
Algumas datas foram fundamentais para o design, principalmente se pensarmos nos jornais, sempre atrelados aos acontecimentos imediatos. Não seria diferente com o Dia da República. Continuando a série de “aperitivos” do livro que fiz em parceria com Chico Homem de Melo, Linha do Tempo de design gráfico no Brasil, separei dois exemplos curiosos de como alguns jornais anunciaram a declaração da República, além uma capa “padrão” pra servir de contraponto e, aproveitando o ensejo, um exemplo de um dos maiores ícones do design brasileiro: o JT.
Numa época em que a linguagem dos jornais caracterizava-se pelo bloco compacto de texto, como vemos numa capa de O Estado de S. Paulo, de 1904, com suas dez colunas quase encostadas umas nas outras formando uma massa densa e indiferenciada, o Correio do Povo, na edição feita no calor da hora, de 16 de novembro de 1889, surpreende arejando as colunas e abrindo quase metade da capa para a chamada, num divertido desfile tipográfico. Mas nada que se compare à ousadia e inovação do A Província de São Paulo, com seu “menos é mais” avant la lettre (ver acima), também no dia seguinte à derrubada da monarquia.

Essa elegância visual, ao mesmo tempo sintética e impactante, só foi retomada muitas décadas depois pelo Jornal da Tarde. No texto a seguir, tirado do próprio Linha do Tempo, Chico Homem de Melo explica a importância que esse diário teve na história do design brasileiro.
“O Jornal da Tarde foi o diário mais inovador já feito no Brasil. O público visado era o leitor jovem, um segmento que na década anterior crescera de maneira significativa. Como anuncia o nome, o jornal efetivamente chegava mais tarde nas bancas; isso reduzia seu compromisso com a última notícia, e abria espaço para o comentário, a crônica, o roteiro da cidade – e abria espaço também para uma linguagem jornalística mais arejada, que combinava inovação editorial e gráfica. Murilo Felisberto foi o profissional convidado a levar adiante a empreitada. Ele permaneceu à frente do JT desde a sua criação, em 1968, até 1978; depois disso, passou mais de dez anos trabalhando como diretor de arte na agência de propaganda DPZ. Como o jornal não vendia assinaturas, o princípio adotado foi transformar a primeira página em um cartaz para exposição nas bancas. Isso instaura uma outra lógica de leitura, que rompe com as convenções das primeiras páginas de jornal. O logotipo acompanha esse novo discurso gráfico; composto exclusivamente em letras minúsculas, ele podia até mesmo passear pela primeira página. Não havia diagrama fixo, e o destaque podia ser ora uma sequência cinematográfica de fotos, ora uma manchete ocupando toda a altura do jornal, ora um bloco de textos e fotos posicionado na diagonal, ora uma página inteira branca. O que diferencia o JT de quaisquer outros jornais é que essas páginas excepcionais não foram feitas apenas em ocasiões excepcionais, mas dia após dia, ao longo das décadas de 1970 e 1980.
*Elaine Ramos é diretora de arte da Cosac Naify.



ALEXANDRE NODARI
ANTÔNIO XERXENESKY
cadão volpato
Daniel Benevides
Isabel Lopes Coelho
Kelvin FalcÃo Klein
MIGUEL DEL CASTILLO
Natércia Pontes
Raquel Toledo
Murilo Felisberto foi um gênio. Discreto, avesso a badalações, ainda não teve o reconhecimento devido. Montou equipes de jornalistas brilhantes, descobriu talentos, mudou o design e a direção de arte dos jornais e revistas no Brasil e foi, inclusive, referência nessa área no mundo todo.
Um pouquinho das histórias daqueles que conviveram com ele podem ser encontradas no blog: http://blogdosamigosdomurilo.blogspot.com/
Fico feliz de ver o nome dele citado aqui no blog da Cosac Naify.