• O apocalipse de Heloisa Seixas

    O cavalo sobe na árvore e canta como galo. A estrada é longa, mas o portão é
    estreito. Alguém de negro dança na praia. A galinha anuncia a escuridão.
    O dia raiou e o peixe está morto. Alguém de negro está agachado na praia. A
    serpente vibra no céu. A virgem está pálida, porém feliz como um rato.
    Alguém de negro corre na praia. A cabra assobia com seus dois dentes. O
    som do clarim soa forte. As ondas quebram. Alguém de negro defeca na
    praia. A porca deita nos ovos e o galo permite. A noite está coberta de
    fuligem e o escuro permanece. Alguém de negro permanece, permanece na praia.

    Canção interpretada pela trupe de artistas mambembes em O sétimo selo, de Ingmar Bergman

     

    A heroína desta história, um quase romance, se confunde com o protagonista, uma espécie de xadrezista tenaz. Assim se organiza também, como numa conversa bêbada, a narrativa alternada em prolepses e flashbacks, erguida em várias camadas: as tulipas vazias, as bolachas de chope amontoadas sobre a mesa e beijadas pela gordurosa brisa do Leme.

    Hálito de chope à parte, Heloisa trata com uma lucidez aguda, quase autômata, a saga pela qual passou, ao lado do marido, sempre ao lado do marido, o escritor Ruy Castro. Ficção e realidade dançam um antigo bolero, em algum nightclub fumoso, cujo último cliente, exalando álcool pelos buracos, pede mais um copo alto de vodka pura.

    O cenário também é movente — e emula a paisagem esbarrancada da Avenida Niemeyer, o pisca-pisca de uma geringonça refletido nos olhos curiosos de um menino apaixonado por música, cinema e literatura: um quarto sombrio de UTI, uma galeria carioca badalada dos anos setenta, uma casa de repouso abraçada por um milharal, um lago salgado, uma pequena e assustadora loja de máscaras venezianas, um apocalíptico desfile da Portela, na Sapucaí.

    Heloisa vai abrindo os selos e contando, numa intricada renda de filé crivada de vastas referências literárias, cinematográficas e musicais — o livro é também outros tantos livros, filmes e músicas —, os desgastados degraus de sua íntima Escadaria da Penha, os percalços da vida e da então delicada saúde do marido: a alucinante e épica aventura de amar outro corpo, o suplício de estar vivo.

    O oitavo selo é tão colorido quanto doído. Esquartejado e musical. (Embora surja um Frank Zappa aqui, uma Gang 90 ali e um Paulinho da Viola acolá, a trilha sonora de fundo crepita baixinho, como o mar de Ipanema, na voz de um Tom Jobim sussurrante, aprisionada num carro hermético, beirando a aleia de castanholeiras, a caminho do hospital.)

    Com o olho clínico, uma cadência discreta — algumas vezes descarada — e uma elegância vocabular precisa, Heloisa joga corajosamente com a perda e o medo, este último, um lobo de gengiva escura**, maior e mais doloroso que a morte.

    A morte, essa figura tão indevassável quanto uma cerimônia monástica realizada numa igreja colonial, tão incompreensível quanto uma faca de cozinha atravessada na garganta, revelada num exame rotineiro de raio X, a pontinha extravasando a pele, à esquerda**. A morte, essa figura tão mesquinha e desprovida de graça, que teve a pachorra de calar Millôr, Carmen Miranda, Nelson Cavaquinho e o cavaleiro Antonius Block.

    Hálito de morte à parte, ela, a grande adversária das gentes, a fantasmagórica baútta, a sinistra e obstinada personagem de Bergman, parece não vencer dessa vez.

    No mesmo planeta apocalíptico, onde a peste incha os corpos, os cavalos comem uns ao outros, os túmulos são abertos e os restos de cadáveres estão espalhados por toda parte**, há ainda a livraria, o cheiro doce do sebo, o quartinho do tesouro, a palavra, o humor.

    A profecia encrespou o mar.

    Heloisa, que também é xadrezista tenaz, derruba estrategicamente as peças do tabuleiro e derrama sobre todas as dores, as mãos carnudas do amante, os gestos adivinhados, um livro valente, de capa laranja, escrito como uma declaração de amor.

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    * Natércia Pontes é autora de Copacabana Dreams

    **as passagem assinaladas fazem menção ao livro de Heloisa Seixas ou ao filme de Ingmar Bergman

  • A forma do livro: “Decameron”

    Gosto de pensar o projeto gráfico de um livro como um encontro. Um encontro com a própria narrativa, com os personagens, com o cenário, com uma época; mas também um encontro de tradutores, editores, designers, ilustradores, produtores gráficos, até chegar ao leitor.

    No caso específico de Decameron, obra escrita por Giovanni Boccaccio entre 1349 e 1351 (ou 53), ele já ocorre no “prólogo” do livro, quando sete jovens damas e três cavalheiros se encontram por acaso na igreja de Santa Maria Novella, em Florença. Para fugir da peste que dizimava a Europa, decidem se recolher em uma vila afastada da cidade e, por dez dias, cada um dos narradores conta dez histórias próximos a uma fonte, sob a sombra das árvores.

    No final de 2012, já na primeira reunião com o tradutor Maurício Santana Dias, uma surpresa: Boccaccio também foi um exímio copista! Dois manuscritos comprovavam esta informação: o primeiro, na Biblioteca Nacional de Paris, com ilustrações a bico de pena de Boccaccio; e o segundo, em Berlim, inteiramente transcrito e ilustrado pelo autor.

    Passei a virada do ano novo em Berlim e me incumbi de uma missão muito especial: ver pessoalmente o manuscrito. Infelizmente, devido ao seu estado de conservação (também pudera, é datado de 1370!), o acesso só é liberado a pesquisadores. Só me restou folhear uma edição fac-similar. Fiquei impressionada com os detalhes: além das capitulares ornamentadas, Boccaccio também inseria ao pé de algumas páginas pequenos desenhos dos narradores.

    A extraordinária minúcia das descrições de Boccaccio pedia um livro ilustrado por alguém capaz de trazer essa riqueza de detalhes. A intenção não era fazer um revival histórico, mas, ao contrário, fazer uma homenagem indireta e contemporânea à tradição do livro medieval. O artista paulistano Alex Cerveny aceitou o desafio.

    A composição do texto foi um capítulo a parte. Primeiro fizemos a marcação das cenas para determinar o espaço das ilustrações. Definimos que cada novo parágrafo teria a sinalização de um ornamento desenhado por Alex – ganharíamos, assim, uma mancha de texto coesa. Diversos testes foram feitos até a escolha final da tipografia e do número de colunas em que o texto estaria disposto na página. Pouco convencional nos livros de hoje, a opção em duas colunas oferecia mais possibilidades de ornamentação ao mesmo tempo que, graças ao formato generoso do livro, não comprometia a leitura. A tipografia utilizada foi a Vendetta (1999), desenhada por John Downer e distribuída pela Emigre, cujo desenho mescla as formas tipográficas do início do renascimento com as preocupações da tipografia contemporânea, como, por exemplo, a exibição ideal de letras na tela do computador.

    detalhe

     

    Ao longo de doze semanas, entre abril e junho de 2013, o livro tomava forma. A primeira prova teve duas cópias: uma para a revisão de texto e outra para Alex, que ocupava os espaços em branco nas 96 páginas, que posteriormente foram digitalizadas e tratadas. Outro aspecto interessante do projeto é o tratamento dado aos títulos das novelas e número de página – que muitas vezes foram invadidos pela ilustração – e cuja intenção era que fossem o mais discretos possível.

    Por fim, a capa, que nada mais é do que a resultante do trabalho do miolo: um lettering sem serifa e dourado ocupa a mesma área destinada ao texto no miolo, acompanhando por vinhetas que foram impressas em cinco cores sobre o papel cinza. E assim, neste encontro com mais de 700 anos de história, nasceu mais um livro!

    *Tereza Bettinardi é designer e desenvolveu o projeto gráfico de Decameron com Elaine Ramos, diretora de arte da Cosac Naify. As duas receberam o Prêmio Jabuti 2014 pelo trabalho, e o ilustrador Alex Cerveny foi o 3º colocado na categoria “Ilustração”.

  • Destaques da 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    Como todos os anos, a Cosac Naify e a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo se unem para apresentar ao público um livro sobre os mais importantes diretores do cinema mundial. Em 2014, é a vez de O mundo de Jia Zhangke, com organização do crítico Jean-Michel Frodon e do cineasta Walter Salles, além de textos do próprio Jia – o maior nome do cinema chinês contemporâneo – e da pesquisadora Cecília Mello. O lançamento será no dia 25 de outubro no Cinesesc após a exibição do documentário Jia Zhangke, um homem de Fenyang, de Walter Salles.

    Imagem do livro “O mundo de Jia Zhangke”. Cena de “Unútil” (2007), Jia Zhangke

    E, também como todos os anos, a rica e variada programação da Mostra pode deixar muito cinéfilo perdido. Por isso Livia Lima, que editou o livro junto com Florencia Ferrari, separou aqui algumas dicas imperdíveis do evento.

    RETROSPECTIVA DE DIRETORES

    Víctor Erice
    A 38ª Mostra apresenta a filmografia completa do aclamado diretor espanhol: O espírito da colmeia (1973), O sol do marmelo (1992) e O sul (1983).

    Noboru Nakamura
    O diretor japonês contemporâneo de Ozu e Mizoguchi tem três de seus filmes mais representativos em novas cópias: Lar doce lar (1951), Quando a chuva cai (1957) e Paixão mórbida (1964).

    Marin Karmitz
    O criador da MK2 – uma das mais respeitadas produtoras da França – tem sua obra cinematográfica homenageada pela Mostra que exibe seu curta-metragem Noite escura Calcutá (1964) e seus longas Sete dias em outro lugar (1969), Camaradas (1970) e Golpe por Golpe (1970).

    NOVÍSSIMOS E PREMIADOS

    A gangue (Myroslav Slaboshpytskiy, 2014)
    Filme ucraniano sobre jovens surdos-mudos rodado inteiramente em linguagem de sinais sem narração ou legendas. Vencedor do Grande Prêmio da Semana da Crítica no Festival de Cannes.

    Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência (Roy Andersson, 2014)
    Drama surrealista sueco que levou o Leão de Ouro no Festival de Veneza.

    Leviatã (Andrey Zvyagintsev, 2014)
    Vencedor da Palma de melhor roteiro no Festival de Cannes, esse longa russo ainda conta com música de Philip Glass.

    PARA REVER DE OUTRO JEITO

    O circo (Charles Chaplin, 1928)
    Cópia restaurada do clássico de Carlitos em projeção ao ar livre no Parque Ibirapuera com trilha apresentada ao vivo pela Orquestra Experimental de Repertório da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

    Vão livre do MASP
    Este ano, a programação gratuita no Masp traz a clássica Trilogia das cores do polonês Krzysztof Kieslowski.

    Ninfomaníaca 1 e 2 (Lars von Trier, 2013)
    Para os fãs do dinamarquês, a Mostra apresenta a versão de diretor de seu último filme.

    Boa Mostra!

  • Florencia Ferrari fala sobre a coleção Exit

    Trabalho na editora há quase três anos e desde o primeiro dia me sinto presenteada com uma bagagem cultural enriquecedora. Para uma aluna de ciências sociais, como eu, poder acompanhar, mesmo que indiretamente, todo o processo de construção de um catálogo de peso como o da Cosac Naify é realmente uma experiência fascinante. Por me sentir fazendo parte de todo esse processo, há tempos venho pensando em escrever um texto para o blog, mas confesso que sempre fiquei muito em dúvida sobre qual assunto abordar. Até que um dia ouvi a diretora editorial, Florencia Ferrari, apresentando a ideia de uma nova coleção, a Exit, que trataria de assuntos contemporâneos e abordaria reflexões pertinentes, que de certa forma são analisadas pelas ciências sociais. Na hora me identifiquei, e não deu outra: já fiquei ansiosa para começar a ler o primeiro título.

    Terminada a leitura, senti que esse poderia ser o gancho de minha colaboração para o blog. Achei que seria interessante entrevistar a diretora editorial para compartilhar com os leitores parte do que eu ouvi sobre o processo de criação da coleção, coordenada por ela e pelo editor Milton Ohata. Abaixo, nossa conversa:

     

    Priscila Camazano A editora está lançando uma nova coleção chamada Exit, que busca identificar e analisar criticamente vários temas do mundo contemporâneo. Qual foi a inspiração para criar esse nome?

    Florencia Ferrari Foi o Milton Ohata, que coordena a coleção junto comigo, que deu o nome. A coleção trata de assuntos contemporâneos que ainda não conhecemos bem, que ainda não sabemos aonde podem nos levar e que às vezes sequer foram bem definidos. As categorias teóricas e as ferramentas analíticas do século xx nem sempre dão conta de lidar com esses novos fenômenos. A coleção busca trazer exercícios de crítica contemporânea que nomeiem os problemas, teorizem sobre suas implicações e, em alguns momentos, apontem saídas quando parece que não há. Daí “Exit” ser um bom nome. Exit é a terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo exire, do latim. Desse verbo também deriva a palavra êxito, sucesso, solução. Por outro lado, EXIT (em caixa alta e luminoso) é usado internacionalmente para indicar saída em um espaço público, não em latim, mas em inglês. O inglês, como foi o latim no Império Romano, é a língua hegemônica do mundo globalizado de hoje; uma língua de comunicação. É desse mundo global colonizado cultural e economicamente pelo ocidente, cuja língua de comunicação é o inglês, que trata esta coleção.

    PC Qual critério guiará a escolha dos títulos? Conte um pouco sobre esse processo de seleção das obras e o que os leitores podem esperar para os próximos lançamentos.

    FF A ideia é reunir textos ensaísticos com forte pulsação crítica e sofisticado embasamento teórico sobre temas  muito diversos. O lugar do sono num sistema que tende a desfazer a fronteira entre dia de trabalho e noite de descanso; a própria noção de “tempo”, de “presente” e “futuro” para um indivíduo cosmopolita; concepções de “natureza” e a emergência de cataclismas globais; as limitações dos tradicionais conceitos de “guerra”, “território ” e “soberania nacional” para compreender conflitos atuais; questões de mobilidade urbana, relações entre homens e animais, técnicas de reprodução assistida, concepção de “corpo”, de “gênero” e formas contemporâneas de comunicação são alguns dos temas que demandam reflexões críticas e podem ser incluídos na coleção. Por trás dos ensaios se articulam conhecimentos de vários campos como ciência política, filosofia, economia, antropologia, literatura, arte e psicanálise. É uma preocupação nossa balancear textos mais distópicos, inevitáveis no espectro da coleção, com análises neutras e também mais propositivas. Em todos os casos, trata-se de enfatizar a dimensão política do ensaio.

    PC O primeiro título da coleção é o 24/7 – Capitalismo tardio e os fins do sono, do Jonathan Crary. Por que inaugurar a coleção com essa obra?

    FF 24/7 faz um panorama alucinante do mundo globalizado conectado e em atividade permanente. A narrativa de Crary encadeia com muita destreza pesquisas de alta tecnologia, análises de fundo foucaultiano a uma descrição de uma vida cotidiana frenética, de tirar o fôlego. De um lado, é uma visão bastante catastrófica do mundo, no entanto, ele confere ao sono – e ao sonho – um lugar de resistência, de potencial imaginativo. Para alguns essa pode ser uma saída.

    PC Para quando está previsto o próximo título e qual assunto será posto em discussão?

    FF O próximo título está previsto para abril. Em breve anunciaremos o tema.

    exit

    *Priscila Camazano é assistente de diretoria da Cosac Naify

  • Brekekekéks coaks coaks!

    “E como não seria elegantérrimo quem passa a vida a beber e a bimbar?” O irreverente servo Xântias é justo ao descrever seu senhor. Este não é ninguém menos que Dioniso, o deus patrono do teatro, que, após ter lido a tragédia Andrômeda, se apaixona perdidamente por seu autor – Eurípides (c. 480-406 a.C.) – e decide empreender uma catábase (descida ao Hades) em sua busca.

    Escrita e premiada em 405 a.C. – no auge da carreira de Aristófanes (c. 446-386 a.C.) –, a comédia As rãs presta uma singular e pícara homenagem à tragédia grega, quando esta acabara de perder dois de seus três maiores autores: além de Eurípides, Sófocles (c. 496-406 a.C.) também morrera no ano anterior – Ésquilo (c. 525-456 a.C.) já havia falecido meio século antes.

    O título da peça faz referência aos batráquios que Dioniso encontra e dos quais, como de costume, se burla em seu caminho para a casa de Hades (também conhecido como Plutão). Lá, a depravada divindade presencia um duelo entre Ésquilo e Eurípides para determinar a quem pertence o trono de melhor dramaturgo ao lado de Plutão, que fora preterido por Sófocles. Dioniso ainda adverte: “pega mal poetas baterem boca feito duas lavadeiras”. Para a alegria do leitor, tal conselho não surte muito efeito.

    A sonora tradução de Trajano Vieira faz com que a leitura de As rãs nos propicie um raro prazer oral. Entre outras palavras e expressões, deparamo-nos com termos pouco frequentes no português coloquial – tais como paul (pântano), propugnáculo (fortaleza, baluarte), campina rórida (orvalhada) e báratro (abismo, inferno) –, alguns mais comuns, embora nem tão eruditos – como rango, rachar o bico, salto agulha e pisante – e neologismos pontual e esmeradamente manufaturados – como, por exemplo, belidançariníssimo, tetrarrobustos, bostejador e punhetopolitano.

    As aliterações também são dignas de nota, a começar pela primeira fala do protagonista Dioniso, que solta: “Ao teu talante, menos ‘já tatala o traque!’”; e, em outro momento: “Bocós anteriormente boquiabertos, como aquele ali, eram marmanjos mama-mel”.

    Se a compreensão do vocabulário de As rãs demanda um – gratificante – esforço dos leitores, por outro lado Trajano brinda-nos com diversas e cuidadosas notas de rodapé sobre as figuras públicas e as referências teatrais, tipicamente presentes nas obras de Aristófanes, situando e contextualizando o leitor. E sua transcriação consegue manter todo o vigor gargalhante da comédia de Aristófanes. Eis uma amostra:

    Dionísio (para Xântias): Servo!

    Xântias: Qual é o problema?

    Dioniso: Não percebeste?

    Xântias: Nadinha.

    Dioniso: Está borrando de pavor de mim.

    Xântias: Medo de estar diante de um demente.

    Héracles: Vou rebentar de rir. Vem me ajudar, Deméter! Não me contenho! Mordo os beiços, rio a rodo!

    Sem dúvida, a leitura de As rãs se torna mais prazerosa se feita em voz alta, de preferência por uma boca bem despudorada.

    * Tomás Troster é doutorando em Filosofia pela USP e editor da revista Córrego.

     

  • Revisitação marítima de Sophia

    “De todos os cantos do mundo
    Amo com um amor mais forte e mais profundo
    Aquela praia extasiada e nua
    Onde me uni ao mar, ao vento e à lua”

    [Sophia de Mello Breyner Andresen, trecho de "Mar"]

     

    A invocação do mar percorre a lírica ibérica desde o galego-português das cantigas de amor e cantigas de amigo. Uma dessas canções medievais já fazia do mar seu confidente, pedindo às ondas notícias do amado ausente: “Ondas do mar de Vigo/ se vistes o meu amigo…”

    Talvez, porém, em nenhum outro autor as ondas, a praia, o mar sejam invocados com uma veneração tão próxima do sagrado, memória da divindade, como se Poseidon, deus de todos os mares, ainda neles tivesse o seu reino. Reino que Sophia descobriu, nas praias de mar verde da sua infância, e que reviveu nas praias do Algarve onde tinha casa, onde passava os verões e nadava, onde imaginava a sua Grécia privada.

    No “Elogio da usina e de Sophia de Mello Breyner Andresen”, João Cabral de Melo Neto reconheceu nesses “algarves de sol e mar” o impulso inspirador de uma poesia à qual se sentia ligado pelo rigor, pelo amor à palavra medida, pela fuga ao decorativo:

    “Sofia vai de ida e de volta (e a usina);
    ela desfaz-faz e faz-refaz mais acima,
    e usando apenas (sem turbinas, vácuos)
    algarves de sol e mar por serpentinas.
    Sofia faz-refaz, e subindo ao cristal,
    em cristais (os dela, de luz marinha)”

    Desde os primeiros livros, Sophia reinventou, fazendo, desfazendo e refazendo em formas apolíneas a cosmografia dos seus dias do mar:

    “Dia do mar no ar, construído
    Com sombras e cavalos e de plumas

    Dia do mar no meu quarto-cubo
    Onde os meus gestos sunâmbulos deslizam
    Entre o animal e a flor como medusas.

    Dia do mar no ar, dia alto
    Onde os meus gestos são gaivotas que se perdem
    Rolando sobre as ondas, sobre as nuvens”

    Mar ora liso e calmo:

    “No alto mar
    A luz escorre
    Lisa sobre a água (…)”

    Ora inquietante e dionisíaco, mundo misterioso e povoado de pavores:

    “No fundo do mar há brancos pavores,
    Onde as plantas são animais
    E os animais são flores
    […]
    Um polvo avança
    No desalinho
    Dos seus mil braços (…)”

    Reencontramos centenas, milhares de polvos em A Menina do Mar (Cosac Naify, 2014), onde há ecos de A Pequena Sereia de Hans Christian Andersen, conterrâneo daquele Andresen avô paterno de Sophia, que dele herdou o último nome de família. Convicta de que a fantasia ajuda a curar, Sophia escreveu A Menina do Mar para a filha Maria, então doente. As narrativas de Sophia destinadas à juventude foram sendo escritas ao sabor das circunstâncias e lidas aos cinco filhos. Jorge de Sena, seu contemporâneo (ambos nascidos em 1919) e seu correspondente durante anos, homenageou a amiga de uma vida num poema breve que começa assim:

    “Filhos e versos, como os dás ao mundo?
    Como na praia te conversam sombras de corais?”

    Relendo A Menina do Mar, esta história de pequena bailarina ao mesmo tempo forte e frágil, revi a imagem da leveza harmoniosa da Poeta (recusava que lhe chamassem poetisa) e recordei dois dos seus versos perfeitos:

    Quando eu morrer voltarei para buscar
    Os instantes que não vivi junto do mar

    *Almeida Faria nasceu em 1943, no Alentejo, Portugal. É autor de A paixão,  publicado em 1965 e considerado um marco na moderna literatura portuguesa.

     

     

  • Bandeira no elevador

    Entrei no elevador do trabalho, dia desses, com a cara enfiada num Manuel Bandeira, que era pra ninguém falar comigo. Anti-social, eu sei, mas a caixa de metal do ambiente coorporativo me é tão mal quista que diariamente ponho em prática técnicas novas da não sociabilidade.

    Geralmente coloco os fones de ouvido antes mesmo de sair do escritório, reproduzindo músicas tão altas que até os colegas da firma são capazes de escutar o meu melô. É pouco compreensível, sei… “uma menina tão sociável quanto você!”, julgam. Mas elevador é o meu ponto fraco, a minha neurose, inabilidade, é a vida, já aceitei. Desde criança moro em sobrados, nunca precisei lidar (muito) com a máquina. Morria de medo de ficar presa, sempre troquei os “bons dias” por “boas tardes”, ou até mesmo “noites”, tamanho desconforto e confusão que a caixa de metal provoca.

    Pois mal entrei no asfixiante veículo quando um senhorzinho engruvinhado, tez amarelada (aquela cor de gente morena que não vê o sol), uniforme da Higilimp e aspecto cansado me disse “prefiro o Crônicas da Província do Brasil”.

    Disfarçando o susto e o incômodo, pensei seriamente em sair correndo, mas a porta já estava quase toda fechada, o que ia provocar uma péssima impressão e provavelmente um galo na minha testa. Fora que, depois da cena, eu certamente teria que descer ou subir todos os 12 andares de escada porque o velhinho era um funcionário do prédio e eu sempre ia encontrá-lo no elevador – se bem que talvez não fosse má ideia, evitaria várias situações desconfortáveis, pensei nesses 10 segundos de angústia.

    Mas como ele ainda me encarava, sorriso semi banguela e simpática tentativa de interação (pro meu desespero), me limitei a responder apenas um “Desculpe?”.

    “Do Manuel Bandeira. Esses Poemas religiosos são bons, mas eu prefiro o de crônicas”.

    “Ah…”, entendi, finalmente, que ele falava do livro e fiquei pensando no que responder à medida em que os andares passavam no mostrador digital. Quando fui, tímida, dizer que eu estava gostando dos poemas, ele emendou:

    “Trabalhei muitos anos na Mário de Andrade, sabe. Por isso que eu conheço o Manuel Bandeira”.

    “Ah é? Que legal moço”, me limitei a responder, ainda um pouco perplexa, agora já interessada.

    “Ai que gentileza a sua me chamar de moço! Moço eu era quando entrei lá, em 62. Fazia faxina, também. Sempre fiz. Era tão bom nisso que livro nenhum ficava empoeirado. Podia até ter o cheiro de guardado, que é inevitável né fia. Sabe? Aquele cheiro de livro de sebo da 7 de abril? Rárárá! De lembrar eu tenho vontade de espirrar. Tenho rinite! Ruim pra um faxineiro, né? Rárá! Sabe, fia, rinite?”.

    “Sei sim senhor, também tenho”

    “Pois então! Você sabe. Mas eu não tinha isso não, sabe. Começou depois que eu entrei na Biblioteca. Acho que foi de tanta poeira que eu limpava e dos livros que eu pegava pra ler na hora do almoço. Deve ter a ver com a poluição de São Paulo também, né? Tem isso também. Mas acho que eram os livros sabe. Depois que me forçaram aposentar e que eu saí lá da Mário eu tenho espirrado menos”.

    Bastante sensibilizada, abri um sorriso meio de canto de boca e, quando fui perguntar o seu nome, a porta de ferro se abriu e ele saiu todo serelepe, apesar da idade.

    “Tchau fia, a gente se fala. Vê se lê as Crônicas, hein?”.

    livros-bandeira

     

     

    *Maria Shirts, 23, é jornalista, cronista e pedestre. É colaboradora do Posfácio, Esparrela e Nota de Rodapé.

  • Jandira

    Em seu último post, a colunista Alice Sant’Anna tentou escolher o verso mais bonito do poeta Murilo Mendes, mas não conseguiu. Ficou com uma palavra: transparente, que encerra “Jandira”. O poema é chave na obra de Murilo Mendes, apresentando, na sua linguagem de inspiração surrealista, um dos temas que mais o fascinava: a mulher, em suas dimensões física e simbólica.

    A edição especial de Antologia poética, compilação inédita da obra do poeta mineiro organizada por Murilo Marcondes e Julio Castañon, vem acompanhada de um CD com gravações de 1955 em que Murilo Mendes lê oito de seus poemas. “Jandira” é o primeiro deles:

    As oito faixas que acompanham a Antologia foram retiradas do LP “Poesias”, lançado pelo selo Festa, criado por Irineu Garcia e Carlos Ribeiro em 1955. O material integra uma série que registrou em disco os principais nomes da poesia brasileira moderna: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Murilo Mendes, Jorge de Lima, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes. Os LPs traziam uma dupla de poetas, cada qual ocupando um lado, quase nunca ultrapassando dez faixas. Murilo Mendes dividiu com João Cabral de Melo Neto o 10º volume da coleção.

    poefesta

     

  • Looping

    Faz dois anos que entrei na Cosac Naify para elaborar e coordenar os livros digitais da editora. Eu, que gosto muito de retrospectivas (elas me ajudam bastante), já estava com vontade de aproveitar minha coluna no blog para escrever sobre esses anos de casa, sob uma perspectiva mais pessoal, e a marca recém atingida dos 100 primeiros e-books do nosso catálogo me pareceu um ótimo gancho.

    Em 2012, havia uma grande expectativa do que seriam nossos e-books. Passei algumas semanas lendo e estudando o catálogo e, eventualmente, fazendo testes nos dispositivos a fim de definir, em primeiro lugar, quais seriam, de um modo bem resumido, nossos padrões.

    ebooks dispositivos

    Nesse primeiro momento, a diretriz era pesquisar e desenvolver um modelo próprio para a editora, que se ajustasse ao seu perfil e integrasse, ao longo do tempo, o novo departamento aos demais.

    Isso feito, poderíamos seguir com a escolha de títulos, a corrida pelos direitos autorais, a leitura e alterações de contratos, testes de fornecedores, adaptações de conteúdo, solicitações ao designers e editores, reuniões semanais e, bem, de repente, já estávamos em janeiro de 2013.

    Começamos, então, os preparativos para o lançamento dos primeiros e-books, que se daria em abril. Já dispúnhamos de 25 títulos para a estreia, o que consideramos um número razoável para dar o pontapé inicial.

    Dentre esses títulos, estavam contos avulsos da coleção Prosa do Mundo, que reúne nomes como Stevenson, Tolstói e Tchekhov; Alejandro Zambra, com seu Bonsai; O fazedor de velhos, de Rodrigo Lacerda; Os meninos da rua Paulo, do húngaro Ferenc Molnár; Clarice, , biografia da autora, escrita por Benjamin Moser; e O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe.

    Apesar da calma com que tratamos o processo, foi um trabalho realmente árduo, afinal, por mais bem planejado que algo seja, tem sempre uma variável que escapa.

    Acho que essa é única regra que se aplica a todo e qualquer trabalho: sempre que se tenta dar conta de todas as variáveis, o universo se reorganiza de maneira a te colocar na única situação não previsível (e ainda a faz parecer óbvia em retrospecto).

    A partir da estreia dos e-books, em 2013, as rotinas se intensificaram, com mais canais de distribuição, um manual de estilo para os digitais, mais títulos, mais parceiros e minha estreia como colunista neste blog, com um texto sobre o trabalho em Moby Dick.

    A coluna acabou se tornando mais do que um espaço para atualizar os leitores sobre o que fazemos nesse setor. Tornou-se, também, uma forma de desmistificar o trabalho com e-books, dentro e fora da editora, fosse apresentando variados problemas de adaptação, o lançamento de uma obra exclusivamente no formato digital, o trabalho realizado no livro que mais me causou dúvidas (e que acabou se desdobrando em uma pequena série) ou desabafando sobre o dia em que joguei a toalha.

    Enfim, mal chegamos em 2014 e o ano já se vai. O tempo tem desses caprichos: felizes, alcançamos a marca dos 100 títulos digitais, e ela já se foi.

    promocao-100

    Ao atingirmos esse número, fizemos também nossos primeiros lançamentos simultâneos (impresso e digital) com 24/7 – Capitalismo tardio e os fins do sono e Tempo de espalhar pedras (e-book 101 e 102, respectivamente), além de nossa primeira seleção de títulos digitais em promoção. Tudo isso representa uma nova fase, não apenas para o departamento**, mas para a editora como um todo, trazendo novos fluxos, possibilidades e desafios.

    Essa leva que completa nossos primeiros 100 e-books me traz a mesma sensação da estreia: a sensação de que  estamos apenas no início de tudo, e esse início é contínuo e, espero, continuará sendo.

    *Antonio Hermida é coordernador de mídia digital da Cosac Naify 

    **clique aqui para saber mais

  • Dormir não é preciso

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    O mais recente trabalho do professor de Teoria da Arte Jonathan Crary, 24/7 -Capitalismo tardio e os fins do sono, primeiro título da Exit, nova coleção da Cosac Naify, apresenta um denso percurso, pontuado por comentários a textos e imagens, cujo objetivo é elaborar uma crítica bastante pessimista a respeito das estratégias de convivência entre os sujeitos no mundo contemporâneo. Crary argumenta que todos os elementos que surgem para conter e empobrecer a experiência são, paradoxalmente, exaltados como “avanços” ou “marcos civilizatórios” – desde a disponibilidade permanente do “funcionário pró-ativo” até a iluminação constante e o oferecimento ininterrupto de produtos e serviços.

    Esse cenário cada vez mais forçado de disponibilidade permanente desemboca em uma reivindicação crítica do sono, ou seja, o sono é considerado a partir de sua capacidade de nos fazer lembrar que é possível parar e refletir. Pois o sono hoje já não é mais descanso, esfera de cultivo da subjetividade, mas perda de tempo, peso morto dentro da vida produtiva do modelo 24/7, sem parada ou reflexão, 24 horas por dia, 7 dias por semana.

    “O sono é um lembrete ubíquo, mas ignorado”, escreve Jonathan Crary, “de uma pré-modernidade que jamais foi completamente superada, do universo agrícola que começou a desaparecer há quatrocentos anos”. O sono, portanto, é apresentado por Crary como espaço de resistência, como interrupção do processo de moldagem do indivíduo. O ponto mais perverso desse contexto, no entanto, é que o próprio indivíduo contribui, voluntariamente, para a manutenção desse processo. Para Crary, o sujeito que se diz integrado às tendências e que se define como alguém “conectado” ou sempre “atualizado”, que coloca como prioridade de sua vida a exteriorização e a permanente mediatização dessa vida, está inserido num “estado de transição contínuo”, na inexorável angústia de nunca ter/ser/ver o suficiente. Por trás do afã da atualização e do frenesi da expressão “no que você está pensando?” está, diz o autor, a “perpetuação do mesmo exercício banal de consumo ininterrupto, isolamento social e impotência política”.

    Crary defende a ideia de que não há possibilidade de uso “criativo” ou “emancipado” dos dispositivos, pois, revendo o período recente de constituição da internet, “o que era celebrado como interatividade era mais precisamente a mobilização e habituação do indivíduo a um conjunto aberto de tarefas e rotinas”, que se encaminha em direção a um cenário 24/7 de abolição do espaço de diferença e reflexão. Nesse ponto, seguindo Hannah Arendt, o autor afirma que tanto criatividade quanto emancipação são fomentadas por “silêncio e solidão”, pontos “essenciais para a manutenção dos indivíduos políticos”. Num paradoxo que diz muito da configuração atual do capitalismo tardio, o sono já não serve mais como metáfora do despertar, da passagem de um estado de inércia para um de ação, mas como indício de uma vivência que não se conforma totalmente ao modo produtivo ininterrupto, por mais que tente.

    Menosprezar o sono, seu espaço na vida e suas propriedades é buscar o fim da “introspecção distraída”, uma vez que o contexto tecnológico do presente acusa a “incompatibilidade profunda entre qualquer coisa que se assemelhe ao devaneio e as prioridades de eficiência, funcionalidade e velocidade”. Não se trata apenas do sono como o ato de dormir, mas como estado de suspensão e de afastamento, como a sugestão permanente de um ritmo alternativo que se espalha para além do ato de dormir – pois o sono é “a recorrência em nossas vidas de uma espera, de uma pausa”, como aponta Crary, uma espera que deve ser exercitada. A partir de que momento se tornou tão insuportável viver apenas na imediaticidade do próprio corpo, na materialidade mais direta dos sentidos? 24/7 não dá resposta para essa pergunta, mas aponta o sono e sua temporalidade alternativa como os campos principais de questionamento e de reivindicação identitária no mundo contemporâneo.

    Kelvin Falcão Klein é crítico, autor de Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas (Ed. Modelo de Nuvem, 2011). Escreve em falcaoklein.blogspot.com.br