• Arquitetura em diálogo

    Eu penso que uma das vantagens da entrevista é ter o entrevistado se expressando com mais frequência em primeira pessoa. Diferentemente de outros textos não literários, em que o emprego do “eu” e do “nós” tende a transparecer certo sentimentalismo ou mesmo egocentrismo, na entrevista, a urgência do ato de responder fragiliza os filtros pessoais. Quando estimulado pelo entrevistador, o entrevistado, em sua fala de sujeito determinado, encontra espaço para a exposição direta, não escamoteada, de seus argumentos. Perde-se muito do pudor em se posicionar explicitamente com “Eu…”.

    Arquitetura em diálogo (2015) apresenta dez entrevistas feitas por Alejandro Zaera-Polo para as publicações monográficas da El Croquis. Há de se notar, neste caso, que o termo “diálogo” é mais pertinente que “entrevista”: Zaera-Polo é um participante ativo, que não se restringe a fazer perguntas, mas expõe francamente análises e julgamentos a respeito dos arquitetos com os quais está conversando. Seja para provocar ou corroborar, sempre busca ampliar o conteúdo em discussão. Melhor comprovação não há do que a conversa com a nipônica e monossilábica dupla de arquitetos Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa, na qual o entrevistador se mostra mais eloquente que os entrevistados.

    Metade dos entrevistados recebeu o prêmio Pritzker após a publicação original das entrevistas, o que indica tanto a importância dos arquitetos que estão em Arquitetura em diálogo quanto o valor de seus discursos antes do reconhecimento máximo – isto é, antes de possíveis envaidecimentos e mistificações subsequentes. Coube a Martin Corullon, do escritório paulistano Metro, a organização e a apresentação do livro com diálogos de 1992 a 2000.

    Eram tempos diferentes dos atuais. O muro de Berlim acabara de ser posto abaixo. As expectativas e o otimismo com a União Europeia, que permeiam diversas falas, foram praticamente varridos pela crise de 2008. Enquanto muito se mencionava o Japão pós-milagre econômico, a China mal era citada. O que eram Google, Facebook, Twitter, Instagram, senão nada? Contudo, o que poderia ser visto como datado é exatamente de onde provêm as grandes virtudes do livro.

    Na década de 90, aspectos da globalização transformam de vez a dinâmica dos grandes escritórios de arquitetura, a exemplo das recorrentes encomendas de projetos fora do país sede. Mais do que isso, nos diálogos, os arquitetos apresentam questões verificáveis em edifícios, textos e exposições concluídos ou concebidos posteriormente às entrevistas. O interesse de Rem Koolhaas pela estrutura e instalações prediais desdobra-se no texto “Junkspace” – publicado em O campo ampliado da arquitetura: Antologia teórica 1993-2009 (2013) , de A. Krista Sykes. – e na exibição Fundamentals da Bienal de Veneza de 2014. Rafael Moneo já faz análises acerca de projetos notáveis de seus colegas de profissão, que, reunidas, deram origem a Inquietação teórica e estratégia projetual (2008).

    As dez entrevistas anteciparam, na El Croquis, e introduzem, em Arquitetura em diálogo, um amplo espectro de ideias arquitetônicas.

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    Por esta característica, acredito que o livro deva ser recebido pelos arquitetos brasileiros como provocação e estímulo. Em entrevistas de arquitetos brasileiros que li recentemente, predominam discursos acerca das trajetórias, da operacionalidade dos escritórios, do modo como apresentar melhor seus trabalhos – perspectivas eletrônicas, pranchas de concursos, etc. –, da afirmação da figura do arquiteto na sociedade. O que falta? Reflexão sobre os próprios projetos. Estudos que ponham em dúvida certos cânones e operações naturalizadas no cotidiano da prática. Pesquisas arquitetônicas em si.

    Delas, Arquitetura em diálogo é heterogeneamente repleto. Herzog & de Meuron aproximam-se da arte porque nela encontraram “pessoas [...] mais interessadas em descobrir que em defender algo”. Peter Eisenman discute a interioridade da arquitetura fundamentando-se em filósofos contemporâneos. Koolhaas questiona a compulsão pela “ordem” no ato projetivo de arquitetos como Corbusier, Mies e Kahn. Jean Nouvel defende a arquitetura enquanto produção de um objeto ambíguo e misterioso. Frank Gehry apresenta a cronologia do raciocínio que levou à espetacularização formal do Guggenheim Bilbao, então em construção. Steven Holl analisa o modo como o conceito surge e fundamenta o projeto. Vemos Enric Miralles numa de suas últimas entrevistas e Álvaro Siza se posicionar verbalmente acerca de sua própria obra, como poucas vezes o fez.

    Não é simples sair da rotina operativa do escritório para fazer uma autoanálise e verbalizá-la em debate na esfera pública. Quantos fazem isto no Brasil? Poucos. Pouquíssimos. Arquitetura em Diálogo é um belo incentivo à reflexão.

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    * Francesco Perrotta-Bosch é arquiteto e ensaísta. É autor de “A arquitetura dos intervalos”, vencedor do Prêmio de Ensaísmo da revista Serrote em 2013. Tem artigos publicados nas revistas Bamboo, Monolito, ProjetoDesign e em seu blog acercaacerca.com.br

  • O maestro, Caieiras, SP, 1970

    Boris Kossoy transita entre a práxis e o estudo da atividade fotográfica. Conhecido como o primeiro grande historiador da fotografia do país, é autor de textos fundamentais à compreensão da área, como Origens e expansão da fotografia no Brasil: Século XIX (1980, Funarte) – correspondente à sua tese de doutorado, defendida na Escola de Sociologia e Política de São Paulo –, O olhar europeu: O negro na iconografia brasileira do século XIX (2002, Edusp), escrito a quatro mãos com a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, entre outros. Kossoy fotógrafo, com a câmera em mãos, impressiona pela conjunção de contrastes e a captura sensível de detalhes.

    A foto abaixo está em Boris Kossoy: fotógrafo – que traz um panorama de sua produção fotográfica entre 1955 e 2008 – e integra a série Viagem pelo fantástico (Kosmos, 1971, seu primeiro livro):

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    Penso que possivelmente o fato de ser fotógrafo teve um papel decisivo na minha trajetória como estudioso das imagens. A experiência que se ganha na práxis da produção das imagens, tanto no plano técnico como no estético, é de vital importância. Creio que, em função disso, a observação dos mecanismos de recepção da imagem também se enriquece. São condições que nos guiam na tarefa da desmontagem das imagens, nos clareiam os caminhos para a construção e interpretação da representação.

  • #euleiopoesiabrasileira

    A estante de poesia brasileira contemporânea da Cosac Naify reúne diferentes vozes de autores já consagrados e novos poetas, refletindo a riqueza da língua viva.

    Para celebrar a chegada de Porcelana invisível, de Fernando Paixão, novo título da coleção Poesia Contemporânea, convidamos vocês, leitores e leitoras, a participarem da campanha #euleiopoesiabrasileira –  série de leituras gravadas com nossos autores, editores e figuras do cenário cultural brasileiro.

    A coordenação da coleção é assinada por Heloisa Jahn, editora da casa:

    Não há maior aventura do que a de acompanhar o olhar de um poeta. Estar permeável ao que ele diz, ao que mostra, e acolher as revelações que a poesia sempre suscita.

    Qual é o espaço que a poesia ocupa na sua estante?
    Qual é seu poeta preferido?

    Compartilhe sua leitura com as hashtags #euleiopoesiabrasileira e #novapoesiabr e acompanhe os próximos passos da campanha em nossas redes sociais!

     

  • Três catálogos de 55 anos de idade… novos em folha

    (da esq. para dir.) Dada. Düsseldorf: Kunsthalle, 1958. 19 x 26 cm; 96 páginas; 1ª Exposição Neoconcreta. Rio de Janeiro: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, 1959. 23 x 23 cm; 24 páginas; Picasso — 30 quadros inéditos. Barcelona: Sala Gaspar, 1960. 19 x 24 cm; 80 páginas.

     

    Caíram nas minhas mãos três catálogos de exposições de arte que foram publicados aproximadamente no mesmo período: Dada [Düsseldorf, 1958], Neoconcreta [Rio de Janeiro, 1959], e Picasso [Barcelona, 1960]. Os três, portanto, com uma idade em torno dos 55 anos.

    Não houve nenhuma intenção prévia que tenha me levado à reunião desse conjunto. O encontro das peças foi fruto de minhas buscas assistemáticas. Simples coincidência, nada mais do que isso. E, de repente, quando coloquei os três catálogos lado a lado sobre a mesa, uma corrente elétrica formou-se entre eles.

    Se qualquer um deles fosse feito hoje, causaria impacto e admiração. É impressionante como a virada dos anos 1950 para os anos 1960 foi um momento de especial fertilidade, e que essa fertilidade estivesse presente tanto na Europa como aqui no Brasil. O mais saboroso é perceber a simultaneidade de vetores de linguagem tão díspares. Estamos de tal modo acostumados a rotular os períodos — e de reduzir nossa compreensão deles a esses rótulos —, que poderia até parecer que havia sido cometido algum erro de datação. Mas as datas são essas mesmo, e é reconfortante ver como os três catálogos convivem bem. Mais do que isso: a presença de cada um revigora o vizinho.

    Dada e colagem

    Dada e colagem se misturam, daí a capa ser uma etiqueta vermelha colada sobre o papel preto. [Um detalhe: o fundo escuro é levemente áspero, como se fosse um papel craft que tivesse recebido impressão em preto; essa aspereza faz uma sensível diferença quando manipulamos o exemplar.] Vale notar que há um sutil deslocamento aqui. Dada gosta de colagem e gosta também de profusão: nas obras dadaístas, há sempre várias imagens convivendo, com frequência umas sobre as outras. No caso desse catálogo, o deslocamento das expectativas é causado pela opção por uma solução gráfica tão concisa: uma única etiqueta flutuando solta — e “torta” — no campo da capa. Ou seja, uma concisão distinta da que caracteriza a gráfica construtiva, mas ainda assim uma radical concisão.

    O princípio da colagem penetra também no miolo, tanto do ponto de vista editorial como gráfico. As informações se sucedem umas após as outras, sem pausas para o leitor tomar fôlego; papéis de vários tipos são usados — lisos e ásperos, brancos e coloridos, finos e encorpados —, reforçando as ideias de justaposição e diversidade. E todos esses recursos são explorados na medida certa, sem rivalizar com as obras reproduzidas no catálogo.

    Neoconcretismo e racionalismo 

    1ª Exposição Neoconcreta é seco até o osso. O projeto gráfico não tem identificação de autoria, mas as digitais de Amilcar de Castro são evidentes. Todos os textos são compostos em Futura Bold; as colunas são blocos retangulares solidamente ancorados no quadrado branco da página. Respira-se a geometria da ortogonalidade, enfatizada pela economia de recursos editoriais e visuais. Nem uma linha a mais do que o estrito necessário: aqui, menos é mais de verdade. As primeiras cinco páginas do catálogo trazem o Manifesto Neoconcreto na íntegra. O início do texto é conhecido: “A expressão neoconcreta é uma tomada de posição em face da arte não-figurativa ‘geométrica’ […] e particularmente em face da arte concreta levada a uma perigosa exacerbação racionalista.” Visto a uma distância de meio século, fica ainda mais evidente o descompasso entre a crítica à “perigosa exacerbação racionalista” e a linguagem gráfica impregnada pelo ideário racionalista. E acrescento: a meu ver, o aspecto mais tocante do catálogo é justamente a maestria com que o léxico racionalista “exacerbado” é operado, sempre tensionando os limites da linguagem.

    Picasso e gesto 

    Esta exposição de Picasso ocorreu em um contexto que merece ser mencionado. Como se sabe, o artista foi inimigo declarado da longa ditadura de Francisco Franco. Longa mesmo: começou em 1939 e chegou ao fim somente em 1976, com a morte do ditador. O livreiro catalão de quem adquiri o catálogo me contou que ele era estudante da escola secundária em 1960, e foi nessa ocasião que viu obras de Picasso pela primeira vez na vida. Ele e quase toda a população espanhola da época, pois qualquer referência ao artista estava proibida, inclusive em livros escolares. Ou seja, essa mostra representou o retorno da exposição pública da obra de Picasso na cidade onde ele viveu o período de juventude. Nesse início da década de 1960, a ditadura franquista já estava em declínio, daí o afrouxamento da censura — mas infelizmente o regime ainda demoraria 16 anos para terminar. A marca distintiva da capa é a exuberância do gesto que manuscreve os textos informativos da mostra. Há nela uma espontaneidade programada, por assim dizer; afinal, as quatro palavras rabiscadas são claramente um recurso expressivo, e não rasuras causadas por algum equívoco de grafia. O miolo é sóbrio: os poucos textos são compostos em tipos miúdos, as reproduções das obras ocupam sozinhas as páginas ímpares. O título da exposição fala em 30 obras inéditas de Picasso; a capa do catálogo poderia ser considerada a 31ª.

    Radicalidade 

    De fato, os vetores da linguagem gráfica dos três catálogos são bem díspares. Será que é dessa diversidade que vem a tal corrente elétrica que se forma entre eles? Em parte sim, mas há também algumas similaridades a serem consideradas. Uma delas é a cromática — o conjunto inscreve-se no território do preto & branco, com uma pitada de vermelho. Mas o fator principal que as aproxima talvez seja a assertividade com que cada peça se apresenta ao leitor. Ecoando o Manifesto Antropófago, os três catálogos poderiam declarar com toda convicção: “A radicalidade nos une”.

     

    *Chico Homem de Melo é designer e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. É sócio da Homem de Melo & Troia Design, um escritório com atuação voltada às áreas da educação e da cultura. É autor de livros e artigos sobre design gráfico brasileiro.

  • De Boccaccio a Proust num único fôlego

    Introdução aos estudos literários, que Erich Auerbach escreve em francês, durante a II Guerra, em seu exílio na Turquia, é um livro que impressiona por conta de dois fatores que raramente vão juntos: a vastidão e complexidade de seu conteúdo e a clareza e objetividade de sua exposição. Auerbach vai da cultura greco-romana a Marcel Proust num único fôlego, mas o faz pacientemente, salientando pontos de contato, frisando aspectos técnicos, da formação de palavras a partir do latim vulgar até o encontro entre arte e sociedade durante a “civilização burguesa”. Assim como em A novela no início do Renascimento, nessa Introdução Auerbach nunca fala “apenas” de literatura, mas de um contexto cultural de apoio que pode ser definido em quatro esferas: a esfera divina (práticas e discursos da religiosidade), a esfera terrena (práticas, discursos e condutas referentes à convivência em comunidade), a esfera da técnica (uso, transmissão e transformação da linguagem) e, finalmente, a da sociedade (aspectos econômicos e históricos considerados na passagem do tempo).

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    As quatro esferas estão em constante contato e permutação, e é precisamente essa dinâmica de relacionamento que Auerbach se propõe a esclarecer. Nesse ponto é possível perceber, na argumentação do autor, a importância do conhecimento íntimo dos textos literários da tradição ocidental – pois é esse conhecimento que permite a seleção e o ajuste dos melhores exemplos para cada situação. Introdução aos estudos literários apresenta um fluxo argumentativo coeso e teleológico – da Idade Média ao século XIX – , reforçado e enriquecido por uma série de “estudos de caso”. No que diz respeito ao seu livro anterior, A novela no início do Renascimento, título que marca sua estreia na crítica literária, o foco está restrito ao Decameron de Giovanni Boccaccio; mas na Introdução, por outro lado, vemos Auerbach buscar cenas de análise em autores como Goethe, Racine, Cervantes e Camões (método que alcança seu ápice em Mimesis).

    Em geral, cada caso leva a uma reflexão referente tanto à condição específica de produção de tal texto quanto ao contexto posterior, ou seja, um trajeto histórico de leitura e interpretação dentro do qual Auerbach é o último elemento. Sobre a Canção de Rolando – um poema épico francês do século XI –, por exemplo, Auerbach fala do desnível de intenções e percepções que existe entre o período histórico retratado no poema (uma batalha dos exércitos de Carlos Magno ocorrida em agosto de 778) e o período em que foi escrito, auge das Cruzadas. A expedição de 778, escreve ele, foi enviada “não contra os muçulmanos, mas contra os bascos cristãos que assaltaram a retaguarda dos francos”, “não foi, de modo algum, uma espécie de Cruzada tal como a pinta a Canção de Rolando; Carlos Magno manteve excelentes relações com os príncipes muçulmanos, e a ideia da guerra santa contra os infiéis não é de seu tempo”. E conclui: “a Canção de Rolando introduz, na história dos séculos passados, o espírito de sua própria época, o espírito da época das Cruzadas; ele narra uma história antiga, mas com os costumes e as concepções de seu próprio tempo”.

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    Com isso, Auerbach mostra que toda tática de escritura pode levar, potencialmente, a uma ampla gama de táticas de leitura – mais ou menos atentas aos processos velados de configuração do sentido. Trata-se, portanto, de um procedimento de leitura crítica que permita a exploração das camadas temporais que constituem todo texto literário, que às vezes miram o passado, mas revelam, no processo, muito mais sobre o presente que ainda lhes é invisível.

     

    *Kelvin Falcão Klein é crítico, autor de Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas (Ed. Modelo de Nuvem, 2011). Escreve em falcaoklein.blogspot.com.br

     

  • Alice Liddell, Oxford, 1870

    Para celebrar os 150 anos da publicação de Alice no País das Maravilhas (1865), a Cosac Naify presenteia o leitor com duas edições – especial e comercial – de Alice através do espelho, sequência publicada por Lewis Carroll dois anos depois, em 1867, e completa assim, a saga da menina Alice.

    Poucos sabem, mas o então Charles Lutwidge Dodgson, autor de um dos maiores clássicos de todos os tempos, dedicou-se por anos à fotografia, especialmente retratos – e foi justamente em sua atividade como fotógrafo que encontrou inspiração para o romance.

    Foi no ano de 1856 – quase uma década antes de publicar Alice no País das Maravilhas sob o pseudônimo Lewis Carroll – que o jovem de Oxford, já licenciado em letras e professor-assistente de matemática, viajou a Londres para comprar sua primeira câmera fotográfica.

    Em abril desse mesmo ano, Carroll conheceu três meninas que o inspirariam a escrever, quase uma década mais tarde, Alice no País das Maravilhas: Alice Liddell (três anos) e suas irmãs, Edith (dois anos) e Lorina (seis anos), filhas de Henry Liddell, decano da Christ Church, a mais prestigiosa instituição da Universidade de Oxford.

    O retrato abaixo é de Alice Liddell, e integra o 9º volume da coleção Photo Poche, dedica à produção fotográfica de Carroll.

    Carroll

  • Desalinho no carnaval

    A convite da Cosac Naify , montei uma lista de músicas que, para mim, representam o carnaval. De antemão já peço desculpas pela falta de ineditismo. Mas, se marchinha fosse sempre novidade, ninguém cantava junto. Quando a festa termina, juro que nunca mais ouvirei essas músicas. Todo ano faço a mesma promessa. Até que, por automatismo ou paixão mesmo, lá estou eu cantarolando “está fazendo um ano / foi no carnaval que passou”.

    Conheça Desalinho (2014), livro da poeta carioca, lançado pela Cosac Naify.

    * Laura Liuzzi é autora de Desalinho (2014). A poeta garante que o título faz mais sentido no carnaval.

  • Tomie Ohtake (1913 – 2015)

    É com profundo pesar que a Cosac Naify se solidariza com Ruy e Ricardo Ohtake, no desenlace da grande artista, mulher e mãe Tomie Ohtake, que tristemente nos deixa a todos após um pouco mais de um século de vida.

    Fica entre nós a sua obra como testemunho de seu talento e grandeza, nossos melhores souvenirs de uma artista que sempre lutou pela arte, fosse de seus contemporâneos, fosse de jovens artistas, deixando vivo o legado dos Ohtake.

    Sem a cândida e generosa presença de Tomie, os vernissages de São Paulo jamais serão os mesmos.

    Foto: Valéria Mendonça

     

    *Charles Cosac é fundador e presidente da Cosac Naify. Entre suas produções editoriais mais importantes estão os livros Farnese de Andrade (org. Rodrigo Naves), Farnese – Objetos, Barroco de lírios, sobre o artista Tunga, primeira publicação da Cosac Naify, Leonilson – Use, é lindo, eu garanto, Mira Schendel: do espiritual à corporeidade (org. Geraldo Souza Dias) e Liber albus, edição trilingüe [português, inglês e espanhol] sobre a série de relevos em madeira branca do artista Sergio Camargo, a ser lançada em 2015.

  • A infância sem pular caminhos

    Não sei até que ponto são infantis os livros infantis de Wander Piroli, Três menos um é igual a sete, O menino e o pinto do menino, Os rios morrem de sede e O matador. Algumas coisas em comum entre eles: todos têm bichos. Cachorros, pinto, peixes, pardal. E todos lidam com uma sensação difícil de dar conta, mesmo depois de grande, ou principalmente depois de grande. Uma espécie de frustração, decepção, melancolia, alguma coisa por aí. Ou seja, nenhum tem exatamente o que se chama de final feliz.

    O matador, por exemplo. Com o título já não se espera outra coisa. A epígrafe, do La Fontaine, confirma: “A vergonha de confessar o primeiro erro nos leva a muitos outros”. O livro conta a história de um menino que, diferentemente dos outros garotos do bairro, tinha péssima pontaria. Era uma vergonha, uma humilhação. Todos acertavam o alvo, um passarinho, e o menino por nada conseguia. Até que um dia, no quintal de casa, sem ninguém por perto, veio um pardal e pousou no telhado. Deu tempo de o menino buscar o estilingue e escolher uma pedrinha para enfim arremessar no passarinho. Só que aí, para sua própria surpresa, ele acertou.

    Quando correu para o terreno ao lado para ver de perto o troféu, com pena de não ter público para aplaudir seu feito, lá estava o passarinho no chão, agonizando. Jogou o bicho contra o muro para ver se parava de piar, finalmente. Na segunda tentativa, deu certo: “o pardal caiu de vez, inerte. E não piou mais. Aliás, piou sim. E continua piando dentro de mim até hoje”.

    Sinceramente, não lembro se li nada parecido quando criança. Nada tão duro, objetivo, terrível. O menino, parece, não tinha muita escolha, ou nenhuma escolha seria a melhor escolha. Poderia assumir logo de início que não queria matar passarinho coisa nenhuma, independentemente de ter ou não boa pontaria. Mas a verdade é que o menino só consegue perceber o que fez, só guarda para sempre o pio dentro dele, depois de ter feito. Nada antes poderia preveni-lo da sensação de estar sozinho com o passarinho morto, sem plateia para reconhecer sua valentia.

    Outro exemplo é O menino e o pinto do menino, que virou um sucesso em 1975, quando foi lançado. Assim como O matador, é sobre um garoto e o problema do garoto. Mas o problema, dessa vez, não é um pardal, e sim um pintinho que a professora deu para os alunos da escola, no dia das crianças. A mãe, carinhosa e compreensiva, tentava explicar para o filho na volta para casa que o passarinho, já piando baixo sob da camisa do menino, anunciando que não lhe restava muito tempo, talvez não vingasse. O menino era muito pequeno, e essa foi provavelmente a primeira vez que precisou lidar com a morte.

    Não sei se a gente aprende alguma coisa, se de criança até grande a gente consegue absorver essas perdas de um jeito mais maduro, mais adulto. A última vez talvez seja sempre a primeira vez. Parece que não há alternativa: o menino não tem como logo de cara abandonar o passarinho, ele precisa amá-lo antes para só depois passar pelo luto. Não tem outro caminho, nem tem como pular caminhos.

    A epígrafe deste livro, sobre criar cascas, sobre passar por situações difíceis, dolorosas, de desamparo, é do Faulkner: “Entre a dor e o nada, escolherei a dor.” Pensando bem, é o que Piroli mostra: é bom que não se possa pular caminhos.

    *Alice Sant’Anna é autora de Rabo de baleia (2013), vencedor do prêmio APCA 2013 e finalista do Portugal Telecom 2014.

  • Sangue no olho

    Saudada por Roberto Bolaño, a escritora chilena Lina Meruane estreia no Brasil
    com Sangue no olho, um romance em ritmo de thriller sobre doença e os limites do amor. O texto de orelha da edição é assinado pelo mexicano Juan Pablo Villalobos. Leia na íntegra:

    Lucina, a narradora e protagonista deste romance, é chilena, escritora, vive em Nova York e vai se mudar para o apartamento que seu namorado Ignacio comprou. Mas agora tudo começa a se desvanecer, porque aquilo que ela mais teme – uma ameaça que a acompanha desde a infância – acaba de se cumprir: Lucina tem o olho encharcado de sangue e está ficando cega. Ou pode ser que não, pode ser que ela se salve da cegueira: ainda há esperanças. Enquanto suporta a incerteza dos prognósticos médicos, enquanto espera um diagnóstico definitivo, enquanto sonha com um tratamento que a resgate da escuridão, ela ouve compulsivamente audiobooks e, nessa solidão acompanhada a que estão condenados todos os doentes, tem que redescobrir o mundo. Redescobrir o mundo, de fato, é um eufemismo quando comparado a uma verdade que Lucina enuncia de maneira crua: “Tenho que aprender a estar cega”. O fruto dessa aprendizagem é, justamente, este romance.

    Por sorte, Lucina conta com Ignacio, um professor universitário nascido na Galícia que é transformado em guia de cegos e se submete às obrigações de uma lealdade cada vez mais tirânica. Ela também tem por perto o doutor Lekz, biógrafo de suas retinas, o demiurgo que poderia, literalmente, criar a luz, devolver-lhe a visão. Sua família completa o quadro, uma típica família da classe média latino-americana, com todas as suas promessas de proteção mal-revolvidas, frustradas, e todas as suas manias de controle ativadas. Um pai um pouco ausente. Uma mãe com sentimento de culpa. Um irmão mais velho que a abandonou para assim poder ter uma vida própria. E um irmão caçula que anda pela vida com uma indolente irresponsabilidade digna de admiração.

    E Lucina, não podemos esquecer, é, ou era, uma escritora que passa a depender da memória e das descrições dos outros, narradores do mundo sensível que a ela está vedado. Apesar disso, ou graças a isso, ela nos oferece os contornos de uma Nova York e uma Santiago tenebrosas, como a paisagem de algo que um dia foi e ainda não se sabe se voltará a ser.

    Sangue no olho pertence a uma rica tradição de literatura da cegueira que remonta à mitologia grega, na qual a falta de visão era compensada pelos dons da sabedoria, da profecia ou da épica, e que reúne Ernesto Sábato e José Saramago, para citar os mais próximos. Escrito com o ritmo implacável de um thriller, a trama se articula por meio de prognósticos médicos e cada diagnóstico adquire a força de um clímax. Este romance, que é também um romance sobre a doença, é, acima de tudo, um romance sobre os limites do amor: até onde você está disposto a chegar por mim?, é a pergunta abjeta que acaba fazendo de cada gesto uma prova de amor.

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    *Juan Pablo Villalobos (1973) é mexicano e vive no Brasil. Estreou na literatura com o aclamado romance Festa no Coviltraduzido para mais de dez línguas. Também é autor de Se Vivêssemos em um Lugar Normal (2013), ambos publicados pela Companhia das Letras.