Por Cosac Naify
Quinta-feira, 3 dezembro, 2009, às 20:35

Ingo Schulze, diante de outro muro, na Rua General Jardim, São Paulo Foto: Rodrigo Rosenthal
Costuma-se dizer que o século XX se encerrou com a queda do muro de Berlim. A morte foi decretada, mas o inventário histórico ainda rende excelente literatura. Vidas novas, do alemão Ingo Schulze, trata justamente deste luto mal-vivido e de suas feridas latentes. Considerado uma obra-prima da chamada “literatura da virada”, o livro traz as mudanças ocorridas após a reunificação alemã, vivenciadas pelo protagonista Enrico Türner, personagem fáustico que sonha em ser escritor, mas se deixa tragar pelas vantagens oferecidas pelo novo senhor de seu novo país: o capitalismo na Alemanha unificada.
No Brasil para o lançamento do romance, Schulze falou, nesta quarta-feira (2/11), no Instituto Goethe de São Paulo, onde colocou em xeque justamente o termo comumente usado para situar seu livro: “Reunificação alemã? O que houve foi a incorporação da RDA pela RFA. Pode ter dado certo ou não, mas não se trata de uma reunificação”. A crítica, ele avisa, nada tem a ver com uma nostalgia cega e contrária a mudanças, mas sim com a “economização” de todos os aspectos da vida gerada pelo sistema que prevaleceu. Vidas novas vai na direção contrária ao humanizar a trajetória de um país cindido e traçar o destino individual de um sujeito que se perde em meio ao turbilhão histórico.
A trajetória de Türner vem à tona por meio de cartas escritas a sua irmã Vera, ao amigo de infância Johann e à fotógrafa Nicoletta Hansen – todos moradores da Alemanha Ocidental –, em que ele demonstra seu desconforto e, ao mesmo tempo, deslumbramento diante da brusca passagem de um mundo a outro. O responsável por revelar a correspondência pessoal do personagem é o editor – adivinhem? – Ingo Schulze, que vê na escrita epistolar a vida de um homem – e de toda uma sociedade, “prestes a desabar”. “Li sobre um homem de teatro que se transforma em redator de jornal, sobre um escritor fracassado que se transforma em empresário bem-sucedido, li sobre um garoto de colégio cujo desejo de fama vira maldição, sobre um soldado que escapa à invasão da Polônia mas não a seus camaradas, sobre um universitário que se apaixona por uma atriz, sobre um homem irresoluto que vira herói a contragosto, li sobre manifestações e primeiros movimentos no lado ocidental, li sobre um irmão que não consegue viver sem sua irmã, li sobre doença e invocação do diabo – em poucas palavras, eu li um romance”.
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INGO SCHULZE NO BRASIL: Sexta-feira, 4 de dezembro de 2009, às 18h30
Ingo Schulze, Marcelo Backes e Sérgio Rodrigues
Goethe-Institut Rio de Janeiro
Por Cosac Naify
Quinta-feira, 12 novembro, 2009, às 11:09
Em primeira mão, leia abaixo um trecho de Vidas novas, o romance que Ingo Schulze lança em dezembro pela Cosac Naify, com apoio do Instituto Goethe:
“Passei o dia numa disposição de ânimo estranha. Senti o cheiro das coisas mais esquisitas, imaginei de repente que estava em outro quarto e precisei, como se estivesse acordando, de alguns segundos para voltar a mim. Em dias como este, basta uma pequena falta de atenção e a gente desaba e cai e cai. Será apenas imaginação quando a gente de fato ainda sente a alça, mesmo que já tenha tirado a mão há muito tempo? Será que devo dizer que o passado tenta me agarrar, ou talvez, melhor: que jamais fui jovem? A senhora acredita que alguém como eu é capaz de roubar uma arma? Perdão pelos segredos e sussurros. Isso tudo soa tão banal. Simplesmente tenho medo de voltar a cair naquele estado em que me encontrava no final do ano passado. Eu estava doente e deitado tal como agora em meu quarto. E aquela foi, não estou exagerando, a pior época da minha vida.
Há algumas semanas luto com uma pergunta. No começo, não a levei a sério; ela me parecia demasiado profana. Mas nesse meio-tempo acredito que ela tenha ganhado razão de ser. A pergunta é: De que jeito e de que maneira o lado ocidental chegou à minha cabeça? E o que ele aprontou dentro dela?
É claro que eu também poderia perguntar como o bom Deus chegou à minha cabeça. Acabaria dando no mesmo, mas, de qualquer modo, teria menos a ver com o caráter peculiar de minha queda e expulsão do paraíso.
Não sou capaz de providenciar, eu mesmo, uma resposta exata. Posso apenas tentar me aproximar dela, tateando.”
[Tradução de Marcelo Backes]
Por Cosac Naify
Segunda-feira, 9 novembro, 2009, às 16:43
Hoje, dia em que se comemoram os 20 anos da queda do muro de Berlim, vale a pena ler a entrevista com o autor alemão Ingo Schulze (1962-), uma das mais originais vozes da literatura contemporânea do país, concedida a DW-WORLD.DE.
Seu romance Vidas novas (2005) será lançado ainda neste ano pela Cosac Naify, com a presença do autor. Na obra – que terá um trecho adiantado por este blog -, Schulze cria um jogo literário de ficção e realidade para traçar um extraordinário painel da época da reunificação alemã. Histórias Simples da Alemanha Oriental (1998), outra obra sobre o período, foi considerada por críticos um dos mais importantes livros sobre a reunificação.
Schulze também é autor do livro de contos Celular – 13 histórias à maneira antiga (Cosac Naify, 2008), em que parte de histórias prosaicas para tratar dos dilemas contemporâneos e das mudanças no panorama político e cultural da Europa depois da queda do muro .

Nos cadernos de cultura dos jornais alemães, recordar a RDA é novamente um grande tema. O jornal Die Zeit escreveu: “Os alemães não conseguem recordar. Mente-se, cala-se ou briga-se.” Concorda com isso?
Ingo Schulze: A cada nova experiência, olha-se também para o passado de uma nova maneira. E evidentemente existem vivências contraditórias, que não se encaixam. Não há somente uma única verdade. E por isso acho muito bom que exista a arte: numa história, num poema ou numa peça de teatro, verdades podem ser justapostas. Afinal, é também por isso que escrevo, porque não quero mais oferecer generalizações.
A RDA é realmente um país desaparecido. O que lhe faz ainda recordar o passado, quando o senhor, por exemplo, passeia por Dresden, a cidade de sua infância?
Há dois anos fui a Dresden sem informar aos meus amigos, só para poder andar uma vez sozinho pela cidade. Foi uma desilusão. Nunca fiz doações para a [reconstrução da] igreja Frauenkirche, mas gostava de sua forma, e então me encontro diante dela, pensando: “Oh Deus, é isso o centro de Dresden?” Mas, ainda muito pior, é o que foi construído ao redor, essa Disneylândia para turistas, feita de cimento e com uma fachada de gesso.
De repente, percebi: isso que nunca amei, essa mistura de barroco de Dresden e stalinismo, ainda era, de alguma maneira, arquitetura. Lá ainda se podia ler os sinais de um tempo, não era uma coisa qualquer. Agora querem construir no centro de Dresden uma terra de contos de fadas, mas no fundo trata-se apenas de turismo e comércio. O que nunca considerei como arquitetura é subitamente revalorizado e adquire quase um semblante humano.
O senhor criticou que a arquitetura tem devastado muita coisa, ou melhor, que os projetos se conectam com tempos antigos, saltando o período do nacional-socialismo e da RDA. Para recordar a RDA, deve-se reconstruir as estátuas de Lênin?
Alegra-me muito que as velhas estátuas de Lênin hajam desaparecido. Mas, por exemplo, em Berlim, pôr abaixo o Palácio da República é um absurdo. Quando estou na cidade, sinto um verdadeiro ódio pelo moderno. Tem-se a impressão de que se deve ousar um salto do Império Germânico para a grande República Federal, e isso se estende também a âmbitos menores.
Eu não quero cultuar os prédios caindo aos pedaços e os buracos de bala nas fachadas. Que muita coisa seja demolida, daria ainda para suportar. Mas, o que acontece por detrás dos panos, isso eu acho perigoso: que cada vez mais desapareçam espaços públicos e surjam espaços comerciais. Um exemplo é a praça Potsdamer Platz, em Berlim. Ali são quase todos turistas, nenhum berlinense passa por ali. Aquilo não é um lugar público; ele foi, por assim dizer, entregue às empresas. E o mesmo acontece com tantas outras coisas.
Democracia é a existência de um espaço público. Na RDA, isso era sempre uma coisa oficiosa, mas agora, que realmente existe a possibilidade de se criar um espaço público, nesse momento o comércio ataca e degrada as pessoas a consumidores.
O senhor disse uma vez que o desaparecimento do Leste era um problema que lhe concerne menos do que o desaparecimento do Oeste. O que quis dizer com isso?
Com isso me refiro apenas à “economização” de todos os aspectos da vida. Não posso falar, por experiência própria, de como eram as coisas no Oeste nos anos 70 ou 80 – mas, pelo que ouvi dizer, naquela época havia um padrão completamente diverso, uma outra noção de justiça social.
Desde 1990, desde quando conheço o Oeste, cada vez mais a economia engole tudo e a política bate em retirada. Por exemplo, por que não se pode fazer do serviço ferroviário uma coisa útil às cidadãs e aos cidadãos deste país? Poderia-se reduzir o preço dos bilhetes e construir uma alternativa ecológica. Por que é que agora a ferrovia tem também que gerar lucros? Há tantas coisas que não acho boas nessa tendência, e isso também me deixa furioso.