
Dois livros publicados em 2000, um de Joseph Heller, outro de Enrique Vila-Matas, mantêm um diálogo inusitado sobre as possibilidades da literatura contemporânea. O primeiro se chama Retrato do artista quando velho, romance sobre “a literatura do desespero”. O segundo é Bartebly e companhia, reflexão sobre a “pulsão negativa” da escrita. Do desespero do septuagenário escritor de Heller para os ágrafos de Vila-Matas é um pulo.
Publicado postumamente, Retrato do artista quando velho narra as tentativas de Eugene Pota em escrever o que pode ser seu último livro. Ele se debate com tentativas frustradas de trazer para a contemporaneidade as narrativas bíblicas e mitológicas, além de sátiras e paródias de Twain, Kafka e Dostoiévski. Há também a investida em uma “biografia sexual da minha mulher”. Pota revisita seus casos amorosos em busca de uma conexão que lhe permita criar uma obra original.
É um romance autoconsciente, que expõe seu funcionamento e sua estrutura ao leitor a cada capítulo. Diz respeito ao desejo: o desejo de escrever um romance e o desejo sexual de um velho, ambos continuamente malogrados. Daí o desespero. O lugar para onde o escritor se volta em busca de abrigo e solução é justamente a literatura.
Pota fica obcecado pelos últimos anos da vida de seus escritores favoritos, procura neles uma saída para a falência de “sua força e recursos criativos da imaginação”. No primeiro terço, o desalentado romancista pergunta a seu editor: “Paul, será que não podemos publicar apenas páginas em branco?”. Na conferência chamada “A literatura do desespero”, Pota cita Bartebly para negá-lo, negligenciando uma relação que se torna central para Vila-Matas.
Bartebly e companhia é outro livro cujo tema é o próprio livro. Não há mundo, apenas literatura. O narrador é um corcunda que compõe notas de rodapé a um texto inexistente. Os habitantes do Labirinto do Não abandonaram a escrita, como Rimbaud, Hofmannsthal e Musil. Aqui, a impossibilidade de escrever é investigada não somente como fim de um processo ou de uma existência, mas se converte em “prognóstico grave sumamente estimulante da literatura deste fim de milênio”.
O protagonista de Heller ainda quer comunicar uma experiência genuína, ao passo que o protagonista de Vila-Matas abdica do mundo, é uma máquina celibatária: não tem esposa, os parentes morreram, trabalha solitário. O que para Pota é angústia, para o Bartebly corcunda é o ponto de partida para meditar sobre o futuro da escrita. À vontade de integração daquele, que deseja compor uma obra-prima e vender os direitos ao cinema, contrapõe-se a rebeldia e a negatividade deste, que celebra a renúncia à sociedade e à escrita.
Se Heller resolveu seu problema escrevendo um romance que brinca com o próprio romance, Vila-Matas foi além, ao continuar vivo e elaborar uma teoria que originou outras obras a partir da Síndrome de Bartebly.
*Um dos dez vencedores do concurso Dez Mil Fãs, Gabriel Innocentini é jornalista e mestrando em Estudos de Literatura na UFSCar.


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