O imperador vestidamente nu

Meu primeiro desenho de roupa, registrado na memória, foi inspirado em um conto do dinamarquês Hans Christian Andersen. Era 1974, no primeiro ano do grupo escolar. Depois de assistirmos uma projeção de slide do Patinho Feio, a professora pediu que cada aluno ilustrasse uma parte da história. Desenhei um pato de smooking, cartola, sapatos e óculos, provocando surpresa geral. De onde eu tinha tirado aquilo? Respondi: O pato cresceu, virou dono do seu bico e ganhou uma roupa nova e assim ficou lindo! Este foi também meu primeiro contato com a obra genial de Andersen, que deixou um legado de mais de 150 produções. A atemporalidade e mensagens subliminares são matéria fina de seus romances, contos para adultos e crianças, e literatura de viagem.

A Cosac Naify lança com nova roupagem, provavelmente a obra síntese de Andersen, A nova roupa do Imperador, escrita em 1830. Extremamente atual, aqui o autor fala da busca desenfreada pelo novo, pela última moda, a embriaguez provocada pelas superficialidades, a cegueira coletiva do “ter” o que ninguém mais tem. Buracos e tropeços da raça humana inerentes a tempo e lugar. A ironia do autor aqui ilustra muito bem a incapacidade de ver e de enfrentar a vida real de toda uma sociedade.

 

 

No conto, um imperador de determinado reino, enlouquecido por roupas, gastava toda fortuna do reino em tudo que fosse a “última moda”. Certa vez, enganado por dois trapaceiros, paga muito dinheiro por uma roupa especial e exclusiva, feita pelos falsos tecelões. A roupa tinha uma qualidade ímpar: somente as pessoas especiais e inteligentes poderiam vê-la. Assim, toda a corte se curvou diante da nova roupa do Imperador. Esta é uma história sobre um pacto de enxergar não vendo e vendo sem enxergar. E como todos têm medo da opinião do outro, deixam  de enxergar o óbvio. Nos nossos dias a roupa do Imperador continua desfilando garbosamente no universo político, religioso e midiático.

Mas sempre permanecerá uma dúvida: Se o Imperador foi detalhadamente vestido pela cegueira do outro, ele está ou não está nu?

 

*Ronaldo Fraga é estilista. Parte de suas criações está reunida no livro
Ronaldo Fraga, da Coleção Moda Brasileira.

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