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    Teatro pós-dramático



    Quem frequentava os teatros nos anos 1970, sobretudo na Europa, podia não saber, mas estava diante de profundas transformações no modo de pensar e apresentar a arte teatral. O que se anunciava era a ruptura com a estética dos padrões midiáticos, além do questionamento dos recursos formais, que enveredavam pela autonomia da cena em relação ao texto. Também cabem nesta implosão as noções dramáticas de representação de mundo e a dinâmica entre imitação e ação. Neste novo cenário, os espectadores eram chacoalhados em várias direções, isso sim era evidente.

    Este movimento é chamado de “teatro pós-dramático” pelo crítico e dramaturgo alemão Hans-Thies Lehmann, 65, que está no Brasil a convite do Instituto Goethe de São Paulo para participar do debate “Perspectivas pós-coloniais do teatro contemporâneo”, hoje, às 19h.

    Lehmann é professor de Estudos Teatrais da Universidade Johann Wolfgang Goethe, em Frankfurt, e membro da Academia Alemã de Artes Cênicas. Pela Cosac Naify, publicou, em 2007, o livro Teatro pós-dramático (tradução de Pedro Süssekind), no qual oferece um vasto panorama dos processos teatrais dos anos 1970 aos 90, pontuando a utilização de tecnologias audiovisuais e a incorporação de elementos das artes plásticas, música, dança, cinema, vídeo e performance. Teatro pós-dramático é o 11º título da coleção Cinema, Teatro e Modernidade, com coordenação de Ismail Xavier.

    Em entrevista a Lucas Neves, para o caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo de hoje, Hans-Thies Lehmann refaz a ligação do teatro com as origens desta arte, uma volta à ideia de encontros e festividade, e situa o texto em relação às novas tecnologias. Leia, abaixo, um trecho da entrevista.

    *

    Folha – Na introdução ao livro Teatro pós-dramático, o senhor observa que o teatro deixou de ser uma arte de massa. Pode ele ainda hoje ser relevante, impactar a sociedade?
    Hans-Thies Lehmann – Sim. Acredito no futuro do teatro como uma prática artística e social. Muitos acham que o seu futuro está em manter a dimensão literária, o classicismo. É assim que poderia reagir à cultura midiática, com sua velocidade e virtualidade. Não acredito que esse seja de fato seu futuro. Quando uso o termo “pós-dramático”, me refiro ao teatro europeu desde os anos 60 e 70, enlaçado em redes midiáticas, que tem de encontrar seu lugar e se afasta da estrutura dramática tradicional.
    Mas há uma segunda acepção do termo: estamos regressando a uma ideia muito mais ampla do que seja o teatro, com elementos de ritual, de encontros comunitários, de festividade. É o futuro que deixamos para trás.

    Folha – O senhor entende o teatro pós-dramático como resposta à era da imagem, em que novas tecnologias põem fim ao primado do texto. Mas não se pode ver também como concessão, rendição a ela?
    Há esse perigo. Sei que a descoberta dessa grande variedade de linguagens cênicas pode desaguar num entretenimento mainstream. Não acredito que um conceito teórico seja o suficiente para produzir bom teatro.
    Muitas técnicas e estilos do pós-dramático foram aceitos como expressão autêntica e interessante de nosso tempo. Há mesmo quem tenha assumido o pós-dramático como discurso para fugir dos vícios do teatro dramático das grandes instituições. Mas não há teatro político que não seja visualmente incômodo, atordoante.



    Perspectivas pós-coloniais do teatro contemporâneo
    com Hans-Thies Lehmann
    Instituto Goethe de São Paulo, hoje, às 19h
    R. Lisboa, 974, Pinheiros – São Paulo (SP)
    Grátis