Stephen Joyce, neto do grande escritor irlandês James Joyce, para quem a história de O gato e o Diabo foi escrita originalmente, conta nesta carta a experiência de ter sido o primeiro leitor dessa primorosa história.
Queridos Leitores,
Venho me apresentar a vocês.
Sou o “Stevie”, para quem esta carta foi enviada, e para quem esta história encantadora foi escrita há mais de 50 anos por seu “Nonno”, que, em italiano, quer dizer avô. Eu tinha quatro anos naquela ocasião. Isso quer dizer que, hoje, com os cabelos e barba brancos que tenho, eu podia ser avô de muitos que vão ler esta história.
A história acontece numa pequena cidade às margens do rio mais longo da França, e conta não só como é que uma estupenda ponte foi construída numa única noite mas, também, a estranha negociação entre um Prefeito esperto, pomposo, dono de uma maneira de dormir peculiar, e um Diabo inofensivo, que, além de viver lendo tudo o que é jornal, se mostra um carinhoso amigo dos animais. E, claro, a história conta mais coisas também…
Nonno foi um escritor famoso. Mas muitos consideram complexos e difíceis os livros que ele escreveu. Tanto naquela época como hoje em dia. No entanto, ele encontrou tempo para me escrever esta bela história numa linguagem simples e direta, uma linguagem que qualquer menino (ou menina) de quatro anos entende. Na hora de escrever a história, Nonno se deu até ao trabalho de procurar um papel de carta especial para crianças. O original, que, milagrosamente, sobreviveu intacto à passagem dos anos, é meu tesouro mais precioso.
Existem coisas bem estranhas nesta história da ponte sobre o rio Loire. Por exemplo: por que o Prefeito de uma cidadezinha francesa tem um nome irlandês, que, ainda por cima, é o nome de um dos ex-prefeitos de Dublin? E por que o Diabo, quando fica zangado, fala um francês ruim com forte sotaque dublinense?
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Você vai encontrar resposta para estas perguntas quando crescer e ler Dublinenses, Retrato do artista quando jovem e Ulysses. Estes três livros, que tornaram o Nonno famoso, têm tudo a ver com Dublin, hoje capital da Irlanda.
Nonno nasceu e foi criado em Dublin. Ele amava a Irlanda, mas discordava profundamente da Igreja e do Estado, então abandonou o país quando tinha 22 anos. Nos trinta e sete anos que se seguiram ele só voltou à Irlanda duas vezes e, assim mesmo, para visitas curtinhas. Ele e a Nonna, minha avó, eram considerados exilados.
Sei que vocês vão gostar desta história e voltar mais vezes a ela, como eu fiz e ainda faço. E vão, quem sabe?, visitar Beaugency, ver com os próprios olhos a famosa ponte do rio Loire e sonhar…
Um dia, quando forem grandes, vão se lembrar do amigo James Joyce, que contou esta história para vocês, e vão querer ler os outros livros que ele escreveu – pelo menos, é o que eu espero.
Meus melhores votos para todos.
Stephen J. Joyce
PS: Nonno me contou outras histórias, especialmente durante seu último ano de vida. Contava de manhã. Eu me sentava ao lado da cama dele e ele ia contando uma porção de viagens, provações e sofrimentos do Ulisses, um herói da Grécia antiga. E contava sempre naquela linguagem simples e direta, que eu, então com oito anos, entendia tão bem. Nunca tivemos nenhuma dificuldade de nos entender, o Nonno e eu.
Tradução de Lygia Bojunga



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