Arquivo da tag: dramaturgia

  • Apoteose do cuspe

    “Pra curar insônia talvez eu tenha um bebê” canta minha plural amiga Letícia na canção Insoniazinha, da sua banda Letuce. Esse verso sempre me encafifa, mesmo que pareça óbvio: madrugadas a fio, noites em claro afora, bebês deixam os pais despertos com suas necessidades frágeis, berreiros e mistérios. Quando vão dormir, massacrados pela vigília parental, os pais vencerão qualquer prenúncio de insônia, por nocaute.

    A ideia é que não há espaço para insônia quando se tem algo maior sobre sua cabeça. Algo maior do que as preocupações que te privam do sono. (Não estou sendo nada científica aqui, embora sofra de insônia como uma morcega louca.)

    A coisa louca é que sempre cantarolo o supracitado verso assim: “Pra curar insônia talvez eu tenha um teatro”. E não preciso roçar o mindinho no divã para entender do que se trata essa corruptela tantã: sou uma profissional do teatro frustrada.

    É um pouco difícil acreditar nisso tendo sido espectador da minha recente tentativa de mimicar os filmes Satyricon e Tabu numa brincadeira de casa de praia, no último fim de semana. Mesmo que os participantes do jogo estivessem 1. dormindo em diagonal no sofá; 2. berrando com vagalumes depois da quinta dose dupla de uísque; 3. preocupados demais com suas pontuações ao ponto de não darem a mínima para a miríade de movimentos constrangedores que eu imprimia no espaço; eu, Natércia, que também fui espectadora de mim mesma, claro, jamais esquecerei.

    Mas tá. Digamos que dispensando a profissão de atriz, eu preferisse dirigir peças ou fazer contrarregragem ou trabalhar na cenografia, iluminação, operação de som, cenotécnica, bilheteria, varrendo o palco etc. Qualquer coisa para estar no teatro. Para trabalhar no teatro. Para viver no teatro. Simplesmente porque é o lugar que mais me agrada.

    Todos os teatros. Aquele cheirinho de teatro. Aquela excitação do teatro. Aquela poeirinha do teatro. Aquela impostação artificial de voz do teatro. Sou fã inveterada de peças ruins, por exemplo. Das boas então, nem se fala. Topo todas. Só chamar. Acho que entendi que ali tudo era possível quando bem no início da adolescência fui a uma peça do Gerald Thomas cujo personagem passeava pela plateia balangando um falo de borracha rosa. Boquiaberta fiquei até engasgar com a fumaça de gelo seco. Embora marcante, é uma lembrança que nem sei se aconteceu ou sonhei. Outra lembrança memorável e do mesmo naipe é a imagem da Sharon Stone abrindo as pernocas em Instinto selvagem, mas estou escapando do assunto e esse mote de primeiras memórias sensuais pode ficar para o próximo post.

    Uma possível imagem da minha insônia

    Voltemos ao teatro. E aos perdigotos, claro. Encaro uma chuva de perdigotos como um sertanejo entrega o rosto sôfrego às primeiras gotas de uma esperada chuv… Minto. É custoso. Mas até que não ligo tanto. Vejo uma beleza nesse aguaceiro escatológico e íntimo. Lembro de uma montagem de Moby Dick onde o ator fazia alternadamente o capitão Ahab e a baleia. Quando ele representava o obstinado capitão Ahab, segurava uma garrafa, quando ele encarnava o Leviatã, bebia a água da garrafa e cuspia em jato e para cima, em profusão. Era a apoteose do cuspe. O cheiro de saliva impregnava o ar da pequena arena. Nossos rostos salpicados por tépidas gotículas. Havia algo de tão viscoso, desconcertante e íntimo ali que eu achei bonito. Jamais esquecerei.

    Minha mãe, Cristina, incorporando uma bruxa chamada Borracha, em algum momento dos anos oitenta

    Acho que mais uma vez não preciso triscar o mindinho no divã para me entender. Minha mãe era atriz e depois produziu peças e depois escreveu peças. Uma das minhas lembranças mais antigas é dentro do teatro, descendo os corredores acarpetados e encaracolados do Teatro Nacional de Brasília, de mãos dadas às dela. Tenho também outra imagem muito vívida, no camarim da Tetê Espíndola, mas não era peça, era show, e já estou mais uma vez misturando as coisas escritas nas estrelas.

    É isso. Enquanto a Letícia — que, agora percebo, tem algo de Tetê — canta “pra curar insônia talvez eu tenha um bebê”, eu cantorinho “pra curar insônia talvez eu tenha um teatro”. Ou, melhor, uma mãe.

    * Natércia Pontes é autora de Copacabana Dreams.

  • O método de Brecht

    Fredric Jameson, na grande maioria de seus trabalhos críticos, mantém o saudável hábito de jamais tirar os olhos da literatura. Sua teorização frequentemente apresenta o desejo de melhor ler as ficções, ou, em outras palavras, lê-las pelo avesso, à contraluz. Seu livro Brecht e a questão do método não é diferente, e seduz já a partir da primeira promessa: comentar extensamente a obra vasta de um autor ao mesmo tempo tão complexo, tão atual e tão fundamental para a leitura e compreensão da história do século XX.

    Antes do método de Brecht, o método de Jameson: em primeiro lugar, privilegia o Brecht escritor, narrador e dramaturgo, pinçando detalhes desde suas peças mais conhecidas (A Santa Joana dos matadouros) até pepitas mais modestas como O voo sobre o oceano e Pequeno Organon. Mas Brecht não flutua sozinho pelo espaço argumentativo de Jameson – é, pelo contrário, exaustivamente confrontado com autores os mais diversos, desde Aristóteles até Zola.

    O teórico marxista Fredric Jameson

    A ênfase, portanto, está nas reverberações possíveis da obra de Brecht, mas não apenas na direção óbvia do futuro, ou seja, daquilo que ainda estava por vir ou daqueles que ainda estavam por ler Brecht. Jameson usa Brecht para reler Marx e Hegel, por exemplo, que são muito citados, investigando aquilo que resta da obra dos dois filósofos depois de postos em cena, depois de dramatizados por Brecht. Em paralelo, Jameson resgata também as leituras que Barthes fez de Brecht muito cedo em sua carreira, colocando-as em perspectiva na fortuna crítica brechtiana. E muito ainda poderia ser dito do resgate que Jameson promove de dois incontornáveis contemporâneos de Brecht: Walter Benjamin e Georg Lukács.

    O fundamental do método de Brecht, portanto, segundo Jameson, é o caráter inquieto de sua arte e suas ideias – algo que também ganha o nome mais técnico de estranhamento. Brecht não podia aceitar o que quer que fosse como natural, dado, estabelecido ou finalizado. As figuras históricas utilizadas em suas peças estão sempre deslocadas no tempo e na geografia; os atores devem sempre ser, simultaneamente, outros e eles mesmos, mantendo sempre um verniz de artificialidade em seus gestos. E esse verniz de artificialidade é uma arma política, o dispositivo que permite a Brecht cortar a expectativa da audiência, mostrando o fundo falso não só da representação, mas da própria vida cotidiana.

    O dramaturgo Bertolt Brecht

    Na visão de Jameson, Brecht ensina que é preciso ficcionalizar o real para poder pensá-lo, ou seja, submeter o fluxo caótico de mensagens do exterior em reflexão interna e, em seguida, em produção artística. Dentre os discípulos de Brecht que melhor transitam por essa postura artística, Jameson aponta o escritor e cineasta Alexander Kluge com um destaque, especialmente por conta de seu contínuo trabalho na fronteira entre a imagem e o texto, o documental e o ficcional. “O desenvolvimento dado ao motivo brechtiano por Alexander Kluge”, escreve Jameson, “propõe uma sobrevida pós-brechtiana digna de suas origens”. Em resumo, é na combatividade das fronteiras – ali onde não se sabe com certeza como situar os discursos – que se dá a força decorrente dessa sobrevida de Brecht, que continua a circular entre nós.

    * Kelvin Falcão Klein é crítico, autor de Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas (Ed. Modelo de Nuvem, 2011). Escreve em falcaoklein.blogspot.com.br