Por Cosac Naify
Sábado, 7 agosto, 2010, às 20:59
Para escrever sobre Albany, personagem principal de toda sua carreira literária, William Kennedy teve que abandonar Albany. O escritor mergulhou de tal forma nas entranhas de sua cidade natal que ela acabou por se tornar um empecilho à sua imaginação. “Há um momento em que é preciso deixar a mente livre. Não dá para agir sempre como um repórter, para quem tudo é sempre novo”, disse o autor durante a mesa “Albany, Nova York e outras aldeias”, na tarde de hoje, que também teve a participação do escritor irlandês Colum McCann. Ambos relataram como o local se desenvolve em suas obras, ganhando uma potencialidade universal.
Mas foi justamente o faro de repórter, exercitado por longos anos, que fez com que Kennedy criasse personagens tão
marcantes, como Francis Phelan, um ex-jogador de origem irlandesa, que abandona a família e passa a vagar pelas ruas. “Tenho a sensação de que, se for a Albany, posso tomar um chopp com os Phelan, da mesma maneira que poderia encontrar Stephen, de Joyce, pelas ruas de Dublin”, disse McCann. “Kennedy é um dos mestres em criar vozes e mistérios da periferia da sociedade. É um dos meus grandes heróis na literatura mundial.”
Kennedy conviveu de perto com o lado sombrio de Albany e seus frequentadores: vagabundos, bêbados, jogadores, pessoas em busca de redenção. Bebia com eles pelos bares, até de madrugada, via-os sendo presos, ouvia seus medos, suas histórias. Daí nasce Francis Phelan, protagonista de Ironweed (1983), “um personagem tão pleno que mereceu um romance inteiro só para ele”, diz seu criador. Francis é pai de Billy, em O grande jogo de Billy Phelan (1978). “Em Albany conheci um vagabundo muito articulado e cheio de humor. Acrescentei culpa e dureza à sua personalidade e assim ele surgiu”, contou.
Personagens que vivem à margem também interessam a McCann, autor de Let the great world spin (“Deixe o grande mundo girar”). O romance narra histórias fictícias de anônimos que acompanham a real travessia do equilibrista francês Philippe Petit entre as torres do World Trade Center de Nova York, em 1974. “Venho da classe média branca norte-americana, mas o que atrai a minha atenção é gente como a prostituta do Bronx, que ganhou vida no meu livro.” Para ele, também é preciso escrever sobre o que não se sabe, sobre aquilo que não é parte de seu mundo.
Biscoitinho chinês
Kennedy também relembrou seus próprios tempos de agrura, cujo fim foi anunciado de maneira curiosa. Antes de emplacar sua carreira de escritor, trabalhava como jornalista freelancer e dava aulas na universidade, recebendo um “salário miserável”. Na ocasião, já havia lançado Ironweed, ainda sem repercussão. De passagem por Nova York, foi jantar com seu editor num dos restaurantes de Chinatown e abriu um biscoitinho chinês, daqueles que trazem uma mensagem em seu interior. “Esta será sua semana de sorte.” No dia seguinte, foi convidado a fazer uma leitura de trechos do livro, o que resultou num convite para dar aulas sobre escrita ficcional. Seu salário dobrou. Os jornais publicaram ótimas resenhas a respeito do romance e, pouco depois, o autor ganhou um prêmio no valor de 250 mil dólares, “sem impostos”. “Albany me dá sorte.”

Por Cosac Naify
Sábado, 7 agosto, 2010, às 09:30

William Kennedy e Hector Babenco durante as filmagens de Ironweed (1987)
Quando pegou nas mãos pela primeira vez uma das edições norte-americanas de Ironweed (erva de ferro, em inglês), de William Kennedy, o cineasta Hector Babenco se viu ali. O texto de quarta capa falava sobre personagens errantes, sem ponto de chegada ou partida. “Exatamente como eu.” Naquele exato momento, quis levar a história ao cinema, mas havia muitos obstáculos a serem transpostos; entre eles, o interesse de David Lynch em filmá-lo.
Kennedy escolheu Babenco, que ainda contou com interpretações magistrais de Jack Nicholson e Meryl Streep – além do músico Tom Waits – em um filme pouco visto no Brasil e mesmo nos Estados Unidos. Na época da estreia, o país enfrentava a mais grave queda na bolsa de valores desde a Grande Depressão dos anos 1930, período em que a narrativa se passa.
O roteiro foi escrito a quatro mãos por Babenco e Kennedy, que hospedou o argentino por meses em sua casa. O convívio tão próximo rendeu uma versão cinematográfica como poucas: os recursos do cinema valorizam o que há de melhor na obra literária, deixando-a concisa sem cortar o que há de essencial.
Na entrevista a seguir, Babenco relembra a parceria com o amigo Bill, volta a se impressionar, anos depois, com a entrega total de Meryl Streep à personagem Helen Archer e fala sobre a relação de seu trabalho com a literatura.
Após oito anos sem se ver, Kennedy e Babenco se encontram na FLIP, em sessão que apresenta Ironweed na Casa de Cultura de Paraty, no domingo, dia 8, às 14h30. Depois voltam a se ver em bate-papo na Livraria da Vila, dia 11 de agosto, às 19h30.
*
Muitos de seus filmes são baseados em livros. Por que considera a literatura um bom ponto de partida para o cinema?
Quando eu tinha doze, treze anos, não havia televisão em casa, então a única opção de entretenimento era a literatura. Estudava no período da manhã e, à tarde, trabalhava numa pequena livraria chamada Martín Fierro, em Mar del Plata, cidade da minha infância. Cresci atento ao mistério da palavra e interessado em cinema. Para mim, este era um casamento quase natural: literatura e cinema, cinema e literatura, minhas válvulas de escape de um cotidiano muito chato. Mar del Plata era sombria, pois ficava vazia fora da temporada do verão – no resto do ano, parecia uma cidade fantasma.
Acabou se formando em mim o hábito da leitura com mais consistência do que o exercício do olhar. Cresci achando que a literatura era a grande fonte de histórias. Talvez por isso esteja sempre tão presente em minha produção cinematográfica. O beijo da mulher aranha [Manuel Puig], Ironweed [W. Kennedy], Carandiru [Drauzio Varella], Brincando nos campos do Senhor [Peter Mathiessen] e O passado [Alan Pauls] são exemplos de filmes que nasceram de livros. Já outros, como Coração iluminado, são uma completa invenção.
O que você lia nessa época?
Lia muita coisa que não entendia, mas lia mesmo assim. Você não pode compreender Joyce aos 16 anos, não? Às vezes passavam-se três, quatro, cinco horas sem que ninguém entrasse na livraria, então eu ficava sentado num banquinho, lendo. Gostava de Cortázar, Borges, Bioy Casares, mas também lia os autores jovens. Passei pela literatura existencialista, como Camus, ao mesmo tempo em que procurava literatura alternativa. Aos 16, 17 anos, li todos os beatniks: On the road, O quarteto de Alexandria… Poesia também: Goethe, Lorca, Neruda.

Como chegou a Ironweed?
Estava montando O beijo da mulher aranha [1987] em Los Angeles, hospedado na casa de um amigo por três meses e, fuçando em sua biblioteca, me deparei com Ironweed. Gostei muito da capa do livro: um homem esquálido, jeito asseado, embora miserável, carregando uma fotografia da época da depressão norte-americana, uma imagem que lembra a capa da edição da Cosac Naify. O texto de quarta capa dizia que era um livro sobre pessoas sem parada, marginais, à deriva. Me identifiquei com a história porque sempre optei por esse modelo de vida, por ser um sujeito sem destino, sem porto.
Soube então que os direitos do Ironweed estavam sob os cuidados de outro produtor e que havia uma conversa com David Lynch para dirigir o filme. Senti que eu estava fora do jogo. Anos mais tarde, mencionando o fato ao Kennedy, ele me disse que jamais teria cedido a história ao Lynch, porque o cineasta queria colocar uma televisãozinha nos olhos dos personagens, ideia que irritou muito o autor. Não sei muito bem o que o Lynch quis dizer com isso.
Você e Kennedy assinam o roteiro. Como foi o processo?
Um dia, jantando com uma amiga, mencionei meu interesse pela história. Ela conhecia a agente literária do Kennedy e intermediou o nosso contato. Seis meses mais tarde, quando O beijo ficou pronto, convidei o escritor e sua esposa Dana – uma porto-riquenha muito simpática e animada – para uma projeção antecipada. Em seguida almoçamos; em certo momento ele saiu para ir ao banheiro e depois pagamos a conta. Na saída, me disse: “Babenco, acabei de falar por telefone com meu agente literário e dizer que gostaria que você fizesse a adaptação de Ironweed”.
Foi fantástico, mas ainda havia um empecilho: os direitos estavam reservados a outra pessoa, que há mais de dois anos não conseguia captar os recursos para fazer o filme. Então propus que escrevêssemos um roteiro para o filme, sob o seguinte acordo: se o produtor levantasse a verba até que terminássemos o roteiro, Bill já o teria pronto e não me deveria nada. Era uma proposta totalmente atípica para o mercado norte-americano, no qual ninguém trabalha de graça. Uma semana depois peguei a minha maleta e me mandei para Albany, hospedado num hotel. Dois dias depois Kennedy me buscou e me instalou em sua casa.
Lá fiquei um mês e meio, convivendo com a família dele. Sentávamos um ao lado do outro, feito dois pianistas que tocam juntos. Ele escrevia e eu ficava ao lado. Conversávamos cena a cena, cada diálogo; havia muitas passagens que ele propunha e eu achava repetitivas. Fui uma espécie de fiscal do essencial. Seguiram-se mais duas ou três temporadas como esta e, ao cabo de um ano, entre 1985 e 1986, tínhamos o roteiro pronto.
Então mostrei o texto ao Robert de Niro, que achou o filme muito amargo, triste. Decidi levar o projeto a Jack Nicholson, que eu havia conhecido em uma projeção de O beijo da mulher aranha. Ele já conhecia Ironweed e identificava-se com o livro: sua família tem origem irlandesa [assim como o personagem Francis Phelan], não conheceu o pai, foi criado pela mãe e pela irmã mais velha.
Nicholson me perguntou quem eu estava pensando para o papel da Helen. Eu não queria que fosse uma atriz mais velha, pois seria muito mais poderoso se Francis, um homem de mais de 50 anos, convivesse como uma alcoólatra jovem. Ele sugeriu Meryl Streep. Para mim, seria um par imbatível. Ele telefonou para ela no mesmo instante. A partir desse momento eu tinha um roteiro, um ator, uma atriz. E assim fomos para Albany.

O filme estreou num momento particularmente complicado para os Estados Unidos, não?
Tivemos o azar de, na época, acontecer a quebra da bolsa de 1987. Imagine um filme sobre pobreza e que se passa durante a grande depressão da década de 1930 estrear em meio a primeira grande crise da bolsa norte-americana desde então. O lançamento do filme foi altamente afetado por isso, porque o público não quis correr ao cinema para ver um filme com temática semelhante ao que estava vivendo.
A crítica, como sempre, ficou em cima do muro. Ninguém pichou o filme, mas também ninguém levantou uma bandeira a favor de sua qualidade. Mesmo sem promoção, conseguimos nomeações ao Oscar para Jack e Meryl.
Em uma entrevista concedida em 1989 à revista Paris Review, Kennedy diz: “O cinema é o meio de expressão de Babenco, cabe a mim instalar-me na primeira fila do camarote e bater palmas. Jamais esperei de um filme a tradução completa do romance”. Livro e filme são equivalentes quanto à intensidade dramática, mas parece impossível dissociar a personagem Helen Archer da interpretação de Meryl Streep.
Isso acontece porque a adaptação cinematográfica do filme é muito boa. Talvez se Bill tivesse feito isso sozinho, o filme teria alguma sobra e não seria tão conciso. Além disso, há a grandeza do cinema, dos atores, da qualidade das pessoas evolvidas. Meryl está magnífica no papel de Helen. Ela está sempre no apogeu daquilo que faz.
Como foi o processo de construção de Helen e Francis?
Muito da Helen foi construído por Meryl sozinha. Ela me disse que se inspirou em uma tia-avó – os trejeitos, a forma de andar. Para colaborar, gravei pessoas alcoolizadas vagando pelas sarjetas de Nova York, sentados na calçada, nas ruas, nos bares, e mostrei para os atores.
Meryl ficava totalmente concentrada, estava sempre dentro do personagem. Eu não ousava sequer tocá-la. No máximo, falava alguma coisa no ouvido, apoiava minha mão no ombro dela.
Jack é muito esperto, inteligente, politizado. O único grande ator norte-americano que trabalhou com muitos diretores não-americanos, o que mostra seu lado cosmopolita. Um homem plural, fora dos padrões, um grande leitor. É um grande amigo até hoje – um cara sem frescuras, bastante caseiro e que adora chamar os amigos para jantar em casa. Sua forma de interpretar é muito forte: é linda a cena em que ele retorna à família muitos anos após abandoná-la. A cena é apenas isso: os atores, o silêncio, o chapéu na mão, e ele sem saber o que fazer com o chapéu. É muito bonito.
Fale um pouco sobre a antológica cena em que Meryl Streep canta He’s me Pal.
Eu pensava em usar um playback, mas Meryl me disse sempre que queria cantar. No dia em que marcamos o ensaio, ela me disse: “Hector, eu te chamo daqui a pouco”. Eu a via falando com o técnico, como pianista, e a deixei à vontade. No dia da filmagem, a música começou a tocar e ela simplesmente saiu cantando. E canta muito bem. Uma coisa que poucos sabem é que, no momento em que ela desce do palco, imaginando uma plateia que a ovaciona, aproxima-se de uma mesa e dá um beijo na boca de um freguês, esse cara é o próprio Kennedy, sentado ao lado da esposa. Coloquei-os como figurantes do filme.
Outra cena forte é aquela em que Helen morre. Sempre que termino a jornada de um filme, costumo sentar num canto do cenário e assistir à desmontagem. Acendi charuto, sentei numa poltrona e fiquei pensando em tudo que tinha sido feito. Estávamos numa propriedade linda, à beira do rio Hudson. Olhei para o chão e vi que Meryl ainda estava lá, deitada. Os técnicos já tinham levado tudo – as luzes, os fios, os cabos, a roupa de cama, e ela ainda deitada no chão. Levou alguns minutos para levantar; foi se levantando, deixou uma sacola de borracha cheia de gelo que ela tinha colocado no estômago para se sentir como se estivesse morta. Sem me ver, ela se levantou e saiu. Sua capacidade de concentração, de se ausentar, é incrível.
Depois, acabadas as filmagens, ela foi embora e nem se despediu. Pensei: “Passamos meses juntos, e ela simplesmente vai embora?”. Dois ou três dias depois, a assistente dela me liga e pergunta se estaria eu estaria em casa no domingo. Estava um frio do cão. Meryl chegou com uma cesta de vime com salmão, queijos, pão, frutas, chocolates. Veio passar o dia comigo. Foi embora das filmagens como Helen Archer, depois voltou para me encontrar como Meryl Streep.
Que papel Ironweed teve em sua trajetória cinematográfica?
Não sei… Quando fiz o filme, eu estava muito doente. Lembro de tê-lo feito com muito medo, porque não sabia se conseguiria segurar a onda até o final. Por duas vezes pedi licença durante a pré-produção para ver minha família; a verdade é que eu ficava internado para fazer testes de medula óssea. Era uma época em que minha energia para trabalhar estava no topo e eu não entendia como poderia estar com uma doença tão séria como câncer e não sentir dor nenhuma. Mas, emocionalmente, estava muito contundido. Quando fizemos uma projeção do filme para Meryl, ela comentou que falávamos sobre a morte, sobre uma pessoa que estava morrendo. E eu estava morrendo naquela época. Realmente, aquilo não era uma comédia da Broadway.
Por Cosac Naify
Terça-feira, 1 junho, 2010, às 14:51
Cinematográfico. Se precisássemos eleger um clichê para descrever o estilo de William Kennedy, poderíamos começar por aí. Presença confirmada na FLIP 2010, o escritor tem a rara capacidade de criar diálogos e colocar em ação aquilo que Stevenson chamou de “fazer chegar ao leitor imagens vivas” — “quem escreve narrativas”, ensinava o autor de A ilha do tesouro, “tem que fazer chegar ao leitor imagens vivas”.
Quando decidiu transformar Ironweed em filme, Hector Babenco sabia disso. Em 1987, levou ao cinema a história de Francis Phelan, um ex-jogador de beisebol atormentado pelos fantasmas do passado, e Helen Archer, decadente cantora e pianista que o acompanha pelas ruas. Jack Nicholson e Meryl Streep deram forma aos personagens. Kennedy se incumbiu do roteiro, e na tela, suas “imagens vivas” ganharam ainda mais força.
Entre as imagens e cenas, a que segue, um dos trechos mais emocionantes de Ironweed: a companheira de sarjeta de Francis, Helen, volta aos palcos em um pequeno bar e imagina sua consagração. A experiência atroz de derrota e frustração (e a fuga através da fantasia) pode ser vista, aqui, na versão de Babenco e na de Kennedy, abaixo.
*
O amor.
Uma torrente de compaixão inundou o peito de Helen. Francis, oh, que homem triste, era o último grande amor da sua vida, mas não o único. Helen tivera uma vida inteira de decepções com seus amantes. Seu primeiro grande amor a acolheu entre os braços fortes por vários anos, mas em seguida afrouxou o abraço e a deixou deslizar pela vida abaixo até ela assistir a morte da esperança no seu peito. Helen despojada de esperanças, eis quem ela era quando encontrou Francis. E enquanto se aproximava do microfone do palco da Gilded Cage, ouvindo as notas do piano às suas costas, Helen era uma explosão viva de memórias intoleráveis e alegria indômita.
E não estava nem um pouco nervosa, muito obrigada, porque era uma profissional que nunca se deixou intimidar pelo público quando cantava em igrejas, em musicais, em casamentos ou na loja Woolworth quando vendia modinhas impressas, ou nem mesmo no rádio, com o público espalhado pela cidade inteira a cada noite. Oscar Reo, você não é o único a ter cantado para os americanos pelas ondas do rádio. Helen também teve os seus dias de glória, e não está nem um pouco nervosa.
Mas ela se sente… está certo, vá lá, ela se sente… como uma moça envolvida por uma confusão particular, pois sente a irrupção simultânea da alegria e da tristeza, e não sabe dizer qual das duas irá dominá-la nos momento seguintes.
“Como é o sobrenome dela?”, perguntou Oscar.
“Archer”, respondeu Francis. “Helen Archer.”
“Ora”, disse Rudy, “e por que você me disse que ela não tinha sobrenome?”
“Porque o que as pessoas dizem a você não faz a menor diferença”, disse Francis. “Agora cale a boca e vamos escutar.”
“Uma veterana dos tempos de ouro”, disse Oscar no microfone do balcão, “vai apresentar uma ou duas canções para o seu deleite, a adorável senhorita Helen Archer.”
E então Helen, ainda preferindo conservar seu sobretudo preto esfarrapado a expor a blusa e a saia ainda mais andrajosas que usava por baixo, apoiada nas pernas finas e exibindo o ventre entumescido que encostava na haste metálica do microfone e lhe dava a aparência de uma mulher grávida de cinco meses, ostentando com ousadia diante da plateia essa imagem de desastre feminino, e plenamente consciente das dimensões dessa imagem, Helen então ajeitou com graça a boina, até fazê-la quase cobrir um dos seus olhos. Agarrou o microfone com uma segurança que adiava um pouco o seu desastre, pelo menos até o final daquela canção, e em seguida cantou He’s Me Pal, na realidade uma cançoneta bem simples e curta, rápida e alegre, e cantou-a com exuberância e humor, com uma cabeça inclinada, um movimento dos olhos, um gestual das mãos que sugeria a virtude mais altiva. É claro que ele é valente, cantou ela, pois o meu amor não mente. E havia de dividir o último dólar com ela. Pois nenhum milionário jamais ganharia o amor de Helen. Ela preferia o seu bom amigo, com seus quinze por semana. Oh, Francis, se você pelo menos ganhasse quinze por semana.
Se você, pelo menos.
Os aplausos foram intensos e duradouros, e deram forças a Helen para começar My Man. Número emocionante de Fanny Brice, e também de Helen Morgan. Duas Helens. Oh, Helen, você cantou no rádio, mas onde foi parar? Que destino impediu você de atingir as alturas que eram suas de direito, por talento e formação? Tanta gente disse que você nasceu para ser estrela. Mas foram outras que atingiram as alturas, e você ficou para trás, amargurada. Como aprendeu a invejar aquelas que subiram quando você não subiu, as que nunca mereceram, as que não tinham talento nem estudo. Como Carla, da sua escola, que não conseguia nem mesmo cantar uma música até o fim mas tinha feito um filme com Eddie Cantor, ou Edna, que passara um tempo tão curto na Woolworth e depois apareceu cantando num espetáculo de Cole Porter na Broadway porque tinha aprendido a sacudir a bundinha. Mas ah, Helen se dera melhor, porque Carla tinha despencado de um precipício dentro de um carro e Edna tinha cortado os pulsos, sangrando até morrer na banheira do amante, e foi Helen quem riu por último. Helen está cantando num palco neste exato minuto, e escutem só a voz que ela ainda tem depois de tantas dificuldades. Vejam só como essa plateia elegante acompanha cada nota que ela emite.
Helen fechou os olhos e sentiu que as lágrimas abriam caminho à força, mas não sabia dizer se sentia uma felicidade bem-aventurada ou uma tristeza devastadora. Em algum ponto tudo tinha virado uma coisa só e deixado de fazer diferença porque, triste ou alegre, alegre ou triste, a vida nunca mudava para Helen. Ah, o seu homem, ela o amava tanto. E sabia que, se fosse embora, havia de voltar de joelhos. Um dia. Ela é dele. Para todo o sempre.
Ah, o trovejar do aplauso! E as pessoas bem-vestidas pondo-se de pé para aplaudir Helen, quando isso tinha acontecido pela última vez? Mais um, mais um, mais um, pedem aos gritos, e agora ela chora com tamanho desespero, de felicidade ou pela perda, que Francis e Pee Wee começam a chorar também. E embora a plateia continue pedindo mais, mais e mais, Helen desce os três degraus do palco com passos delicados e caminha orgulhosa na direção de Francis, com a cabeça erguida e o rosto impossivelmente molhado, e dá-lhe um beijo no rosto para que todos saibam que é este o homem de quem estava falando, se vocês não perceberam quando chegamos juntos. Este é o homem, o meu homem.
Meu Deus, foi uma beleza, disse Francis. Ninguém canta melhor do que você.
Helen, disse Oscar, foi uma apresentação de primeira. Se você quiser trabalhar cantando aqui, volte amanhã e eu falo com o dono para ele lhe pagar um salário fixo. Você tem uma linda voz. Uma voz magnífica.
Ah, muito obrigada a vocês, disse Helen, muitíssimo obrigada a vocês todos. É tão bom ser aplaudida pelo talento que Deus me deu, por todo o meu estudo e pela minha presença natural. Ah, muitíssimo obrigada a todos, e logo estarei cantando novamente para vocês, podem ter certeza.
Helen fechou os olhos e sentiu que as lágrimas abriam caminho à força, mas não sabia dizer se sentia uma felicidade bemaventurada ou uma tristeza devastadora. Algumas pessoas desconhecidas aplaudiram educadamente, mas outras a encaravam com uma expressão entediada. Se estão com esse ar de enfado, é evidente que não gostaram de você cantando, Helen. Helen desce os três degraus do palco com passos delicados, caminha na direção de Francis e mantém a cabeça erguida enquanto ele se inclina e lhe dá um beijo no rosto.
“Foi muito bonito, querida”, diz ele.
“Nada mau”, diz Oscar. “Um dia você precisa voltar aqui e cantar novamente.”
Helen fechou os olhos e sentiu que as lágrimas abriam caminho à força, e percebeu que a vida não tinha mudado. Se fosse embora, ela havia de voltar de joelhos. É tão bom ser apreciada.
Helen, você parece um passarinho quando o sol aparece por alguns instantes. Helen, você é um passarinho alvoroçado pela luz do sol. Mas o que será de você quando o sol se puser de novo?
Muito obrigada a todos.
Logo estarei cantando novamente para vocês.
Oh, passarinho alvoroçado! Oh!
[Tradução de Sergio Flaksman]
Por Cosac Naify
Quinta-feira, 13 maio, 2010, às 17:07
“Erva de ferro”, tradução de ironweed para o português, é um título nada mau para uma história que fareja o universo dos perdedores. Na verdade, é um excelente nome para contar a trajetória de personagens que precisam de nervos de ferro para enfrentar a vida – a busca cotidiana por comida, abrigo, o orgulho próprio escondido em algum ponto do passado.
Embora os personagens principais perambulem pelos becos de Albany, capital do estado de Nova York, a trama de Ironweed não se restringe à temática da vida nas ruas. Depois de O grande jogo de Billy Phelan, neste livro, o escritor William Kennedy – presença confirmada na FLIP 2010 – desnuda, com sua narrativa vibrante, os limites da complacência e da dignidade, assim como expõe os deslizes, atalhos e (des)caminhos que levam à decadência humana. Não por acaso, Ironweed rendeu o Pulitzer ao autor. Já no primeiro parágrafo do livro, que você lê a seguir, se pode sentir o impacto. A tradução é de Sergio Flaksman.
*
“Subindo a alameda cheia de curvas do cemitério de Saint Agnes na caçamba do velho caminhão desconjuntado, Francis Phelan percebeu que os mortos, mais que os vivos, organizavam-se em territórios. O caminhão viu-se repentinamente cercado por extensões de monumentos e cenotáfios de desenho semelhante e proporções majestosas, todos guardando os mortos privilegiados. Mas seguiu em frente, e os limites do mero privilégio ficaram visíveis, pois agora vinham os vários hectares da morte de real prestígio: homens e mulheres ilustres, comandantes da vida despojados dos seus diamantes, das suas peles, das suas carruagens e limusines, mas sepultados com pompa e glória, encerrados sob as abóbadas de grandes túmulos que lembravam caixas-fortes celestiais, ou partes da Acrópole. E ah, sim, aqui também, inevitavelmente, em seguida vinha a enchente das massas, fileiras e mais fileiras de gente comum encimadas por lápides simples ou cruzes mais simples ainda. E aquele era o território dos Phelan.”
Por Cosac Naify
Quinta-feira, 18 fevereiro, 2010, às 18:31
Na recente entrevista que deu ao repórter Fabio Victor do jornal Folha de S.Paulo, William Kennedy conta como conheceu o gonzojornalista Hunter Thompson, elege sua santíssima trindade literária (”Faulkner, Joyce e Salinger”) e fala sobre o que considera ser a melhor sequência para ler os sete livros que compõem o seu ciclo de Albany.
“Acho que ajuda um pouco ler O grande jogo de Billy Phelan antes de Ironweed, porque os eventos daquele ajudam a entender este, mas não é tão necessário. Velhos esqueletos poderia se seguir a Ironweed. O Livro de Quinn pode ser lido a qualquer tempo, assim como Flaming Corsage. Os livros se sustentam sozinhos, não precisam uns dos outros para existir”, declara Mr. Kennedy, por telefone, de sua casa em Albany.
A íntegra do bate-papo você lê aqui.
Por Cosac Naify
Quinta-feira, 11 fevereiro, 2010, às 11:32

William Kenndy diante da casa que inspirou a residência de Billy Phelan e sua irmã Peg, personagens baseados no tio e na mãe do autor. Foto de Sergio Flaksman
O nobre Sergio Flaksman, tradutor de O grande jogo de Billy Phelan, de William Kennedy, encontrou o autor norte-americano em Albany, cidade que foi o cenário para o conjunto de romances que valeu a Kennedy o Pulitzer e elogios de gigantes como Saul Bellow (”Os romances do ciclo de Albany são memoráveis, uma série de livros fora do comum”). Flaksman conheceu locais emblemáticos das vibrantes narrativas criadas por Kennedy e conta, no texto abaixo [publicado no caderno Prosa&Verso do jornal O Globo, em 6/02], detalhes do dia em que passou ao lado de Bill.
*
“Em Albany, um visitante desavisado pode levar algum tempo até perceber os encantos da cidade. Ainda mais se a visita começa em uma tarde fria de janeiro, com o rio Hudson, ao longo do qual corre o trem que me traz de NY, praticamente congelado.
Mas eu vinha percorrendo em pensamento muitas das ruas da cidade nos últimos meses, durante o processo de edição e tradução dos extraordinários romances do Ciclo de Albany, do grande William Kennedy. Não era um visitante desavisado, estava à procura da possível convergência entre a Albany real e o cenário fascinante dos livros de Kennedy.
Quando o táxi se aproximou do centro da cidade, as placas começaram a indicar nomes familiares: Pearl Street, Columbia Avenue, Chapel Street, e finalmente, a First Church, bela e austera igreja bem diante do hotel onde me hospedei por indicação do escritor.
Kennedy chega ao hotel às quatro horas dirigindo um Jaguar X 16 verde, em bom estado.
“Mr. Kennedy?”, pergunto.
“Call me Bill”
De carro, passamos pela antiga estação de trem; pelo trecho de rua onde Francis Phelan, protagonista de Ironweed, participa de uma batalha de rua entre grevistas e policiais; pelo lugar onde ficava um hotel, destruído por um incêndio, onde um casal de personagens se entrega a noites de amor em O grande jogo de Billy Phelan.
Está lá o Erie Canal, aberto no início do século XIX e crucial para o desenvolvimento da cidade, entroncamento do transporte, quase todo fluvial, entre a saída para o mar do porto de Manhattan e a fronteira agrícola que se desenvolvia então no Meio-Oeste. Parte dele cortava a cidade, e Kennedy fala sempre de suas eclusas e barragens (onde seu avô, conta agora, trabalhou como guarda de uma comporta), mas foi simplesmente aterrada e transformada numa rua. O canal continua a existir, mas contorna a cidade a uma certa distância.
Passamos pela rua da infância de Kennedy, onde ele aceita meu tímido convite para posar diante da casa que serve de inspiração para a residência de Billy Phelan e sua irmã no livro. Uma placa de bronze comemora ter sido aquele o endereço de parte da infância e juventude do escritor, inaugurada por ocasião do Pulitzer que Ironweed conquistou em 1984.
A Colonie Street, tão citada nos livros, não existe mais. Cortada por uma série de viadutos, foi reduzida a dois ou três becos muitos separados uns dos outros. Depois de mais um ou dois locais onde tento exercitar uma arqueologia imaginária.
Depois de mais um ou dois locais onde tento exercitar uma arqueologia imaginária minimamente equivalente à do escritor, Kennedy e a mulher me levam ao ponto alto do passeio: o Bar Paradiso, onde foi filmada a famosa sequência de Ironweed, de Hector Babenco, em que Helen/Meryl Streep canta “He’s Me Pal” para os presentes, em homenegem a Francis/Jack Nicholson. Kennedy fala dos dois como de bons amigos.
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| Bar Paradiso, onde foi filmada a famosa sequência de Ironweed (1987), filmado por Hector Babenco |
Depois de mais um ou dois locais onde tento exercitar uma arqueologia imaginária minimamente equivalente à do escritor, Kennedy e a mulher me levam ao ponto alto do passeio: o Bar Paradiso, onde foi filmada a famosa sequência de Ironweed, de Hector Babenco, em que Helen/Meryl Streep canta “He’s Me Pal” para os presentes, em homenagem a Francis/Jack Nicholson. Kennedy fala dos dois como de bons amigos. O bar é uma pérola art nouveau muito bem conservada, repleto de mementos das filmagens, e só ficou aberto naquela tarde/noite porque o dono, Matt, ex-jogador de beisebol do time da cidade, sabia da nossa vinda e estava à espera. Os lustres e as janelas de vitraux são lindos. O balcão, majestoso, é de carvalho com um trilho de metal amarelo para apoio dos pés. As paredes estão cobertas de fotos, desenhos e cartazes, na grande maioria celebrando Ironweed.
Dali, já noite fechada, fomos à casa que Kennedy mantém na cidade, na Dove Street, e que por sua vez é fonte de histórias infinitas. Foi o endereço onde “Legs” Diamond — o maior gângster de Albany na década de 1920 e personagem do primeiro romance de Kennedy passado em Albany, intitulado justamente Legs — acabou assassinado pela polícia em 1931.
Vou à estante e me deparo entre outros com Kurt Vonnegut Jr., J. Hunter Thompson (grande amigo da vida inteira de Kennedy), Tolstói e Borges, de quem Kennedy fala com intensa paixão. Comenta sobre o romances brasileiros que leu e criticou quando escrevia resenhas para sobreviver (Avalovara, Tereza Batista, As meninas); lembra dos encontros que teve no Brasil, em 1986, especialmente com Rubem Fonseca e Nélida Piñon, de quem fala com grande carinho. Tenta se lembrar do nome de Dalton Trevisan (“aquele autor de contos minimalistas que vive meio recluso numa cidade que não é o Rio nem São Paulo”), que acha “assombroso” e lhe foi apresentado pelo tradutor para o inglês, o grande Gregory Rabassa, de quem era amigo, assim como de García Marquez (com quem aliás esteve em Cuba) e tantos outros gigantes.
A noite vai longe. Kennedy é um contador incansável de histórias que se desdobram e se bifurcam numa memória que só falha nos nomes próprios, sempre na presença simpaticíssima de Dana, mulher que Kennedy conheceu nos seus anos de Porto Rico e com quem está casado há mais de 50. Um homem caloroso, generoso e genuinamente modesto, dono de uma obra espetacular. Uma amizade que me honra mais do que sei dizer.”