• O gato e o rabo do gato

    Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.

                                                                  Rubem Braga, trecho de “O Pavão”, Ai de ti Copacabana

     

    Meu gato esfrega o rosto na borda do livro. Pede carinho. Como hei de resistir? O mundo lá fora me chama com um insistente movimento de cabeça: a vida sem livros. Todas as dezessete casas em que morei eram abarrotadas de livros. A mais engraçada de todas não tinha sofá, só para que coubessem pilhas e mais pilhas de livros. Recebíamos as visitas em pé – as que sofriam de rinite (ou varizes) logo inventavam um compromisso e partiam espirrando.

    Por sorte não fui uma criança alérgica. Mergulhava fundo nas edições esboroadas, inalando um cheirinho esquisito e sentindo o papel áspero arranhar a ponta dos dedos. Memórias de Adriano, As brumas de Avalon e A epistemologia genética eram alguns dos títulos que me intrigavam: Quem é Adriano? Brumas são bruxas boas? E-pis-te-mo-lo-gia é uma matemática avançada?

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    (Ainda tenho a mania boba e preguiçosa de capturar uma palavra difícil e ficar com ela, admirando-a e adivinhando seu significado.)

    Hoje também moro numa casa abarrotada de livros. Podemos encontrá-los em todos os recônditos do lar. Muitas vezes confundimos os livros e os tomamos por talheres, escovas de dente, copos. Ocasionalmente usamos edições parrudas como escadas, banquinhos, criados-mudos.

    Os livros são mesmo todos mudos.

    Mas falam com uma voz doce. Uma versão romanesca da nossa própria voz. Descrições de personagens, cheiros, cenários. Implicações soberanas, reflexões helicoidais. Abismo. Contam e contam e contam, sem cansar, histórias das mais loucas que mergulham dentro da gente feito um caldinho morno. Tudo isso, para no fim dizerem mudos: a vida e os livros fazem parte de um todo. As cores do pavão e o arco-íris fragmentado nas diminutas bolhas d’água sobre a pluma. Um gato e o rabo do gato. O gato, de fato, prescinde do rabo. Mas que desenhos lindos ele faz no ar.

    (Outro dia, numa conversa de cozinha, minha irmã disse que algumas pessoas leem livros como se tomassem anabolizantes. Ri e concordei.)

    ***

    Pois que 2014 foi um ano engraçado. Mesmo cercada de livros e tomando os volumes por guarda-chuvas, tamboretes, escumadeiras, mal li. Acho que preferi me ater à vida sem livros. O que me privou da voz doce, mas me brindou com muitas cenas vivas (e não menos literárias), suprindo toda a minha estiagem particular.

    A saber, minha afilhada tomava banho de banheira e devorava um best-seller gordo. Aos poucos, sendo dragada pela história, ela foi deixando respingar uma gota ali, um floco de espuma acolá, até que, num gesto indiferente e decidido, resolveu molhar o livro e mergulhá-lo como se fosse um pato de borracha.

    Só parou mesmo de lê-lo quando seus dedos engelharam.

    banheira - valendo   *Natércia Pontes é autora de Copacabana dreams, finalista do Prêmio Jabuti 2013

     

  • Tudo ao mesmo tempo agora

    Tudo-ao-mesmo-tempo
    Agora que agora é nunca é meio-dia de sábado, dois dias antes do dia 8 de
    dezembro, aniversário da morte de John Lennon.
    Em 1991 tinha 16 anos e não entendia o porquê de tantas pessoas
    lembrarem o aniversário da morte de alguém.
    Naquela época, muitos amigos adoravam os super-heróis da Marvel. Os meus
    8 super-heróis eram da WEA.
    Lembro que hoje é aniversário do meu irmão. Lembro que o meu irmão
    pediu que levasse a sobremesa.
    Agora que agora é nunca são uma e meia da tarde de sábado, vejo outra vez a
    fotografia.
    Lembro do cenário com um imenso pano vermelho e das colunas de ferro no
    palco do Imperator.
    Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras, não acredito.
    Saio do apartamento, na direção da sorveteria. No caminho entro em uma
    oca. Compro um caderno.
    Chego na casa do meu irmão.
    Em 1991 não entendia o porquê de tantas pessoas não se revelarem para
    ninguém.
    Naquela época, muitos amigos adoravam algum disco dos Titãs. O meu
    favorito era o que revelava o interior de um corpo humano na capa.
    Lembro que vendiam a enciclopédia Barsa ao lado da escada rolante, no
    interior do Shopping da Gávea.
    Volto para 1991.
    Entro no laboratório do Parque Lage pela primeira vez. Revelar uma imagem
    vale mais do que um milhão de palavras.
    Você já tentou varrer a areia da praia?
    Agora que agora é nunca são quatro e vinte da manhã de domingo, vejo outra
    fotografia a mesma vez.
    Lembro de um disco dos Titãs que adorava.
    Desaparecido Paulo Roberto de Sousa Miklos, desde sábado de manhã.
    Vejo um livro cinza em suas mãos, não acredito.
    Só acredito na perda de memória do corpo humano.
    Lembro que saí do apartamento, na direção de uma reunião em uma casa
    amarela.
    Subo a espiral das escadas de madeira. Reencontro as três caixas cheias de
    discos, uma surpresa: o meu favorito dos 8 super-heróis da WEA.
    Lembro que em 1980 tinha 5 anos e não entendia o porquê de tantas pessoas
    chorarem a perda de John Lennon.
    Hoje é domingo, a casa amarela está fechada.
    Agora que agora é nunca volto para o apartamento.
    Escuto “Julia” no rádio.
    Não sei o que fazer.
    A sua casa já desmoronou no meio da sala?
    Amanhã é 8 de dezembro.

     

    *Felipe Nepomuceno é diretor, artista plástico e poeta, autor de MapotecaO texto acima é uma resposta-agradecimento à indicação que o cantor Paulo Miklos fez de seu livro, em campanha de natal da Cosac Naify

  • Palavras do avesso

    No lançamento de Tempo de espalhar pedras, quem se aproximava da mesa e me via molhar o carimbo na almofada protestava: exigia dedicatória à mão, não uma carimbada de repartição pública. No que tinha toda razão. Naquele momento feliz e tenso, em que nos esquecemos do nome do próprio pai e evitamos toda palavra com cê cedilha, por mais que, de vez em quando, faltasse a imaginação para customizar as mensagens, eu não seria ingrato de alegar tendinite ou fila para aderir a uma solução, digamos, mais tecnológica.

    O caso é que o carimbo complementava com algo mais especial a dedicatória em letra feia: um palíndromo. Uma frase que vai e volta do mesmo jeito, igual de cá pra lá e de lá pra cá, letra por letra. Um quebra-cabeça verbal que (como a arte, se quisermos dourar essa micagem) não tem nenhuma função utilitária. Do ponto de vista do sentido, o palíndromo é frágil, meio ou totalmente nonsense, mas que é divertido de fazer, isso é. Difícil, pelo menos pra mim, ao encontrar um palíndromo, resistir à tentação de seguir com o dedo do fim pro começo só pra confirmar que o truque, voilà!, realmente funciona.

    Esses são os quatro carimbos-palíndromos que criei para o lançamento do livro. Dois têm relação direta com seu conteúdo. Dois são mais livres: um sobre a imagem que simboliza universalmente o tempo cíclico, outro sobre Grande Sertão: Veredas e o símbolo do infinito que o abre e fecha. vao vao2

     

     

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    * Estevão Azevedo é editor e escritor. Além de Tempo de espalhar pedras, é autor de O terceiro dia (2004), O som do nada acontecendo (2005), ambos de contos, e Nunca o nome do menino (2008), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura.

  • As águas e as secas

    Eis aqui, em João Cabral: uma fala só lâmina, uma análise de toda a obra do poeta-crítico pernambucano, além de ensaios breves igualmente cortantes, feita pelo crítico-poeta Antonio Carlos Secchin – resultado de três décadas de seus estudos dedicados ao universo literário desse autor-ilha, único em nossa literatura a escrever poemas sob a luz do menos. E é desse menos que advém a poética cabralina “só lâmina”, investigada com profundidade e minúcias. Ao desvelar a sua teia textual, avessa ao transbordamento, e também a “estrutura de sentir” de João Cabral, Secchin nos mostra, em detalhes, como seus muitos fios, entretecidos, nunca perseguiram o mundo-mundo, mas o mundo-enunciado pela lâmina da voz.

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    Em simetria com o autor que interpreta – simetria cara a João Cabral, sobretudo em Serial –, Secchin compartilha sua investigação por meio de “duas águas”. As primeiras, “João Cabral de ponta a ponta”, resultam de um longo estudo que atravessa os livros do poeta, desde os Primeiros Poemas até o último, Sevilha andando, e não seria impreciso dizer que tais águas correm como o curso do Capibaribe, tematizado emO cão sem plumas”. Já as segundas águas constituem pequenos estuários, ou, para usar uma metáfora alternativa (tão explorada por Cabral), resultam em ensaios-córregos, em cujos leitos fluem outras abordagens críticas.

    Na parte inicial da obra, as primeiras águas, Secchin apresenta uma extensa e detalhada análise, livro a livro, de João Cabral, e todo o continente literário ali desdobrado, podemos dizer, é para ser lido em silêncio. Já na segunda parte, à semelhança dos próprios poemas narrativosdo autor, como Morte e vida Severina e Auto do Frade, a leitura deve ser feita em voz alta – não por acaso são textos escritos para enunciação direta ao público. Em outras palavras: as águas primeiras vertem o comprido caudal de uma tese acadêmica, um conjunto vigoroso de reflexões de Secchin sobre a poética cabralina, ao passo que as segundas se canalizam na forma de palestras – intervenções secas, mas não menos profundas.

    Esse tipo de dualidade, que estruturatoda a poesia de João Cabral e é apontada pelo poeta-crítico – o fazer e o dizer, o onírico e o real, o concreto e o abstrato, a pedra e o sonho, Sertão e Sevilha, entre outros vetores –, também se espraia, sem a exigência de contenção, nas páginas do volume. É belo o percurso que faz o autor para interpretar a obra de toda uma vida, lendo-a não com as rimas soantes do português, mas com as toantes da tradição espanhola, tal qual fazia João Cabral. No curso dessas duas águas, pouco importa saber onde começa o poeta Secchin no crítico Secchin. O sol continua sol na correnteza do rio. O leitor semiótico contém o leitor semântico. As marcas de sua (Secchin) escritura revelam as marcas de sua leitura (cabralina).

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    Da confluência entre a perspicácia do crítico e sua sensibilidade como poeta, resulta a força do motor interpretativo de João Cabral: uma fala só lâmina. O leitor, sonhador ao revés, acorda para a engenharia que produz distintas manhãs com as mesmas vinte palavras. E descobre no intérprete uma luz-balão, que eleva seu entendimento daquela tessitura poética, de fina estopa.

    Antonio Carlos Secchin nos faz ver na faca analítica não só a lâmina, mas toda sua história de cortes, seu cabo sem entalhe, a mão precisa que a toca, as nuvens que sua ponta, em sonho, perfura. O seu ensaio-rio e os demais textos-riachos deságuam também na poética do menos, comprovando que, se a poesia é uma mirada singular do mundo – o elogio da potência intelectiva –, a crítica, quando a incorpora, também o é.

    * João Anzanello Carrascoza é escritor e professor universitário. Pela Cosac Naify, publicou as coletâneas de contos O volume do silêncio (2006, prêmio Jabuti) e Aquela água toda (2012, prêmio APCA), e os romances Aos 70 e aos 40 (2013, finalista do prêmio São Paulo de Literatura) e Caderno de um ausente (2014).

     

  • Qual clássico com mais de 500 páginas você gostaria de ler?

    Em tempos vorazes de informação fragmentada, soa difícil a empreitada de encarar um livro com mais de 500 páginas. O desafio está lançado, uma vez que não faltam “catataus” convidativos nas estantes das livrarias. Para os corajosos, a Cosac Naify tem Anna Kariênina, de Liev Tolstói, Os embaixadoresde Henry James e Moby Dickde Herman Melville, entre outros.

    David Copperfield, clássico da literatura inglesa, e “filho predileto” de seu autor, Chales Dickens, está nessa categoria.  A obra acaba de ser lançada em edição caprichada com tradução inédita de José Rubens Siqueira e textos críticos de Jerome H. Buckley, Sandra Guardini Vasconcelos e Virginia Woolf.

    Para concorrer a um exemplar, deixe sua resposta neste post até o dia 17 de dezembro*. O vencedor será anunciado no dia 18 de dezembro.

    *Concurso válido exclusivamente em nosso blog.

     

  • “Cidade gráfica”, design em expansão

    Celso Longo, Daniel Trench e Elaine Ramos assinam a curadoria de Cidade gráfica. Em meados deste ano de 2014, o trio iniciou uma busca de projetos que gravitassem em torno do binômio design/cidade, incluindo uma chamada aberta de trabalhos. A partir da seleção do material coletado foi montada a exposição que ocupa dois pisos do Itaú Cultural, em São Paulo, composta por 40 obras de designers de vários estados brasileiros.

    O resultado foge às convenções das mostras de design, nas quais costumam ser exibidos projetos cujo ponto de partida foi a solicitação de um cliente. Em Cidade gráfica a equação se inverte, e o que normalmente é exceção vira regra: os projetos são fruto de iniciativas dos próprios designers. Sob esse aspecto, eles se aproximam do perfil de artistas. A particularidade aqui é que os recursos expressivos estão estreitamente ligados ao léxico do design gráfico, e mais distantes das técnicas consagradas das artes visuais.

    A reunião de trabalhos impressiona. Menos do que propor soluções acabadas para problemas urbanos, Cidade gráfica se nutre das manifestações de linguagem presentes na metrópole, palco por excelência de encontros e conflitos. De quebra, revela a existência de um leque insuspeitado de iniciativas de designers em torno de questões que permeiam o cotidiano do cidadão. São obras empenhadas em provocar, a ponto de o conjunto revelar a existência de uma espécie de militância urbana disseminada entre designers de vários pontos do país.

    Não houve preocupação da curadoria em enquadrar os projetos selecionados nesta ou naquela categoria do design. Dentro da perspectiva adotada, a seleção foi francamente inclusiva: a heterogeneidade comanda, os trabalhos apontam para múltiplas direções. No texto de apresentação, o trio de curadores afirma não ter buscado a excelência de soluções gráficas, e sim a exibição de obras intrigantes. Não me parece que seja exatamente esse o cenário da exposição. No geral, as soluções visuais são precisas, requintadas mesmo. Melhor assim: a pretendida postura questionadora vem combinada a um apuro de linguagem no campo propriamente gráfico.

    Passeando por alguns destaques

    Dentre os trabalhos expostos, uma presença constante é o registro de manifestações vernaculares. Alguns deles são acompanhados por um diálogo gráfico produzido a partir dos registros realizados. Nesse campo, vale destacar a série Obliterado, de Marcelo Drummond, no qual fotos de alta definição de letras de uma antiga inscrição comercial resultam em composições que poderiam ser chanceladas por Malevitch e batizadas de Vermelho sobre vermelho.

    Ainda no campo do vernacular, cabe destacar a extensa série de redesenhos digitais produzidos por Fernanda Goulart a partir de um levantamento de ornamentos em gradis de Belo Horizonte. Ou os ícones produzidos por Guilherme Luigi a partir do levantamento de cobogós realizado por Josivan Rodrigues em Pernambuco.

    No campo das leituras gráficas despertadas pela paisagem da cidade, é destaque o livro Empenas, de Andrés Sandoval, composto por séries de desenhos de empenas cegas de edifícios vistos por quem trafega pelo Minhocão, a célebre via elevada sobre a avenida São João, em São Paulo.

    Seguindo no campo das leituras gráficas, também merece menção Mirella Marino e suas Impressões de objetos. Adotando um procedimento que lembra o objet trouvé dadaísta, ela produziu gravuras que misturam impacto e delicadeza. Gilberto Tomé, por sua vez, mostra o potente Livrocidade, uma obra gerada a partir de uma intervenção do designer em interstícios da cidade de São Paulo. Ao vê-lo, lembrei dos livros compostos por folhas de outdoor criados por Aloísio Magalhães nos anos 1970.

    E concluindo este breve percurso, feito de escolhas estritamente idiossincráticas dentre os 40 trabalhos expostos, temos Movimento tipográfico, do coletivo Oitentaedois, constituído por uma coreografia hip-hop que sugere as letras do alfabeto. Chama a atenção a precisão tanto dos movimentos do dançarino como da edição do vídeo. A projeção sobre a própria chapa de madeira clara usada na expografia explora a fusão entre imagem e matéria.

     

    O projeto expográfico: despojamento, requinte

    Por fim, é obrigatória a menção à expografia, assinada pela Metro Arquitetos Associados. Combinando simplicidade e esmero, ela consegue fazer prevalecer na exposição uma atmosfera informal, sem a solenidade — o não-me-toques — tão característico das exposições de arte. A sintonia entre a maneira de expor e cada obra exposta é finamente ajustada. Não tenho nenhuma informação sobre como ocorreu o processo de trabalho, mas é nítida a identidade entre curadoria e expografia.

    Uma semana antes da abertura, a Elaine me avisou da exposição, acrescentando que gostaria de ouvir minha opinião. Respondi dizendo que, apesar de ainda não tê-la visto, minha avaliação era que estava sensacional. Agora, depois de visitá-la, sou obrigado a admitir que eu tinha toda razão.

    *Chico Homem de Melo é designer e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. É sócio da Homem de Melo & Troia Design, um escritório com atuação voltada às áreas da educação e da cultura. É autor de livros e artigos sobre design gráfico brasileiro. 

    ** A exposição Cidade gráfica fica em cartaz até o dia 4 de janeiro de 2015. Saiba mais em nossa agenda.

  • O prazer de narrar

    Como observou o professor Guilherme Gontijo Flores em resenha na Folha de São Paulo (08/11/14), estamos em um momento excepcional no Brasil no que diz respeito à profusão de novas traduções da Odisseia. Nos brindaram com suas valiosas traduções Donaldo Schüler em 2007, Trajano Vieira e o professor português Frederico Lourenço em 2011, e, enfim, em 2014, recebemos a cuidadosa tradução de Christian Werner na bela edição da Cosac Naify. Já existiam traduções mais “clássicas”, como as de Odorico Mendes, Jaime Bruna e Alberto Nunes. Comparável com essa multiplicação de traduções, só a Bíblia. O paralelo entre os dois livros não é fortuito, se concordarmos com a afirmação de Frederico Lourenço de que são os que mais nutriram o imaginário ocidental na literatura, na filosofia, nas artes plásticas.

    odi4Sou incapaz de estabelecer uma comparação mais fundamentada acerca da qualidade das diversas traduções citadas acima. Percebo, no entanto, que as mais recentes têm em comum o cuidado com uma versificação cantante que lembra a recitação do aedo e, também, com o frescor das imagens e dos epítetos de Homero, esse poeta (ou esses poetas?) que parece descobrir o mundo a cada “Aurora dedos-róseos”, como traduz Werner. A edição da Cosac Naify traz uma introdução de Richard P. Martin ao lado do prefácios do próprio tradutor; todas edições têm o mérito imenso de nos oferecer vários textos de outros poetas ou ensaístas nos quais ressoa, infinitamente e diversamente, a historia das viagens de Odisseu.

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    Mais que um fenômeno de moda ou um acaso de mercado, quero crer que são essas ressonâncias que podem explicar a abundância de transmissão da Odisseia, pois traduções são outros tantos momentos de transmissão e de sobrevida de uma obra, como ensinavam os Românticos alemães de Iena. Mas o que sobrevive aqui? Talvez a transformação do nome próprio Odisseia em substantivo comum, “odisseia”, nos ofereça uma resposta a essa questão. Christian Werner cita acertadamente as três acepções da palavra comum, “odisseia”, segundo o dicionário Houaiss:

    1) longa peregrinação ou viagem marcada por aventuras, eventos imprevistos e singulares; 2) narração de viagem cheia de aventuras singulares e inesperadas; 3) travessia ou investigação de caráter intelectual ou espiritual.

    Viagem, narração e travessia: em suma, Odisseu nos oferece uma vida como gostaríamos todos de ter. Não só porque ele encontra ninfas sedutoras e sereias malvadas, vence monstros canibais e comedores de drogas que fazem esquecer. Sobretudo, me parece, porque Odisseu consegue, apesar de seu medo enorme, estabelecer uma relação viva com os mortos e encontra palavras e auditores benevolentes para contar com arte sua própria história, isto é, para poder apropriar-se de sua vida na alegria de uma narração compartilhada.

    Como se sabe, o centro da Odisseia é constituído pelos cantos IX-XII, nos quais Odisseu, hospedado pelo rei Alcínoo e sua esposa Arete na ilha dos feácios, toma a palavra, se apresenta e conta suas errâncias. Ele chegou nu e exausto depois de sua frágil jangada ter naufragado, sendo ele o único sobrevivente. Esse fracasso, esse despojamento total, leva-o à condição de mendigo e suplicante; condição necessária que permite a reviravolta, tornada possível pela hospitalidade exemplar de Alcínoo e a coragem rara de sua filha, Nausícaa, que transforma o xenos (estrangeiro) anônimo em herói e autor de narrativa épica exemplar.

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    Com efeito, essa transformação do fracassado em herói é, ao mesmo tempo, a transformação do personagem principal, evocado na terceira pessoa pelo poeta, em narrador de sua história, na primeira pessoa, portanto quando Odisseu assume sua identidade no verso 19 do canto IX: “Sou Odisseu, filho de Laerte, que, por ardis, por todos/os homens sou conhecido (…)” e continua falando, sempre ele, em primeira pessoa, durante quatro cantos. No meio dessa narrativa, no canto XI, narra notadamente a famosa ida ao Hades, ao território assustador dos mortos, que desejam, todos, beber do sangue quente da ovelha imolada para poder falar com um mortal vivo, ele, Odisseu. Este deve afastar a multidão dos mortos com sua espada para deixar que o adivinho Tirésias consiga chegar em primeiro lugar e aconselhá-lo sobre o futuro nostos, a viagem de retorno a Ítaca, isto é, o retorno ao estatuto primevo de rei, de esposo de Penélope e de pai de Telêmaco: viagem de volta e reconquista do seu reino que serão narradas, na terceira pessoa, nos livros XIII a XXIV (sendo que os primeiros livros contam, também na terceira pessoa, a viagem de busca de Telêmaco por seu pai e a saída deste da Ilha de Calipso, que o reteve cativo durante sete anos).

    Todos os comentadores insistem na grande inovação da Odisseia, em relação ao poema anterior, a Ilíada: nesta temos uma narrativa linear em terceira pessoa que relata os feitos dos Troianos e dos Aqueus, em particular de Aquiles, herói guerreiro paradigmático, forte e mesmo selvagem como um leão; na Odisseia, temos várias narrativas que se entrecortam com um herói menos forte e musculoso, mas cheio de astúcias, que sobrevive não pela força bruta, mas pelo ardil e pela invenção de histórias, como no episódio paradigmático do Ciclope. Isto é: o herói que assume a narrativa de sua viagem se transforma em aedo, como reconhece o rei Alcínoo ao ouvir seu hóspede, evocando a multidão dos mortos que encontrou no Hades (Canto XI, versos 367 e 368).

    Em outros termos: se a Ilíada canta a glória dos guerreiros, sua (bela) morte na luta e seus funerais, a Odisseia narra tanto uma viagem de volta, cheia de desvios, como homenageia a habilidade poética do herói, brincando com alegria e maestria nos desvios da narração e da poesia. Um texto que celebra a força da produção poética, portanto de Homero, herdeiro dessa longa tradição de narração oral, um poema autorreflexivo sobre a força do poema. Assim, os desvios da viagem de volta são outros tantos desvios necessários ao prazer sempre renovado da invenção narrativa, o que permite, aliás, duvidar que o desejo de retorno, de nostos, sempre reafirmado, seja realmente o motivo primeiro e essencial da Odisseia. Graças ao poema, sabemos como continuou a Ilíada, como Troia foi vencida, como vários príncipes voltaram para casa – ou não. A Odisseia completa e perfaz a Ilíada; inventa mais lutas, voltas e desvios, que são outros tantos tesouros que Odisseu leva para casa, como ele mesmo, disfarçado de mendigo, diz a Penélope nos versos 280 e seguintes do canto XIX: poderia Odisseu estar a tempo de volta para casa, mas preferiu juntar tesouros e histórias para contar, vagando nas terras e no mar. Com efeito, não haveria nenhuma Odisseia se Odisseu pudesse ter chegado rapidamente e sem desvios a sua casa.

    Fecha, portanto, com chave de outro a edição da Cosac Naify, quando traz um poema de Kaváfis, na tradução de José Paulo Paes. O poema diz, justamente, da necessidade do desvio e da alegria de narrar:

    (…) Tem todo o tempo Ítaca em mente.
    Estás predestinado a ali chegar.
    Mas não apresses a viagem nunca.
    Melhor muitos anos levares de jornada e fundeares na ilha velho enfim,
    rico de quanto ganhaste no caminho,
    sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
    Uma bela viagem deu-te Ítaca.
    Sem ela não te ponhas a caminho.
    Mais do que isso não lhe cumpriu dar-te.

     

    *Jeanne-Marie Gagnebin é professora livre-docente de Teoria Literária pela Unicamp e titular do Departamento de Filosofia na PUC-SP. 

  • Poemas negros

    Em homenagem ao Dia da Consciência Negra, Emanoel Araújo, diretor do Museu Afro Brasil de São Paulo, lê “Foi mudando, mudando”, do livro Poemas negros. Lançada em 1947, a obra ganha uma nova edição pela Cosac Naify, que resgata as ilustrações de Lasar Segall e o prefácio de Gilberto Freyre.

     

  • Uma mentira que vale mais do que mil verdades

    Cavalheiros,

    Certamente esta plateia tão ilustre já ouviu falar do Barão de Munchausen e de suas fantásticas aventuras. Um homem que, no final do século XVIII, antes mesmo de o primeiro satélite ser lançado em órbita, explorou a Lua, viajou ao centro da Terra, escapou de monstros e animais ferozes. As façanhas do Barão atravessaram os séculos e tornaram-se um fenômeno literário, ganhando um sem-número de versões.

    Ilustração de Rafael Coutinho para "As surpreendentes aventuras do Barão de Munchausen" (Cosac Naify, 2014)

     

    Tais histórias não apenas foram exaustivamente adaptadas e traduzidas como também influenciaram escritores de gerações posteriores, direta e indiretamente. Encontramos ecos da personalidade do Barão, por exemplo, em Pinóquio – um dos mais célebres mentirosos da literatura –, ainda que não se possa comprovar que Carlo Collodi de fato tenha se inspirado no personagem de Rudolf Erich Raspe. Outra referência foi a homenagem que L. Frank Baum fez ao Barão no clássico O maravilhoso Mágico de Oz ao criar o País dos Munchkins.

    Diferente de Pinóquio, no entanto, os causos do Barão não podem ser lidos como sofisticadas enganações, mais sim como relatos absurdos e amplificados da experiência de um explorador disposto a defender seus ideais a qualquer custo. Nesse aspecto, a figura do Barão guarda mais semelhanças com outra figura da literatura cavalheiresca: Dom Quixote de La Mancha. Quase duzentos anos antes de Munchausen, o herói espanhol é apresentado por Cervantes em uma novela que parodia as de cavalaria por meio de um idealista que parte para viver as fantasias que lia nos escritos da época. Em ambos os personagens, há uma visão de mundo pelo prisma do impossível.

    Ilustração de Rafael Coutinho para "As surpreendentes aventuras do Barão de Munchausen" (Cosac Naify, 2014)
    Contudo, a grande diferença entre o Barão de Munchausen e outro personagem literário, é o fato de que ele existiu de verdade. Militar alemão, Karl Friedrich Hieronymus von Münchhausen participou das campanhas russas contra os turcos e, ao retornar, divertia seus pares com relatos absurdos de episódios que teriam acontecido durante a viagem.

    Encantado com a inventividade do Barão, Rudolf Erich Raspe, um bibliotecário com pretensões a escritor, apropria-se, reescreve e publica dezessete causos em 1785, em Londres. De imediato, as histórias conquistam não apenas os adultos, mas especialmente as crianças, sendo ainda hoje o livro de cultura alemã que mais influenciou a literatura infantil inglesa.

    A ambiguidade criada acerca do público leitor deste livro é um dos fatores de sua longevidade.

    Não demorou a surgir novas edições com episódios “inéditos”, que circularam durante todo o século XIX na Europa. O livro também chamou a atenção de ilustradores, como Gustave Doré. Diante desse fenômeno, o Barão de Munchausen extrapola a popularidade de seu criador Rudolph Erich Raspe para se fixar definitivamente na historiografia literária dos relatos de viagens imaginárias, conquistando seu lugar no panteão de heróis do gênero, como Robison Crusoé, de Daniel Defoe, e Gulliver, de Jonathan Swift.

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    O Barão, porém, é um homem do final de um século repleto de novas descobertas e invenções, mas que não deixa de satirizar o momento eufórico. Não à toa, as versões posteriores à original de Raspe incorporam justamente as tensões do período referentes à política inglesa e suas rivalidades com holandeses e franceses, principalmente. Muitos dos casos mais estapafúrdios vividos pelo Barão têm um pé na história europeia. O momento da narrativa que evidencia essa intenção é a grande viagem de conquista da África, presente na última versão do livro, de 1793, que sofreu modificações mais evidentes de texto e foi amplamente difundida no século XIX

    No Brasil, foi apenas em 1891 que o tradudor e adaptador Carlos Jansen publica Aventuras pasmosas do celebérrimo Barão de Münchhausen. Desde então, poucos foram os aventureiros que se dedicaram a este universo tão fértil. Foi diante deste panorama que evidenciou-se a necessidade de um livro que trouxesse o tamanho – literalmente – desta tradição. Assim, apresentamos os inéditos trinta e quatro capítulos das aventuras do Barão de Munchausen da versão de 1793, acrescidos de dois prefácios e um apêndice. Essa edição também traz as magníficas ilustrações exclusivas do artista Rafael Coutinho.

    Ilustração de Rafael Coutinho para "As surpreendentes aventuras do Barão de Munchausen" (Cosac Naify, 2014)

    Assim, é com olhos de novidade que o leitor brasileiro deve abrir esta edição das aventuras completas do Barão de Munchausen, o anti-herói que viaja duas vezes para a Lua, percorre o mundo em navios, balões, sob o dorso de um cavalo e ainda encontra tempo para lutar com Dom Quixote, seu maior rival literário.

     

    *Isabel Coelho Lopes é diretora do núcleo infantojuvenil da Cosac Naify. Este texto é uma versão reduzida da apresentação escrita  para a edição de As surpreendentes aventuras do Barão de Munchausen (Cosac Naify, 2014)

     

  • “Just another future song (…)”

    Os anos 1970 foram a década milagrosa de David Bowie. A decolagem definitiva de sua carreira pode ser rastreada até o LP The rise and fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars, de 1972, no qual encontramos um rock autoconsciente, reflexivo, narrativo e povoado de imagens, tremendamente significativo para as posteriores gerações de músicos.

    De fato não há dúvidas de que The rise and fall… está entre os cinco ou seis álbuns mais influentes da história do rock; mas o realmente assombroso é que Bowie não parou por aí. O álbum lançado no ano seguinte, Aladdin Sane, retoma algumas propostas do antecessor e segue em direção ao jazz e à música de vanguarda. E o que dizer das reinvenções e das novas zonas exploradas num ritmo que hoje nos parece enlouquecedor ou impensável não apenas na carreira de um solista, como também na de várias bandas de rock? Desde o soul cantado à maneira de um robô finamente programado para simular sentimentos (Young Americans) até a então incipiente música eletrônica e o synthpop (Low, “Heroes” y Lodger); desde o projeto de adaptar o romance 1984, de George Orwell, para uma ópera glam rock (Diamond Dogs) até a compilação de toda sua carreira (Scary Monsters), os álbuns lançados por Bowie na década de 1970 foram, são e certamente continuarão sendo uma cartilha para aqueles que querem formar uma banda de rock.

    A verdade é que não se trata unicamente de música. Os personagens que Bowie interpretava (o extraterrestre Ziggy Stardust, o enigmático Duque Branco de Station to Station, o misterioso Aladdin Sane do álbum de mesmo nome, entre outros) e as histórias que suas canções contam abriram frente para quem depois tentou oferecer, por meio do rock, uma soma de música, conceito, imagem e narrativa, desde Rush até Muse, passando pelos Smashing Pumpkins de Machina e o Marilyn Manson de Mechanical Animals. Até mesmo Pink Floyd, banda aparentemente tão distante de certas coordenadas estéticas de Bowie, deixou transparecer a influência de The rise and fall… no álbum duplo The Wall, no qual o mito do cantor de rock como messias é explorado até os recantos mais sombrios.

     

    Mas essa intensíssima criatividade não poderia durar para sempre. Os anos 1980 viram um Bowie desorientado. Depois dos piores trabalhos de sua carreira e de uma década de 1990 de tentativas e com acertos parciais, os excelentes Heathen e Reality, de 2002 e 2003 respectivamente, ofereceram a promessa de uma renovação do talento de Bowie. Lamentavelmente o silêncio no qual o músico submergiu a partir de 2004 ameaçou colocar fim às esperanças.

    Mas em 2013, uma surpresa.

    Bowie lançou The next day, um disco que, desde a capa – a arte de “Heroes” entrecortada por um retângulo branco – até as composições, se vincula claramente a seus trabalhos do fim da década de 1970. E em outubro de 2014, pudemos escutar a canção “Sue (Or in A Season Of Crime)”, que à uma inquietante paisagem sonora de mais de sete minutos somou-se uma performance vocal na órbita do som de Scott Walker. Certas zonas de The Next Day e a nova “Sue” parecem mostrar um Bowie ansioso por se atirar com tudo na experimentação sonora (e a assombrosa combinação de influências) que o caracterizou em seus melhores anos.

    O que mais, então, se pode esperar de um David Bowie em seus 67 anos?

    Seria talvez um pouco ingênuo ou otimista pensar que um de seus trabalhos futuros possa representar para a música da segunda década do século XXI o que The rise and fall… e Low foram para a década de 1970, talvez porque essa rede de relações que é a música em geral, e o rock em particular, tenha se tornado tão complexa a ponto de uma figura individual já não conseguir impor um formato como fez Bowie em seu momento.

    Ao mesmo tempo, Bowie, sem ter sido estritamente um “inovador” (seu grande talento sempre foi pegar uma tendência incipiente e desenvolver suas potencialidades), soube como ninguém abrir caminho a outros artistas, soube como tornar imprescindíveis e fascinantes certas tendências estéticas e musicais. É impossível, portanto, prever o que dele virá. O que sim está claro é que seus melhores álbuns, sua força intelectual e criatividade estarão sempre aí para inspirar às gerações.

     

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    O livro David Bowie, publicado pela Cosac Naify em 2014

     

    *Ramiro Sanchiz (Montevideo, 1978) é escritor e jornalista. Estudou filosofía e letras na Universidad de la República Oriental del Uruguay. Publicou, entre outros livros, os romances Los viajes, La historia de la ciencia ficción uruguaya, El orden del mundo e Ficción para un imperio.