A morfologia surrealista e amorosa de Maria e Duchamp

O impossivel lll (1946), obra de Maria Martins. Acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York - MoMA. Foto: Vicente de Mello

O impossivel lll (1946), obra de Maria Martins. Acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York - MoMA. Foto: Vicente de Mello



Quando conheceu as esculturas da brasileira Maria Martins (1894-1973) na mostra Amazonia, em 1943, em Nova York, André Breton disse: “Maria conseguiu de modo maravilhoso capturar em sua fonte primitiva não apenas a angústia, a tentação e a febre, mas também a aurora, a felicidade, a calma, e mesmo às vezes o puro deleite”. Foi graças a Breton que ela passou a frequentar o círculo de surrealistas europeus que se refugiaram em Nova York durante a Segunda Guerra. Entre eles, Marcel Duchamp, “o único de sua geração que não está disposto a envelhecer”. No final da década de 40, Maria era considerada uma das mais importantes escultoras surrealistas daquela época e a aproximação ao artista francês deixou marcas profundas na obra de um e de outro. Segundo Charles Cosac, organizador de Marialivro sobre o qual já falamos neste blog –, a verdade é que Duchamp foi quem sofreu ainda mais o impacto da convivência amorosa com a artista.

Entre 1944 e 1949, mesmo período em que se relacionava com Duchamp, Maria concluiu versões de uma grande escultura que se tornou sua obra mais conhecida, L’Impossible III [O impossível], na qual uma figura masculina e outra feminina travam um confronto que parece eterno, estabelecendo uma forte polaridade sexual. “É impossível fazer com que as pessoas se entendam”, disse Maria a um repórter da revista Time ao comentar a obra. “A arte é a resistência do mundo, e no final a vitória será nossa”, concluiu na mesma reportagem. A declaração – que revela a postura adotada por toda sua vida de artista – vai diretamente ao encontro das ideias adotadas por Duchamp.

Em 1946, Duchamp começa os trabalhos para Étant donnés [Dados], instalação de grandes proporções que teve Maria como modelo e elemento central. Dedicou-se à obra por vinte anos, tempo em que não a mostrou a ninguém a não ser a ela. Étant donnés só foi exposta após a morte do autor, em 1968. Em cartas a Maria, Duchamp revela pensamentos sobre sua obra e sentimentos que, segundo o biógrafo Calvin Tomkins, ele não revelaria a outra. Junto com uma das cartas, em 1949, enviou à musa o molde de argila feito com gesso sobre o qual trabalhava oito horas por dia, em busca do aspecto da pele feminina.

Por esta e outras passagens, é possível confirmar que, para além da posição de embaixatriz, esposa de Carlos Martins, ou amante de Duchamp, Maria foi uma artista original, de poética própria, e capaz de chegar ao núcleo de questões da arte. Foi uma artista sintonizada com o que mais havia de contemporâneo em sua época. Maria, o mais completo levantamento de obras e textos sobre a escultora brasileira (ainda pouco reconhecida no país), comprova a tese.

Com textos de Francis M. Naumann, Dawn Ades, José Resende e Veronica Stigger, a edição traz ensaio fotográfico do carioca Vicente de Mello, que percorreu cidades no Brasil e no exterior em busca das peças da artista. Chega às livrarias em duas versões: em volume único e em edição de colecionador.

Cosac e Vicente estarão presentes nos eventos de lançamento de Maria, ao lado do crítico Paulo Venancio filho, autor do prefácio à edição brasileira da biografia de Duchamp, e da historiadora de arte Dawn Ades, diretora da da University of Essex Collection of Latin American Art (UECLAA). Confira a programação aqui. Estão todos convidados!

  • 3 comentários para A morfologia surrealista e amorosa de Maria e Duchamp

    1. Ana Klein disse:

      Li a reportagem no fim de semana e descobri essa artista extraordinária! Curiosíssima com o livro, eu já tinha visto as esculturas em Brasília, mas sabia muito pouco sobre a grande Maria Martins!

    2. Cosac Naify Blog » Maria veste a Cultura

    3. Encuentros Quemando con Surreal Encanto – The Getty Iris

    Deixe um Comentário

    Seu endereço de e-mail não será publicado.

    * Copy This Password *

    * Type Or Paste Password Here *

    Você pode usar as seguintes tags HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>