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  • Minhas derrotas favoritas

    Gol de Paolo Rossi na vitória da Itália sobre o Brasil em 1982

    Tenho a tendência, talvez melancólica, de me lembrar com maior nitidez de tudo que dá errado. Uma viagem onde tudo acontece como previsto costuma desaparecer da memória, enquanto que outras onde tudo deu errado, onde perdi a conexão do avião, desencontrei de um amigo ou passei mal com a comida, permanecem acesas, inesquecíveis.

    Com esse espírito, me lembro pouco ou quase nada dos jogos dos mundiais em que vencemos. Por outro lado, tenho cada cena das derrotas gravadas na retina. Me lembro de onde estava, com quem estava, meus dilemas e questões do momento.

    São duas as frustrações com as Copas do Mundo que me marcaram para sempre. A primeira, em 1974, quando tinha oito anos, a idade do meu filho hoje. Morava numa cidade pequena, no interior de São Paulo. A expectativa era grande, já que iríamos assistir ao jogo pela primeira vez em uma TV a cores, novidade para uma cidade daquele tamanho. Fomos eu e meu pai, convidados para admirar a nova aquisição do amigo dele. Dupla frustração: a seleção foi péssima e na TV a cores só se viam manchas coloridas correndo sobre o fundo verde.

    A segunda e mais dolorida tristeza se deu em 1982. Eu era mais velho, morava em uma cidade maior, e me arriscava com os amigos pelos gramados das redondezas. A seleção daquele ano foi a melhor que já tinha visto jogar na vida. Os brasileiros, e os não brasileiros também, acreditavam, e com razão, que essa era a grande seleção da Copa. Porém, como todos que viveram aquela época irão se lembrar, fomos desclassificados pela Itália. Chorei muito, senti raiva e frustração. Mas foi esse sentimento de torcedor que me alimentou para uma outra batalha. No dia seguinte era eu quem ia jogar, era o meu dia de fazer o gol.

    Acho que as lembranças das derrotas ficam porque nos transformam mais e de uma forma mais profunda do que as vitórias. E isso não apenas no futebol.

    Enquanto os sucessos tendem a reforçar nossas crenças, e têm sua importância na construção da auto-estima, nos fazem querer permanecer onde estamos, já que tudo está dando certo. As derrotas, ao contrário, ao nos levarem ao chão, nos fazem rever o lugar onde construímos a base de nossa segurança. Levantam-se mais fortes os que aprendem a cair, os que fazem dessa queda um motivo para mudança. Toda derrota é também um presente: a chance de recomeçar de outra maneira.

    Foi tudo isso que me serviu de inspiração para o meu livro O presente, que conta através de imagens a história de um menino que assiste a derrota da seleção brasileira. E não acho um livro triste, uma vez que trata do que a dor dessa derrota irá produzir no personagem: a inspiração para a ação. A camisa amarela pendurada na cama, desfalecida, irá ganhar vida novamente com o desempenho do garoto em um jogo de futebol com os amigos.

    Nossas vidas são feitas do equilíbrio entre derrotas e vitórias, que desempenham papéis diferentes. Uma assegura a confiança em nós mesmos, outra, a desconfiança do que já não nos sustenta. Se ganhássemos sempre, estaríamos perdidos.

    *Odilon Moraes é escritor e ilustrador. Pela Cosac Naify, lançou O presenteA princesinha medrosa, Traço e prosa e Pedro e Lua. Também ilustrou O homem que sabia javanês, de Lima Barreto; Ismália, de Alphonsus de Guimaraens; e Será o Benedito!, de Mário de Andrade, entre outros

  • Ilustração genuinamente brasileira

    Eva Furnari

    Devo ter sido um dos primeiros a acompanhar a ansiedade dos três autores em publicar uma obra como Traço e prosa. Quantas vezes ouvi meus colegas Odilon Moraes e Maurício Paraguassu, além da educadora Rona Hanning, lamentarem sobre a falta de publicações regulares do gênero, de teor crítico-literário, que desse conta das raízes, da trajetória, da força e da expressiva expansão da ilustração editorial brasileira.

    Com texto de apresentação do próprio Odilon Moraes, editamos pela Sociedade dos Ilustradores do Brasil [SIB] um catálogo bilíngue que reuniu ilustradores brasileiros de literatura infantojuvenil. A primeira edição esgotou rapidamente. Foi demonstrado que havia uma lacuna a preencher. E que os próprios ilustradores precisavam assumir a frente desse movimento.

    Nelson Cruz

    A partir dos anos 1970, o percurso da ilustração de livros no Brasil ganhou corpo. Nasciam os livros de imagens narrativas, entre os quais aqueles que ousaram dispensar as palavras. Dali por diante, a ilustração brasileira passou a mostrar crescente autonomia, abalar paradigmas, desafiar a crítica e provocar o leitor. E assim temos avançado. Nesse delicioso Traço e prosa, artistas pioneiros na ilustração de livros no Brasil abrem seus ateliês para os três entrevistadores e para nós, leitores cúmplices, revelando seus segredos, histórias, macetes e prazeres. Eva Furnari, Alcy Linares, Ricardo Azevedo e Helena Alexandrino, de São Paulo; Eliardo França, Nelson Cruz, Marilda Castanha e Angela-Lago, de Minas Gerais; Rui de Oliveira, Graça Lima, Mariana Massarari e Roger Mello, do Rio de Janeiro. São autores de produção fértil, inventiva e perene, que têm influenciado muita gente, padrinhos de certas linhagens.

    Eles atendem a uma voz íntima que precisa se fazer ouvir; querem leitores para compartilhar o sublime

    Pela conversa boa e fluente, com o apoio de uma série de ilustrações selecionadas, podemos sentir a luz que cada um emprega em suas obras. Seja fria, quente, negra, média, oblíqua, direta, diagonal ou rebatida. Jamais a mesma luz, pois somos plurais. E assim, singulares. Está aí o motivo da multiplicidade. Impossível deixar de citar aqui o pintor Taunay, que tanto se assustou com a luz dos trópicos. Aos olhos dele, por aqui, tudo brilhava demais. O verde de nossas florestas lhe parecia excessivo. O céu do Rio de Janeiro, exageradamente azul. Os escravos em suas pinturas, não por acaso, são meros borrões.

    Angela-Lago

    Também chama a atenção na leitura do livro o imenso prazer que transborda das conversas, ainda que sejam tão distintos os caminhos, as dúvidas e as angústias de cada ilustrador. Na complexa sociedade em que vivemos apressados, sob a égide do consumo, sob as bênçãos da razão, do capital e das políticas de resultado, foi com gosto e alívio que devorei o livro. Percebo que não é o ofício que move meus colegas. Eles atendem a uma voz íntima que precisa se fazer ouvir. Querem leitores para compartilhar o sublime. Mas não fazem pose para agradar. São amadores, no melhor sentido do termo. Ilustram por esse propósito.

    Inspiram outros ilustradores, como eu e tantos, mesmo sem querer, ao impedir que a profissão sufoque a paixão de ilustrar por amor inato aos livros, à infância, às histórias contadas ou interpretadas de alguma forma, à vida. Traço e prosa oferece ao leitor saborosos depoimentos dessa arte maior brasileira que é a ilustração de livros. É ler para ver!

    *Mauricio Negro é ilustrador e associado da Sociedade dos Ilustradores do
    Brasil (SIB)

  • A arte da ilustração e o livro ilustrado

    Imagens e trechos do texto de apresentação do livro Traço e prosa, dos autores Odilon Moraes, Rona Hanning e Maurício Paraguassu. O livro reúne depoimentos, em primeira pessoa, de doze dos mais importantes ilustradores de livros infantojuvenis brasileiros: Eva Furnari, Alcy Linares, Ricardo Azevedo, Helena Alexandrino, Eliardo França, Nelson Cruz, Marilda Castanha, Angela Lago, Rui de Oliveira, Graça Lima, Mariana Massarari e Roger Mello.

    Eliardo França

    Este livro busca entender a arte da ilustração e o livro ilustrado a partir de conversas em ateliês de renomados ilustradores, na companhia de suas obras.

    Quando recebemos o convite para realizar este projeto, nossa principal dúvida era definir o melhor formato. Uma ideia, dentre muitas, logo se mostrou a mais atraente. Pensamos em algo que permitisse construir um esboço de pensamento sobre essa arte a partir de quem os produz.

    Rui de Oliveira

    Fugiríamos da tentativa de trazer uma uniformidade nesta discussão, dando voz a diferentes e conflitantes visões do que seria o ofício do ilustrador

    (…) Achamos importante manter uma forte característica desta área no Brasil, que é a multiplicidade de estilos de desenho, de apropriação das páginas e de propostas de linguagens. Fugiríamos da tentativa de trazer uma uniformidade nesta discussão, dando voz a diferentes e, muitas vezes, conflitantes visões do que seria o ofício do ilustrador.

    Eva Furnari

    (…) A extensa e reconhecida trajetória dos entrevistados foi fundamental para nos revelar pontos importantes da história do livro ilustrado no Bra- sil desde os anos de 1970, com testemunhos de ilustradores que participaram efetivamente da construção do cenário em que vivemos hoje.

    Marilda Castanha

    (…) Nossa vontade foi a de contribuir para a discussão em torno da ideia do que seja o livro ilustrado, de poder abrir espaço para que outras pesquisas sejam produzidas e também testemunhar o surgimento de novos talentos, que certamente serão referência obrigatória para futuros inte- ressados de um debate que cresceu de maneira surpreendente desde o início deste projeto em 2005.

    Roger Mello

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    Lançamento Traço e prosa
    Dia 5/11, segunda-feira, às 19h30
    Bate-papo entre Odilon Moraes, Rona Hanning e Maurício Paraguassu, entrevistadores do livro, e Edmir Perrotti, professor doutor da ECA-USP
    Centro Universitário Maria Antonia – USP, São Paulo (SP)

  • Uma homenagem à infância

    O lançamento de Será o Benedito!, crônica de Mário de Andrade ilustrada por Odilon Moraes, representou um marco editorial para a Cosac Naify, e sobretudo para a coleção Dedinho de Prosa. Publicada no suplemento literário do jornal O Estado de S. Paulo, em 1939, o texto leve, com pitadas de humor, evoca um prosador de mão cheia.

    Em tom de conversa, Mário conduz o leitor por uma viagem ao interior de São Paulo, à Fazenda Larga. Longe dos arranha-céus e dos chauffeurs, o homem da cidade conhece o garoto Benedito, ”nos seus treze anos de carreiras livres pelo campo“. A cerca que separa a casa-grande do vasto gramado é o obstáculo a ser transposto em busca de uma amizade.

    O trabalho de edição deste livro incluiu um longo período de maturação e muita pesquisa. Odilon Moraes passou mais de um ano até encontrar o tom certo das “enormes pastagens” e do “céu violento de setembro”. Como ele mesmo relata, em depoimento incluído no livro: “A separação dos dois universos – cidade e natureza – construída ao longo do texto é traduzida nos contrastes entre plano e fundo, sombra e luz, dentro e fora, recursos próprios da imagem:”. Além deste desafio, Odilon também teve de captar a troca de olhares entre o menino e o homem, passagem importante do texto que marca a aproximação entre eles. E optou, ainda, por retratar seu personagem como o próprio Mário de Andrade.
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    Mario de Andrade

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    A chancela do selo “Altamente recomendável” oferecido pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), a seleção por importantes programas de governo, como o PNLD e o da Fundação Biblioteca Nacional, e o reconhecimento da imprensa são uma pequena amostra da importância da publicação:

    “O ilustrador Odilon Moraes [...] tratou com sutileza essa crônica, que faz o elogio do transculturalismo muito antes desse palavrão virar moda.”
    Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

    “A interação entre imagem e texto ajuda o leitor – de qualquer idade – a mergulhar numa história que revela, de forma bem-humorada e lírica, as ideias de um escritor modernista que encarava, com certa angústia, a chegada dos tempos modernos.”
    Mànya Millen, O Globo

    “Será o Benedito! é uma obra onde aquilo que fica no ar é o que merece atenção. Seja com os pés no asfalto, seja com os pés na terra.”
    Marcos Losnak, Folha de Londrina

    Ninguém sabe ao certo se o garoto Benedito realmente existiu, mas a lição que ele nos passa é mais do que verdadeira.

  • Escolhidos a dedo

    Ilustração de Odilon Moraes para o livro O presente dos magos, de O. Henry

    Em comemoração aos dez anos da coleção Dedinho de Prosa, a partir de hoje, a Cosac Naify publicará aqui no blog dez posts que resgatam a história editorial de cada livro desta seleta biblioteca universal para o jovem leitor, que privilegia autores fundamentais da literatura brasileira e estrangeira, em contos, crônicas e poesia.

    A coleção, que  surgiu em 2002 com a publicação de Contos de escola (Machado de Assis, ilustrações de Nelson Cruz), já vendeu mais de 69 mil exemplares e é adotada nas escolas de todo o país.

    Originalmente concebida por um ilustrador e um poeta, os grandes diferenciais das edições são as cuidadosas traduções e as artísticas ilustrações, predominantes nas páginas dos livros, acomodadas em um projeto gráfico generoso.

    Por isso, inauguramos a sequência de posts com um depoimento do coordenador da coleção e autor da casa Odilon Moraes:

    “A Dedinho de Prosa foi criada há dez anos, pelo então editor Augusto Massi, com um claro propósito: juntar literatura e literatura infantil. Ao invés de adaptar ou recontar clássicos adultos para torná-los acessíveis ao público jovem, a coleção optou por outro caminho. Um que atingisse o jovem leitor em formação sem, no entanto, perder o público adulto, que rejeita adaptações. No lugar delas, textos integrais e curtos de grandes autores clássicos. Curtos o suficiente para serem decupados em pequenas partes e acompanhados de muitas imagens.

    Semelhantes aos livros infantis que hoje são denominados de livros ilustrados, com pouco texto escrito, as narrativas conduzem o leitor pelas imagens. Nesses livros, tanto o adulto pode admirar um conto ilustrado e divertir-se com a interpretação dada pelo ilustrador, como os jovens, sem perceber, entrariam em contato com textos de importantes autores, amparados pelas imagens.

    Sem determinar seu público leitor (infantil ou adulto), a coleção teve a preocupação de aproximar essas fronteiras sob um denominador comum que é a literatura.”

  • Os encontros de Suzy Lee


    Os livros da trilogia sem palavras de Suzy Lee são daqueles tipos de obra que nos enganam com sua aparente simplicidade. Mas é através desta simplicidade traduzida em desenhos à lápis (que mais lembram rascunhos) que somos levados a outras experiências sensíveis de leitura.

    A autora utiliza o meio do livro – muita gente não se lembra de que todo livro aberto é uma justaposição de páginas – para representar metaforicamente, na narrativa, encontros de duas realidades.

    No livro Onda, a personagem se depara com o mar. É o encontro com o outro. A costura do livro divide o lado da areia do lado da água.



    Em Espelho, a personagem se encontra consigo mesma (ou seu duplo). Novamente o centro do livro demarca o limite do “eu” de sua projeção ou reflexo.



    Por fim, em Sombra, separados pela costura, estão o instituído pelo real e, como seu avesso, o imaginário. Aqui a personagem se encontra com a fantasia.

    A grande genialidade dessa trilogia está em fazer do livro e suas características formais ingredientes, ou melhor, agentes da história. Curioso ainda é que a grande virada na narrativa das três obras é o momento em que, exatamente o meio, a costura, deixa de ser intransponível e se abre para proporcionar a experiência do encontro de universos distintos.

    Quando Suzy Lee fala de seu ofício, diz ser artista, não escritora. Tive a oportunidade de ouvi-la dizer isso o ano passado, quando a encontrei em São Paulo. Pessoalmente, não me convenço de sua autoclassificação. Creio que o que Suzy Lee faz em seus livros sem palavras é proporcionar o encontro da arte com literatura ao usar o desenho como forma de escrita.


    *Odilon Moraes é escritor e ilustrador. Pela Cosac Naify, lançou O presente, A princesinha medrosa e Pedro e Lua. Também ilustrou O homem que sabia javanês, de Lima Barreto; Ismália, de Alphonsus de Guimaraens; e Será o Benedito!, de Mário de Andrade, entre outros

  • O presente de Odilon

    Ilustração final e rascunho para o livro-imagem de Odilon Moraes

    Ilustração final e rascunho para o livro-imagem de Odilon Moraes


    Ao realizar o livro-imagem O presente, Odilon Moraes não queria fazer um livro sobre futebol. E, mesmo após o trabalho acabado, não se deu conta de que o havia feito. O estalo surgiu durante a conversa com um amigo, a quem apresentou os rascunhos da obra. Depois de observar as ilustrações que narram a história de um garoto que, em tempos de Copa do Mundo, vive momentos de alegria, frustração e surpresa, o amigo falou das vezes em que assistiu às partidas de futebol de seu filho e da cumplicidade em dar-lhe instruções na beira do gramado.

    “Quando o trabalho está pronto, você se torna leitor de tudo o que escreve, seja em palavras, seja em imagens. Então também começa a descobrir coisas que nem sabe se quis dizer ou não, mas estão lá. Como se existisse uma escrita dentro da escrita”, diz Odilon.  O presentecujo lançamento ocorre neste sábado, 22/5 – talvez seja um livro sobre futebol, mas também pode ser sobre amizade, lembranças e amadurecimento. É um tema presente no livro, mas funciona como o centroavante que dá o passe para outras jogadas, como analisa o psicanalista Tales A. M. Ab’Sáber no texto de quarta capa do livro,  reproduzido aqui:

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    Das primeiras brincadeiras dos ainda bebês de chutar a bola, por vezes com camisas de clubes maiores do que eles próprios, até a emergência para muitas crianças da paixão incondicional por seu time, temos uma das mais complexas formações, e formação de compromisso, que a cultura e a sociedade brasileira foram capazes de produzir. Por isso, O presente de Odilon Moraes pode prescindir da palavra, e ainda assim nos falar tão de perto. O despertar do amor ao futebol se confunde com o despertar da própria consciência de si. É de fato uma formação de si. Formação onde a vida, com o jogo, colocará, exatamente, a vida em jogo.


    Tales A. M. Ab’Sáber


    O presente será lançado neste sábado, com a presença de Odilon Moraes.
    Sábado, 22 de maio, às 15h
    + sessão de autógrafos e oficina de ilustrações
    Saraiva Megastore Higienópolis