes da Rocha e João Filgueiras Lima (Lelé). Atualmente trabalha no seu próprio estúdio, desenvolvendo projetos de arquitetura e urbanismo.

  • A literatura antibiótica de Diego Vecchio segundo Mathieu Lindon

    Destaque da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty – deste ano, o argentino Diego Vecchio, novo autor da casa, vem ao Brasil para lançar Micróbios, reunião de contos que transita entre o humor e a tragédia, com uma boa dose de nonsense. Leia um texto de apresentação assinado pelo escritor e jornalista francês Mathieu Lindon, que faz parte da nossa edição de Micróbios.

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    O Blog da Cosac Naify adverte: o livro apresenta risco de contágio literário. Manuseie sem cuidado

    “Na complicada história das relações entre ciência e literatura, Micróbios, do argentino Diego Vecchio, é um acontecimento. Conhecemos escritores médicos, como Tchekhov e Céline, mas eis a questão: como curar-se pela literatura? Não psiquicamente, mas organicamente, digo.

    Com uma erudição bem-humorada e uma imaginação tão fantástica quanto rigorosa, os nove contos apresentam casos clínicos raros. Cada história traz uma enfermidade sofrida em diferentes regiões do planeta, de modo a alcançar uma ironia universal que não deixa nenhuma literatura de pé: nem a escandinava, nem a russa, nem a norte-americana, nem a japonesa, nem a argentina…

    A jocosidade inventiva mantém-se firme ao longo de todo o livro, numa reconstrução do mundo efetuada apenas por meio da medicina e da literatura, de onde todo o resto deságua. E, apesar do caráter bastante desagradável dos eventos físicos, a diversão é um aspecto incontornável.

    Em “A dama das tosses”, que abre o volume, a sra. Kristensen conta fabulações tão eficazes para fazer seus filhos dormirem que, pouco a pouco, ela se torna uma famosa autora de relatos cuja leitura visa à cura: Histórias para crianças com otite aguda purulenta, Histórias para crianças com difteria, Histórias para crianças com sarampo. “Tamanho frenesi de produção, como era de se esperar, acabou esgotando seu sistema imunológico. [...] Para que seus dedos não congelassem, a sra. Kristensen passara horas demais escrevendo ao lado da fornalha acesa, respirando um ar vi – ciado pelo anidrido carbônico exalado pela fornalha e por um corpo ao escrever, gastando setenta e quatro calorias por linha”.

    Ao escrever, é a saúde física da personagem que está sendo colocada em jogo. Na aventura da escrita, é justamente deste lugar comum – a literatura como cura – que o autor não pode sair são e salvo.”

    Mathieu Lindon é escritor e crítico literário francês, e trabalha há muitos anos no jornal Libération. É autor de dezenove romances, entre eles O que amar quer dizer, publicado pela Cosac Naify em 2014.

  • Qual é o jogo de “Alice através do espelho”?

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    Resultado do sorteio: o vencedor da promoção é João Pedro Souza Matos. Agradecemos a participação! A caixa Alice + Alice está disponível em nossa loja virtual.

    Para comemorar o lançamento da Caixa Alice + Alice, vamos sortear um exemplar aos leitores do blog.

    Alice através do espelho, a continuação da saga da menina mais famosa da literatura infantil, acaba de ser lançada em edição caprichada, com tradução inédita de Alexandre Barbosa de Souza, ilustrações de Rosângela Rennó e texto de Virginia Woolf. O livro faz parte da Caixa Alice + Alice, nossa edição comemorativa dos 150 anos da obra de Lewis Carroll, que inclui também a edição de Alice no País das Maravilhas ilustrada por Luiz Zerbini, publicada pela Cosac Naify em 2009.

    No primeiro livro, Alice é ordenada a jogar uma partida de críquete com a Rainha de Copas e o resto dos seus súditos. Qual é o jogo de Alice através do espelho? Para concorrer, deixe sua resposta neste post até o dia 12 de junho. O vencedor será anunciado no dia 15 de junho aqui no blog. Participe!

  • Leitores entrevistam Alejandro Zambra

    Na semana passada, através do Facebook e Instagram, convidamos os leitores a enviarem suas perguntas para o chileno Alejandro Zambra, que lança seu quarto livro pela Cosac Naify, a coletânea de contos Meus documentos. Foi uma tarefa difícil, mas selecionamos as quatro melhores e Zambra já as respondeu. Parabéns, Renata, Reginaldo, Pedro e Evandro! Em breve um exemplar do lançamento chegará à casa de vocês. Abaixo, a entrevista*:

    [Renata Assumpção] Zambra, como foi o processo de seleção dos contos que fazem parte do livro?

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    [Alejandro Zambra] Oi, Renata. Meus documentos começou como uma reunião de contos, embora nenhum deles fosse um conto no sentido tradicional, e terminou como um livro de relatos ou – melhor dizê-lo assim – como um livro, apenas. Acho que se formatou como livro quando encontrei o título. Tinha algo em torno de 25 contos, mas fui ficando com esses 11; queria que fossem como 11 filhos, todos ligeiramente parecidos e diferentes ao mesmo tempo. Cortei contos de que gosto muito, como “Fantasia”, e, ao final, incluí textos recentes, que escrevi quase de forma simultânea ao longo de 2011 e 2012. Somente dois dos relatos tinham versões anteriores, mas as versões atuais são bastante recentes.

    [Reginaldo Cruz] Quem e o que você encontra, quem e o que você perde quando escreve seus livros?

    [AZ] Cada caso é diferente do outro. Com Meus documentos acho que encontrei vários escritores que sou ou que penso ser. Adoro essa polifonia, e nesse livro estão todos os tons que me interessa explorar. Os romances talvez desenhem para mim um só rosto apenas; já esse livro é de vários escritores que se parecem.

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    [@mr.pedrotario] Caro Zambra, sempre que termino a leitura de seus livros, fica um sentimento de “quero mais” impregnado em mim. Você pretende escrever um romance longo, um calhamaço?

    [AZ] Olá! Não tenho uma preferência pelas formas breves, realmente; gosto dos tijolos, mas, na verdade, nunca penso muito em quão longo ou curto vai ficar um livro. Agora estou embarcando em algo que está ficando assim, bem longo, mas quem sabe, depois, me dá na telha podar um pouco…

    [Evandro Cruz] Zambra, como é seu processo para definir que um livro “acabou”, ou seja, que ele está pronto para enviar para a revisão, que a história não avançará dali?

    [AZ] Nossa, não sei dizer. O primeiro sinal é quando percebo que estou escrevendo um texto “publicável”. Há coisas que escrevi e que me agradam, mas que não publicaria; eu as escrevi para mim. E há outras que imediatamente me parecem comunicáveis, como se o próprio texto pedisse para sair. E um pouco, também, porque quero que deixe de me pertencer. Também por isso publico, para deixar para trás. Nos processos seguintes, sou tão obcecado que me torno caricato. Faço correções até que a editora se enche e para de me responder os emails, e manda tudo para a gráfica. Mas uma vez o texto impresso, já me esqueço dele. Minha primeira sensação, quando recebo um livro meu impresso, é “já não poderei escrevê-lo nunca mais”. Mas depois me tranquilizo e começo outra coisa.

    Pela Cosac Naify, além de Meus documentos (2015), o autor publicou Bonsai (2012), A vida privada das árvores (2013) e Formas de voltar para casa (2014).

    * tradução de Livia Deorsola

  • Lewis Carroll por Virginia Woolf

    Em 2015, a história da menina Alice que segue o coelho branco por um buraco no bosque e cai num país maravilhoso completa 150 anos. O texto abaixo integra a edição de Alice através do espelho e o que ela encontrou lá, continuação da saga criada por Lewis Carroll, que a  editora lança este mês. Com ilustrações da artista Rosângela Rennó, o livro vem em uma caixa acompanhado de Alice no País das Maravilhas, ilustrado por Luiz Zerbini, publicada pela Cosac Naify em 2009.

    A obra completa de Lewis Carroll foi publicada pela editora Nonesuch Press em um grosso volume de 1 293 páginas.¹ De modo que agora não há desculpa – Lewis Carroll precisava existir completo de uma vez por todas. Nós precisamos tentar abarcá-lo como um todo, na íntegra. Mas falhamos – uma vez mais, falhamos. Pensamos ter capturado Lewis Carroll; olhamos novamente e vemos um clérigo de Oxford. Pensamos ter capturado o Reverendo C. L. Dodgson – olhamos novamente e vemos um elfo dos contos de fada. O livro se quebra ao meio em nossas mãos. Para cimentá-lo, recorremos à Vida.

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    Mas o Reverendo C. L. Dodgson não teve vida. Passou pelo mundo tão suavemente que não deixou rastros impressos. Mesclou-se tão passivamente em Oxford que é invisível. Acatou todas as convenções; foi pudico, perfunctório, pio e jocoso. Se existiu uma essência dos professores de Oxford do século dezenove, ele foi essa essência. Era tão bom que suas irmãs o idolatravam; tão puro que seu sobrinho não tem nada a dizer contra ele. Simplesmente é possível, ele sugere, que “uma sombra de desapontamento paire sobre a vida de Lewis Carroll”. O senhor Dodgson nega imediatamente essa sombra. “Minha vida”, ele diz, “foi isenta de provações e privações”. Porém essa água-viva sem um pingo de tinta continha dentro de si um cristal de perfeita dureza. Que continha infância. O que é algo muito estranho, pois a infância normalmente se apaga lentamente. Fagulhas de infância persistem quando o menino ou a menina são homem e mulher adultos. A infância volta às vezes de dia, mas é mais comum que volte à noite. Isso, porém, não era assim com Lewis Carroll. Por algum motivo, não sabemos qual, sua infância foi interrompida abruptamente. Ele a alojava inteira como um todo dentro de si. Não podia deixá-la se dispersar. E assim, conforme ele foi envelhecendo, esse impedimento no centro de seu ser, esse bloco duro de pura infância, privou o homem maduro de alimento. Ele se esgueirou através do mundo adulto feito uma sombra, solidificada apenas na praia de Eastbourne, com garotinhas cujos vestidos ele prendia com alfinetes de segurança. Mas como a infância permaneceu dentro dele inteiriça, ele foi capaz de fazer o que ninguém pôde fazer – ele foi capaz de voltar para aquele mundo; foi capaz de recriá-lo, de modo que nós também voltássemos a ser crianças.

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    No intuito de nos fazer criança de novo, ele primeiro nos faz dormir. “Caindo, caindo, caindo, será que essa queda nunca terá fim?” Caindo, caindo, caímos naquele mundo aterrorizante, loucamente inconsequente, e no entanto perfeitamente lógico, onde o tempo corre, depois para; onde o espaço estica, depois se contrai. É o mundo do sono; é também o mundo dos sonhos. Sem nenhum esforço consciente, os sonhos vêm; o coelho branco, a morsa e o carpinteiro, um atrás do outro, virando e se transformando uns nos outros, eles vêm ricocheteantes e saltitantes, passando através da nossa mente. É por esse motivo que as duas Alices não são livros para crianças; mas são os únicos livros em que nós nos tornamos crianças. O presidente Wilson, a rainha Victoria, o articulista do jornal The Times, o falecido lorde Salisbury – não importa quão velho, quão importante, ou quão insignificante você seja, você se torna outra vez uma criança. Virar criança é ser muito literal; é achar tudo tão estranho que nada é surpreendente; é ser impiedoso, cruel, e no entanto tão passional que qualquer desdém, uma sombra, veste o mundo inteiro de luto. É ser Alice no País das Maravilhas.

    É também ser Alice através do espelho. É ver o mundo de ponta-cabeça. Muitos dos grandes satiristas e moralistas nos mostraram o mundo de cabeça para baixo, e nos fizeram vê-lo como as pessoas adultas o veem, como selvageria. Apenas Lewis Carroll nos mostrou o mundo de ponta-cabeça como uma criança o vê, e nos fez dar risada como uma criança dá risada, irresponsavelmente. Nos bosques do puro nonsense, rodopiamos às gargalhadas, rindo:

    Procuraram com dedais – com cuidado, perseguiram,
    Caçaram com fé e facão –
    Despertaram sua cobiça com ações da ferrovia –
    Seduziram com sorrisos e sabão.
    ²

    E então acordamos. Nenhuma das transições de Alice no País das Maravilhas é tão estranha quanto acordar. Pois despertamos para descobrir – será que é o Reverendo C. L. Dodgson? Será Lewis Carroll? Ou ambos combinados? Esse conglomerado que pretendia produzir uma edição bowdlerizada de Shakespeare³ para o uso das empregadas domésticas britânicas; implora que elas pensem na morte antes de ir ao teatro; e sempre, sempre se dar conta de que “o verdadeiro objetivo da vida é o desenvolvimento da personagem…”4.

    Será, então, que, mesmo em 1 293 páginas, existe isso que chamam de “completude”?

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    ¹Este texto foi originalmente publicado na revista londrina News Statement and Nation, em 9 de dezem bro de 1939, por ocasião do lançamento da primeira edição da obra completa de Lewis Carroll. [N.E.]

    ² Citação dos versos do poema The Hunting of the Snark [Caça ao Esnarque, 1876, tradução de Alexandre Barbosa de Souza e Eduardo Verderame].

    ³ O termo Bowdlereised no original, aqui traduzido como “bowdlerizada”, faz referência a Thomas Bowdler [1754-1825], inglês que publicou a obra completa do dramaturgo William Shakespeare editando o texto original, de modo a aproximá-lo do que considerava apropriado para mulheres do século dezenove. O termo, então, faz referência àquilo que foi modificado do original por motivo de censura. [N.E.]

    4 No original em inglês: character, que tanto significa “personagem” quanto “caráter”, permitindo um trocadilho. [. .]

     

     

  • Valter Hugo Mãe sobre Joan Miró

    No próximo domingo, 24 de maio, São Paulo recebe a exposição “Joan Miró – a força da matéria”, que fica em cartaz no Instituto Tomie Ohtake até 16 de agosto. A mostra dedicada ao artista catalão será dividida cronologicamente em três seções: anos 30 e 40; anos 50 e 60; e anos 70. Ao todo, serão 112 obras expostas.

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    O texto de “Joan Miró – a força da matéria” é assinado pelo escritor Valter Hugo Mãe e integra o catálogo da exposição, que será lançado no dia 23 de maio e estará a venda no Instituto Tomie Ohtake. Confira um trecho abaixo:

     

    A reinauguração da cultura, sobre Joan Miró

    “Las miradas son semillas, mirar es sembrar Miró trabaja como un jardinero y con sus siete manos traza incansable – círculo y rabo, io! y ah! – la gran exclamación con que todos los dias comienza el mundo.”

    Octavio Paz

     

    A morte da pintura está para Joan Miró como a morte de deus esteve para Friedrich Nietzsche. Foi fundamental que saísse da equação para que o exercício da arte, que é o mesmo que dizer vida, correspondesse à mais do que genuína personalidade do mestre catalão.

    A desmistificação é ponto essencial para o domínio da identidade. Alguns artistas não consentem, nem remotamente, com propagar o expectável. A arte, em sua superior oportunidade, é mais o enunciado de um novo postulado do que a obediência a quaisquer premissas estabelecidas. Ou, como diria Merleau-Ponty, a arte “é antes a realização de uma verdade do que o reflexo de uma verdade prévia” (Merleau-Ponty, 1999). Para Miró, por essência, a arte foi sempre um imperativo de liberdade. Se quisermos simplificar o seu aparecimento no mundo podemos declarar que se definiu exatamente por uma fúria imprescindível pela liberdade. Ao manifestar-se interessado em assassinar a pintura está a dizer que quer ser sem ser o mesmo. Quer ser sem ser o mesmo, o que justificaria o seu constante modo de fuga, desatando obrigações para com academismos prévios e, sobretudo, impiedosamente divergindo de si, a cada tempo começando outros métodos, explorando outros materiais, problematizando estilos, tão surpreso quanto sempre angustiado pela compulsiva busca.

    Joan Miró atravessa o pior do século XX. Numa Europa em guerra, plena de ideologias totalitárias e predadoras, a sua origem catalã será invariavelmente um radical para permanente inconformismo e protesto. Uma espécie de mácula afetiva, como um pecado original de que ele se orgulharia e pelo qual se bateria sempre. A passagem por Paris, fundamental para a sua depuração, nunca lhe roubaria a convicção de ser catalão, coisa que evidenciaria constantemente na obra como linha de força e também como digno sofrimento. A liberdade possível é sempre uma ansiedade na assunção de uma identidade. Para Joan Miró, a Catalunha foi a base para todas as ansiedades, lugar plástico e espiritual de onde retiraria as referências mais recorrentes e inelutáveis, como quem cataloga os tópicos materiais de uma alma. Faria arte como quem é e como quem luta.

    Discursando na sua distinção durante o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Barcelona, em 1979, Miró terá dito: “Quando um artista se expressa num contexto em que a liberdade é difícil, deve converter cada uma das suas obras numa negação das negações, numa libertação de todas as opressões, de todos os preconceitos e de todos os falsos valores estabelecidos.” (Punyet-Miró 2014). Antoni Tàpies, claramente influenciado pela obra de Miró e por ele também instigado a um mesmo brio para com a Catalunha, viria a declarar que “o impacto clandestino da obra de Joan Miró, como também a de Picasso, foi uma contribuição importantíssima para uma tomada de consciência que não se reduzia, é claro, aos problemas da estética, mas sim, como provoca todo o criador, se estendia a toda a vida. (…) Miró gozou com todos os oficialmente bem pensantes, porque ninguém demonstrou como ele o fracasso e a inutilidade de todas as falsas hierarquias que perdem o tempo a condecorarem-se, e depois têm de correr precipitadamente atrás dos passos dos que realmente fazem caminho.” (Tàpies, 2002). Neste sentido, é importante entender que a assunção de uma identidade nunca foi um modo de fechar o sujeito, ou a arte, num lugar ou num tempo, muito pelo contrário. A identidade é o único modo de converter um sujeito, ou a arte, num tópico de respeito universal. Vale a pena atentar no diz Joan Punyet-Miró, ponderando acerca da atenção de Miró à cultura de outros lugares, como a chilena, e estabelecendo um paralelo com outros génios seus contemporâneos, como seriam Picasso e Dalí: “havendo criado uma poética artística universal, transladam-se mais além do limite nacional, político ou geográfico, para acabar sendo de qualquer lugar e de lugar nenhum por vezes.” (Punyet-Miró, 2014).

    De outro modo, a urgência pela oportunidade de uma realidade própria era já coisa antiga no espírito de Joan Miró. Contrário à padronização e fascinado com a amplificação dos sentidos, diria: “Quando saía com o meu pai de casa e lhe dizia que o céu era violeta, zoava de mim. E isso dava-me muitíssima raiva.” (Dupin, 2004). Para Miró era claro que o artista não podia simplesmente existir à maneira do mundo. O mundo precisava também de existir à maneira do artista.

    O criador é um distúrbio no universo da continuidade. Lembro sempre uma passagem de Clarice Lispector, no livro Água Viva, para ponderar acerca destes assuntos: “Minha liberdade pequena e enquadrada me une à liberdade do mundo – mas o que é uma janela senão o ar emoldurado por esquadrias?” (Lispector, 2012). Do mesmo modo, a tela branca de um pintor, como assim a folha de um escritor, se apresenta também como uma ordem já bastante imposta à imaginação que se debate para materializar. A tela branca é uma regra, que Miró haveria de problematizar e contra a qual haveria de se rebelar inúmeras vezes. Miró foi a mais frequente perturbação de toda e qualquer continuidade artística.

    Miró, que se assumiu um pessimista, um homem profundamente insatisfeito, buscava na arte a transgressão a todas as coisas, não apenas aos cânones estabelecidos, ele lidava com algo incrivelmente mais poderoso e que se punha como uma revelação cosmogónica, uma certa reinauguração da expressão, para uma expressão mais pessoal e, ao mesmo tempo, universal. O caminho mais verdadeiro para a universalidade acabou por encontrá-lo no aprofundamento constante da sua própria consciência. É na meditação sobre si mesmo e suas raízes que o mestre pode tornar-se infinitamente sapiente e conservar todo o esplendor e a frescura mais típicos do que é começador ou menino. A verdade, dentro dele, é um diamante que se reparte em todos os gestos, sempre puro na sua essência. Fácil se torna de entender porque na candura de tantos dos seus trabalhos, mesmo dos que discorrem sobre assuntos difíceis ou violentos, há uma espécie de reaprendizagem do gesto artístico ou um primitivismo que tinge tudo de espontaneidade, de originalidade. Nenhum outro artista moderno logrou tal grau de originalidade.

    [...]

    Conheça a obra de Valter Hugo Mãe publicada pela Cosac Naify:

    hugao

     

  • Acontecimentos

    Às vezes lembro que me formei em Rádio e TV e então tomo um susto. Desde que fui pegar meu diploma (não fui) jamais pisei numa rádio e, em televisão, trabalhei uma única vez, numa experiência traumática, digna de um pesadelo exibido em PAL-M, com direito a estática, assédio moral, escravidão, gente louca, perda de fé na humanidade e constipação intestinal.

    Acho que foi a Flávia que um dia me disse que era uma “pessoa rádio”. Tenho muito clara a graciosa figura em minha cabeça dela dizendo: “É que eu sou uma radio person, Cigana”.

    Cigana. É assim que uma parcela de amigos me chama devido a minha fama internacional de leitora de mãos.

    Li centenas de palmas enleadas e trêmulas que aguardavam o veredicto da minha quiromancia charlatã e sincera. Quantos filhos terei? Vou ficar rico? Vou morrer cedo? Vou conhecer o amor da minha vida? Eram questões que eu respondia de batepronto, sem dó nem piedade dos meus interlocutores que tentavam humildemente dar aquela conferidazinha no além. Muitas das vezes eu adivinhava antigas tragédias ou previa casamentos relâmpagos, mudanças de continente abruptas, fortunas indesejadas, assim como acertava na mosca o número, o gênero e a altura de filhos vindouros ou o prognóstico de doenças crônicas e de sonhos ainda não ensaiados e isso também me assustava pra dedéu.

    palma

    Minha explicação pura e simples para esse obscurantismo todo é que também sou uma radio person, Flavoca. Não só daquelas pessoas que vibram quando toca Stars do Simply Red na Alpha FM, que cantam junto com a Marina Lima os maravilhosos versos de Acontecimentos, ou que se sentem acalentadas pela voz de roqueiro fofo do locutor da rádio Kiss, mas que captam microscópicos trejeitos faciais, inexpressivas alterações na entonação de uma palavra emitida. Para o azar dos meus, costumo pescar significados rasteiros no viés de um olhar e antecipar todo o iceberg debaixo da escolha de uma palavra ou de um gesto alheios a ponto de ser praticamente constituída por uma saca desconjuntada de paranoias escravizantes e de também ganhar dos amigos de longa data o justo apelido de Chatércia.

    (Outra origem para esse apelido meigo é também a minha prática excessiva e despudorada da egolatria, da autoanálise piegas e do debate autocêntrico. Costumo frequentar divãs e sofás desavisados abarrotada de questões batidas e tão somente interessada em condescendência e elogios à minha pessoa, mas isso é outro texto.)

    Enfim, acho que é por isso que virei quiromante ou escritora. Se não sofresse de uma desordem de fala (ceceio) e pronunciasse o S como o deputado Vicentinho, talvez tivesse sido mesmo radialista, vai saber.

     

    * Natércia Pontes é autora de Copacabana dreams