• Os contos de Cummings

    Muitos poetas deixaram contos ou poemas escritos especialmente para crianças. Poucos, como José Paulo Paes, deram prosseguimento a esta atividade. No caso de José Paulo, depois que descobriu o caminho, não parou mais. Mas Drummond, por exemplo, até onde saiba, escreveu apenas um conto. Uma história de um elefante, ou melhor, de dois. João Cabral de Melo Neto, por sua vez, não fez nada para ser publicado, mas depois de sua morte, acharam os poemas, muito lindos, por sinal, escritos para sua filha.

    É sempre um exercício, um desafio a mais, já que o poeta, com seu artifícios verbais, tem de abrir mão um tanto de suas invenções, para achar um caminho diferente e chegar direto ao ouvido da criança. Em 4 contos, que acaba de sair, encontramos quatro pequenas e belas fábulas criadas por e. e. cummings (era assim mesmo que ele grafava seu nome, em caixa baixa), um dos mais inventivos poetas da lírica moderna norte-americana. Edward Estlin Cummings nasceu em 1894, em Massachusetts, nos EUA, e morreu em 1962. Foi poeta, pintor, dramaturgo e conferencista. Dedicou sua vida ao mundo da literatura e das artes.

    Nos seus poemas mais incríveis, este poeta trabalhou num minucioso campo de exploração da linguagem, renovando a própria palavra a partir do seu entroncamento com outras palavras, criando uma poesia ao mesmo tempo verbal e visual. No Brasil, seus poemas foram traduzidos por Augusto de Campos. Mas, na arte do conto infantil, Cummings – certamente ditado pela oralidade – seguiu uma via mais direta, mas com grande graça e beleza, como se pode ler nestes contos, traduzidos por Claudio Alves Marcondes e com ilustrações de Guazzelli.

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    Essas quatro fábulas não foram escritas com o objetivo inicial de virar livro, mas nasceram da forma mais natural possível: foram feitas para a sua primeira e única filha, Nancy, nascida em 1924; e uma delas, até onde se sabe, talvez tenha sido criada para o neto de Cummings.

    Essa história familiar não é das mais tranquilas: Cummings havia se casado com a mãe de Nancy, em 1918. Alguns anos depois, eles se separaram. E Elaine Orr casou-se novamente e foi morar na Inglaterra. A distância afastou pai e filha, a tal ponto que apenas aos 28 anos, Nancy veio a saber quem, de fato, era o seu pai. E foi ele próprio quem lhe disse, durante uma sessão de pintura.

    Como conta George James Firmage, no posfácio dessa edição: “Nancy e seu pai finalmente se reencontraram em 1946, mas seria apenas em 1948, quando pintava o retrato dela em seu ateliê em Nova York, que Cummings de fato contou-lhe que era o seu pai. Esse evento foi importante por vários motivos, entre os quais por levar Cummings a escrever ‘O elefante e a borboleta’”. Para Firmage, nesta bela fábula, em que um elefante passa anos sozinho no alto de um morro, totalmente isolado do mundo, até que um dia uma borboleta se aproxima da casa e os dois se tornam grandes amigos e ternos amigos, selaria esse reencontro: Cummings seria o elefante, e a borboleta, seu neto, filho de Nancy. As outras três histórias, “O velho que só perguntava ‘Por quê’”, “A casa que comeu torta de mosquito” e “A menina chamada Eu” foram inventadas para a filha. E ficaram anos e anos guardadas. Só foram editadas em 1965, por sua última esposa, Marion Morehouse Cummings.

    Mas vamos aos enredos criados por este grande poeta, que sabia repotencializar palavras triviais, como solidão, pássaros, flores e estrelas, entre tantas outras. Palavras que, mesmo num conto mais tradicional, também surgem renovadas e frescas nestas quatro narrativas.

    A primeira delas, “O velho que só perguntava ‘Por quê’?” passa-se no espaço, na estrela mais distante de todas, onde morava um elfo bastante respeitado por todos os habitantes estelares. E coube a ele a tarefa de dar um jeito num velho que apareceu na lua e que estorvava todo mundo perguntando “por quê” o tempo inteiro. A única e malandra saída seria despachá-lo de volta à infância. No outro conto, “A casa que comeu torta de mosquito”, Cummings, de certa forma, cria uma variação do conto “O elefante e a borboleta”: em ambos, a distância espacial precisa ser quebrada para que o mundo do afeto e da amizade seja restaurado e possa fluir plenamente. Mesmo escritos em épocas diferentes – um para o neto e outro para a filha quando pequena –, eles cantam o encontro: entre um elefante e uma borboleta, ou entre uma casa isolada no alto do morro e um pássaro.

    Já em “A menina chamada Eu”, o poeta cria uma narrativa bem diferente: nela o narrador, que nos conta a história de uma menina e dialoga com o seu ouvinte (ou leitor, no caso do livro), num jogo de perguntas e respostas, sempre um tanto inusitadas. E a menina, chamada “Eu”, que também estava sozinha, querendo companhia para comer bolo e tomar chá, vai lançando convite aos bichos e as coisas, até encontrar com um incrível “Você”. Mais não conto, para não quebrar esse curioso espelho entre narração e audição e entre “Eu” e “Você”.

     

    *Heitor Ferraz é jornalista, professor da Faculdade Cásper Líbero (SP) e autor do livro de poemas Um a Menos

  • Rasuras

    Caderno de um ausente, de João Anzanello Carrascoza, é um livro pequeno e delicado. Trata-se de uma carta de um pai para a filha recém-nascida, escrita ao longo de seu primeiro ano de vida. Uma carta que visa dar uma amostra do mundo, da vida e de uma parte do todo pelo qual essa filha passará, antes e depois da ausência inevitável dele, pai. O projeto gráfico é bem peculiar, a começar pela capa (que é onde vamos terminar),

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    e segue adiante, texto adentro…

    88

     

    até o fim:

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    Quando comecei a trabalhar na edição eletrônica, sabia que não seria possível utilizar as mesmas cores do impresso, e que esse fato**, por si só, exigiria uma reform pensar no que poderia  substituir esses espaços em branco, que definem todo o projeto, em forma e conteúdo. Esses es  Os espaços brancos, . Segundo segundo a sinopse, “além de expressarem os vazios que a ausência já ocupa, são hesitações deste pai ao tentar escrever a educação sentimental para a filha”. Minha primeira impressão como leitor foi de que se tratavam de rasuras (o que vai de ao  de encontro com a hesitação). Conversei com a Isabel Coelho, diretora do núcleo infantojuvenil da Cosac Naify, que me explicou, pacientemente, que além disso, são respiros importantes para a leitura. Fato empiricamente constatado.

    Como se vê nas imagens, a cor de fundo das páginas destaca o branco dos espaços. Não dava para, simplesmente, mantê-los assim, porque, no digital, teríamos apenas o efeito de “caminho de rato”, uma vez que a ausência de cor no fundo não destacaria nada.

    [Até daria para conseguir alguns efeitos utilizando recursos avançados de CSS, mas se perderiam entre as não compatibilidades de cada aplicativo/dispositivo.]

    A saída foi usar algo que, geralmente, não recomendo: imagens. Porém, usar imagens pretas ou brancas, imitando o original, não funciona – nem esteticamente e nem como recurso de pausa. Elas se inverteriam quando o modo noturno fosse ativado.

    Pessoalmente, quando penso em hesitação, em dia, penso na tecla backspace, e também em um cursor indo e vindo pela tela. Cheguei a copiar efeitos de cursores, mas a ideia só parecia boa. Acabaria transformando uma carta – inserida em um caderno pessoal – em um texto de blog, interferindo de uma maneira arriscada no sentido da narrativa e seu efeito de imersão.

     

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    Tentei algumas texturas baseadas em rasuras de caneta também…

     

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    Outra ideia que parecia boa no início… mas o resultado se mostrou excessivamente plástico.

    Enfim, a opção  escolhida foi o eficaz  “menos é mais”: uma tarja proporcional em altura à entrelinha usada no livro, com uma variação da largura, seguindo as dimensões usadas no impresso declaradas no código.

    Para tal, foram usadas apenas duas imagens:

    ssss

    A primeira para palavras avulsas e a segunda para linhas completas.

    rrrr

    dddd

    Mas por que duas imagens tão parecidas se a largura é definida por código? A diferença é que a segunda tem uma linha branca acima. Se eu usasse apenas a primeira, as linhas completas apareceriam em alguns dispositivos assim:

    ccc

    E se eu usasse apenas a segunda, teríamos entrelinhas variando a cada imagem de miolo.

    As mudanças, todavia, tornam o miolo dissonante do “invólucro”. Por isso, nada mais justo( sensato) do que mudar as cores da capa para esse “azul-caneta-bic”, a fim de garantir a coesão do conteúdo. Essa foi a última etapa da produção, pois só poderíamos pensá-la depois de fecharmos o miolo, uma vez que a capa dialoga indissociavelmente com todo o projeto, como visto na primeira imagem.

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    Como disse no início, o Caderno de um ausente é um livro pequeno e delicado, mas está longe de ser um livro simples: representar ausências, seja gráfica ou metaforicamente, nunca é algo fácil de se fazer…

    * Antonio Hermida é coordenador de mídia digital da Cosac Naify.

    **Para quem estiver curioso sobre uma explicação técnica dos problemas de background, recomendo este link.

  • Sophia de Mello Breyner Andresen, a menina do mar

    Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu na cidade do Porto (Portugal), em 1919. Sua obra fecunda o imaginário de poetas e libertários. Particularmente o mar foi sua grande inspiração, ao lado de todas as coisas visíveis que ela enumerava e fazia caber, tanto em poemas como nos textos em prosa e teatro que escreveu.

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    Sophia, como poeta, nos ensina a olhar para as coisas do mundo como crianças curiosas, recém-acordadas para a vida que pulsa ao redor. Ávida de beleza e harmonia, reivindica um mundo de justiça e dignidade para homens e Natureza. Por isso, além de poeta, defendeu a liberdade dos que se opunham à opressão da Ditadura, dentro e fora de seu país.

    Em A Menina do Mar, a escritora projeta sobre as crianças de todas as idades o desejo de mergulhar definitivamente no Azul, de unir a terra e a água numa mesma pátria de alegria e fluidez. Ali, gaivotas e seres marinhos articulam o mágico encontro de um menino com a praia que o fascina, numa história que ensina o amor e a saudade como grandes afetos dos seres que veem, no mar, uma pátria sonhada.

    Escritora premiada, Sophia é hoje uma das grandes vozes da poesia do século XX. No ano de sua morte, em 2004, a cidade de Lisboa inaugurou um lindo Oceanário e lhe rendeu homenagem nos versos afixados nas paredes.

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    *Lilian Jacoto é professora de Literatura Portuguesa da USP, onde coordena o NELLPE (Núcleo de Estudos de Literaturas de Língua Portuguesa e Ética)

    **O texto acima é a nota bibliográfica do livro A Menina do Mar

     

  • Augusto Monterroso – Retrato de um cético alegre

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    Ele nasceu em Tegucigalpa, Honduras (1921) e, embora tenha morado na Bolívia, no Chile e sobretudo no México, onde passou boa parte de seu exílio forçado, foi um guatemalteco da gema.

    Essa incerta localização no mundo foi, no caso de Augusto Monterroso, análoga à ambígua condição de seus formidáveis livros. Porque sua obra literária – mundialmente célebre por sua fatal e aguda concisão – desfaz com elegância os limites entre o conto, a crônica, o ensaio, o diário pessoal e a biografia.

    Tímido até a teatralidade e de estatura muito baixa, Monterroso tomou para si a tarefa de lúcido comentarista do mundo a partir de uma zona indiscernível pela qual transitou sem ênfase, com um olhar irônico ou mordaz, atento às mínimas nuances das pessoas e das coisas.

    O mundo é, segundo ele, um lugar difícil, onde a justiça nem sempre se impõe, o bem e a razão não constituem valores absolutos, e o homem é uma criatura tragicômica, imbuída de uma animalidade geralmente omitida.

    Foram essa visão do humano e aquela preocupação moral que o aproximaram da fábula, gênero que Monterroso revisitou com uma originalidade infrequente: A ovelha negra e outras fábulas (1969, publicado em 2014 pela Cosac Naify) e Viaje al centro de la fábula (1978) são magníficas provas dessa afeição.

    Mas o rasgo que marcou a obra e a atitude de Monterroso a respeito das coisas foi o seu singular uso do humor. Ele não foi um humorista profissional – ainda menos um cômico – senão algo muito mais valioso: um homem dedicado a compreender o caráter absurdo da existência.

    E, no reverso do temperamento brincalhão da sua escrita, permanece intato o sabor agridoce da experiência. Por isso não é estranho que, em parceria com sua mulher, a escritora mexicana Bárbara Jacobs, Monterroso tenha compilado uma Antología del cuento triste (1992).

    De poucas palavras, que ele costumava espargir com uma voz fraca carregada de pudor e cortesia, Monterroso despertou a admiração de autores como Pablo Neruda, Julio Cortázar, Gabriel García Márquez ou Italo Calvino – que incluiu numa antologia, organizada por ele, o célebre conto de Monterroso “El dinosaurio”, considerado por muitos o mais breve e contundente exemplo do gênero: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”.

    Assimilado de pleno direito à vida cultural do México, seu país de adoção, Monterroso nem por isso deixou de se sentir guatemalteco, a ponto de ter tido um papel decisivo nas negociações entre o governo da Guatemala e a guerrilha revolucionária na década de 1990. Ele cumpriu essa tarefa com cuidadosa fidelidade às suas convicções políticas ligadas à esquerda democrática, as mesmas que o obrigaram a abandonar seu país.

    Em tom menor, quase em surdina, a obra de Monterroso dá conta de sua atitude frente à vida, uma sorte de alegre ceticismo, segundo a feliz definição do escritor mexicano Juan Villoro, um dos mais destacados alunos do célebre laboratório de escritura que Monterroso dirigiu durante anos.

    Autor de livros imprescindíveis e perfeitos como Obras completas (y otros cuentos) (1959), Movimiento perpetuo (1972), La palabra mágica (1983) e La letra e (1987), Monterroso publicou também uma espécie de autobiografia e de declaração de amor à pátria em Los buscadores de oro (1993), livro que tive o prazer de editar na Argentina.

    E, dado que meu impudor instaurou a tirania da primeira pessoa, vou me permitir compartilhar com os leitores a seguinte pérola.

    Tive ocasião de entrevistar esse rei da brevidade no último dia de uma efêmera estada sua em Buenos Aires, em meados dos anos 1990. Mas, por causa dum acidente doméstico, cheguei ao hotel onde Monterroso se hospedava com uma hora de atraso. Envergonhado e ofegante, me encontrei de repente no meio do lobby com um homem cujos gestos quase aristocráticos dissimulavam sua baixa estatura. “Saavedra?”, perguntou-me secamente. “Sim”, consegui responder apenas. “Gosto muito da brevidade, sabe?”, completou, com rosto sério. “Por isso lhe agradeço por ter me ajudado a fazer a entrevista mais breve da História… porque já acabou! Boa tarde!”, e sem mais nem menos deu meia-volta e afastou-se a passos curtos e apressados. Mas logo voltou, me oferecendo um sorriso cúmplice: “Por favor, me desculpe, não pude evitar a tentação de fazer essa piada…”.

    Não houve tempo para uma entrevista longa, mas foi suficiente para confirmar a fineza da sua fala, um orvalho de ideias que caíam miúdas iluminando a última hora daquela tarde de inverno.

    Em 7 de fevereiro de 2003 uma parada cardíaca fez o coração de Monterroso deixar de bater. Mas sua obra deliciosa continua a ampliar as fronteiras da imaginação de seus numerosos e agradecidos leitores.

     

    *Guillermo Saavedra (Bue­nos Ai­res, 1960) é poeta, editor, tradutor e crítico de literatura e teatro. Autor de Caracol (1989), Tentativas sobre Cage (1995), El velador (1998), La voz inútil (2003) e Del tomate (2009). Atualmente, é diretor da revista de cultura Las ranas 

  • Texto ruim

    (Na rabeira do meu último post, venho aqui contar um segredo.)

    Outro dia escrevi um texto tão ruim que se fosse um bolo tinha ficado embatumado. Ele pretendia falar das dificuldades de escapar de uma situação cabeluda.

    Falava sobre o suplício de um humorista suicida, sobre ser passivo com o tapa, com o cuspe na cara, com a história pessoal. Descrevia a invasão da macaca Monga, que fugiu do circo de madrugada e tomou meu rosto no espelho embaçado do banheirinho. Aconselhava o leitor a calar-se como fazem os peixes desde que existem no planeta. Discorria sobre o malabarismo de costurar a minha boca com meus pés. Sugeria adentrar o corpo numa caverna escura que guarda um urso e depois ele mesmo, o texto, adentrava no corpo do urso. Confessava que eu me sentia tragada pelo cinema. Afirmava que o mais inteligente a fazer é calar-se como os peixes de antanho e sempre e chorar seco. Até que.

    Até que o texto dava uma cambalhota capenga. Dessas que caem de lado. E recebia um facho de luz empoeirado escapando da veneziana.

    Assumia que então eu entendia o ciclo das coisas – como se a vida fosse uma pragmática lava-roupas. Contava que eu havia me deparado com a minha sobrinha crescida. E que ela havia me abraçado, pela primeira vez, de uma altura maior que a minha. Narrava os fios brancos que irradiavam detrás da orelha do meu melhor amigo. Brincava com o jeito de falar antigo dos personagens de uma telenovela. Noticiava uma história debulhada, via chamada de longa distância, no meio da tarde. Detalhava o sabor de uma empanada. Versava sobre um raminho de tostão que obstinado venceu as baixas de temperatura do meu quintal. Tentava esvaziar e encher a cabeça como um desenho triste do Leonilson. Brincava com a chispa de loucura que, findo o dia, senti ao perceber que o meu blusão de lã estava vestido do avesso.

    Emaranhado e do avesso também ficou esse texto.

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    *Natércia Pontes é autora de Copacabana Dreams

  • O verão de Sergio Rodrigues

    Passeando pela cozinha, um pouco desconfortável com a presença da câmera, Sergio Rodrigues se detém em frente ao pequeno espelho horizontal colocado logo acima da pia: “Gosto disso aqui. Você está lavando louça e tem alguém te ajudando”, diz, e vemos o reflexo de suas mãos se movimentando embaixo da torneira. Essa cena – que foi ao ar tempos atrás, num episódio da série Casa Brasileira, do GNT – talvez explique o que a arquitetura e o design de móveis representavam para ele: um apoio confortável para a vida se desenrolar, algo que tem a ver com identificação, companheirismo até.

    Não sei se foi o Sergio que começou com essa mania que alguns designers de móveis têm de batizar suas criações em homenagem a amigos ou familiares, mas ele me explicava como a poltrona leve Kilin (1973) tinha esse nome por causa da esposa Vera, sua Esquilinho, “Esquilin”, que acabou virando Kilin. Ou a Vronka (1962), uma poltrona com uma curva ousada, condizente com a inquietude da sua filha Veronica. Outras criações revelam suas influências e origens profissionais: a cadeira Lucio (1956), que dedicou ao amigo Costa, e a poltrona leve Oscar (1956), que Niemeyer dizia ser a única em que poderia passar horas sentado em frente à prancheta. Mas sua obra-prima talvez seja a poltrona que não tem nome de ninguém: a Mole (1957). Nunca perguntei a origem exata, mas imagino que tenha a ver com o fato de você poder ficar confortável nela, “tirando uma moleza”, como se diz, ou porque as partes acolchoadas se dobram, moles, sobre a estrutura de madeira. Há duas fotos dela que Sergio adorava: uma em que um cachorro se esparrama pela poltrona, e outra em que a atriz Kim Novak não resiste e põe as pernas em cima do braço do móvel.

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    O próprio Lucio Costa registrou a importância do designer, em 1991: “Sergio Rodrigues, com a criação da OCA, integrou a ambientação de interior no movimento de renovação de nossa arquitetura”. A OCA era sua antiga loja-galeria de móveis. O que interessava a Lucio era como Sergio operava nos interiores, através do mobiliário, a mesma inovação que ele próprio buscava na arquitetura. De certo modo, algo da conjugação existente em Lucio, entre o moderno e a tradição brasileira, ressoa em Sergio Rodrigues. Na arquitetura e no design, Sergio é ao mesmo tempo modernista e barroco. Alberto Moravia identificou algo semelhante em Brasília (“Ao barroco delirante das igrejas coloniais corresponde de fato, no sentido psicológico, o gigantismo não menos exaltado de Brasília”, escreveu em 1960), mas a arquitetura de Sergio não é nada monumental, como a capital brasileira, nem seus móveis impressionam pelo gigantismo. Muito pelo contrário: há neles um forte intimismo. Sergio é barroco nos detalhes, na atmosfera.

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    Dizem que Sergio inaugurou o modernismo no mobiliário brasileiro, ao preencher com seus móveis os salões dos palácios de Brasília. Eu diria que ele fez mais: ajudou a inaugurar o verão dos móveis modernistas, em âmbito mundial. Digo verão, pois a frieza de uma poltrona Barcelona de Mies van der Rohe, por exemplo, passa longe de seu espírito inventivo. Verão também pela quentura de seus interiores coloridos; de suas estruturas pré-fabricadas em madeira – a “arquitetura sem lugar” que, em sua formulação belamente contraditória, é enraizada nas peculiaridades de cada morador. Verão da luz solar do Rio de Janeiro que invadia seu escritório-showroom na rua Conde de Irajá, em Botafogo, onde estagiei por nove meses durante a faculdade – foi em seu verão (tomando emprestada a expressão do escritor J. M. Coetzee) que o conheci: no escritório, quem tocava os projetos de arquitetura era a Veronica, mas em seus oitenta anos ele estava todos os dias lá, dando pitacos, revisitando um móvel antigo que voltaria a fabricar, tendo ideias novas ou aprimorando algo, respondendo a entrevistas, convidando para o almoço.

    Verão é a estação mais generosa para os corpos, a que os deixa mais à vontade e livre de roupas, generosidade que remete à do próprio Sergio. Agora, nesse inverno estranho, ele faleceu, aos 86 anos. Alguns devem achar que o dono do melhor bigode de todos, aquele que sempre estava de boina, era um grande personagem e só. Mas ele era mais que isso: alguém genial, com um espírito imenso, humano demais, e que certamente vai fazer muita falta em seu meio, onde, digamos, a frieza do concreto costuma predominar.

    * Miguel Del Castillo é escritor, tradutor e editor de arquitetura e fotografia na Cosac Naify.

  • Um evento e dois livros

    A primeira vez que ouvi falar na Alliance Graphique Internationale (AGI) foi em 2008, quando era assistente do designer Kiko Farkas. A lembrança mais forte era o caráter exclusivo da associação, que naquela época só contava com dois membros brasileiros: Kiko e Rico Lins. Atualmente, são dez integrantes, entre eles está Elaine Ramos, diretora de arte da Cosac Naify.

    Criada logo após a Segunda Guerra, a AGI foi fundada por cinco designers europeus que vislumbraram uma entidade profissional dedicada a “compartilhar interesses comuns e a amizade através de fronteiras nacionais e culturais”. Entre seus fundadores, como nota curiosa, estava o francês Jacques Nathan, que durante a ocupação alemã adicionou “Garamond” – nome da célebre família tipográfica – a seu sobrenome.

    Em 2010, já como freelancer, a sigla apareceu novamente, quando tive a chance de participar do primeiro AGI Open, no Porto; e em Barcelona, no ano seguinte. Naqueles anos, tudo o que mais queria era devorar o máximo de informação que pudesse encontrar. O evento, este sim aberto a profissionais, estudantes e interessados, contava com uma estrutura semelhante ao que aconteceu em São Paulo na semana passada. Em ambos os casos, encarei a maratona de palestras como uma oportunidade de ouvir muita gente cujo trabalho admiro mas, principalmente, para conhecer pessoas que, mais tarde, passei a acompanhar mais de perto. Foi através desta conferência que conheci Sara Fanelli, Christoph Niemann, Ahn Sang-Soo, Bruno Monguzzi e Isidro Ferrer, ilustrador do lindo Livro das perguntas, que fez uma apresentação emocionante em Barcelona.

    Esta foi a primeira vez que o time de notáveis desceu a linha do equador para compartilhar suas experiências. Talvez pela falta de outros eventos do mesmo porte, em São Paulo o público era composto majoritariamente por profissionais. Um público, sem dúvida, com mais apetite para palestras além da apresentação de portfolio. Ao todo, foram 23 palestras – entre elas, a dos brasileiros Guto Lacaz e Elaine Ramos. Um convidado surpresa foi mantido em segredo até o último segundo: um vídeo inédito com o lendário designer Milton Glaser que contou, entre outras coisas, sobre o processo de criação dos anúncios da última temporada do seriado Mad Men. Lembrei instantaneamente das entrevistas de Glaser e George Lois (considerado a inspiração para Don Draper) no livro Design em diálogo.

    Elaine Ramos no AGI Open 2014. Foto: José de Holanda

    O evento foi repleto de pequenos insights, aqueles capazes de detonar uma bomba atômica nas certezas. O que foi, possivelmente, mais revelador a todos que estavam ali, foi que design gráfico é muitas vezes muito mais do que design. Pode envolver a simples constatação de que estamos sempre lidando com coisas que fogem ao nosso controle, como nos lembrou Marina Willer. Também inclui questionamentos sobre o espaço urbano, como enfatizou Ruedi Baur, numa discussão sobre como as cidades estão, cada vez mais, se tornando produtos, deixando para trás qualquer conexão ou legado, causando uma crise na democracia. Ou como é possível abordar um livro como obra integral, na qual capa e miolo merecem esforços projetuais equivalentes – experiência que também pude viver e aprender de perto, no período que trabalhei na Cosac Naify, e que foi tema da apresentação de Elaine Ramos:

    Às vezes, o simples fato de alguém compartilhar suas pequenas obsessões – como foi o caso de Guto Lacaz. Qual foi a minha surpresa ao ver o seu trabalho com as tampas de bueiros de São Paulo e reconhecer ali um ponto em comum com as minhas próprias obsessões! Com a maior simpatia e simplicidade, Guto mostrou onde as peças se encaixam: ou como as suas leituras da Popular Mechanics na juventude encontraram, anos depois, a incrível exposição na qual foi curador (em parceria com Adélia Borges) sobre Santos Dumont no Museu da Casa Brasileira, em 2006. Aplaudido de pé, Guto só confirmou a minha impressão: o mais importante é entender o processo e reconhecer valor no caminho tortuoso que trilhamos antes do resultado final.

    E tem mais:
    Até o dia 27 de outubro, no Museu da Língua Portuguesa, é possível conferir a Exposição Internacional de Cartazes AGI. Mais de 200 designers gráficos do mundo todo tiveram que responder a seguinte questão: “O que vem a sua mente quando você pensa no Brasil?”. Além das referências óbvias ao corpo feminino, à paisagem, ao futebol ou o samba – nem sempre a melhor ideia é a primeira! – a exposição reserva algumas ótimas surpresas. Uma excelente oportunidade de refletir sobre esteriótipos, cultura visual e identidade. O tema será aprofundado em uma mesa redonda que acontece hoje, às 19h30, lá mesmo no Museu da Língua Portuguesa. Imperdível!

    *Tereza Bettinardi é designer gráfica e sua cor favorita é o magenta. 

     

  • O efeito etnográfico

    Os ensaios de Marilyn Strathern reunidos em O efeito etnográfico lidam sobretudo com a ideia de “distância”, em sua multiplicidade de posições: limites e fronteiras, escala e proporção, a parte e o todo, e assim por diante. Todo observador joga com a distância irredutível que o separa daquilo que o observa – um espaço que ele tentará cobrir tanto de forma física (aproximando-se e convivendo, na medida do possível) quanto de forma intelectual, textual, quando se propõe a narrar tal experiência. Aí está a complexidade desse “efeito etnográfico” de que fala Strathern: toda escrita se confronta com várias camadas de “distâncias”, “o número de visadas possíveis é infinito”, escreve a autora no ensaio que dá título ao livro, “quando a interpretação é imaginada como a assunção de um ponto de vista, a incompletude é tornada manifesta pelo próprio exercício interpretativo”.

    O vasto livro de Strathern é um catálogo denso de situações de distanciamento que são problematizadas e textualizadas. Não apenas a distância mais óbvia que separa o antropólogo do nativo, mas também a distância que separa o antropólogo do outro antropólogo e o nativo do outro nativo. Ou seja, a ideia de que às vezes há mais conflito na distância que não é geográfica, ou que não precisa da geografia para se mostrar problemática. No caso da Papua-Nova Guiné, por exemplo, o campo de ação de Strathern, em uma única região circunscrita, feita de vales que não se comunicam entre si, centenas de indivíduos falam uma diversidade incrível de idiomas. A situação ganha um surpreendente paralelo quando se pensa nas universidades e em seus departamentos, com os variados métodos e vocabulários utilizados para objetos frequentemente semelhantes.

    Parte da reflexão de Strathern se volta justamente para esse ponto, a distância nos discursos dos especialistas – e um exemplo possível seria a pergunta: “Como a teoria etnográfica europeia atravessou o oceano em direção aos Estados Unidos e com que feições ela fez o caminho de volta?”. Algo dessa preocupação se anuncia já na introdução, quando a autora fala do vigor da “academia brasileira” como fruto de uma “fusão de fontes do Velho Mundo – sejam elas do continente europeu, norte-americanas (hoje certamente podemos chamar a América do Norte de Velho Mundo) ou da antropologia britânica”. Podemos chamar a América do Norte de Velho Mundo. Ainda que tal frase não seja elaborada ao longo do texto, um pouco de seu sentido nos alcança, mesmo que de forma abrupta, já que a pujança econômica e cultural estadunidense e sua presença mundial fazem parte já do senso comum. Mas é o próprio percurso realizado por Strathern em seus ensaios – e sua insistência na importância da releitura de culturas e de interpretações de culturas – que motiva o retorno a essa frase aparentemente casual, mas carregada de “distâncias”.

    Penso na distância que separa essa frase da obra de Henry James, ou ainda, a distância que leva de um extremo a outro, na medida em que James tenha sido talvez o escritor que mais se ocupou desse estranhamento recíproco que aproximava os Estados Unidos da Europa, e da Inglaterra em particular (dois países “separados pela mesma língua”, como dizia Bernard Shaw). Um livro magistral como Os embaixadores, por exemplo, é todo construído a partir de um ideal de diferença irredutível entre a América do Norte e o Velho Mundo, e mais, o romance é também a dramatização de um conflito de duas forças opostas – a força americana que procura se fundir ao Velho Mundo e a força deste último que procura repelir a fusão. No romance de James, temos um jovem americano em Paris, Chad, que deve ser resgatado por Strether, o “embaixador”. A surpresa é dupla, pois não só Chad está disposto a voltar, como quem se entrega aos prazeres do Velho Mundo é aquele que deveria ser imune a eles, o próprio embaixador Strether.

    O romance de James só existe, portanto, porque a própria possibilidade de chamar a América do Norte de Velho Mundo estava interditada, era algo próximo do delírio. Mas, por outro lado, é o próprio absurdo da fusão entre América do Norte e o Velho Mundo que confere dramaticidade ao romance – o leitor anseia pelas situações de conflito, pelo “choque cultural”, pelo “efeito etnográfico” que James vai extrair dos dilemas de Strether em terra ignota. Se o “momento etnográfico” pensado por Strathern envolve a construção de um “modo de indagação” que considere em retrospecto “os resultados imprevistos”, Os embaixadores certamente nos coloca no centro de uma realidade que já não existe, que nos contempla à distância, mas que não cessa nunca de questionar nossas táticas de leitura do presente.

    * Kelvin Falcão Klein é crítico, autor de Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas (Ed. Modelo de Nuvem, 2011). Escreve em falcaoklein.blogspot.com.br

     

  • O olhar de Stephen Shore

    Stephen Shore nasceu em Nova York, em 1947. Começou a fotografar muito cedo, aos nove anos de idade, com uma câmera de 35mm. Aos quinze, teve três de suas fotografias adquiridas pelo então curador de fotografia do MoMA, Edward Steichen, para o acervo do museu. Frequentou ativamente a Andy Warhol’s Factory, entre os dezoito e os vinte anos, fotografando o artista pop e seu grupo. Aos 23, tornou-se o segundo fotógrafo em atividade a ter uma exposição individual no Metropolitan Museum of Art, depois no Alfred Stieglitz, quatro décadas antes.

    Considerado por muitos um dos pioneiros no reconhecimento da fotografia em cores como expressão artística, seu trabalho tem sido mostrado em inúmeros museus e galerias do mundo, influenciando gerações de fotógrafos.

    Confira duas imagens comentadas por Shore em A natureza das fotografias, seu único livro teórico, lançado este mês pela Cosac Naify:

     

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    Garry Winogrand. Feira Estadual do Texas, Dallas, 1964.

     

    Uma pessoa que diz “xis” ao ser fotografada está inconscientemente reconhecendo a forma como o tempo é transformado numa fotografia. Uma fotografia é uma imagem estática, mas a vida flui no tempo. Quando a fotografia interrompe esse fluxo, delineia-se um novo significado, um significado fotográfico. A realidade é uma pessoa dizendo “xis”. A câmera, testemunha silenciosa, mostra uma pessoa sorrindo — talvez um sorriso superficial e sem vida, como numa foto no álbum da turma do colégio ou na cerimônia de inauguração de alguma coisa, mas mesmo assim um sorriso. Diga “craque” e a câmera verá uma expressão de desdém.

    Na Feira Estadual do Texas, um dia em 1964, um novilho balançava a cabeça para a frente e para trás, ao mesmo tempo em que esticava a língua. Seu tratador se afastava, tentando não ser lambido. No meio do fluxo de toda essa ação houve um instante, que durou 1/250 de segundo, em que a língua do novilho e a aba do chapéu do tratador se encontraram em perfeita simetria, vistas de um único ponto de observação e registradas num pedaço de filme. Um instante que, tão depressa como surgiu, logo se dissolveu em desordem

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    Stephen Shore. Yucatán, México, 1990.

     

    Quando faço uma fotografia, minhas percepções deságuam em meu modelo mental. Esse modelo se ajusta para acomodar minhas percepções (o que me leva a alterar minhas decisões fotográficas). Por sua vez, esse ajuste do modelo modifica minhas percepções. E assim por diante. Trata-se de um processo dinâmico, automodificador. É o que um engenheiro chamaria de ciclo de realimentação.

    É uma interação complexa, contínua e espontânea de observação, compreensão, imaginação e intenção.

    Desde 1982, Stephen Shore é diretor do programa de Fotografia do Bard College. Além de A natureza das fotografias, publicou diversos fotolivros, entre eles American Surfaces (1972) e Uncommon Places (1982).

     

  • Lembrança de Nicolau Sevcenko

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    Eu tive a sorte de conviver um pouco com o Nicolau Sevcenko, uma figura extraordinária que eu tanto admirei (e não apenas eu, evidentemente), e de quem fui atrás para que me aceitasse como seu orientando no mestrado, na FFLCH-USP. Minha graduação, na FAU-USP, percorreu os anos 1990. Mas desde muito cedo eu soube do fascínio causado pelas aulas de História Social da Arte (que deveria se chamar história “cultural” da arte), na Faculdade de História, de um estranho professor muito pop, com sobrenome eslavo. Com meu amigo Cacá Machado, aluno regular do curso de História naquele momento, passei a frequentar as aulas do professor Nicolau, sempre ministradas nas salas grandes daquela Faculdade, e abarrotadas de alunos. Eu estava no início do curso de graduação (1992, 93), e sofria intensamente o impacto de encantamento daquelas aulas. Nicolau destoava em tudo do perfil uspiano normal. Ele se dividia entre a USP e suas aulas na Inglaterra, e era fascinado pela cena punk londrina. Com seu singularíssimo cabelo loiro repuxado de um lado para o outro, dando voltas espirais na cabeça, a boca meio torta – sobretudo quando dizia as frases mais irônicas –, estranho sotaque, e uns olhos azuis muito vivos atrás dos óculos redondos e grandes, transmitindo uma inteligência aguda, ele usava jaquetas jeans, ou de couro (se não me engano), e uma indefectível garrafa térmica, pousada sobre a mesa, com Coca Cola. Tudo isso era pop e incomum. E se o conteúdo do seu curso chegava “só” até o século XVII, já nos ensinava muito, pela própria atitude, sobre Andy Warhol.

    Passei a ser, como muitos outros, um seguidor dos seus passos. Fizemos uma memorável entrevista com ele para a revista Caramelo, do grêmio dos estudantes da FAU, sobre questões urbanas em amplo espectro, em que ele trazia informações quentes sobre as revoltas dos negros em Los Angeles naquele momento. Assisti também a inúmeras palestras e debates em que participava, e não pude deixar de reparar em sua marca de estilo nessas ocasiões, que passei a imitar mais tarde. Invariavelmente, em suas falas públicas, ele iniciava os assuntos de modo muito vacilante, como quem está desconcentrado, buscando encaixar-se no próprio assunto. As frases começavam vagas, paravam no meio com reticências, entremeadas por goles aflitos na Coca Cola envelopada em garrafa prateada, e tínhamos a impressão de que ele se encontrava em meio a um labirinto mental. É claro que ele, com isso, ganhava a cumplicidade da plateia, que se irmanava àquela empreitada, torcendo por uma recuperação. E a recuperação sempre via de modo abrupto, inspirado, quando uma frase finalmente se concatenava na outra, em junções imprevistas, criando ideias insólitas e originais, e abrindo em forma de clarão um caminho fácil para o resto da conferência. Nós da plateia, embevecidos, estávamos na sua mão. Nunca tive coragem de perguntar para ele se isso era uma performance construída, ou se era uma experiência realmente agônica que ele vivia, e tinha que superar toda vez que começava a falar em público. No fundo, como tudo na vida não é nem preto nem branco, imagino que fosse uma combinação das duas coisas. Mas o saldo, para nós que nos mirávamos nele, era perceber a atividade intelectual como uma espécie de happening da inspiração permanente, em que conviviam a extrema erudição e a desespecialização radical, combinando elementos díspares como o cinema americano, o rock, a música popular brasileira, Euclides da Cunha e o processo de urbanização de São Paulo visto através da crônica jornalística, por exemplo. Seu ponto de vista era claramente moderno, valorizando a excitação revolucionária e fremente da experiência urbana, marcada por uma perspectiva internacionalizante lida a partir do fenômeno da imigração em massa (sendo ele mesmo um produto desse processo). Daí, entendi depois, sua reserva em relação aos paroquialismos nacionalistas, vistos por exemplo em figuras como Mário de Andrade. Ao mesmo tempo, o seu “shape” era inteiramente pós-moderno, e sua adesão afetiva mais forte no campo da arte, ao que me parece, voltava-se para a produção underground e contracultural.

    Das pinturas rupestres paleolíticas à solidão dos espaços infinitos de Pascal, anunciando a Idade Moderna, passando pela cúpula de Brunelleschi em Florença, e pelo dilaceramento de um Michelangelo moribundo no final da vida, comecei a pressentir a grandeza e os abismos profundos da história humana, através da arte, naquelas aulas do Nicolau. Os tempos de orientação durante o mestrado, depois, me deram a chance de conhecer melhor os seus entreditos, como as reservas em relação a Mário, ou a Fernand Braudel, que me surpreendiam e me levavam a investigar suas razões. Pude conhecer também Cristina, sua mulher, que muito gentilmente me ajudou a concatenar as dificuldades surgidas entre as exigências burocráticas da secretaria de pós-graduação e a personalidade aérea do meu orientador, que além do mais vivia entre dois ou mais países. Conheci também a sua casa, um sobrado antigo no bairro do Belém, e seus inúmeros gatos. Ali, em ambientes penumbrosos fechados por espessas cortinas, e forrados por tapetes e almofadas, eu ficava cada vez mais admirado com o ecletismo estético (e não apenas estético, também vivencial) daquela grande figura.

    Na segunda metade dos anos 2000, se não me engano, ele se afastou da USP e da cena cultural paulistana e brasileira. Provavelmente cansado com a mesquinhez das disputas na carreira universitária entre nós, começou a dar aulas nos Estados Unidos, deslocando sua energia e criatividade para o hemisfério norte. Seu legado, no entanto, é imenso e imensurável para gerações de pessoas que, como eu, não apenas assistiram suas aulas e leram os seus livros, mas que sobretudo se formaram a partir do seu exemplo carismático. Discípulos discretos ou extravagantes que não deixarão de levar adiante o seu exemplo de agudeza e dissonância, tanto mais crítico quanto mais incômodo e desafiador do bom senso cordial e mediano.

    *Guilherme Wisnik é arquiteto, crítico e professor de Teoria e História da Arte da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP)