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“Vocês precisam ler Três vidas, de Gertrude Stein. Uma das três histórias, a de Melanctha, é um dos melhores contos que existem na língua inglesa”
Ernest Hemingway


Personalidade fundamental do movimento vanguardista francês, Gertrude Stein (1847-1946) foi grande incentivadora das discussões sobre a arte no começo do século XX. Anfitriã de Picasso, Jean Cocteau e Ernest Hemingway, entre outros, Stein reunia em sua casa, na festiva Paris de então, os artistas que revolucionavam as artes plásticas, o cinema e a literatura. Ela mesma não ficou atrás: autora do famoso verso “Uma rosa é uma rosa é uma rosa”, dedicou-se à literatura em suas mais diferentes formas – escreveu poesia, peças, narrativas, conferências. Particularmente conhecidas tornaram-se duas “autobiografias”: Autobiografia de Alice B. Toklas, publicada em 1933, e Autobiografia de todo mundo, em 1937. Na estréia de Stein na coleção Mulheres Modernistas, a Cosac Naify escolheu Três vidas (o primeiro livro escrito pela autora)  para dar início à série de pelo menos três outras obras suas, incluindo as duas já mencionadas, que terão lançamento pela editora.

Três vidas, publicado em 1909, é composto por três novelas que contam as histórias de Anna (“A boa Anna”), Melanctha (“Melanctha”) e Lena (“A gentil Lena”). Nas narrativas, ambientadas entre negros e imigrantes pobres, já estão presentes marcas muito próprias da autora, como a coloquialidade da linguagem, referências à sua biografia e a composição de retratos de seus personagens por meio de uma série de adjetivos, reiterados diversas vezes ao longo dos textos. Outro recurso característico de Stein é o epíteto, ou seja, o uso de um adjetivo que se torna intensamente ligado aos nomes das protagonistas – a boa Anna, a gentil Lena.

“Tudo que fiz foi influenciado por Flaubert e Cézanne”, disse certa vez Stein. Em Três vidas, isso está contido no próprio título – uma referência explícita a Três contos, do escritor francês, publicado pela Cosac Naify na coleção Prosa do Mundo – e na escrita que trabalha com a simultaneidade, a imediatez e as experiências do presente para a construção do conhecimento. Essa última idéia, expressa continuamente pelo uso de advérbios como “agora” e “então”, é defendida abertamente por Melanctha Herbert, a moça que descobre seu poder feminino e procura o conhecimento nos homens, para só encontrá-lo na “mulher endurecida” Jane Harden e em Rose Johnson. Assim como nessa novela, “A gentil Lena” e “A boa Anna” contam histórias que envolvem triângulos amorosos, relacionamentos bissexuais e mortes prematuras.

Em texto especial para a divulgação (veja a seguir), o crítico Fábio de Souza Andrade chama atenção para a segunda novela: “Destacado entre ambas, encontramos o salto criativo decisivo em ‘Melanctha’, história em que um triângulo amoroso envolvendo negros de classe média baixa da mesma região se esfuma numa complexa experiência de linguagem, dissolvendo enredo, frase bem torneada e parágrafos ordenados, num mergulho na atualidade da consciência, fidelidade à complexidade dos processos mentais que coloca a questão da forma literária em primeiro plano”.

“Melanctha” também recebeu uma versão especial em 1983: Caetano Veloso traduziu alguns trechos para o português para que Regina Casé os declarasse em O cinema falado, filme dirigido pelo baiano em 1986. Esses excertos compõem o apêndice da edição da Cosac Naify, além de contar com valioso posfácio, notas e sugestões de leitura de Flora Süssekind: “O que distingue o tríptico (...) é a preocupação com a composição, com a experimentação e com a emergência de uma nova forma de narrar”, diz a pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.
Gertrude Stein, 1913