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  • Ilustração genuinamente brasileira

    Eva Furnari

    Devo ter sido um dos primeiros a acompanhar a ansiedade dos três autores em publicar uma obra como Traço e prosa. Quantas vezes ouvi meus colegas Odilon Moraes e Maurício Paraguassu, além da educadora Rona Hanning, lamentarem sobre a falta de publicações regulares do gênero, de teor crítico-literário, que desse conta das raízes, da trajetória, da força e da expressiva expansão da ilustração editorial brasileira.

    Com texto de apresentação do próprio Odilon Moraes, editamos pela Sociedade dos Ilustradores do Brasil [SIB] um catálogo bilíngue que reuniu ilustradores brasileiros de literatura infantojuvenil. A primeira edição esgotou rapidamente. Foi demonstrado que havia uma lacuna a preencher. E que os próprios ilustradores precisavam assumir a frente desse movimento.

    Nelson Cruz

    A partir dos anos 1970, o percurso da ilustração de livros no Brasil ganhou corpo. Nasciam os livros de imagens narrativas, entre os quais aqueles que ousaram dispensar as palavras. Dali por diante, a ilustração brasileira passou a mostrar crescente autonomia, abalar paradigmas, desafiar a crítica e provocar o leitor. E assim temos avançado. Nesse delicioso Traço e prosa, artistas pioneiros na ilustração de livros no Brasil abrem seus ateliês para os três entrevistadores e para nós, leitores cúmplices, revelando seus segredos, histórias, macetes e prazeres. Eva Furnari, Alcy Linares, Ricardo Azevedo e Helena Alexandrino, de São Paulo; Eliardo França, Nelson Cruz, Marilda Castanha e Angela-Lago, de Minas Gerais; Rui de Oliveira, Graça Lima, Mariana Massarari e Roger Mello, do Rio de Janeiro. São autores de produção fértil, inventiva e perene, que têm influenciado muita gente, padrinhos de certas linhagens.

    Eles atendem a uma voz íntima que precisa se fazer ouvir; querem leitores para compartilhar o sublime

    Pela conversa boa e fluente, com o apoio de uma série de ilustrações selecionadas, podemos sentir a luz que cada um emprega em suas obras. Seja fria, quente, negra, média, oblíqua, direta, diagonal ou rebatida. Jamais a mesma luz, pois somos plurais. E assim, singulares. Está aí o motivo da multiplicidade. Impossível deixar de citar aqui o pintor Taunay, que tanto se assustou com a luz dos trópicos. Aos olhos dele, por aqui, tudo brilhava demais. O verde de nossas florestas lhe parecia excessivo. O céu do Rio de Janeiro, exageradamente azul. Os escravos em suas pinturas, não por acaso, são meros borrões.

    Angela-Lago

    Também chama a atenção na leitura do livro o imenso prazer que transborda das conversas, ainda que sejam tão distintos os caminhos, as dúvidas e as angústias de cada ilustrador. Na complexa sociedade em que vivemos apressados, sob a égide do consumo, sob as bênçãos da razão, do capital e das políticas de resultado, foi com gosto e alívio que devorei o livro. Percebo que não é o ofício que move meus colegas. Eles atendem a uma voz íntima que precisa se fazer ouvir. Querem leitores para compartilhar o sublime. Mas não fazem pose para agradar. São amadores, no melhor sentido do termo. Ilustram por esse propósito.

    Inspiram outros ilustradores, como eu e tantos, mesmo sem querer, ao impedir que a profissão sufoque a paixão de ilustrar por amor inato aos livros, à infância, às histórias contadas ou interpretadas de alguma forma, à vida. Traço e prosa oferece ao leitor saborosos depoimentos dessa arte maior brasileira que é a ilustração de livros. É ler para ver!

    *Mauricio Negro é ilustrador e associado da Sociedade dos Ilustradores do
    Brasil (SIB)

  • A arte da ilustração e o livro ilustrado

    Imagens e trechos do texto de apresentação do livro Traço e prosa, dos autores Odilon Moraes, Rona Hanning e Maurício Paraguassu. O livro reúne depoimentos, em primeira pessoa, de doze dos mais importantes ilustradores de livros infantojuvenis brasileiros: Eva Furnari, Alcy Linares, Ricardo Azevedo, Helena Alexandrino, Eliardo França, Nelson Cruz, Marilda Castanha, Angela Lago, Rui de Oliveira, Graça Lima, Mariana Massarari e Roger Mello.

    Eliardo França

    Este livro busca entender a arte da ilustração e o livro ilustrado a partir de conversas em ateliês de renomados ilustradores, na companhia de suas obras.

    Quando recebemos o convite para realizar este projeto, nossa principal dúvida era definir o melhor formato. Uma ideia, dentre muitas, logo se mostrou a mais atraente. Pensamos em algo que permitisse construir um esboço de pensamento sobre essa arte a partir de quem os produz.

    Rui de Oliveira

    Fugiríamos da tentativa de trazer uma uniformidade nesta discussão, dando voz a diferentes e conflitantes visões do que seria o ofício do ilustrador

    (…) Achamos importante manter uma forte característica desta área no Brasil, que é a multiplicidade de estilos de desenho, de apropriação das páginas e de propostas de linguagens. Fugiríamos da tentativa de trazer uma uniformidade nesta discussão, dando voz a diferentes e, muitas vezes, conflitantes visões do que seria o ofício do ilustrador.

    Eva Furnari

    (…) A extensa e reconhecida trajetória dos entrevistados foi fundamental para nos revelar pontos importantes da história do livro ilustrado no Bra- sil desde os anos de 1970, com testemunhos de ilustradores que participaram efetivamente da construção do cenário em que vivemos hoje.

    Marilda Castanha

    (…) Nossa vontade foi a de contribuir para a discussão em torno da ideia do que seja o livro ilustrado, de poder abrir espaço para que outras pesquisas sejam produzidas e também testemunhar o surgimento de novos talentos, que certamente serão referência obrigatória para futuros inte- ressados de um debate que cresceu de maneira surpreendente desde o início deste projeto em 2005.

    Roger Mello

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    Lançamento Traço e prosa
    Dia 5/11, segunda-feira, às 19h30
    Bate-papo entre Odilon Moraes, Rona Hanning e Maurício Paraguassu, entrevistadores do livro, e Edmir Perrotti, professor doutor da ECA-USP
    Centro Universitário Maria Antonia – USP, São Paulo (SP)

  • Uma homenagem à infância

    O lançamento de Será o Benedito!, crônica de Mário de Andrade ilustrada por Odilon Moraes, representou um marco editorial para a Cosac Naify, e sobretudo para a coleção Dedinho de Prosa. Publicada no suplemento literário do jornal O Estado de S. Paulo, em 1939, o texto leve, com pitadas de humor, evoca um prosador de mão cheia.

    Em tom de conversa, Mário conduz o leitor por uma viagem ao interior de São Paulo, à Fazenda Larga. Longe dos arranha-céus e dos chauffeurs, o homem da cidade conhece o garoto Benedito, ”nos seus treze anos de carreiras livres pelo campo“. A cerca que separa a casa-grande do vasto gramado é o obstáculo a ser transposto em busca de uma amizade.

    O trabalho de edição deste livro incluiu um longo período de maturação e muita pesquisa. Odilon Moraes passou mais de um ano até encontrar o tom certo das “enormes pastagens” e do “céu violento de setembro”. Como ele mesmo relata, em depoimento incluído no livro: “A separação dos dois universos – cidade e natureza – construída ao longo do texto é traduzida nos contrastes entre plano e fundo, sombra e luz, dentro e fora, recursos próprios da imagem:”. Além deste desafio, Odilon também teve de captar a troca de olhares entre o menino e o homem, passagem importante do texto que marca a aproximação entre eles. E optou, ainda, por retratar seu personagem como o próprio Mário de Andrade.
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    Mario de Andrade

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    A chancela do selo “Altamente recomendável” oferecido pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), a seleção por importantes programas de governo, como o PNLD e o da Fundação Biblioteca Nacional, e o reconhecimento da imprensa são uma pequena amostra da importância da publicação:

    “O ilustrador Odilon Moraes [...] tratou com sutileza essa crônica, que faz o elogio do transculturalismo muito antes desse palavrão virar moda.”
    Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

    “A interação entre imagem e texto ajuda o leitor – de qualquer idade – a mergulhar numa história que revela, de forma bem-humorada e lírica, as ideias de um escritor modernista que encarava, com certa angústia, a chegada dos tempos modernos.”
    Mànya Millen, O Globo

    “Será o Benedito! é uma obra onde aquilo que fica no ar é o que merece atenção. Seja com os pés no asfalto, seja com os pés na terra.”
    Marcos Losnak, Folha de Londrina

    Ninguém sabe ao certo se o garoto Benedito realmente existiu, mas a lição que ele nos passa é mais do que verdadeira.

  • Escolhidos a dedo

    Ilustração de Odilon Moraes para o livro O presente dos magos, de O. Henry

    Em comemoração aos dez anos da coleção Dedinho de Prosa, a partir de hoje, a Cosac Naify publicará aqui no blog dez posts que resgatam a história editorial de cada livro desta seleta biblioteca universal para o jovem leitor, que privilegia autores fundamentais da literatura brasileira e estrangeira, em contos, crônicas e poesia.

    A coleção, que  surgiu em 2002 com a publicação de Contos de escola (Machado de Assis, ilustrações de Nelson Cruz), já vendeu mais de 69 mil exemplares e é adotada nas escolas de todo o país.

    Originalmente concebida por um ilustrador e um poeta, os grandes diferenciais das edições são as cuidadosas traduções e as artísticas ilustrações, predominantes nas páginas dos livros, acomodadas em um projeto gráfico generoso.

    Por isso, inauguramos a sequência de posts com um depoimento do coordenador da coleção e autor da casa Odilon Moraes:

    “A Dedinho de Prosa foi criada há dez anos, pelo então editor Augusto Massi, com um claro propósito: juntar literatura e literatura infantil. Ao invés de adaptar ou recontar clássicos adultos para torná-los acessíveis ao público jovem, a coleção optou por outro caminho. Um que atingisse o jovem leitor em formação sem, no entanto, perder o público adulto, que rejeita adaptações. No lugar delas, textos integrais e curtos de grandes autores clássicos. Curtos o suficiente para serem decupados em pequenas partes e acompanhados de muitas imagens.

    Semelhantes aos livros infantis que hoje são denominados de livros ilustrados, com pouco texto escrito, as narrativas conduzem o leitor pelas imagens. Nesses livros, tanto o adulto pode admirar um conto ilustrado e divertir-se com a interpretação dada pelo ilustrador, como os jovens, sem perceber, entrariam em contato com textos de importantes autores, amparados pelas imagens.

    Sem determinar seu público leitor (infantil ou adulto), a coleção teve a preocupação de aproximar essas fronteiras sob um denominador comum que é a literatura.”

  • Os encontros de Suzy Lee


    Os livros da trilogia sem palavras de Suzy Lee são daqueles tipos de obra que nos enganam com sua aparente simplicidade. Mas é através desta simplicidade traduzida em desenhos à lápis (que mais lembram rascunhos) que somos levados a outras experiências sensíveis de leitura.

    A autora utiliza o meio do livro – muita gente não se lembra de que todo livro aberto é uma justaposição de páginas – para representar metaforicamente, na narrativa, encontros de duas realidades.

    No livro Onda, a personagem se depara com o mar. É o encontro com o outro. A costura do livro divide o lado da areia do lado da água.



    Em Espelho, a personagem se encontra consigo mesma (ou seu duplo). Novamente o centro do livro demarca o limite do “eu” de sua projeção ou reflexo.



    Por fim, em Sombra, separados pela costura, estão o instituído pelo real e, como seu avesso, o imaginário. Aqui a personagem se encontra com a fantasia.

    A grande genialidade dessa trilogia está em fazer do livro e suas características formais ingredientes, ou melhor, agentes da história. Curioso ainda é que a grande virada na narrativa das três obras é o momento em que, exatamente o meio, a costura, deixa de ser intransponível e se abre para proporcionar a experiência do encontro de universos distintos.

    Quando Suzy Lee fala de seu ofício, diz ser artista, não escritora. Tive a oportunidade de ouvi-la dizer isso o ano passado, quando a encontrei em São Paulo. Pessoalmente, não me convenço de sua autoclassificação. Creio que o que Suzy Lee faz em seus livros sem palavras é proporcionar o encontro da arte com literatura ao usar o desenho como forma de escrita.


    *Odilon Moraes é escritor e ilustrador. Pela Cosac Naify, lançou O presente, A princesinha medrosa e Pedro e Lua. Também ilustrou O homem que sabia javanês, de Lima Barreto; Ismália, de Alphonsus de Guimaraens; e Será o Benedito!, de Mário de Andrade, entre outros

  • O presente de Odilon

    Ilustração final e rascunho para o livro-imagem de Odilon Moraes

    Ilustração final e rascunho para o livro-imagem de Odilon Moraes


    Ao realizar o livro-imagem O presente, Odilon Moraes não queria fazer um livro sobre futebol. E, mesmo após o trabalho acabado, não se deu conta de que o havia feito. O estalo surgiu durante a conversa com um amigo, a quem apresentou os rascunhos da obra. Depois de observar as ilustrações que narram a história de um garoto que, em tempos de Copa do Mundo, vive momentos de alegria, frustração e surpresa, o amigo falou das vezes em que assistiu às partidas de futebol de seu filho e da cumplicidade em dar-lhe instruções na beira do gramado.

    “Quando o trabalho está pronto, você se torna leitor de tudo o que escreve, seja em palavras, seja em imagens. Então também começa a descobrir coisas que nem sabe se quis dizer ou não, mas estão lá. Como se existisse uma escrita dentro da escrita”, diz Odilon.  O presentecujo lançamento ocorre neste sábado, 22/5 – talvez seja um livro sobre futebol, mas também pode ser sobre amizade, lembranças e amadurecimento. É um tema presente no livro, mas funciona como o centroavante que dá o passe para outras jogadas, como analisa o psicanalista Tales A. M. Ab’Sáber no texto de quarta capa do livro,  reproduzido aqui:

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    Das primeiras brincadeiras dos ainda bebês de chutar a bola, por vezes com camisas de clubes maiores do que eles próprios, até a emergência para muitas crianças da paixão incondicional por seu time, temos uma das mais complexas formações, e formação de compromisso, que a cultura e a sociedade brasileira foram capazes de produzir. Por isso, O presente de Odilon Moraes pode prescindir da palavra, e ainda assim nos falar tão de perto. O despertar do amor ao futebol se confunde com o despertar da própria consciência de si. É de fato uma formação de si. Formação onde a vida, com o jogo, colocará, exatamente, a vida em jogo.


    Tales A. M. Ab’Sáber


    O presente será lançado neste sábado, com a presença de Odilon Moraes.
    Sábado, 22 de maio, às 15h
    + sessão de autógrafos e oficina de ilustrações
    Saraiva Megastore Higienópolis