Por Cosac Naify
Quarta-feira, 17 março, 2010, às 16:41
Dando continuidade à nossa expedição pela Rue Vaneau, publicamos hoje a segunda parte das andanças da escritora gaúcha Carol Bensimon pela rua que persegue Vila-Matas em Doutor Pasavento.

“Decido guardar a radiografia e deixar a Rue Vaneau. No entanto, antes de chegar a Rue de Sèvres, onde devo pegar o metrô para voltar para casa, sou atraída por outro detalhe insólito: no corpo de um velho hotel outrora chamado Jeanne d’Arc - sei disso porque o nome está gravado na pedra – há agora o que parece ser a casa de alguém muito peculiar. Entre a cortina e o vidro, vejo um quadro repleto de fotografias claramente amadoras. Plantas, periquitos, caravelas em miniatura (!), um homem na praia. Em outro, ao lado de uma gaiola de verdade onde há um passarinho de verdade, a foto de uma mulher tocando violão e sorrindo ocupa quase todo o espaço. Quem é essa mulher? O que fazem aqui na Rue Vaneau, nesse bairro aristocrata, eles que tem o hábito nada francês de expôr assim a vida? Será esse um pedaço de América Latina?
É muito comovente e um pouco constrangedor quando a saudade atinge níveis tão altos, e que então é preciso expôr o seu paraíso abandonado para quem passa, como se fosse um pedido de compreensão (vim de lá, me perdoe) misturado com orgulho indisfarçável (conheço um mundo um tanto mais colorido do que o seu).

É só no dia seguinte que volto a pensar na Rue Vaneau. A tarde está cinza, e não há nenhuma perspectiva de que o sol volte a aparecer essa semana. O fato de eu não encontrar o Sr. Luthringer no Google quase me convence de que ele está mesmo morto. Escrevo para um médico, ou melhor, para dois (um dos quais é meu pai), pedindo detalhes sobre o raio-x. O diagnóstico do gastroenterologista termina com pura poesia: “Não evidencio patologia neste exame. As alterações anatômicas encontradas (estômago mais comprido que o usual) não caracteriza nem hérnia, nem outra coisa. Talvez um indivíduo longilíneo”.

A palavra “longilíneo” me convence de que é necessário pôr um fim em tudo. Além do mais, é desagradável estar lidando com o esôfago, o estômago e o duodeno de alguém. Logo eu, que nunca tive vocação para seguir os passos de meus pais, devido à minha incapacidade completa em admitir que somos seres feitos de órgãos – órgãos e sangue e ossos, em bom ou mau funcionamento.
No fim de tarde, frio cortante, limito-me aos deslocamentos dentro de minha jurisdição. Minha Paris é uma piscina pública e seu coqueiro de plástico dentro de um shopping center subterrâneo.”
Por Cosac Naify
Terça-feira, 16 março, 2010, às 17:21
“Descreva sua rua. Descreva outra rua qualquer. Depois, compare.” A instrução é de Georges Perec e, em Doutor Pasavento, o escritor espanhol Enrique Vila-Matas elege uma rua para descrever, uma rua de Paris, a Rue Vaneau.
A rua ocupa bons quarteirões da primeira parte do livro, e hospedado no Hôtel de Suède (“el hotel pertenece al mundo real, pero también al de las ficciones”), o protagonista de Doutor Pasavento coloca em marcha “uma transcrição fiel do que percebi na Rue Vaneau ao longo dos três dias em que fiquei por ali”.
Nas suas andanças, Pasavento anota que no número I bis viveu André Gide; no 20 fica a embaixada da Síria; no 24, uma mansão onde morou Antoine de Saint-Exupéry; e no 25, a histórica (“histórica porque assim dizia a internet”) farmácia Dupeyroux. E diz que o “estranho e profundo silêncio da Rue Vaneau ocultava algo como o infernal e surdo horror de mundos à beira do grito, mundos muito reprimidos e calados a ponto de explodir”.
Com o espírito do desafio lançado por Perec, convidamos a escritora Carol Bensimon, que faz doutorado em literatura comparada na Sorbonne Nouvelle (sobre um tema bastante vilamatasiano, “o personagem ausente”), a empreender nova expedição pela Rue Vaneau. Nela, Carol investiga a rua de Vila-Matas e tenta encontrar sua própria Rue Vaneau.
Carol Bensimon é autora de Sinuca embaixo d’água (Companhia das Letras) e Pó de parede (Não Editora) e escreve sobre suas aventuras parisienses aqui.
A segunda e derradeira parte do texto será publicada amanhã, aqui no blog. As fotos da Rue Vaneau são da própria Carol.
“Para ir à Rue Vaneau, escolho um dia de sol, ou melhor, deixo que ele se apresente mesmo que isso leve semanas, e só então tomo o metrô com aquela atenção de quem procura o belo no banal ou o banal no belo, os pequenos dramas e os sentidos da vida, e talvez uma ponta de bigode que lembre o de André Gide em 1893. Isso porque minha missão, ao visitar a Rue Vaneau, é inserir-me nos mistérios, complôs e intrincadas relações literárias do universo de Vila-Matas. Estarei assim adicionando mais uma camada de significação a Doutor Pasavento, ou será essa apenas uma pretensão de jovem escritora latino-americana?
É domingo de Saint-Valentin. Se ao menos alguém decidisse ignorar esse fato e abrisse no metrô algum livro ou jornal, e daí bastaria um Marx, um Gide, um Lobo Antunes, uma menção à Síria, e a Rue Vaneau já estaria aqui comigo antes de eu propriamente chegar até ela. Fazia tempo que eu não pegava o metrô. Minha vida acontece em um círculo cujo centro é a Île de la Cité, como se não fosse possível afastar-me do Sena mais do que um quilômetro. Ainda assim, ando sempre atrás da Paris literária que me cabe. Mesmo jovem, mesmo brasileira, mesmo com percursos por vezes tão limitados, busco minha Rue Vaneau, minha fonte de fora-do-comum, meus 400 metros de literatura.

Mas aqui estou agora na rua de Vila-Matas, e lá se vai uma quadra antes que eu perceba o que já estava dito no início da sentença. É um lugar que já tem dono. Talvez não propriamente a rua toda, mas é verdade que o Doutor Pasavento levou dela muita coisa, e portanto não é possível passar por aquela Rue Vaneau. Melhor: como se a entidade Rue Vaneau decidisse, a cada passada de escritor ou poeta, criar um esquema, um diagrama único de claros e escuros, evidenciando elementos e escondendo outros. E não é que fisicamente os marcos do catalão tenham desaparecido, apenas que a aura de mistério recusa-se a se mostrar para mim.
Lá está o Hôtel de Suède com as cortinas tapando uma Paris (de motivos florais nas paredes e toalhas bordadas) que me é inacessível. A mansão das três sombras, com um recuo considerável em relação à calçada (coisa rara), e segurança digna de terceiro mundo. A farmácia Dupeyroux. O apartamento de Gide. O apartamento de Marx. As coisas todas imóveis, como um criminoso que disfarça parado na esquina, assobiando uma velha canção.

A Embaixada da Síria é uma fortaleza sem guardas. A bandeira tremula tranquila, enquanto as câmeras de segurança acompanham meus movimentos. Brasões com águias me deixam tensa. Gostaria de acreditar em Vila-Matas. Talvez a Embaixada da Síria esconda mesmo a da Suazilândia, em uma sala disfarçada de almoxarifado. Como levar a sério um país com o sufixo “lândia”? Seria a prova surprema de que a Rue Vaneau é um buraco negro que guarda todos os mistérios de Paris.

Se essa rua fosse minha. Mas essa rua não é minha, território ocupado e já convertido, ponto em que nascem todas as associações intelectualmente superiores ao meu ritmo desengonçado de prosa, de modo que o que me sobra? Talvez eu tenha minha resposta quando um carro estacionado desocupa seu lugar. Há uma radiografia deitada na sarjeta. Me abaixo para pegar a radiografia, toda furada de sei lá quantas pisadas e outros contratempos, e tento visualizá-la contra o sol, consciente de que minha compreensão de anatomia é mais do que limitada. Identifico a coluna vertebral, mas a coisa branca e disforme ao lado não me diz nada. Um saxofone? É essa a parte que me cabe da Rue Vaneau, penso, e tudo se torna ainda mais interessante quando examino as letras e números. Bruno Luthringer, nascido em 7 de fevereiro de 1956, obteve essa chapa no Hôpital International de l’Université de Paris no dia 17 de dezembro de 1980, o que quer dizer que esse objeto que agora seguro tem dois anos a mais do que eu, e que o Sr. Luthringer fez 54 anos há exatamente uma semana, se ainda estiver vivo, ou seja, caso não tenha sido constatado, em 17 de dezembro de 1980, algum grave problema em seu organismo.”
[Continua]
Por Cosac Naify
Quarta-feira, 10 março, 2010, às 16:35
Dê uma olhada neste vídeo da Copa de 1970. Em sete segundos, Tostão age ligeiro, domina a bola e dá uma amostra do que foi o mitológico ataque da seleção que conquistou o tricampeonato mundial.
Hoje, na posição de um dos principais comentaristas esportivos do país, o ex-jogador dedicou sua coluna no jornal Folha de S. Paulo ao desaparecimento. O sumiço de jogadores como Adriano, o Imperador, dos gramados serve de princípio para a tese de que, “em algumas profissões, sumir é charmoso e prático”.
A partir desta premissa, ele cruza futebol e literatura, à moda do mestre Nelson Rodrigues (a propósito, em uma de suas crônicas Nelson referiu-se a Tostão como o “Anão de Velázquez”, remetendo ao anão que aparece no quadro As meninas):
“Muitos escritores desaparecem para escrever seus livros. Há ainda os que se isolam para refletir sobre suas vidas, verdades, finitudes e insignificâncias diante do mundo. Estou louco para ler o novo romance sobre o assunto, Doutor Pasavento, do escritor espanhol Enrique Vila-Matas, traduzido por José Geraldo Couto”.
Você lê a íntegra do artigo de Tostão no site da Folha (acesso exclusivo para assinantes) e nos veículos que reproduzem conteúdo do jornal, como o Jornal do Brasil.