BLOG DA COSAC NAIFY

Cosac Naify Blog » 2010 » julho » 15

A- A+ Tamanho do texto:
  • Produção gráfica: arte e ofício

    Por Aline Valli*
    Quinta-feira, 15 julho, 2010, às 16:30

    Ao visitar uma livraria é fácil perceber como as publicações de livros voltados para o público adulto se apresentam sob padrões não muito variados. Poucas fogem aos formatos facilmente reconhecidos, que incluem, por exemplo, o “ótimo aproveitamento de papel”, o uso de miolos em papéis off-white ou amarelos, capas brochura, impressão em preto e branco.

    Claro, muitas vezes o custo de produção de algo mais elaborado é o grande inimigo de projetos diferenciados e a opção pela padronização acaba sendo o único caminho viável.

    No setor dos livros infantojuvenis, para a sorte das crianças, a realidade não é a mesma: há uma grande multiplicidade de recursos interessantes, como pop-ups, facas especiais, substratos diferenciados, acabamentos mais elaborados e cores, muitas cores.

    Mas também há espaço para ousadia na categoria “adultos”, e muitas editoras, com o objetivo de seduzir os leitores, apostam em projetos gráficos inovadores, procurando criar recursos gráficos surpreendentes que dialogam com o texto, aumentam o valor percebido do produto e os deixam irresistíveis.

    Ousar na produção gráfica não torna necessariamente o projeto do livro mais caro e os recursos gráficos aplicados não exigem, em todos os casos, grandes requintes técnicos por parte das gráficas. O segredo está em fazer uso dos recursos existentes de uma forma nada convencional.

    Na Cosac Naify, um dos exemplos mais felizes é Flores, do mexicano Mario Bellatin. Formada por narrativas curtas, a obra tem entre os personagens centrais um cientista que descobre um fármaco causador de deformações físicas. As características literárias foram transferidas para o projeto gráfico: o livro não tem capa – por isso a espinha onde os cadernos são costurados fica aparente – e vem dentro de um saco plástico, como se fosse um teste de laboratório. O que seria a orelha do livro foi encartada neste recipiente, solta, como se estivesse mutilada. Suas páginas foram impressas com duas cores: o texto em preto e um pantone verde claro, que lembra o ambiente hospitalar.


    Flores | Cosac Naify



    Zazie no metrô é outro caso em que o projeto mimetiza graficamente as peculiaridades do texto. No romance, Raymond Queneau narra as andanças da desbocada Zazie pela Paris dos anos 50. O sonho da menina é andar de metrô, mas justamente no dia em que ela está prestes a realizá-lo, uma greve do transporte a impede de fazer o passeio subterrâneo. O projeto de design e a produção gráfica utilizam páginas duplas, cujo meio traz reproduções de cartazes franceses da época, impressos a partir do sistema chamado Íris, que aqui mesclou as cores azul e vermelha na mesma unidade de impressão. A proposta é causar um efeito de representação de fragmentos urbanos, criando assim, de forma quase literal, um pano de fundo para a narrativa. O miolo, ou seja, a parte interna do livro, leva papel bíblia, o que faz com que os cartazes sejam levemente vistos através da transparência do papel.


    Zazie no metrô | Cosac Naify

    Zazie no metrô | Cosac Naify



    Bartleby, o escrivão, de Herman Melville, traz para o seu projeto gráfico toda a negatividade do personagem central, um copista que trabalha num escritório em Wall Street e que responde “acho melhor não” para todos os pedidos de seu patrão. Utilizamos a costura tipo Singer, tanto na encadernação das páginas quanto na abertura do livro. Portanto, antes de encarar o texto, o primeiro desafio do leitor é descosturá-lo para chegar ao seu interior. Ao se deparar com o miolo, o leitor encontra páginas duplas, onde estão impressas imagens de um muro de concreto que atravessam o volume do início ao fim. O segundo desafio é rasgar todas as páginas com uma régua de plástico que acompanha a edição, para finalmente se chegar ao enredo. Para facilitar a abertura, o livro foi impresso em papel de baixa gramatura (offset 56 g/m2) e na capa, impressa em serigrafia, foi utilizado um material do tipo junta mecânica, usado na vedação de motores de carros.


    Bartleby, o escrivão | Cosac Naify

    Bartleby, o escrivão | Cosac Naify



    Estes projetos são alguns exemplos que ilustram a fuga da padronização e nos fazem um convite para buscarmos inovações de forma criativa – e sem nos perdermos em meio a altos orçamentos.


    *Aline Valli é produtora gráfica da Cosac Naify

POSTS RECENTES



COSAC NAIFY NO TWITTER

Página 1 de 1          1