Segunda-feira, 8 fevereiro, 2010, às 17:02

Ilustração de Isidro Ferrer para o livro de Pablo Neruda
A Bloc é uma revista espanhola sobre literatura infantil contemporânea, de tiragem semestral e tempo de vida de dois anos. Com um conselho editorial que conta com o autor e editor Antonio Ventura [Quando vem a lua e De uma vaca à outra], a revista trata de artes dentro do universo da literatura infantojuvenil, conta com boas entrevistas, artigos e resenhas de livros. A frase de abertura do texto editorial do último número, sinaliza o tema desta quarta edição: “Dizem que a inteligência habita mais na pergunta que na resposta, e que a indiscrição é mais própria desta que daquela”. Ou seja, as perguntas – especialmente aquelas sem resposta. Ou melhor: talvez o principal seja lembrar que “não é necessário responder a todas as perguntas”.
Este conselho quem dá é Isidro Ferrer, que ilustrou o Livro das perguntas de Pablo Neruda, publicado em 2008 pela Cosac Naify, com tradução de Ferreira Gullar. A entrevista com Isidro (cuja ilustração foi parar na capa da edição, retirada do livro) é a principal matéria da edição e seu fio condutor. Quando perguntado se, para ilustrar os poemas de Neruda, optara por responder às perguntas ou acrescentar mais questionamentos, ele se recorda: “Passei um tempo deixando que as perguntas perdessem seus pontos de interrogação e se transformassem em afirmações poéticas, para assim não buscar soluções ou despejar dúvidas. O Livro das perguntas é um livro expansivo, cada pergunta gera novas perguntas, mas nenhuma delas precisa ser respondida”.
Em consonância com o catálogo da Cosac Nafy, seis das nove resenhas publicadas no quarto número são de livros da editora: Selma (Jutta Bauer), Mas por quê??! (Peter Schössow), O inimigo (Davide Cali e Serge Bloch), Estava escuro e estranhamente calmo (Einar Turkowski), A grande questão (Wolf Erlbruch) e História da ressurreição do papagaio, de Eduardo Galeano com ilustrações de Antonio Santos, a ser lançado em junho de 2010.
No mesmo espírito questionador, após as resenhas há um texto que mostra as possíveis perguntas que cada um destes livros incita:
“Cada exemplo serve para vislumbrarmos como os livros mais interessantes questionam seus leitores a partir do jogo, do paradoxo, do humor, do realismo, da hipérbole ou da metáfora. Selma nos leva a perguntar pela essência: o que é a felicidade? [...] Mas por quê??! dá um soco em nosso estômago com sua interrogação-exclamação a respeito da morte de nossos queridos. Por quê? [...] O inimigo nos conduz ao território dos outros: quem é o inimigo? Estava escuro e estranhamente calmo nos faz questionar a nós mesmos: qual o motivo de tanta suspeita? A grande questão busca os fins: para quê? História da ressurreição do papagaio, por que o mundo é de determinada maneira?”.
Um pouco mais sobre Isidro Ferrer está na entrevista concedida durante sua visita à Cosac Naify, em 2008. Nela, ele comenta detalhes das ilustrações para o Livro das perguntas e sua relação com a literatutra de Neruda.
Segunda-feira, 8 fevereiro, 2010, às 12:32
A internet começa a semana mais inteligente: estreou na Folha Online o Blog de José Geraldo Couto, tradutor da Cosac Naify — é ele o responsável pelo irretocável português de Clarice,, de Benjamin Moser, e pelo português escorreito de Enrique Vila-Matas em Doutor Pasavento, o principal livro do catalão, que em breve será lançado por esta casa editorial.
Zé Geraldo já começa postando uma preciosidade: os jovens João Gilberto, Tom Jobim e Luiz Bonfá, jogados na areia, cantando no filme Copacabana Palace (1962), do diretor italiano Steno. Aqui vai a cena postada por ZG — no Youtube tem mais:
Sexta-feira, 5 fevereiro, 2010, às 17:38

Alice Toklas e Gertrude Stein, 1944. Foto: Carl Mydans©Time Life Pictures
Gertrude Stein escreve um romance na primeira pessoa de Alice Toklas, sua companheira por 25 anos, para falar de Gertrude Stein e os anos de convivência no salão da Rue de Fleurus, em Paris, no início do século xx. Pelo que se lê em A autobiografia de Alice B. Toklas (1933), enquanto a autora dedicava-se a questões literárias e às tertúlias que reuniam Picasso, Matisse e Hemingway, Alice cozinhava, bordava, cuidava das plantas, datilografava seus manuscritos e ajudava a entreter os convidados.
O poeta Cesare Pavese, que traduziu a obra para o italiano, comenta este jogo literário no prefácio que se encontra apenas na edição da Einaudi, de 1938. Maurício Santana Dias gentilmente trouxe a pequena pérola para o português.
“Gertrude Stein [me] disse… [Essa autobiografia] vou escrever para você.”
O pior julgamento que se poderia fazer desta obra seria afirmar que seu desfecho parece inesperado. Para nós, ao contrário, seria apenas a alegre assinatura do quadro, tanto o sorriso mistificador vai sutilmente iluminando o texto de cima a baixo. E nem se pode considerar monótona essa posição da autora. Veja-se quanto o sorriso resulta malicioso quando “Alice Toklas” julga severamente a si, e quanto, ao contrário, se torna preocupante quando se faz Gertrude Stein emitir as mais lucíferas opiniões sobre a obra de Gertrude Stein. É precisamente neste jogo de espelhos – Gertrude Stein que fala de Gertrude Stein por boca da gárrula Alice Toklas – que consiste o rico segredo desta prosa. Sobretudo o que diz e faz Gertrude Stein desce uma adorável ambiguidade, que distancia, alivia e ironiza suas palavras e seus gestos, do mesmo modo como, olhando-nos dentro de um espelho, todos nós nos sentimos diversos e irresponsáveis.
A autobiografia de Alice B. Toklas (Cosac Naify, 2009); tradução de José Rubens Siqueira e posfácio de Silviano Santiago
Sexta-feira, 5 fevereiro, 2010, às 12:41
Em fins do ano passado, o escritor Bernardo Carvalho dedicou sua coluna no jornal Brasil Econômico à poesia. O texto, publicado em 12/12/2009 no caderno Outlook e gentilmente cedido ao blog da Cosac Naify, faz uma ode ao livro Monodrama (7Letras), do poeta Carlito Azevedo.
Carlito é coordenador editorial da Ás de Colete, coleção que reúne obras de poetas contemporâneos nacionais e estrangeiros, e é publicada pela Cosac Naify em parceria com a 7Letras.
Vale a pena comentar que nosso poeta também assina a tradução de Ode a uma estrela, de Pablo Neruda, em breve lançado pela Cosac Naify. Um dos trechos do poema, sobre um homem que tenta guardar para si o brilho de uma estrela, diz:
“Guardei-a,/ temeroso,/ debaixo da cama/ para que ninguém a descobrisse,/ sua luz porém/ atravessou/ primeiro/ a lã do colchão,/ depois/ as telhas,/ e o telhado de minha casa.”
Tal qual a poesia de Carlito, que ficou mais de dez anos sem publicar. Mas sua poesia escapou pela janela. Enfim, vamos ao texto de Bernardo Carvalho:
A PARTIR DO BANAL, O MAIS TERRÍVEL E O MAIS BELO
Que seria de Portugal sem Pessoa e sem Camões? Ou da Rússia sem Tolstói, Dostoievski e Tchékhov? Ou da Irlanda sem Joyce e Beckett?A literatura melhora os países, mesmo quando é para contar suas derrotas e seus horrores – e sobretudo quando conta suas derrotas e seus horrores. Só por burrice um Estado não defende sua literatura. É uma questão de marketing, para não falar de coisas mais elevadas.
As cidades também só têm a ganhar com a prosa dos seus escritores e a lírica dos seus poetas. Ninguém duvida que Buenos Aires seja melhor com Borges, Dublin seja melhor com Joyce e o Rio com Drummond seja melhor do que sem ele. Se eu dissesse o mesmo de um poeta como o Carlito Azevedo, talvez você torcesse o nariz. Mas seria por simples desconhecimento. O que é natural, já que ele ficou treze anos sem publicar nada. Enfim, o problema pode ser resolvido, porque ele acaba de lançar um livro extraordinário: Monodrama (7Letras). Este pode não ser o espaço ideal para uma resenha. Mas Monodrama tampouco é um livro comum. E não é todo dia que você vai bater os olhos num livro assim.
Num dos poemas, uma amiga diz ao poeta, ao passar por uma moça que se pica junto a uma mureta do Aterro do Flamengo: “Nenhum poema/ é mais difícil/ do que sua época”. Carlito Azevedo nasceu em 1961. É um poeta carioca, com dicção carioca, que passou a vida no Rio, e o simples fato de ele ser um poeta carioca hoje, num tempo tão pouco literário, já enriquece essa cidade que, a despeito de toda beleza, de todo marketing e de toda autosugestão, não é propriamente o lugar mais aprazível do mundo. Mas é melhor com esses poemas do que sem eles. Em tempos difíceis, é um alívio viver no mesmo país e falar a mesma língua de um poeta como esse.
Monodrama não diz horrores do Rio. Ao contrário, celebra a melhor tradição da poesia brasileira feita no Rio de Janeiro, aquela que combina o aparentemente simples com a ironia, sem precisar recorrer ao insólito para se fazer poética e original. É uma poesia ao mesmo tempo discreta e incisiva, cuja precisão do corte é perturbadora, fazendo surgir do banal o mais terrível e o mais belo. Um sentido extraordinário por trás das coisas mais coloquiais, como no fragmento reproduzido na contracapa: “Eu pergunto se/ você quer ir para/ casa “Sim”/ se está pensando/ em grandes espaços vazios/ “Sim” se tudo/ vai passar/ tudo vai/ ficar bem/ “Sim sim”/ se realmente/ se apaixonou/ se pensou em/ morrer “Sim”/ se eles cortaram/ os seus lindos/ cabelos.”. Ou no poema que fala de uma menina com xilofone e flores, escrevendo poemas numa rua de Berkeley, na Califórnia: “(…) não havia mesmo nada ali/ quando ela escrevia os poemas (…) e lá se vão dez/ ou treze anos/ e eu simplesmente nunca/ os/a/ consegui esquecer”.
Não sei o quanto pode haver de traição em revelar que Monodrama converge para um poema incrível, “H.”, sobre a morte da mãe. É o poema final. A certa altura, o filho se inquieta, ao se dar conta de que não sabe se a mãe teve “uma morte boa ou uma morte má”. Não sei o quanto pode haver de traição em expor aqui a reposta da mãe morta (Hilda, a mulher do H do título) ao filho, mas cito assim mesmo, porque ela revela afinal o poeta que ele é:
“– Com parada com a larga eternidade de nada sentir, nada provar, nada tocar, ver e ouvir que nos espera, a morte no sono, como dizem que coube a Chaplin, vale o que valem as dez costelas partidas, as orelhas arrancadas, os dedos decepados, a laceração horrível entre o pescoço e a nuca, a equimose larga e profunda nos testículos, o fígado lacerado, o coração lacerado, o rosto inchado irreconhecível, os hematomas, última forma física assumida por Pasolini nesse louco planeta que agora, para você, gira também sem mim.”
Se alguém ainda quiser saber para que serve a literatura, a resposta está dada: para que de vez em quando alguém escreva um poema como esse “H.”, do Carlito Azevedo.
Quinta-feira, 4 fevereiro, 2010, às 10:36

Retrato da bailarina Eros Volúsia, de Nelson Cruz. Aquarela em papel Fabriano, 50x70 cm
Um lugar onde artistas podem trocar opiniões, expor seus trabalhos gratuitamente e vendê-los. Esta prática centenária, realizada em diversos espaços físicos, também tem acolhida no universo virtual, por meio do site espanhol/catalão ArteLista.com.
Criado em 2004, o ArteLista.com tornou-se uma comunidade de artistas de diversas partes do mundo que encontraram uma forma de longo alcance para divulgar suas obras. Como não existe uma curadoria, há trabalhos interessantes e outros, nem tanto. São treze áreas: pintura (gênero com mais de 35 mil itens), escultura, desenho, gravuras, fotografia, colagem, grafite, arte digital, multimídia, instalação, cerâmica e porcelana e artesanato, além da seção “outros”, para criações híbridas ou pouco classificáveis. Além disso, o site também dispõe de uma base de dados sobre mestres hispânicos, de El Greco a Joan Miró.
A exposição é garantida – atualmente, o site reúne 579 728 obras, incluindo “obras de arte libre” com licença Creative Commons –, mas as vendas só são altas em números absolutos (54 847, até o fechamento deste post, com preços que variam de 50 a 1 500 euros) — proporcionalmente, ainda é pouco.
Mas não importa: a julgar pelo número de usuários (cerca de 719 mil), pela movimentação de comentários e discussões pelo fórum e pelo blog, a riqueza da iniciativa está sobretudo na troca de ideias e na variedade de criações e de países participantes. Um mapa mundial das artes aponta de onde eles vêm. O Brasil é 11º país, com 7 649 obras cadastradas.
Entre os brasileiros, está o pintor e ilustrador mineiro Nelson Cruz, que acaba de expor uma série de retratos de artistas em aquarela, feita no final dos anos 90, além de pinturas e gravuras. Na época, a série foi interrompida e permaneceu inédita até agora.
Aproveite para conhecer o blog de Nelson Cruz.
Quarta-feira, 3 fevereiro, 2010, às 17:15
O excelente cartunista argentino Liniers convida, de tempos em tempos, outros artistas para desenharem sua tirinha que sai diariamente no La Nación, chamada “Macanudo” (as tirinhas também são publicadas num blog). Os convidados costumam aproveitar a oportunidade para homenagear o cartunista.
Ontem quem teve vez foi Eloar Guazzelli, sobre quem falamos há pouco aqui no blog. Abaixo, sua tirinha, talvez uma referência às férias de Liniers (clique na imagem para ampliá-la):
Quarta-feira, 3 fevereiro, 2010, às 10:53
Na passagem do ano, a abertura de documentos da Academia Sueca classificados como “secretos” revelou um pouco de como se dá a decisão que faz de um escritor um Prêmio Nobel. Depois de saber como as coisas aconteceram na decisão do prêmio de 1959, a gente fica imaginando que a votação funciona mais ou menos como os nossos concursos de escolas de samba.
A autora de A fazenda africana era a favorita para o Nobel daquele ano, numa disputa contra 55 autores, entre eles Graham Greene, André Malraux e John Steinbeck. Conforme a lista foi sendo refinada, Karen Blixen permaneceu lá no alto. O clima era de já ganhou. Três membros já haviam pronunciado seu voto em favor dela.
Mas o último a votar demoveu os demais com um argumento que soa inacreditável: tendo premiado já quatro escandinavos, a Academia poderia parecer provinciana escolhendo uma dinamarquesa. O Nobel foi para o italiano Salvatore Quasimodo.
Terça-feira, 2 fevereiro, 2010, às 10:17
O caderno Outlook do jornal Brasil Econômico publicou, em 23/1, uma extensa entrevista com Nicolau Sevcenko, professor de Harvard e pesquisador da USP. Na Cosac Naify, Sevcenko assina a tradução de Alice no País das Maravilhas, livro que, segundo ele, “é uma obra de fantasia, mas com um teor ético-político de vigor insuperável”.
Durante a entrevista, realizada pela jornalista Phydia de Athayde e gentilmente cedida ao Blog da Cosac Naify, Sevcenko comenta sua percepção sobre a obra fantástica de Lewis Carroll, embora o pano de fundo da conversa seja a formação histórica e política de um certo país – não o de Alice, mas o Brasil.
“A POLÍTICA NÃO TEM MAIS A VER COM IDEIAS, MAS COM MANTER NO AR ESSA FEIRA DAS VAIDADES”
É engraçado ser este filho de russos, de jeitão nada comum, um dos mais respeitados pensadores da história do Brasil contemporâneo. Nascido em Santos há 57 anos, Nicolau Sevcenko cresceu na capital paulista e demorou um certo tempo, exatamente até o seu primeiro dia de aula, para perceber que vivia em um país de língua portuguesa. “Comprava-se pão em russo na Vila Tolstói, na Vila Alpina”, diz, sobre bairros da zona leste paulistana. O estranhamento e a dificuldade com o novo idioma resultaram em uma dedicação de cientista, apaixonado, às raízes do país que a família (de refugiados políticos) escolheu, quase a esmo, unicamente por parecer livre de agentes secretos stalinistas.
Sevcenko entende de Brasil mais do que parece confortável escutar. Ele próprio, sempre depois de uma detalhada explicação dos porquês de cada vacilada histórica do país e suas consequências, fica “profundamente indignado” ou “bastante furioso” com o que vê. Uma sucessão de oportunidades lamentavelmente perdidas.
Estar com ele em solo brasileiro para estas reflexões, porém, só é possível em alguns meses do ano. Pesquisador da USP, passa um semestre aqui e, outro, nos Estados Unidos, onde leciona cultura e história brasileira na Universidade de Harvard. Há três décadas é casado com a editora de livros infantojuvenis Cristina Carletti, que o acompanha em parte da estada anual nos EUA. Os dois escolheram as carreiras em vez de filhos e compartilham uma tal paixão por plantas e animais que, quando em São Paulo, mais parecem visitantes da própria casa, onde reinam, entre residentes e visitantes, doze gatos e dois cachorros (a maioria salvos de atropelamentos ou abandonados nas ruas). A construção, por sua vez, que parece ter aterrissado na zona leste paulistana vinda diretamente de um outro leste, o europeu. Não poderia combinar mais.
Viagens no tempo e na história sem dúvida alimentam a alma de Sevcenko. Recentemente, traduziu Alice no País das Maravilhas (Cosac Naify) por deslavada paixão pelo inconformismo da menina que desdenha de ordens ridículas. Entre Harvard e a USP, trabalha agora na biografia intelectual do multiartista Helio Oiticica, “um revolucionário em todos os sentidos possíveis”, que pretende concluir ainda este ano. Boa viagem, professor.
Como é ver um país relativamente jovem como o Brasil ter estruturas tão injustas e arcaicas?
O que marca a história do Brasil, dos países sulamericanos, é a experiência tétrica da escravidão. Não tendo como contar com uma população própria para formar uma classe trabalhadora, o modo como os portugueses compensaram isso teve a consequência de criar um país completamente desequilibrado, com uma pequena elite que tem tudo e uma massa de despossuídos. O desequilíbrio da América Latina é incomparável à história de lutas por direitos em países mais antigos. O impacto da colonização no Brasil, no entanto, de certa forma foi superado pelo processo de construção do Estado Nacional, no século XIX, e a abolição da escravidão permitiu uma transição relativamente suave para o mundo moderno.
Você já afirmou algumas vezes que a instalação de uma república democrática e humanista é uma promessa até hoje não cumprida pelo Brasil. Por quê?
A história do país é uma sequência de oportunidades perdidas. Começou com os inconfidentes mineiros, tentando construir uma república federativa, com resultados infelizmente catastróficos. Quando o Estado Nacional se formou, o que era chamado de governo brasileiro era, na verdade, o governo português no Brasil. Com isso, criou-se um país com essa estrutura imensamente conservadora, autocrática, que foi perpetuada pelo Império. Quando se esperava que a proclamação da República fosse mudar o sistema, ela consolidou ainda mais essa estrutura centralista e autoritária. O resultado é um país que entra na modernidade com sua estrutura fundamentalmente assinalada por todos os traços de seu passado colonial.
Além da escravidão, a ditadura militar também foi um dos grandes desastres da história do Brasil?
Sem dúvida. A tendência, nos processos encadeados entre o final dos anos 1950 e início dos 1960, era construir um estado de bem estar social no Brasil e, com isso, abrir um horizonte de acesso social da população e de incorporação dessa imensa massa populacional nos direitos e na cidadania. Isso foi bloqueado pela ditadura militar, que estabeleceu-se nessa base política conservadora, do coronelato, do clientelismo. Na transição para o governo civil, a estrutura foi praticamente preservada.
O que temos hoje em dia, grosso modo, são as garantias constitucionais e os direitos básicos da cidadania assentados sobre essa imensa pastosidade de um passado mal resolvido, autoritário, assinalado por estruturas coloniais e um gigantesco fosso social. Uma dívida do Brasil com o seu passado que os governos pós-ditadura não souberam se empenhar em resgatar.
Os esforços mais recentes, dos governos Fernando Henrique e Lula, para diminuir esse fosso não fizeram efeito?
Não. Isso criou uma política de natureza própria, que podemos chamar de uma política social remediadora. A política brasileira depende da pobreza. A classe política depende do voto obrigatório.
A ideia não é abolir a pobreza, mas ir negociando, dando um grão aqui, outro ali, para obter o apoio eleitoral contínuo para manter as coisas exatamente como estão. Eliminar a pobreza modificaria o sistema. O sistema, para existir como existe, baseado no coronelismo e no voto obrigatório, precisa da pobreza. Esse é o aspecto mais tétrico porque a visão que se tem é a de que essa é uma política muito positiva, de que o Brasil está em uma situação de eliminar esse resíduo, quando se passa exatamente o oposto. Fico profundamente indignado.
Mas os que eram mais pobres agora formam esta nova classe C, não?
Aquela pobreza extrema desequilibrava o sistema. A pobreza remediada reforça e consolida o sistema. É muito mais útil para preservar a ordem estabelecida do que a anterior.
Nos últimos 15 anos, alguns indicadores de pobreza extrema melhoraram no Brasil, como a mortalidade infantil. Agora, vemos o país cada vez mais apontado como a bola da vez, o próximo protagonista na história do mundo. Você concorda com esse otimismo?
Não concordo muito, não. O principal instrumento de transformação social e consolidação da cidadania é a educação. Eu fiz escola pública a minha vida inteira, e a escola pública me deu condições de chegar onde cheguei.
Sei o que devo a essa escola e a qualidade que ela tinha. Se você tiver um filho, vai colocar em escola pública? Ninguém, a não ser que seja obrigado.
A escola pública virou um depósito de juventude ou infância em estado pré-delinquencial. Infelizmente, uma estrutura correcional e não educacional, um depósito de seres humanos sem futuro. Dizer que o Brasil tem um futuro, quando trata a população dessa maneira? Quando o investimento fundamental vai para prioridades como a Copa do Mundo ou a Olimpíada ou o trem-bala Rio-São Paulo, isso é prioridade social? Chuvas que matam crianças. É inacreditável que no século 21 a gente tenha que assistir a essa barbaridade e a discussão toda seja o quanto a chuva afetou o trânsito e, não, as crianças que morreram.
É inacreditável a direção que esse país tomou nesse otimismo todo que olha para fora, para o futuro, para estatísticas de organismos internacionais e ignora o que está diante dos seus olhos. Me deixa furioso, indignado, essa obsessão com índices meramente abstratos, que permitem que se faça uma política completamente na esfera da fantasia ou da propaganda. A propaganda se tornou a área da construção do debate político no país. A política, então, não tem mais a ver com ideias, com formulações de projetos voltados para a transformação da realidade do país, mas com manter no ar essa feira das vaidades, essa circulação de criaturas projetadas pela mídia.
Mas vamos dar nomes. A política transformada em espetáculo de que você fala são os milhões gastos em campanhas para divulgar o Cidade Limpa, a proibição do cigarro, o PAC?
Eis uma bela lista de exemplos que, embora possam ter uma natureza política, têm um tratamento essencialmente espetaculoso. Pense, por exemplo, nas nossas campanhas presidenciais, que são geridas por máquinas publicitárias. As disputas são por produtos publicitários, oferecidos com uma sigla ou outra, uma coloração política ou outra, mas que são essencialmente a mesma coisa. Parece que alguém está fazendo política, mas é apenas gestão de marcas. Nesse sentido, é lamentável, um esvaziamento completo de conteúdo e, portanto, de possibilidade concreta de mudar.
Neste ano de eleição você avalia que existam propostas diferentes a serem discutidas, ou as coisas estão mais ou menos iguais?
Acredito que vamos ter mais do mesmo, provavelmente com outro verniz mas, basicamente, o mesmo conteúdo. É o que a gente vem tendo desde o fim da ditadura militar. Lutamos tão esperançosos contra a ditadura — pelo menos a minha geração — achando que depois o país passaria por uma metamorfose completa e que, aí sim, poderia ser um exemplo para o mundo… ser capaz de construir a democracia. Mas não isso, não essa perpetuação da mesma estrutura com esse mecanismo remediatório tão consagrado.
O Lula?
Eu não quero personalizar, porque estamos falando de campanha eleitoral. Tivemos uma sucessão de partidos e nenhum deles foi capaz de introduzir elementos transformadores no país. Apenas remediaram situações extremas para manter a política populista calcada no voto de cabresto e agilizada pela máquina publicitária, que é o grande azeite da política do país.
Ver o que poderia ser diferente mas não é te dá um sentimento de tristeza, de revolta?
Vamos pensar na crise econômica. Todos souberam diagnosticar que foi causada pela desregulamentação dos mercados e que a única maneira de se evitar que se repita é retornar mecanismos regulatórios e de transparência. Exatamente o que não se vai fazer, o que se boicota. Isso se vê em relação ao clima, à estrutura financeira e econômica, à estrutura política. O que a gente quer? Mais do mesmo, até cairmos em outro desastre, até que tudo se esgote em uma grande crise onde, como sempre, os mais frágeis serão as maiores vítimas. O caos não é para a humanidade inteira. Só para os que não têm como de se defender.
Você já comentou que a tecnologia poderia ser um elemento de transformação social. É das lan houses na periferia que você falava?
Falo da tecnologia como um princípio, porque ela não é necessariamente má ou boa. As tecnologias convergiram para um efeito fundamental no mundo contemporâneo que é a minimização e a eliminação do trabalho.
No entanto, o uso que se fez dela foi eliminar mão de obra e aumentar a produtividade dos que permanecem no trabalho. Hoje, quem trabalha é muito mais sobrecarregado do que antes da guerra, e com uma enorme massa de desemprego em paralelo.
A tecnologia foi usada da maneira mais perversa e anti-social, deixando de servir à sociedade, à ampliação da qualidade de vida.
E as festejadas redes sociais?
Uma das razões pelas quais se ampliam as redes sociais é porque, em contrapartida, está havendo um encolhimento das relações sociais.
Por exemplo, o encolhimento do espaço público. Ele se tornou um lugar muito desagradável, de gente desconhecida, sem civilidade, porque foi sendo corroído por uma política que cada vez mais privilegia a proliferação dos carros, do transporte particular. Não há praça ou jardim que não seja atravessada pela correria dos carros, enfim, é um mal-estar por toda parte. E, porque as pessoas não vão a lugar nenhum, o espaço público vai sendo ocupado por grupos anti-sociais, que o tornam cada vez mais perigoso, e as pessoas vão se fechando cada vez mais em gradis, com cachorros violentos, vigias armados, criando seus próprios bunkers… até o ponto em que a única maneira de se comunicar é através da rede. Não há mais nenhum ser humano. Você quer falar com alguém e olha para um teclado.
No seu comentário sobre a tradução de Alice, você disse que o livro é uma grande aula de inconformismo. Isso é algo que se recupere?
Alice foi criada na sociedade vitoriana inglesa, talvez o primeiro grande modelo de sociedade autoritária e repressiva, destinada a modelar o comportamento das pessoas de maneira a torná-las completamente passivas. Se naquele contexto Alice parecia um personagem anárquico e anarquizante, que trazia a expressão da liberdade na disputa com aqueles personagens arrogantes, hoje em dia é muito mais. Alice é uma fagulha que desperta em nós tudo o que temos de mais espontâneo, de mais lindo, irreverente. É uma obra de fantasia, mas com um teor ético-político de vigor insuperável. Por isso, não há leitura melhor, mais inspiradora.
Você já viu o trailer da versão de Alice que o Tim Burton vai lançar nos cinemas em abril?
Estou louco para ver este filme, na maior expectativa.
Em Alice há uma lagarta que fuma narguilé, um chá aprisionado no tempo, cogumelos e alterações de dimensão e percepção… Uma coisa meio alucinógena, não?
A lagarta, provavelmente a personagem mais deslumbrante do livro inteiro, é um excelente exemplo. Foi baseada em um amigo do (autor) Lewis Carroll chamado Edward FitzGerald, que era poeta como ele e, entre outras obras, traduziu o Rubaiyat, de Omar Khayyaam. São quadrilhas em persa clássico — dificílimas de traduzir, o homem era um mago — que falam do desfrute dos prazeres da vida como sendo a razão pela qual nós estamos neste planeta. Isso em grande sentido se aproxima da maneira como o próprio Carroll entendia a relação dele com os animais, a natureza, as crianças.
Esse desfrute pressupõe estados alterados de consciência?
Isso é uma questão problemática no contexto da cultura persa, por força da introdução do islamismo, que proibe a intoxicação.
Mas o Omar representava uma corrente contrária. Ele achava que era por esse caminho — de prazeres como o vinho e outros — que se chegava ao sagrado. Defendia a ideia de que o êxtase com o divino vem também pelo corpo. Há correntes belíssimas nesse sentido. São minoritárias dentro do islamismo, do cristianismo, do budismo mas, com a graça de Deus, elas existem.
***
Leia a seguir as impressões da repórter sobre do encontro com Nicolau Sevcenko, texto também publicado no jornal Brasil Econômico:
Enquanto posava, sem saber o que fazer com a boca, os olhos ou a sobrancelha, Nicolau Sevcenko metralhava o fotógrafo com sua curiosidade infantil, no sentido de quase infinita. “Do que é feito isso?”, quis saber, sobre o rebatedor de luz. “Que lente é essa? Não se usa mais filme, né?” Tudo parecia — e era — um pretexto para ele aprender algo novo em vez de bancar o modelo. Conversamos em uma mesa no quintal, entre gatos (Líder é o bichano desta foto e da capa do Outlook), plantas e tranqueiras da garagem vazia. Mas o mais marcante da visita é, sem dúvida, o interior da casa. Uma viagem no tempo e nas artes decorativas. Escuro e cheio de penduricalhos, detalhes em madeira, vitrais coloridos, quadros de unicórnios (!) e papel de parede. O térreo é penumbroso, um vitral filtra a luz e separa o hall da sala de jantar, esta, revestida com uma estampa que parece ser de antes da ascensão bolchevique. Na sala de estar, outro revestimento colorido vai até metade da parede, lilás, e termina em um estreito batente, que em toda a sua extensão sustenta coleções de miniaturas: corações, sapos, joaninhas, cavalos, colheres, elefantes, corujas, vidros de perfume, gatos, dinossauros, coelhos… Nenhuma com mais de 5 centímetros de altura. O cheiro do almoço em preparação não consegue competir com o odor dos gatos. No ar também há música clássica, da rádio 103.3 FM. Uma escada forrada com carpete verde escuro leva ao segundo andar, onde há uma sala de leitura com paredes revestidas de madeira e estantes a ponto de ceder de tantos e tantos livros. É estranho. Parece estar nevando lá fora. Em outro mundo.
Segunda-feira, 1 fevereiro, 2010, às 19:39
Em 2008, a NASA enviou uma mensagem para os eventuais extraterrestres que estiverem dando sopa pelo espaço sideral: “Across the Universe”. Desde então, o refrão indobritânico “Jai guru deva om/Nothing is gonna change my world” ecoa pela Via Láctea.
Neste começo de 2009, alguns cientistas (biólogos, astrônomos e astrofísicos) da Royal Society, a Academia Real de Ciências britânica, discutiram num seminário o tema: será prudente ficar enviando mensagens aos extraterrestres?
Se a ideia é afastá-los, talvez os Beatles não tenham sido uma boa escolha.
Segunda-feira, 1 fevereiro, 2010, às 17:08
Hoje (1/2) foi a vez de Isabel Lopes Coelho, editora de livros infantojuvenis da Cosac Naify, enfiar a mão numa cumbuca de papéis para sortear o vencedor da promoção especial “Onde vivem os monstros”.
O leitor José Eduardo de Mello Barboza é quem levará para casa o monstrinho de pelúcia azul.
Participaram do sorteio todos aqueles que adquiriram o livro de Maurice Sendak na Loja Virtual entre 11 e 31/1/2010. Os compradores da obra nesse período também receberam um pôster oficial do filme de Spike Jonze.
