Por Cosac Naify
Segunda-feira, 9 novembro, 2009, Ã s 16:43
Hoje, dia em que se comemoram os 20 anos da queda do muro de Berlim, vale a pena ler a entrevista com o autor alemão Ingo Schulze (1962-), uma das mais originais vozes da literatura contemporânea do paÃs, concedida a DW-WORLD.DE.
Seu romance Vidas novas (2005) será lançado ainda neste ano pela Cosac Naify, com a presença do autor. Na obra – que terá um trecho adiantado por este blog -, Schulze cria um jogo literário de ficção e realidade para traçar um extraordinário painel da época da reunificação alemã. Histórias Simples da Alemanha Oriental (1998), outra obra sobre o perÃodo, foi considerada por crÃticos um dos mais importantes livros sobre a reunificação.
Schulze também é autor do livro de contos Celular – 13 histórias à maneira antiga (Cosac Naify, 2008), em que parte de histórias prosaicas para tratar dos dilemas contemporâneos e das mudanças no panorama polÃtico e cultural da Europa depois da queda do muro .

Nos cadernos de cultura dos jornais alemães, recordar a RDA é novamente um grande tema. O jornal Die Zeit escreveu: “Os alemães não conseguem recordar. Mente-se, cala-se ou briga-se.” Concorda com isso?
Ingo Schulze: A cada nova experiência, olha-se também para o passado de uma nova maneira. E evidentemente existem vivências contraditórias, que não se encaixam. Não há somente uma única verdade. E por isso acho muito bom que exista a arte: numa história, num poema ou numa peça de teatro, verdades podem ser justapostas. Afinal, é também por isso que escrevo, porque não quero mais oferecer generalizações.
A RDA é realmente um paÃs desaparecido. O que lhe faz ainda recordar o passado, quando o senhor, por exemplo, passeia por Dresden, a cidade de sua infância?
Há dois anos fui a Dresden sem informar aos meus amigos, só para poder andar uma vez sozinho pela cidade. Foi uma desilusão. Nunca fiz doações para a [reconstrução da] igreja Frauenkirche, mas gostava de sua forma, e então me encontro diante dela, pensando: “Oh Deus, é isso o centro de Dresden?” Mas, ainda muito pior, é o que foi construÃdo ao redor, essa Disneylândia para turistas, feita de cimento e com uma fachada de gesso.
De repente, percebi: isso que nunca amei, essa mistura de barroco de Dresden e stalinismo, ainda era, de alguma maneira, arquitetura. Lá ainda se podia ler os sinais de um tempo, não era uma coisa qualquer. Agora querem construir no centro de Dresden uma terra de contos de fadas, mas no fundo trata-se apenas de turismo e comércio. O que nunca considerei como arquitetura é subitamente revalorizado e adquire quase um semblante humano.
O senhor criticou que a arquitetura tem devastado muita coisa, ou melhor, que os projetos se conectam com tempos antigos, saltando o perÃodo do nacional-socialismo e da RDA. Para recordar a RDA, deve-se reconstruir as estátuas de Lênin?
Alegra-me muito que as velhas estátuas de Lênin hajam desaparecido. Mas, por exemplo, em Berlim, pôr abaixo o Palácio da República é um absurdo. Quando estou na cidade, sinto um verdadeiro ódio pelo moderno. Tem-se a impressão de que se deve ousar um salto do Império Germânico para a grande República Federal, e isso se estende também a âmbitos menores.
Eu não quero cultuar os prédios caindo aos pedaços e os buracos de bala nas fachadas. Que muita coisa seja demolida, daria ainda para suportar. Mas, o que acontece por detrás dos panos, isso eu acho perigoso: que cada vez mais desapareçam espaços públicos e surjam espaços comerciais. Um exemplo é a praça Potsdamer Platz, em Berlim. Ali são quase todos turistas, nenhum berlinense passa por ali. Aquilo não é um lugar público; ele foi, por assim dizer, entregue às empresas. E o mesmo acontece com tantas outras coisas.
Democracia é a existência de um espaço público. Na RDA, isso era sempre uma coisa oficiosa, mas agora, que realmente existe a possibilidade de se criar um espaço público, nesse momento o comércio ataca e degrada as pessoas a consumidores.
O senhor disse uma vez que o desaparecimento do Leste era um problema que lhe concerne menos do que o desaparecimento do Oeste. O que quis dizer com isso?
Com isso me refiro apenas à “economização” de todos os aspectos da vida. Não posso falar, por experiência própria, de como eram as coisas no Oeste nos anos 70 ou 80 – mas, pelo que ouvi dizer, naquela época havia um padrão completamente diverso, uma outra noção de justiça social.
Desde 1990, desde quando conheço o Oeste, cada vez mais a economia engole tudo e a polÃtica bate em retirada. Por exemplo, por que não se pode fazer do serviço ferroviário uma coisa útil à s cidadãs e aos cidadãos deste paÃs? Poderia-se reduzir o preço dos bilhetes e construir uma alternativa ecológica. Por que é que agora a ferrovia tem também que gerar lucros? Há tantas coisas que não acho boas nessa tendência, e isso também me deixa furioso.