
Um escritor de meia-idade é convidado para um congresso literário sobre o fracasso, a ser realizado na universidade suíça de St. Gallen. Precisamente na região de Appenzell, onde Robert Walser, depois de passar seus últimos anos no manicômio, morreu na neve – a geografia a que Enrique Vila-Matas nos conduziu em Doutor Pasavento.
Chegando ao evento, o escritor assiste à apresentação do jovem Vilnius Lancastre, publicitário fracassado e cineasta de um único curta-metragem, filho do recém-falecido escritor espanhol Juan Lancastre, e então tudo começa a desabar.
Vilnius é a voz deslocada que dá o tom do romance, e sua semelhança física com um célebre cantor norte-americano dá o título deste Ar de Dylan.
O narrador – esse escritor-observador que sempre aparece nos livros de Vila-Matas – acompanha o relato de Vilnius no congresso em St. Gallen e, semanas depois, o reencontra em Barcelona. Desde a morte do pai, o jovem Vilnius vem sendo assombrado por uma memória alheia que lhe invade os pensamentos – como Hamlet, ele é vigiado de perto por um fantasma. Com esse movimento, Vila-Matas mescla uma série de elementos que, até então, raramente apareciam juntos: o cruzamento de identidades, a reflexão metaficcional, a maestria no manejo das camadas narrativas e, especialmente, seu uso particular das “sociedades secretas”.
No início do sétimo capítulo, Vila-Matas dá a imagem que condensa a ambição de seu novo projeto. Fala do cineasta François Truffaut e do gênero que este batizou como les grands films malades – ou seja, “grandes filmes doentes”, aqueles que, do alto de seus inconcebíveis excessos, tornam-se, não obstante, “misteriosamente apaixonantes”. Um escritor comprometido com esse procedimento só poderia produzir obras “que não chegariam a ser”, que nasceriam “já muito doentes”, mostrando, já desde o início, seu caráter secundário, parasitário e imprevisto. E a literatura de Vila-Matas não é justamente sobre o excesso, sobre a doença, sobre a obsessão, sobre a incapacidade de pensar em qualquer outra coisa que não a literatura?
Ao ligar Duchamp a Bob Dylan, Vila-Matas liga suas preocupações modernistas com seus projetos mais recentes de refletir sobre o presente
Depois da “conjura portátil” de História abreviada da literatura portátil, depois da “síndrome do Não” (Bartleby e companhia), depois da seita dos doentes pela literatura, aqueles que não conseguem pensar em outra coisa e que falam sempre por citações – como visto em O mal de Montano –, agora Vila-Matas cria a sociedade secreta dos “infraleves”, dos “Oblomov”, “equilibrados no nada” e contagiados pelo “vazio geral”, lá onde se diz que “toda glória é nada”.
A sociedade secreta dos infraleves, criada pelo jovem Vilnius, postula a errância e o nomadismo das ideias. Nesse aspecto, é um evidente retorno a Marcel Duchamp, que, com sua caixa-maleta e suas miniaturas, foi a fonte principal para a criação de História abreviada da literatura portátil. Mas a apropriação duchampiana em Ar de Dylan é, ao mesmo tempo, mais sutil e mais ampla: o título do romance, além de indicar a semelhança de Vilnius com Bob Dylan, associa-se diretamente com o Ar de Paris, obra criada por Duchamp em 1919 – que consistia em uma ampola de vidro recheada com o ar de Paris e, em seguida, enviada para seus amigos em Nova York.
Ar de Dylan, portanto, consegue aliar, em seu denso encadeamento de ideias e narrativas sobrepostas, Bob Dylan e Marcel Duchamp. O primeiro, além de retornar rejuvenescido no rosto de Vilnius Lancastre, funciona como uma imagem do artista inquieto, que Vila-Matas valoriza e nomina como aquele que nunca se repete, como aquele que, a cada projeto, renova seus procedimentos, renova suas máscaras, tornando-se cada vez mais distante daquilo que outrora foi. Nessa perspectiva, Ar de Dylan é uma condensação de dois percursos distintos na obra de Vila-Matas: ao ligar Duchamp a Bob Dylan, Vila-Matas liga suas preocupações modernistas – cujo principal representante é História abreviada da literatura portátil – com seus projetos mais recentes de refletir sobre o presente, como vemos em Dublinesca e O mal de Montano, por exemplo.
Vilnius acalenta um projeto que jamais irá finalizar, o Arquivo Geral do Fracasso. Seu esforço deve fracassar para que seu empreendimento tenha, paradoxalmente, sucesso. Como Vila-Matas vem fazendo nas últimas décadas, o jovem Vilnius passa pelo mundo coletando, montando e remontando as histórias, imagens, vidas e escrituras que encontra pelo caminho. A conjura portátil da História abreviada é dissolvida pelo satanista Aleister Crowley diante de um abismo – e a imagem do abismo retorna no encerramento de O mal de Montano e, posteriormente, em Exploradores do abismo, seu livro de contos de 2007. A cena final de Ar de Dylan é análoga: cinzas são espalhadas no vento, “infraleves”, levadas pelo ar, esse ar “que é a matéria de que somos feitos”, como escreve Vila-Matas, que representa a dissolução, o vazio e a dispersão, mas também, e principalmente, o compromisso de seguir adiante.
* Kelvin Falcão Klein é crítico, autor de Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas (Ed. Modelo de Nuvem, 2011). Escreve em http://falcaoklein.blogspot.com.br


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