As prosas do mundo

No ensaio A prosa do mundo, de Merleau-Ponty, há uma certa passagem em que ele aponta para o que me parece ser o grande enigma da literatura. Falando sobre a leitura de um livro de Stendhal, diz ele que o momento-chave da leitura é aquele em que deixamos de entender as palavras e ideias do livro a partir do nosso mundo para, enfim, entende-las sob um novo sentido, aquele que o autor estaria tentando construir com a sua obra. Ora, o que temos aqui senão uma versão mais refinada da ideia de Sartre de que “cada romance tem a sua metafísica”? Ou, se quisermos um escritor que não tenha arriscado muito pelo campo teórico, e talvez por isso seja até mais confiável, fiquemos com Raymond Carver, que diz que cada autor ao escrever cria o seu próprio mundo, como o mundo de Faulkner, o mundo de Tolstói, o mundo de Vila-Matas.

O que não quer dizer, porém, que esse mundo seja meramente um mundo possível, um mundo imaginário. Esse mundo de que se fala é o meu, o seu e uma das chaves para começar a compreender esse enigma, esse “passar para o outro lado” – e não falo aqui de uma elucidação completa, já que se aproximar dessa elucidação por completo só me parece possível na própria experiência de leitura –, aparenta estar na mesma expressão que tanto dá título para o ensaio de Merleau-Ponty quanto para a coleção da Cosac Naify: Prosa do Mundo.

Quando se diz prosa do mundo, uma das leituras que podemos fazer dessa expressão que vem de Hegel é que o mundo, o real, a vida, não está simplesmente disponível aí, visível a todos. É preciso que ele seja construído, formado – ou seja, ganhe forma e sentido, para que deixe de ser invisível. Essa forma pode ser uma das mais “simples e óbvias”, como senso comum, de cuja artificialidade Nabokov brilhantemente denuncia, às mais complexas, como as ciências e as artes.

Dito isso, cada uma dessas “metafísicas”, dessas prosas do mundo que encontramos nos livros, cada um desses universos, do realismo de Flaubert ao surrealismo de Breton, não passam de maneiras diversas de ler o mundo, de interpretá-lo, valorá-lo e selecionar um pequeno recorte dele – o que não indica necessariamente um ato consciente, apenas diz respeito à inesgotabilidade da vida. Ler é então ir em direção a essas prosas do mundo, é sair do mundo para entrar nele de novo, é se lembrar daquilo que nunca houve.

E eu poderia continuar falando, falando e falando, mas não chegaria mais perto daquilo que importa aqui: o grande enigma da literatura. Pois não importa o quanto já se leu, a experiência dos mistérios da vida será sempre renovada na (boa) leitura. Não importa, vamos até os recantos mais distantes, uma pacata cidade húngara no início do século XX, uma cidade verdadeiramente “de outro mundo”, como é o mundo que o Gyula Krúdy constrói, distantes de nós até dizer chega, mas que ainda assim são capazes de nos dar ou mostrar uma experiência que talvez por alguns segundos nos deixe dizer: sim, é isso! (ou que nos faça soltar algum palavrão qualquer).

*Rafael Saldanha é mestrando em filosofia na UFRJ.

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A partir de hoje, até 30/5, as publicações neste Blog, às quartas-feiras, estão reservadas para um grupo especial de colaboradores, formado pelos vencedores do concurso cultural Dez mil fãs. São dez posts inéditos de nossos leitores, alguns mais criativos, outros mais informativos – mas sempre bem escritos -, com temas que contemplam todas as áreas de nosso catálogo. Este é o primeiro texto desta série.

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O livro A prosa do mundo, de Merleau-Ponty, encontra-se esgotado. No entanto, o título ganhará uma nova edição ainda em 2012.

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