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  • O mundo (kafkiano)

    Günther Anders (1902 – 1992) ao lado de Hannah Arendt

    O filósofo alemão Günther Anders ficou mundialmente conhecido por pensar e se engajar contra a catástrofe nuclear. Apesar de pouco se falar nela hoje, ainda vivemos na “Era Atômica” (possivelmente, como Anders argumentava, ela não “termine jamais”) e sofremos suas consequências, sempre maiores do que imaginávamos – basta ver que só agora estamos nos dando conta da magnitude dos danos causados pelo vazamento de Fukushima. O desafio que as armas atômicas colocavam para o pensamento e a práxis humanas, segundo Anders – o de imaginar a “nadeidade” total, não apenas “o não-ser de algo determinado dentro de um contexto cuja existência pode ser dada como certa, mas a inexistência desse próprio contexto, do mundo como um todo” –, intensificou ainda mais sua urgência diante da catástrofe ambiental em curso provocada pelo homem.

    Antes de seus textos e ativismo relativos à ameaça atômica, Anders escreveu aquele que é, sem dúvida, um dos melhores livros sobre Franz Kafka. E não é de estranhar que encontremos em Kafka: pró e contra – os autos do processo, de 1946, elementos que aparecerão em seus escritos posteriores e que se aplicam à situação global de hoje: como se sabe, Kafka era o outsider por excelência (e sua literatura, como mostraram Deleuze e Guattari, uma literatura menor, minoritária), condição cada vez mais comum atualmente. Para marcar a intensidade do estranhamento, ou estrangeiridade, das ficções de Kafka, Anders as filia a Dom Quixote, um “herói sem mundo” (e Homem sem mundo é título de outro livro do filósofo): “Uma coisa é comum a Dom Quixote e ao K. dos romances kafkianos: são ‘indivíduos’ porque são ‘divíduos’, isto é, estão cortados do mundo – e por esse meio o mundo ‘corta’, a vida inteira, o indivíduo que tenta introduzir-se nele”.

    Se a cisão talvez não seja psicologicamente tão intensa em K. quanto é em Quixote, ela o é materialmente, pela “ausência de natureza, em Kafka”, que “resulta do fato de que, para ele, o mundo está totalmente – mais: totalitariamente – institucionalizado (…). Essa falta de natureza no mundo kafkiano é verdadeira na medida em que corresponde à civilização tecnizada de hoje, que ocupa tudo aquilo que existe – pelo menos virtualmente – como matéria-prima ou fonte de energia, e extermina tudo o que seja inaproveitável, mesmo homens.” Nem é preciso dizer o quanto, hoje, a ressalva “pelo menos virtualmente” poderia ser dispensada: a ocupação da totalidade do globo para a barragem dos fluxos vitais e sua conversão em energia é um fato cada vez mais consumado, que torna a ausência de mundo um estado objetivo – e daí a profusão de “gente sem-mundo” sobre a qual Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro vêm refletindo. Se todos somos ou estamos nos tornando sem-mundo, então isso significa que todos vivemos no mundo kafkiano. Mas é impossível pertencer a esse mundo que se caracteriza pelo corte com todo mundo, e como, segundo Anders, ser e pertencer são sinônimos para Kafka, então é nossa própria consistência ontológica que perdemos ao ficarmos sem-mundo, tornando-nos assim “formas intermediárias entre ser e não-ser”, virtualidades que nunca se atualizam plenamente, que nunca adquirem sua consistência própria.

    “Quem não habita o mundo não tem hábitos e entende os costumes como decretos”, diz Anders em uma frase capaz de sumarizar o estranho estatuto que o Direito possui nas ficções kafkianas e, ao mesmo tempo, a sanha atual de normatizar a vida inteira até os mínimos gestos. Em um mundo em que nada é normal (habitual), tudo precisa ser normalizado, mas, ao mesmo tempo, é impossível discernir o que é anormal. Por isso o “princípio da explosão negativa” que rege os textos de Kafka: “o inquietante não são os objetos nem as ocorrências como tais, mas o fato de que seus personagens reagem a eles descontraidamente, como se estivessem diante de objetos e acontecimentos normais”. É “a trivialidade do grotesco” – tão presente nas ficções contemporâneas de Veronica Stigger – “que torna a leitura tão aterrorizante” (e, acrescentemos, produz um efeito cômico – como se sabe, Kafka ria sem parar ao ler trechos de seus romances para amigos). E é esta trivialidade que transparece na forma da linguagem kafkiana, a “linguagem de protocolo”, eufemística por excelência, “que empresta, ao caso nele registrado (mesmo o mais criminoso), a aparência de uma coisa que, de agora em diante, por estar registrada, está ‘em ordem’”: “não é só o horror da desordem, mas também a ordem do horror” – Eichmann, mas também os burocratas que autorizam a destruição de formas de vida para a construção de grandes obras.

    Desse modo, não tem sentido tomar as figuras de Kafka como alegorias, como se faz incessantemente. Elas são literais – assim como K. toma as leis por Lei, Kafka literaliza as imagens, e daí seu procedimento característico ser a metáfora: Gregor Samsa, visto como um “inseto” pela sociedade respeitável, torna-se um de fato. Kafka “não inventa imagens: assume-as. Ele põe sob o microscópio o que há de sensorial nessas imagens – e vejam, a metáfora mostra detalhes tão colossais que, daí em diante, a descrição adquire algo de pavorosa realidade”. Se o eufemismo protocolar normaliza o anormal, a metáfora, sua contraface, nos devolve o poder de estranhamento perdido, tornando consistente a imagem que o (não-)mundo kafkiano faz de nós. Daqui deriva o poder político das ficções kafkianas: ao metaforizar (literalizar) a condição de estrangeiridade radical, elas nos fazem ver que somos todos potencialmente insetos em um mundo que literalmente não os suporta. Ou melhor: que o mundo (kafkiano) não para de produzir insetos para destruí-los. Mas aqueles que são insetos, os outsiders radicais, são também, por não terem hábitos, capazes de questionar a fusão entre costume e Lei, entre padrão e necessidade: “É por isso que se observa com tanta frequência”, diz Anders, “que os imigrantes pertencem a movimentos radicais; ambos se empenham pelo reconhecimento dos direitos do não-reconhecido”. O “direito do não-reconhecido” é, hoje, justamente o direito ao mundo, o de habitar o mundo, o de adquirir uma consistência singular, mas sempre fugidia, no encontro com as multiplicidades, um habitat (sempre precário e finito) no mundo. Para tanto, é preciso primeiro estranharmos o mundo kafkiano em que vivemos – e reler Kafka é um primeiro passo.

    *Alexandre Nodari é doutor em literatura pela UFSC e integrante da #ATOA.

  • Dr. Quixote e Mr. Pança

    Dom Quixote em corpo de Sancho Pança. É o equilíbrio perfeito: de um lado a febre fantasista, o espírito sonhador, e de outro o receio pragmático, o instinto de sobrevivência (acentuado pela enorme barriga, que dificulta maiores correrias).

    Tão perfeito que leva à imobilidade.

    Tal figura existe. Foi criada por Alphonse Daudet, em 1872. Tartarin é o heroi de Tarascon, região ao sul da França. Reconhecido como valente caçador de leões e guerreiro implacável, na verdade é um pacato cidadão. Suas aventuras na África e no Oriente longínquo se passam, de fato, no quintal e no bosque ao lado. E sua coragem sem limites nada mais é que uma capacidade indomável de mentir a tal ponto que não apenas seus ouvintes acreditem, mas também ele mesmo.

    Quase ter ido a Xangai ou ter ido a Xangai, para Tarascon, dava na mesma. À força de se comentar a viagem de Tartarin, acabou-se por estabelecer a crença de que ele já estava de volta.

    Na verdade mentir nem é o termo apropriado, já que “o homem do Sul não mente; ele se engana.”

    Insuflado de orgulho e dignidade, o “pequeno, gordo, atarracado” Tartarin é, como bem lembra o autor, tão sonhador quanto o Quixote, mas pouco afeito a se expor aos riscos verdadeiros, como Sancho. Sua saída é a ficção – verbal, não material (embora exiba “troféus” para atestar suas andanças mundo afora). É um escritor de si mesmo, e por isso tem total controle de sua loucura, podendo ficar na cama amparado pela fama, ao contrário de Quixote, um pobre leitor, que se deixa levar pelas sugestões malucas dos livros a um custo de muitos hematomas e confusões.

    O livro é de rir e sorrir. Flaubert era um fã incondicional, assim como o realista Zola. (O barrigudo Flaubert não deixa de ter um lado Tartarin; afinal, sua vida é obsessivamente dedicada à ficção).

    Curioso é imaginar a mesma fusão em outras duplas. Batman em corpo de Robin, por exemplo, seria um desastre. Como impor o respeito soturno de cavaleiro das trevas com aquele shortinho colorido e aquela ansiedade púbere, aquela metralhadora de perguntas e exclamações?

    Jeckyl e Hyde resolveram melhor a equação, alternando-se no mesmo corpo (como muita gente, diga-se).

    O Dr. House do seriado ganharia com a troca: usando o esqueleto de Wilson deixaria de mancar e sentir dor, além de inspirar mais simpatia, com aquele rosto bondoso. Mas o espectador perderia muito, pois House sem a ranhetice provocada pela dor não seria, nem longe, House.

    Dr. House e Wilson. Não, eles não estão trocando de corpos.

    A dupla O Gordo e o Magro nem se fala, pois seria um contrassenso, um ataque à lógica. O Allan talvez se beneficiasse com o corpo do Charlie Harper (mas, pensando bem, ele já tem a cara do Matthew Broderick e isso nunca significou vantagem.)

    Glória Pires e Tony Ramos, por sua vez, sabem muito bem o que é estar na pele um do outro e como tirar proveito disso. Mas bom mesmo seria o Asterix no corpo do Obelix (o contrário seria catastrófico): força estupenda e esperteza num pacote só.

    E se o Sheldon ficasse com o corpo da vizinha loira e gostosa? A Cher com o bigode do Sonny Bono e o Gainsbourg na pele da Jane Birkin? Hum…tá ficando estranha essa brincadeira, melhor ficar mesmo com o Tartarin e seus amigos de Tarascon – que, por sinal, está no mapa: fica na tão cantada Provença e tem até um museu e um festival em homenagem ao nosso – sim! – heroi.

    * Daniel Benevides é jornalista.

  • Fiapos de tapeçaria

    O vídeo abaixo exibe a primeira parte da participação de Leonardo Fróes na série “tradutores” do programa Tertúlia: encontros da literatura, do SESC SP. Nele, Fróes discorre sobre sua experiência de traduzir Contos Completos de Virginia Woolf para o português.

    Fróes retoma uma passagem de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, em que o personagem-título envereda por um discurso sobre o ofício da tradução. Para o cavaleiro andante, a tradução é como uma “tapeçaria pelo avesso”, em que o observador enxerga os nós da trama, os fiapos soltos pelo lado avesso, mas não consegue contemplar a beleza da imagem verdadeiramente estampada.

    É por esses fiapos que Fróes inicia sua apresentação e tece a história da tradução de Virginia Woolf no Brasil. A continuação do trecho acima você assiste por aqui.