• Jandira

    Em seu último post, a colunista Alice Sant’Anna tentou escolher o verso mais bonito do poeta Murilo Mendes, mas não conseguiu. Ficou com uma palavra: transparente, que encerra “Jandira”. O poema é chave na obra de Murilo Mendes, apresentando, na sua linguagem de inspiração surrealista, um dos temas que mais o fascinava: a mulher, em suas dimensões física e simbólica.

    A edição especial de Antologia poética, compilação inédita da obra do poeta mineiro organizada por Murilo Marcondes e Julio Castañon, vem acompanhada de um CD com gravações de 1955 em que Murilo Mendes lê oito de seus poemas. “Jandira” é o primeiro deles:

    As oito faixas que acompanham a Antologia foram retiradas do LP “Poesias”, lançado pelo selo Festa, criado por Irineu Garcia e Carlos Ribeiro em 1955. O material integra uma série que registrou em disco os principais nomes da poesia brasileira moderna: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Murilo Mendes, Jorge de Lima, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes. Os LPs traziam uma dupla de poetas, cada qual ocupando um lado, quase nunca ultrapassando dez faixas. Murilo Mendes dividiu com João Cabral de Melo Neto o 10º volume da coleção.

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  • Looping

    Faz dois anos que entrei na Cosac Naify para elaborar e coordenar os livros digitais da editora. Eu, que gosto muito de retrospectivas (elas me ajudam bastante), já estava com vontade de aproveitar minha coluna no blog para escrever sobre esses anos de casa, sob uma perspectiva mais pessoal, e a marca recém atingida dos 100 primeiros e-books do nosso catálogo me pareceu um ótimo gancho.

    Em 2012, havia uma grande expectativa do que seriam nossos e-books. Passei algumas semanas lendo e estudando o catálogo e, eventualmente, fazendo testes nos dispositivos a fim de definir, em primeiro lugar, quais seriam, de um modo bem resumido, nossos padrões.

    ebooks dispositivos

    Nesse primeiro momento, a diretriz era pesquisar e desenvolver um modelo próprio para a editora, que se ajustasse ao seu perfil e integrasse, ao longo do tempo, o novo departamento aos demais.

    Isso feito, poderíamos seguir com a escolha de títulos, a corrida pelos direitos autorais, a leitura e alterações de contratos, testes de fornecedores, adaptações de conteúdo, solicitações ao designers e editores, reuniões semanais e, bem, de repente, já estávamos em janeiro de 2013.

    Começamos, então, os preparativos para o lançamento dos primeiros e-books, que se daria em abril. Já dispúnhamos de 25 títulos para a estreia, o que consideramos um número razoável para dar o pontapé inicial.

    Dentre esses títulos, estavam contos avulsos da coleção Prosa do Mundo, que reúne nomes como Stevenson, Tolstói e Tchekhov; Alejandro Zambra, com seu Bonsai; O fazedor de velhos, de Rodrigo Lacerda; Os meninos da rua Paulo, do húngaro Ferenc Molnár; Clarice, , biografia da autora, escrita por Benjamin Moser; e O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe.

    Apesar da calma com que tratamos o processo, foi um trabalho realmente árduo, afinal, por mais bem planejado que algo seja, tem sempre uma variável que escapa.

    Acho que essa é única regra que se aplica a todo e qualquer trabalho: sempre que se tenta dar conta de todas as variáveis, o universo se reorganiza de maneira a te colocar na única situação não previsível (e ainda a faz parecer óbvia em retrospecto).

    A partir da estreia dos e-books, em 2013, as rotinas se intensificaram, com mais canais de distribuição, um manual de estilo para os digitais, mais títulos, mais parceiros e minha estreia como colunista neste blog, com um texto sobre o trabalho em Moby Dick.

    A coluna acabou se tornando mais do que um espaço para atualizar os leitores sobre o que fazemos nesse setor. Tornou-se, também, uma forma de desmistificar o trabalho com e-books, dentro e fora da editora, fosse apresentando variados problemas de adaptação, o lançamento de uma obra exclusivamente no formato digital, o trabalho realizado no livro que mais me causou dúvidas (e que acabou se desdobrando em uma pequena série) ou desabafando sobre o dia em que joguei a toalha.

    Enfim, mal chegamos em 2014 e o ano já se vai. O tempo tem desses caprichos: felizes, alcançamos a marca dos 100 títulos digitais, e ela já se foi.

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    Ao atingirmos esse número, fizemos também nossos primeiros lançamentos simultâneos (impresso e digital) com 24/7 – Capitalismo tardio e os fins do sono e Tempo de espalhar pedras (e-book 101 e 102, respectivamente), além de nossa primeira seleção de títulos digitais em promoção. Tudo isso representa uma nova fase, não apenas para o departamento**, mas para a editora como um todo, trazendo novos fluxos, possibilidades e desafios.

    Essa leva que completa nossos primeiros 100 e-books me traz a mesma sensação da estreia: a sensação de que  estamos apenas no início de tudo, e esse início é contínuo e, espero, continuará sendo.

    *Antonio Hermida é coordernador de mídia digital da Cosac Naify 

    **clique aqui para saber mais

  • Dormir não é preciso

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    O mais recente trabalho do professor de Teoria da Arte Jonathan Crary, 24/7 -Capitalismo tardio e os fins do sono, primeiro título da Exit, nova coleção da Cosac Naify, apresenta um denso percurso, pontuado por comentários a textos e imagens, cujo objetivo é elaborar uma crítica bastante pessimista a respeito das estratégias de convivência entre os sujeitos no mundo contemporâneo. Crary argumenta que todos os elementos que surgem para conter e empobrecer a experiência são, paradoxalmente, exaltados como “avanços” ou “marcos civilizatórios” – desde a disponibilidade permanente do “funcionário pró-ativo” até a iluminação constante e o oferecimento ininterrupto de produtos e serviços.

    Esse cenário cada vez mais forçado de disponibilidade permanente desemboca em uma reivindicação crítica do sono, ou seja, o sono é considerado a partir de sua capacidade de nos fazer lembrar que é possível parar e refletir. Pois o sono hoje já não é mais descanso, esfera de cultivo da subjetividade, mas perda de tempo, peso morto dentro da vida produtiva do modelo 24/7, sem parada ou reflexão, 24 horas por dia, 7 dias por semana.

    “O sono é um lembrete ubíquo, mas ignorado”, escreve Jonathan Crary, “de uma pré-modernidade que jamais foi completamente superada, do universo agrícola que começou a desaparecer há quatrocentos anos”. O sono, portanto, é apresentado por Crary como espaço de resistência, como interrupção do processo de moldagem do indivíduo. O ponto mais perverso desse contexto, no entanto, é que o próprio indivíduo contribui, voluntariamente, para a manutenção desse processo. Para Crary, o sujeito que se diz integrado às tendências e que se define como alguém “conectado” ou sempre “atualizado”, que coloca como prioridade de sua vida a exteriorização e a permanente mediatização dessa vida, está inserido num “estado de transição contínuo”, na inexorável angústia de nunca ter/ser/ver o suficiente. Por trás do afã da atualização e do frenesi da expressão “no que você está pensando?” está, diz o autor, a “perpetuação do mesmo exercício banal de consumo ininterrupto, isolamento social e impotência política”.

    Crary defende a ideia de que não há possibilidade de uso “criativo” ou “emancipado” dos dispositivos, pois, revendo o período recente de constituição da internet, “o que era celebrado como interatividade era mais precisamente a mobilização e habituação do indivíduo a um conjunto aberto de tarefas e rotinas”, que se encaminha em direção a um cenário 24/7 de abolição do espaço de diferença e reflexão. Nesse ponto, seguindo Hannah Arendt, o autor afirma que tanto criatividade quanto emancipação são fomentadas por “silêncio e solidão”, pontos “essenciais para a manutenção dos indivíduos políticos”. Num paradoxo que diz muito da configuração atual do capitalismo tardio, o sono já não serve mais como metáfora do despertar, da passagem de um estado de inércia para um de ação, mas como indício de uma vivência que não se conforma totalmente ao modo produtivo ininterrupto, por mais que tente.

    Menosprezar o sono, seu espaço na vida e suas propriedades é buscar o fim da “introspecção distraída”, uma vez que o contexto tecnológico do presente acusa a “incompatibilidade profunda entre qualquer coisa que se assemelhe ao devaneio e as prioridades de eficiência, funcionalidade e velocidade”. Não se trata apenas do sono como o ato de dormir, mas como estado de suspensão e de afastamento, como a sugestão permanente de um ritmo alternativo que se espalha para além do ato de dormir – pois o sono é “a recorrência em nossas vidas de uma espera, de uma pausa”, como aponta Crary, uma espera que deve ser exercitada. A partir de que momento se tornou tão insuportável viver apenas na imediaticidade do próprio corpo, na materialidade mais direta dos sentidos? 24/7 não dá resposta para essa pergunta, mas aponta o sono e sua temporalidade alternativa como os campos principais de questionamento e de reivindicação identitária no mundo contemporâneo.

    Kelvin Falcão Klein é crítico, autor de Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas (Ed. Modelo de Nuvem, 2011). Escreve em falcaoklein.blogspot.com.br

     

  • Transparente

     

    Foi um ano e tanto para a poesia. No mesmo 1930, Bandeira lançava Libertinagem, Drummond estreava com Alguma poesia e Murilo Mendes publicava também pela primeira vez, Poemas.

    *
    Em Poemas, diz que não pode escrever a obra-prima que todos esperam do seu talento. Vê a si mesmo “quase tão triste como um homem que usa costeletas”. Fala sobre o outro lado, sobre estar no outro lado do mundo, sobre o desespero de não poder estar “presente a todos os atos da vida”, sobre estar num quarto modesto na praia de Botafogo, sobre estar no ar.

    *
    Tudo virava assunto, gravado “pra sempre na cachola”. Quando cumprimentava gatos, quando pedia desculpas ao mendigo. Sempre atento, tudo no lugar, tudo mudando de lugar. Ele, nem alegre nem triste, “chama com dois olhos andando”.

    *
    Tinha horror à idolatria da linguagem, ou melhor, a qualquer idolatria. A literatura, ele escreve em “A poesia e o nosso tempo”, é uma técnica de comunicação. “A poesia é uma chave do conhecimento, com a ciência, a arte ou a religião.” Com isso, assunto encerrado, chega desse papo de utilidade da poesia, se serve, pra que serve.

    *
    No livro Convergência (1970), inventa duas pilhas de palavras. E lista, em duas colunas, com predileção pelas proparoxítonas. Bisdrômena, glamífero, orgântula. Obcúrima, perclômeno.

    *
    Difícil escolher o verso mais bonito. Talvez “A eternidade irrompeu no tempo, violentíssima”. Ou “Ainda não estamos habituados com o mundo/ Nascer é muito comprido”. Ou, quem sabe, “Trago sempre comigo uma morte de bolso”. Só mais um: “Tenho pena do meu coração que explodiu de tanto ter pena”. O último me faz pensar no Drummond, em Alguma poesia, quando escreve: “Meu coração vai molemente dentro do táxi”.

    *
    Mas a palavra mais bonita eu escolhi. É “transparente”. É a última que aparece no poema “Jandira”, do livro O visionário (1941): “O mundo começava nos seios de Jandira./ (…) E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo./ (…) E sua boca era um disco vermelho/ Tal qual um sol mirim./ (…) E Jandira não morre,/ (…) o corpo de Jandira/ Ressuscitará inda mais belo, mais ágil e transparente”. Um pouco como a Teresa, do Bandeira, em Libertinagem: na segunda vez que é vista, tinha os olhos mais velhos que o resto do corpo. E, na terceira vez, os céus se misturam com a terra.

    *
    Todas as coisas o poeta tira do seu arquivo, sua gaveta, sua “cachola”. Todo esse material é duro e concreto, pesado e real, palpável mesmo. Jandira era inteira, da cabeça aos pés. Os namorados viviam e morriam por um detalhe: a boca, uma pinta. Quando ressuscitar, seu corpo – que é feito de antenas, cabeleira e peixes – será ainda mais transparente. Essa é a palavra que fecha o poema. Chega a ser assombroso.

    *Alice Sant’Anna é autora de Rabo de baleia (2013)

  • Os contos de Cummings

    Muitos poetas deixaram contos ou poemas escritos especialmente para crianças. Poucos, como José Paulo Paes, deram prosseguimento a esta atividade. No caso de José Paulo, depois que descobriu o caminho, não parou mais. Mas Drummond, por exemplo, até onde saiba, escreveu apenas um conto. Uma história de um elefante, ou melhor, de dois. João Cabral de Melo Neto, por sua vez, não fez nada para ser publicado, mas depois de sua morte, acharam os poemas, muito lindos, por sinal, escritos para sua filha.

    É sempre um exercício, um desafio a mais, já que o poeta, com seu artifícios verbais, tem de abrir mão um tanto de suas invenções, para achar um caminho diferente e chegar direto ao ouvido da criança. Em 4 contos, que acaba de sair, encontramos quatro pequenas e belas fábulas criadas por e. e. cummings (era assim mesmo que ele grafava seu nome, em caixa baixa), um dos mais inventivos poetas da lírica moderna norte-americana. Edward Estlin Cummings nasceu em 1894, em Massachusetts, nos EUA, e morreu em 1962. Foi poeta, pintor, dramaturgo e conferencista. Dedicou sua vida ao mundo da literatura e das artes.

    Nos seus poemas mais incríveis, este poeta trabalhou num minucioso campo de exploração da linguagem, renovando a própria palavra a partir do seu entroncamento com outras palavras, criando uma poesia ao mesmo tempo verbal e visual. No Brasil, seus poemas foram traduzidos por Augusto de Campos. Mas, na arte do conto infantil, Cummings – certamente ditado pela oralidade – seguiu uma via mais direta, mas com grande graça e beleza, como se pode ler nestes contos, traduzidos por Claudio Alves Marcondes e com ilustrações de Guazzelli.

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    Essas quatro fábulas não foram escritas com o objetivo inicial de virar livro, mas nasceram da forma mais natural possível: foram feitas para a sua primeira e única filha, Nancy, nascida em 1924; e uma delas, até onde se sabe, talvez tenha sido criada para o neto de Cummings.

    Essa história familiar não é das mais tranquilas: Cummings havia se casado com a mãe de Nancy, em 1918. Alguns anos depois, eles se separaram. E Elaine Orr casou-se novamente e foi morar na Inglaterra. A distância afastou pai e filha, a tal ponto que apenas aos 28 anos, Nancy veio a saber quem, de fato, era o seu pai. E foi ele próprio quem lhe disse, durante uma sessão de pintura.

    Como conta George James Firmage, no posfácio dessa edição: “Nancy e seu pai finalmente se reencontraram em 1946, mas seria apenas em 1948, quando pintava o retrato dela em seu ateliê em Nova York, que Cummings de fato contou-lhe que era o seu pai. Esse evento foi importante por vários motivos, entre os quais por levar Cummings a escrever ‘O elefante e a borboleta’”. Para Firmage, nesta bela fábula, em que um elefante passa anos sozinho no alto de um morro, totalmente isolado do mundo, até que um dia uma borboleta se aproxima da casa e os dois se tornam grandes amigos e ternos amigos, selaria esse reencontro: Cummings seria o elefante, e a borboleta, seu neto, filho de Nancy. As outras três histórias, “O velho que só perguntava ‘Por quê’”, “A casa que comeu torta de mosquito” e “A menina chamada Eu” foram inventadas para a filha. E ficaram anos e anos guardadas. Só foram editadas em 1965, por sua última esposa, Marion Morehouse Cummings.

    Mas vamos aos enredos criados por este grande poeta, que sabia repotencializar palavras triviais, como solidão, pássaros, flores e estrelas, entre tantas outras. Palavras que, mesmo num conto mais tradicional, também surgem renovadas e frescas nestas quatro narrativas.

    A primeira delas, “O velho que só perguntava ‘Por quê’?” passa-se no espaço, na estrela mais distante de todas, onde morava um elfo bastante respeitado por todos os habitantes estelares. E coube a ele a tarefa de dar um jeito num velho que apareceu na lua e que estorvava todo mundo perguntando “por quê” o tempo inteiro. A única e malandra saída seria despachá-lo de volta à infância. No outro conto, “A casa que comeu torta de mosquito”, Cummings, de certa forma, cria uma variação do conto “O elefante e a borboleta”: em ambos, a distância espacial precisa ser quebrada para que o mundo do afeto e da amizade seja restaurado e possa fluir plenamente. Mesmo escritos em épocas diferentes – um para o neto e outro para a filha quando pequena –, eles cantam o encontro: entre um elefante e uma borboleta, ou entre uma casa isolada no alto do morro e um pássaro.

    Já em “A menina chamada Eu”, o poeta cria uma narrativa bem diferente: nela o narrador, que nos conta a história de uma menina e dialoga com o seu ouvinte (ou leitor, no caso do livro), num jogo de perguntas e respostas, sempre um tanto inusitadas. E a menina, chamada “Eu”, que também estava sozinha, querendo companhia para comer bolo e tomar chá, vai lançando convite aos bichos e as coisas, até encontrar com um incrível “Você”. Mais não conto, para não quebrar esse curioso espelho entre narração e audição e entre “Eu” e “Você”.

     

    *Heitor Ferraz é jornalista, professor da Faculdade Cásper Líbero (SP) e autor do livro de poemas Um a Menos

  • Rasuras

    Caderno de um ausente, de João Anzanello Carrascoza, é um livro pequeno e delicado. Trata-se de uma carta de um pai para a filha recém-nascida, escrita ao longo de seu primeiro ano de vida. Uma carta que visa dar uma amostra do mundo, da vida e de uma parte do todo pelo qual essa filha passará, antes e depois da ausência inevitável dele, pai. O projeto gráfico é bem peculiar, a começar pela capa (que é onde vamos terminar),

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    e segue adiante, texto adentro…

    88

     

    até o fim:

    55

    Quando comecei a trabalhar na edição eletrônica, sabia que não seria possível utilizar as mesmas cores do impresso, e que esse fato**, por si só, exigiria uma reform pensar no que poderia  substituir esses espaços em branco, que definem todo o projeto, em forma e conteúdo. Esses es  Os espaços brancos, . Segundo segundo a sinopse, “além de expressarem os vazios que a ausência já ocupa, são hesitações deste pai ao tentar escrever a educação sentimental para a filha”. Minha primeira impressão como leitor foi de que se tratavam de rasuras (o que vai de ao  de encontro com a hesitação). Conversei com a Isabel Coelho, diretora do núcleo infantojuvenil da Cosac Naify, que me explicou, pacientemente, que além disso, são respiros importantes para a leitura. Fato empiricamente constatado.

    Como se vê nas imagens, a cor de fundo das páginas destaca o branco dos espaços. Não dava para, simplesmente, mantê-los assim, porque, no digital, teríamos apenas o efeito de “caminho de rato”, uma vez que a ausência de cor no fundo não destacaria nada.

    [Até daria para conseguir alguns efeitos utilizando recursos avançados de CSS, mas se perderiam entre as não compatibilidades de cada aplicativo/dispositivo.]

    A saída foi usar algo que, geralmente, não recomendo: imagens. Porém, usar imagens pretas ou brancas, imitando o original, não funciona – nem esteticamente e nem como recurso de pausa. Elas se inverteriam quando o modo noturno fosse ativado.

    Pessoalmente, quando penso em hesitação, em dia, penso na tecla backspace, e também em um cursor indo e vindo pela tela. Cheguei a copiar efeitos de cursores, mas a ideia só parecia boa. Acabaria transformando uma carta – inserida em um caderno pessoal – em um texto de blog, interferindo de uma maneira arriscada no sentido da narrativa e seu efeito de imersão.

     

    2222

     

    Tentei algumas texturas baseadas em rasuras de caneta também…

     

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    Outra ideia que parecia boa no início… mas o resultado se mostrou excessivamente plástico.

    Enfim, a opção  escolhida foi o eficaz  “menos é mais”: uma tarja proporcional em altura à entrelinha usada no livro, com uma variação da largura, seguindo as dimensões usadas no impresso declaradas no código.

    Para tal, foram usadas apenas duas imagens:

    ssss

    A primeira para palavras avulsas e a segunda para linhas completas.

    rrrr

    dddd

    Mas por que duas imagens tão parecidas se a largura é definida por código? A diferença é que a segunda tem uma linha branca acima. Se eu usasse apenas a primeira, as linhas completas apareceriam em alguns dispositivos assim:

    ccc

    E se eu usasse apenas a segunda, teríamos entrelinhas variando a cada imagem de miolo.

    As mudanças, todavia, tornam o miolo dissonante do “invólucro”. Por isso, nada mais justo( sensato) do que mudar as cores da capa para esse “azul-caneta-bic”, a fim de garantir a coesão do conteúdo. Essa foi a última etapa da produção, pois só poderíamos pensá-la depois de fecharmos o miolo, uma vez que a capa dialoga indissociavelmente com todo o projeto, como visto na primeira imagem.

    vvvv

    Como disse no início, o Caderno de um ausente é um livro pequeno e delicado, mas está longe de ser um livro simples: representar ausências, seja gráfica ou metaforicamente, nunca é algo fácil de se fazer…

    * Antonio Hermida é coordenador de mídia digital da Cosac Naify.

    **Para quem estiver curioso sobre uma explicação técnica dos problemas de background, recomendo este link.

  • Sophia de Mello Breyner Andresen, a menina do mar

    Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu na cidade do Porto (Portugal), em 1919. Sua obra fecunda o imaginário de poetas e libertários. Particularmente o mar foi sua grande inspiração, ao lado de todas as coisas visíveis que ela enumerava e fazia caber, tanto em poemas como nos textos em prosa e teatro que escreveu.

    sofa

    Sophia, como poeta, nos ensina a olhar para as coisas do mundo como crianças curiosas, recém-acordadas para a vida que pulsa ao redor. Ávida de beleza e harmonia, reivindica um mundo de justiça e dignidade para homens e Natureza. Por isso, além de poeta, defendeu a liberdade dos que se opunham à opressão da Ditadura, dentro e fora de seu país.

    Em A Menina do Mar, a escritora projeta sobre as crianças de todas as idades o desejo de mergulhar definitivamente no Azul, de unir a terra e a água numa mesma pátria de alegria e fluidez. Ali, gaivotas e seres marinhos articulam o mágico encontro de um menino com a praia que o fascina, numa história que ensina o amor e a saudade como grandes afetos dos seres que veem, no mar, uma pátria sonhada.

    Escritora premiada, Sophia é hoje uma das grandes vozes da poesia do século XX. No ano de sua morte, em 2004, a cidade de Lisboa inaugurou um lindo Oceanário e lhe rendeu homenagem nos versos afixados nas paredes.

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    *Lilian Jacoto é professora de Literatura Portuguesa da USP, onde coordena o NELLPE (Núcleo de Estudos de Literaturas de Língua Portuguesa e Ética)

    **O texto acima é a nota bibliográfica do livro A Menina do Mar

     

  • Augusto Monterroso – Retrato de um cético alegre

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    Ele nasceu em Tegucigalpa, Honduras (1921) e, embora tenha morado na Bolívia, no Chile e sobretudo no México, onde passou boa parte de seu exílio forçado, foi um guatemalteco da gema.

    Essa incerta localização no mundo foi, no caso de Augusto Monterroso, análoga à ambígua condição de seus formidáveis livros. Porque sua obra literária – mundialmente célebre por sua fatal e aguda concisão – desfaz com elegância os limites entre o conto, a crônica, o ensaio, o diário pessoal e a biografia.

    Tímido até a teatralidade e de estatura muito baixa, Monterroso tomou para si a tarefa de lúcido comentarista do mundo a partir de uma zona indiscernível pela qual transitou sem ênfase, com um olhar irônico ou mordaz, atento às mínimas nuances das pessoas e das coisas.

    O mundo é, segundo ele, um lugar difícil, onde a justiça nem sempre se impõe, o bem e a razão não constituem valores absolutos, e o homem é uma criatura tragicômica, imbuída de uma animalidade geralmente omitida.

    Foram essa visão do humano e aquela preocupação moral que o aproximaram da fábula, gênero que Monterroso revisitou com uma originalidade infrequente: A ovelha negra e outras fábulas (1969, publicado em 2014 pela Cosac Naify) e Viaje al centro de la fábula (1978) são magníficas provas dessa afeição.

    Mas o rasgo que marcou a obra e a atitude de Monterroso a respeito das coisas foi o seu singular uso do humor. Ele não foi um humorista profissional – ainda menos um cômico – senão algo muito mais valioso: um homem dedicado a compreender o caráter absurdo da existência.

    E, no reverso do temperamento brincalhão da sua escrita, permanece intato o sabor agridoce da experiência. Por isso não é estranho que, em parceria com sua mulher, a escritora mexicana Bárbara Jacobs, Monterroso tenha compilado uma Antología del cuento triste (1992).

    De poucas palavras, que ele costumava espargir com uma voz fraca carregada de pudor e cortesia, Monterroso despertou a admiração de autores como Pablo Neruda, Julio Cortázar, Gabriel García Márquez ou Italo Calvino – que incluiu numa antologia, organizada por ele, o célebre conto de Monterroso “El dinosaurio”, considerado por muitos o mais breve e contundente exemplo do gênero: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”.

    Assimilado de pleno direito à vida cultural do México, seu país de adoção, Monterroso nem por isso deixou de se sentir guatemalteco, a ponto de ter tido um papel decisivo nas negociações entre o governo da Guatemala e a guerrilha revolucionária na década de 1990. Ele cumpriu essa tarefa com cuidadosa fidelidade às suas convicções políticas ligadas à esquerda democrática, as mesmas que o obrigaram a abandonar seu país.

    Em tom menor, quase em surdina, a obra de Monterroso dá conta de sua atitude frente à vida, uma sorte de alegre ceticismo, segundo a feliz definição do escritor mexicano Juan Villoro, um dos mais destacados alunos do célebre laboratório de escritura que Monterroso dirigiu durante anos.

    Autor de livros imprescindíveis e perfeitos como Obras completas (y otros cuentos) (1959), Movimiento perpetuo (1972), La palabra mágica (1983) e La letra e (1987), Monterroso publicou também uma espécie de autobiografia e de declaração de amor à pátria em Los buscadores de oro (1993), livro que tive o prazer de editar na Argentina.

    E, dado que meu impudor instaurou a tirania da primeira pessoa, vou me permitir compartilhar com os leitores a seguinte pérola.

    Tive ocasião de entrevistar esse rei da brevidade no último dia de uma efêmera estada sua em Buenos Aires, em meados dos anos 1990. Mas, por causa dum acidente doméstico, cheguei ao hotel onde Monterroso se hospedava com uma hora de atraso. Envergonhado e ofegante, me encontrei de repente no meio do lobby com um homem cujos gestos quase aristocráticos dissimulavam sua baixa estatura. “Saavedra?”, perguntou-me secamente. “Sim”, consegui responder apenas. “Gosto muito da brevidade, sabe?”, completou, com rosto sério. “Por isso lhe agradeço por ter me ajudado a fazer a entrevista mais breve da História… porque já acabou! Boa tarde!”, e sem mais nem menos deu meia-volta e afastou-se a passos curtos e apressados. Mas logo voltou, me oferecendo um sorriso cúmplice: “Por favor, me desculpe, não pude evitar a tentação de fazer essa piada…”.

    Não houve tempo para uma entrevista longa, mas foi suficiente para confirmar a fineza da sua fala, um orvalho de ideias que caíam miúdas iluminando a última hora daquela tarde de inverno.

    Em 7 de fevereiro de 2003 uma parada cardíaca fez o coração de Monterroso deixar de bater. Mas sua obra deliciosa continua a ampliar as fronteiras da imaginação de seus numerosos e agradecidos leitores.

     

    *Guillermo Saavedra (Bue­nos Ai­res, 1960) é poeta, editor, tradutor e crítico de literatura e teatro. Autor de Caracol (1989), Tentativas sobre Cage (1995), El velador (1998), La voz inútil (2003) e Del tomate (2009). Atualmente, é diretor da revista de cultura Las ranas 

  • Texto ruim

    (Na rabeira do meu último post, venho aqui contar um segredo.)

    Outro dia escrevi um texto tão ruim que se fosse um bolo tinha ficado embatumado. Ele pretendia falar das dificuldades de escapar de uma situação cabeluda.

    Falava sobre o suplício de um humorista suicida, sobre ser passivo com o tapa, com o cuspe na cara, com a história pessoal. Descrevia a invasão da macaca Monga, que fugiu do circo de madrugada e tomou meu rosto no espelho embaçado do banheirinho. Aconselhava o leitor a calar-se como fazem os peixes desde que existem no planeta. Discorria sobre o malabarismo de costurar a minha boca com meus pés. Sugeria adentrar o corpo numa caverna escura que guarda um urso e depois ele mesmo, o texto, adentrava no corpo do urso. Confessava que eu me sentia tragada pelo cinema. Afirmava que o mais inteligente a fazer é calar-se como os peixes de antanho e sempre e chorar seco. Até que.

    Até que o texto dava uma cambalhota capenga. Dessas que caem de lado. E recebia um facho de luz empoeirado escapando da veneziana.

    Assumia que então eu entendia o ciclo das coisas – como se a vida fosse uma pragmática lava-roupas. Contava que eu havia me deparado com a minha sobrinha crescida. E que ela havia me abraçado, pela primeira vez, de uma altura maior que a minha. Narrava os fios brancos que irradiavam detrás da orelha do meu melhor amigo. Brincava com o jeito de falar antigo dos personagens de uma telenovela. Noticiava uma história debulhada, via chamada de longa distância, no meio da tarde. Detalhava o sabor de uma empanada. Versava sobre um raminho de tostão que obstinado venceu as baixas de temperatura do meu quintal. Tentava esvaziar e encher a cabeça como um desenho triste do Leonilson. Brincava com a chispa de loucura que, findo o dia, senti ao perceber que o meu blusão de lã estava vestido do avesso.

    Emaranhado e do avesso também ficou esse texto.

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    *Natércia Pontes é autora de Copacabana Dreams

  • O verão de Sergio Rodrigues

    Passeando pela cozinha, um pouco desconfortável com a presença da câmera, Sergio Rodrigues se detém em frente ao pequeno espelho horizontal colocado logo acima da pia: “Gosto disso aqui. Você está lavando louça e tem alguém te ajudando”, diz, e vemos o reflexo de suas mãos se movimentando embaixo da torneira. Essa cena – que foi ao ar tempos atrás, num episódio da série Casa Brasileira, do GNT – talvez explique o que a arquitetura e o design de móveis representavam para ele: um apoio confortável para a vida se desenrolar, algo que tem a ver com identificação, companheirismo até.

    Não sei se foi o Sergio que começou com essa mania que alguns designers de móveis têm de batizar suas criações em homenagem a amigos ou familiares, mas ele me explicava como a poltrona leve Kilin (1973) tinha esse nome por causa da esposa Vera, sua Esquilinho, “Esquilin”, que acabou virando Kilin. Ou a Vronka (1962), uma poltrona com uma curva ousada, condizente com a inquietude da sua filha Veronica. Outras criações revelam suas influências e origens profissionais: a cadeira Lucio (1956), que dedicou ao amigo Costa, e a poltrona leve Oscar (1956), que Niemeyer dizia ser a única em que poderia passar horas sentado em frente à prancheta. Mas sua obra-prima talvez seja a poltrona que não tem nome de ninguém: a Mole (1957). Nunca perguntei a origem exata, mas imagino que tenha a ver com o fato de você poder ficar confortável nela, “tirando uma moleza”, como se diz, ou porque as partes acolchoadas se dobram, moles, sobre a estrutura de madeira. Há duas fotos dela que Sergio adorava: uma em que um cachorro se esparrama pela poltrona, e outra em que a atriz Kim Novak não resiste e põe as pernas em cima do braço do móvel.

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    O próprio Lucio Costa registrou a importância do designer, em 1991: “Sergio Rodrigues, com a criação da OCA, integrou a ambientação de interior no movimento de renovação de nossa arquitetura”. A OCA era sua antiga loja-galeria de móveis. O que interessava a Lucio era como Sergio operava nos interiores, através do mobiliário, a mesma inovação que ele próprio buscava na arquitetura. De certo modo, algo da conjugação existente em Lucio, entre o moderno e a tradição brasileira, ressoa em Sergio Rodrigues. Na arquitetura e no design, Sergio é ao mesmo tempo modernista e barroco. Alberto Moravia identificou algo semelhante em Brasília (“Ao barroco delirante das igrejas coloniais corresponde de fato, no sentido psicológico, o gigantismo não menos exaltado de Brasília”, escreveu em 1960), mas a arquitetura de Sergio não é nada monumental, como a capital brasileira, nem seus móveis impressionam pelo gigantismo. Muito pelo contrário: há neles um forte intimismo. Sergio é barroco nos detalhes, na atmosfera.

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    Dizem que Sergio inaugurou o modernismo no mobiliário brasileiro, ao preencher com seus móveis os salões dos palácios de Brasília. Eu diria que ele fez mais: ajudou a inaugurar o verão dos móveis modernistas, em âmbito mundial. Digo verão, pois a frieza de uma poltrona Barcelona de Mies van der Rohe, por exemplo, passa longe de seu espírito inventivo. Verão também pela quentura de seus interiores coloridos; de suas estruturas pré-fabricadas em madeira – a “arquitetura sem lugar” que, em sua formulação belamente contraditória, é enraizada nas peculiaridades de cada morador. Verão da luz solar do Rio de Janeiro que invadia seu escritório-showroom na rua Conde de Irajá, em Botafogo, onde estagiei por nove meses durante a faculdade – foi em seu verão (tomando emprestada a expressão do escritor J. M. Coetzee) que o conheci: no escritório, quem tocava os projetos de arquitetura era a Veronica, mas em seus oitenta anos ele estava todos os dias lá, dando pitacos, revisitando um móvel antigo que voltaria a fabricar, tendo ideias novas ou aprimorando algo, respondendo a entrevistas, convidando para o almoço.

    Verão é a estação mais generosa para os corpos, a que os deixa mais à vontade e livre de roupas, generosidade que remete à do próprio Sergio. Agora, nesse inverno estranho, ele faleceu, aos 86 anos. Alguns devem achar que o dono do melhor bigode de todos, aquele que sempre estava de boina, era um grande personagem e só. Mas ele era mais que isso: alguém genial, com um espírito imenso, humano demais, e que certamente vai fazer muita falta em seu meio, onde, digamos, a frieza do concreto costuma predominar.

    * Miguel Del Castillo é escritor, tradutor e editor de arquitetura e fotografia na Cosac Naify.